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RASTRO 2 – A pedra do sonho

2.5 Quem conta um conto – um outro?

2.5.3 Romanceiro do Contestado

O contato zero com o sertão messiânico do sul me aconteceu no filme cujo título, em princípio, sugeria pornochanchada. Vi “A Guerra dos Pelados”, de Sylvio Back 358, em uma das memoráveis e vazias sessões de cinema nacional fora do circuito, promovidas pela Casa Amarela da UFC nos idos de 80. Muito antes de qualquer pensamento que me levasse a um projeto de pesquisa entre a literatura e o jornalismo cotejando os sertões. Quando foi a hora, e sentindo por onde começar, após a leitura inicial do livro de Marli Auras, deram a mim este poema de Stella Leonardos (1923, Rio de Janeiro), publicado pela editora da UFSC em 1996. Assim como no romance lido há pouco, muitas vozes se alternam neste relato, de vez que ela consegue perfazer sua dicção musical em contraponto a fragmentos revirados de todo tipo de documento com que nos deparamos até aqui, ensaio, novela, notícia, manuscrito, publicidade. E, além do mais, trabalhou beirando o risco da encomenda, ao intercalar a narrativa oficial inscrita nos monumentos fincados por todas as cidades onde há cem anos a Guerra do Contestado começou.

(O que me leva a refletir sobre a desapropriação da história, que é como se me apresentou o memorial à Batalha do Jenipapo, um episódio das lutas pela independência do século XIX, construído no lugar onde um exército sertanejo misto de piauienses e cearenses lutou contra as tropas portuguesas comandadas pelo general Fidié. Construído nos anos 70 pelo Exército, em honra dos heróis nacionais! Passei por lá a caminho de São Raimundo Nonato, em busca das inscrições e gravuras nas pedras da Serra da Capivara. Fica na margem da estrada, no município de Oeiras, no Piauí. A arquitetura de cimento armado em linhas retas se camufla na paisagem da caatinga. Nos fundos do prédio, ao céu azul, o modesto cemitério ainda venerado, há flores de papel nas pequenas cruzes pretas, imagens de santos, o derretido das velas recorrentes tapando o chão sagrado).

O exemplar que possuo traz a seguinte dedicatória: “Aos muito queridos Côca e Virgílio, irmãmente, este Canudos do Sul. Afetuoso

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Em 2010, Sylvio Back lançou o documentário “Contestado: Restos Mortais”. São 3h53min com o transe de 30 médiuns que o cineasta levou “ao palco da luta”, como diz em reportagem sobre o filme.

abraço da Stella (Leonardos)” 359

. No Romanceiro do Contestado estava um indício do caminho a seguir, perseguir a intercessão viva com a poesia oral, que a autora realizou embalada na peleja com o poeta popular. Escandida na métrica do repente, esta dicção periférica escolhida para incorporar a voz da revolta e o grande clamor contra a injustiça abre-se ao maravilhoso romanceiro de Leandro Gomes de Barros, engastando no texto versos de um dos seus folhetos mais famosos, a batalha do Par de França Oliveiros com o turco Ferrabrás.

A palavra de Leandro Gomes de Barros acena à personalidade contraditória, lúdica e guerreira, santa e perversa, do monge José Maria, que a poeta faz coincidir ainda com a imagem lendária do boitatá, chamado “Quer-que-é”, na ilustração de Zumblick. O recitativo se organiza em sete cantos, cada um distinguindo uma qualidade (ligada à fugacidade e ao efêmero) de um céu azul. O movimento inicial, em redondilha maior, rimas toantes, ritmado pela repetição do verso que introduz a cada estrofe uma convocação da floresta enquanto passado, interrogando à memória. “Teu avô: que te contava/ da Guerra do Contestado?” 360

. O que importa ser lembrado na história dos vencidos não tem prazo de validade.

Os recortes que espelham cada página poética servem de lastro à intervenção da artista. O poema dialoga com eles, interferem-se, referem-se, acrescentam-se, modelam-se, expandindo a trama de significados. Mas, todo lastro pesa. O primeiro desses aportes faz parte do texto constante nos monumentos construídos por um ex-governador e serve de motivo à “Anti-ode” que anuncia a palavra indignada que articula o canto coletivo. O texto comporta um enfoque didático, ensaístico e informativo, com a inclusão de notas explicativas – como, por exemplo, o nome atual de localidades à época da guerra, a elucidação de algum regionalismo ou termo em voga no tempo. O caso de “bombeiro” é diferente. Há um poema com este título, um diálogo. Ao ser inquirido, o informante faz o relato da sua vigilância. Em seguida, uma transcrição de dicionário, versificada, define a expressão.

359 O livro tem outra dedicatória. “Prezada Eleuda: Havendo você nos dito q. está p/ pegar o rumo de Floripa, tiramos este daqui da pilha q. destinamos à Biblioteca Pública de Limoeiro do Norte, p/ q. V. dê início à aproximação entre Canudos e Contestado – ambos no ‘C’. Abraço. Virgílio Maia” (06mar.2007).

O eu poético incorpora o estado de rebeldia ativado pelos beatos caminhadores. O monge guerreiro foi conjurado no que faltava ao andarilho João Maria e seu duplo, para quem, por companhia, era bastante a natureza, a presença humana acolhida somente no instante da cura e da prece: “chimarreando em solidão/ só de noite, ao pé do fogo,/ deixava vir o cabloco [sic]/ para o coro da oração” 361. O monge, o beato, os santos peregrinos e enigmáticos anunciadores do fim do mundo, como se houvesse uma articulação sutil, um tipo de comunicação em suporte ainda mais imponderável do que propõe a tecnologia, aparecidos pelos sertões do Brasil no mesmo tempo de passagem, diga-se: da monarquia à república, do trabalho escravo ao assalariado, da migração do sertão para as cidades. O zelo pastoral do Padre Ibiapina radicalizado por Antônio Conselheiro, contemporâneo das curas de João Maria e do milagre da beata no povoado cearense. (O milagre é o Padre Cícero, luzeiro de neon na bandeira verde da chapada).

Os fatos da guerra vão se conformando em um discurso sertanejo, por via da prosa entre dois moradores de Curitibanos – nem coroneis, nem jagunços, mas compadres que se visitam ao longo do poema e compartilham informações, permeadas por expressões de cumprimento, sincopadas, a palavra enxuta precedida pelo roído latim de missa, um ruído, ‘Í vem, ‘Sus Cristo! Lao Deos, entre cuias de mate, comentários sobre o tempo e as novas dos combates na mata. “Guarda este fumo de rolo:/ é forte feito os caboclos” 362

. Não é uma voz neutra, como se pode inferir do versículo citado, é o propósito de equilibrar-se, embora outro, na posição solidária da mesma fraternidade.

Ó de casa! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. A fórmula de cumprimento para um sertão que ficou imune à mudança somente no romance regional e na música de Luiz Gonzaga, enquanto obras de arte, caso sejam. O poema consegue dar conta desse universo cultural a partir da conversação que encorpa, por força da palavra, as gentes das cidades santas e suas casinhas de madeira embandeiradas com a imagem do Divino. (Em outra dimensão temporal, os desapossados debaixo de lonas pretas na margem das rodovias ou nas terras que um dia, talvez. Contra o céu de anil, a bandeira vermelha da mesma repetida guerra,

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LEONARDOS, 1996, p. 33. 362 LEONARDOS, 1996, p. 163.

nenhum misticismo envelopando as três consoantes da sigla sob a qual se valem. No assentamento do MST em Quixeramobim, certa feita, na sede da fazenda desapropriada, velha de dois séculos, construída por um português devoto de Santo Antônio. A imagem do santo em azulejo invisível, coberto de tinta em cada coluna que sustenta a varanda).

A fita branca. “Olho pro céu/ com meu chapéu/ protegido:/ olha a medida!”. A medida, aqui, usada como distintivo e não como instrumento ritual, de uso restrito do rezador. A fita branca da medida do Monge, posta à vista na aba do chapéu, sinaliza a derradeira proteção contra a violência bem articulada entre as diversas forças sociais que confrontaram interesses. Falam por si as recorrentes cenas dos cadáveres enterrados sob a linha férrea, do assalto aos trabalhadores e sertanejos. A impunidade dos crimes, o medo, revides de desespero e vinganças dormentes. “Sertões de nascentes ódios./ Um arsenal, cada homem,/ nesses tempos marginais”. 363

Orientam-se. A prece à guarda do Anjo Custódio, os crentes de bruços, iguais aos islâmicos, invocando a Santíssima Trindade, os Apóstolos e o Sol. (A dança masculina sergipana, que vi numa mostra de culturas populares. Chamada “Parafuso”. São dervixes caboclos a girar. De chapéu cônico, de saia, o corpo em rodopio acelera até restar só movimento, círculos girantes, indistintos o homem e o pano envolvente). E, ainda, na ladainha desta miscelânea, a oração de fechar o corpo, idêntica reza forte impressa nos folhetos da Casa dos Milagres de Juazeiro. “Ar vivo, ar morto, ar do dia,/ ar da noite, ar do sol, ar da lua:/ saia do meu corpo pra fora!/ São Marcos abrande o ar do meu corpo!”. 364

Se havia razões de sobra para acompanhar o fiapo de esperança projetado pelos monges, aos trabalhadores expulsos da terra, artesãos que perderam o negócio para os grandes empreendimentos, oprimidos de toda sorte, o que dizer de quem veio movido apenas por um desejo íntimo, nada de fora parecendo afetar sua decisão? Aqueles que permanecem até o fim pela causa, por acreditar. “À essa gente que vinha/ agregou-se Seu Zèbinho/ respeitado homem de bem/ que já fora negociante”. Tratou de vender o que tinha, juntou a parentela toda e tangendo oito burros com o necessário foi dos primeiros a repovoar

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LEONARDOS, 1996, p. 57 e 41. 364 LEONARDOS, 1996, p. 186.

Taquaruçu, ainda no ano de 1913. O bem que lhe bastava, o canivete precioso. A família tinha visões. “Certo dia, ao pôr do sol,/ uma das três netas dele/– cuja graça era Teodora” 365. Ave, o monge pelo ar.

A mudança, a realização do sonho e a organização da comunidade. Tudo isso no prisma do verso, ao corte da rima sugestiva nascida com a urgência poética do repente. Um dos momentos mais ilustrativos desta combinação bem dosada de reelaboração histórica ao ritmo da cantiga popular está em uma cena crucial da luta. O primeiro combate do Irani. O batalhão urbano de João Gualberto segue auxiliado pelo tropeiro Roque. O uso onomatopaico do ofício de Roque, em consonância com o nome da personagem, do movimento da tropa na estrada e com o som repetido da metralha em ação. “Tro-pe, tro-pe, tro- pe, trope./ – Cuidado com teu transporte!/ Atenção, tropeiro Roque:/ tua mula traz no lombo/ metralhadora de porte/ e caixa de munição”. O guia, conhecedor do terreno, por azar ou por malícia deixa o material cair na água. O acidente nem atrasou a polícia, que veio enfim e decidida. “Eles rezavam ainda/ quando os soldados chegaram./ E sem compreender olhavam/ aqueles soldados vindo”. 366

Trechos da história segundo o Estado Maior do Exército Brasileiro se conjugam a uma ciranda fora de moda. Um eco de rataplãs na marcha dos soldados da cabeça de papel. “No rastro da jagunçada!/ Avante, meu batalhão!”. A ordem peremptória no caderno escolar da velha infância. O batalhão avança, a cidade santa sumiu. No Rio de Janeiro, o advogado Diocleciano Martyr e seu habeas corpus para os caboclos. Não há corpos. Os sertanejos reivindicam a guerra na palavra de ordem que denuncia: “nós num tem direito de terras”. 367

“Não temo tiro nem bomba./ Com minha bandeira branca/ se traço três cruzes no ar/ cinqüenta soldados tombam/ na hora de pelejar”; “Súbito o céu/ se fez mais longe”. Caraguatá acabou. Cena parelha àquela em que Euclides flagra os soldados rindo de um menino com um quepe enorme enfiado na cabeça, antes de alguém perceber que metade do rosto lhe faltava. A falta de compaixão, respeito, solidariedade, estes elos necessários à vida em conjunto amortecidos na euforia viciosa da violência, ao não colocar-se – na pele do outro é querer muito – no mesmo nível do seu olhar. Mire, veja. Por isso encapuzam os

365 LEONARDOS, 1996, p. 85 e 86. 366 LEONARDOS, 1996, p. 72 e 75. 367 LEONARDOS, 1996, p. 83 e 110.

prisioneiros, indiferenciados no macacão amarelo de Guantánamo. O vilipêndio ao corpo do morto é uma tragédia desde os gregos. O corpo ex-voto. “Soldados, olhai, soldados,/ o que foi vida, no chão:/ cabeças longe dos corpos,/ os braços longe das mãos,/ as pernas longe dos braços”. 368

Maria Rosa, “as alvas nuvens figuram/ uma donzela a cavalo”. Quem aparece cavalgando nas nuvens é o Monge e assim a Virgem foi com ele equiparada. Sua cabeleira semeando constelações, o poder de encanto reiterado no poema, seguindo o percurso da sua ascensão e queda. Ao contrário da guerreira disfarçada de homem, Maria Rosa ostenta feminilidade no comprido cabelo belo. “Nos seus cabelos de sombra/ assombros longos e soltos”. “Pr’onde vai Maria Rosa/ os longos cabelos soltos?”, aos campos de Bom Sossego. Maria Rosa e a santidade perdida, “caídos cabelos longos” 369

. Enredada em sua teia.

A estratégia de pacificação do capitão Matos Costa se expressa em quadrinhas perguntadas, ao modo de adivinhas, bandarras. Quem é o moço simpático nas vilas santas, vendedor ambulante, ajudante de mágico, escutando os caboclos com tolerância. E a elegia para o capitão assassinado. Quem recolhe seu corpo? O mesmo sertanejo que o alertou na estação de São João dos Pobres. E ele tem seu nome revelado: Generoso da Silva.

Em Santa Maria, as montanhas eram de beiju e nos rios corria leite, “– Vamos pra lá, meus irmãos!”. Era Adeodato quem mandava, indiferente à realidade da guerra do general. “Setembrino era seu nome/ A sua estratégia: fome”. O povo dispersado. Adeodato preso. O “quero- quero de Lages” vai fugir. Como os poetas do repente, que escolhem para si nomes de aves, na simbologia da transferência do poder do canto, a intimidade com o sentido da palavra até o contágio imediato. A liberdade, cantiga de caboclo. O último canto aborda a persistência da narrativa, transmitida ao viajante leitor por uma jovem, cuja palavra final retoma a promessa do antepassado mítico. “Ele vai voltar pro povo/ algum dia. Do Taió” 370

. A contadora de histórias provoca a abertura ao compromisso com o todo, que nos acolhe.