3.5 GABRIEL VILLELA E SHAKESPEARE
3.5.1 Romeu e Julieta
“...O que há num nome? O que chamamos uma rosa teria o mesmo cheiro com outro nome (...). E assim Romeu, chamado de outra coisa, continuaria a ser perfeito, com outro nome. Mude-o Romeu, e em troca dele, que não é você, fique comigo” (Ato II, Cena II).
Uma das mais conhecidas tragédias de amor, Romeu e Julieta, é a mais lírica das tragédias de Shakespeare. Escrita entre 1591 e 1595, salienta o amor proibido entre dois jovens na Verona renascentista e denuncia a hipocrisia, as convenções sociais, os interesses econômicos e a sede de poder do ser humano.
Duas famílias tradicionais, os Montéquios e os Capuletos, cultivavam uma rixa que remontava a vários anos. A despeito dessa rivalidade, Julieta Capuleto e Romeu Montéquio se apaixonam um pelo outro e, com o auxílio do Frei Lawrence, casam-se em segredo. No mesmo dia, Romeu se envolve em uma briga com o primo de Julieta, Teobaldo, matando-o. Em decorrência do assassinato, Romeu é exilado pelo Príncipe de Verona. Julieta, ao se ver forçada a casar com Páris, procura o frei, e os dois elaboram um plano para escapar da situação. O plano falha; a história termina em tragédia: com o suicídio de Romeu e de Julieta e com a reconciliação entre as duas famílias.
Alguns dos temas abordados nesta tragédia são: a força do amor, o indivíduo (e suas escolhas individuais, a livre opção quanto às linhas de conduta) em oposição à sociedade (os direitos e deveres e as posições sociais hierarquizadas), o ódio entre os indivíduos (que gera violência, desune as famílias e traz a morte).
Segundo Barbara Heliodora (2004, p.131),
toda a obra clama contra os males da guerra civil, do conflito que desagrega a própria comunidade (…) a tragédia é cheia de imagens de noite, dia, estrelas, e no soneto inicial Romeu e Julieta são chamados de star-crossed lovers, ou seja, amantes cortados em sua trajetória pelas estrelas. Porém, a má estrela que os mata, como fica muito claro ao longo de toda a ação, é o
ódio gratuito e destrutivo entre Montéquios e Capuletos: todos os defensores da vida e do amor são sacrificados pelo ódio.
Em outras palavras, a peça é um libelo contra a guerra civil, sendo o ódio inexplicado que separa as casas dos Capuletos e Montéquios o grande antagonista do casal (SANTOS, 2008). Somente após a morte de Romeu e Julieta há a reconciliação e volta o equilíbrio e a paz interior às duas famílias e àquela comunidade. O discurso final de Éscalus, o Príncipe de Verona, se volta contra o ódio e contra a luta civil.
A tragédia de Romeu e Julieta foi transposta para o contexto da cultura popular pelas mãos de Gabriel Villela e pelos integrantes do Grupo Galpão de Minas Gerais143. Apresentada pela primeira vez em 1992, a encenação foi inicialmente realizada nas ruas144 e, posteriormente, adaptada para o palco.
Em relação ao Grupo Galpão, este existe desde a década de 1980 e tem como característica o trabalho com o teatro-circo e com a cultura popular mineira.
Ele visa à desinstitucionalização do palco e à busca de alternativas para o espaço da representação. Segundo Junia Alves e Marcia Noe (2006, p.24),
as performances de rua da companhia, seguindo o figurino, geralmente começam com uma parada de estilo circense, na qual se apresentam artistas em pernas-de-pau, malabaristas, palhaços e músicos que encorajam os espectadores a bater palmas, a cantar e a se inter-relacionar com o elenco. Mesmo as produções mais formais do Grupo, encenadas no teatro, recorrem a apartes e as canções populares brasileiras que convidam a plateia à participação.
As autoras sustentam que as peças do Galpão são bem sucedidas devido à habilidade do Grupo gerar energia através da justaposição de opostos: “o central e o periférico, a cultura acadêmica e a popular, a visão particular e a universal, modelos estrangeiros e formas brasileiras, técnicas modernas e instrumentos tradicionais”
143 Sobre o teatro de rua em Minas Gerais, Rogério Lopes comenta que este “se desenvolveu sobremaneira sendo considerado um dos mais expressivos do país, tendo suas raízes nos circos mambembes. Este tipo de teatro talvez tenha sido e continua sendo uma alternativa para a realização de peças com poucos recursos. Na rua são utilizados apenas pequenos adereços para a ambientação cênica, dispensando os grandes cenários” (LOPES, 2012, p. 156).
144 Como sugere Carlos Antônio Leite Brandão no livro Grupo Galpão: 15 anos de risco e rito, “Na rua, ao contrário do palco, tudo pode acontecer e é preciso estar sempre pronto para o imprevisto e o acidental. Sobretudo, quando se está sobre a perna de pau. Capturada em seu cotidiano e em seu lugar, a platéia não tem, a princípio, qualquer compromisso com o espetáculo. Freqüentemente, o que se deseja é que os atores caiam das pernas de pau ou se queimem com o fogo.” (BRANDÃO, 1999, p. 30).
(ALVES; NOE, 2006, p. 28). Há, inclusive, mistura de elementos da história do Brasil com aspectos internacionais contemporâneos. Além disso, as autoras ressaltam que as produções do Galpão são vibrantes, divertidas e engajadas, de modo que recebem cada vez mais o aplauso dos críticos e da plateia. Essa reação extremamente positiva ocorre, segundo Alves e Noe, “não somente pela montagem primorosa das peças, mas também porque elas representam um trabalho cultural relevante para o avanço na construção da brasilidade” (ALVES; NOE, 2006, p. 28).
Com relação ao texto da encenação de Romeu e Julieta, o trabalho em cima da tradução de Onestaldo de Pennafort foi coletivo: colaboraram o diretor-assistente Arildo de Barros, os integrantes do Grupo Galpão, Gabriel Villela e Brandão. Ao usarem técnicas de soma, apagamento, substituição e inversão, eles criaram uma outra peça (ALVES; NOE, 2006, p. 90). Esta adaptação também se desenrola em Verona e em Mântua e mantém a maioria dos personagens, com exceção de Páris e do senhor e da senhora Montéquio.
O trabalho de Villela e do Grupo Galpão começa com um narrador maquiado e fantasiado de Shakespeare, que abre e encerra o espetáculo, além de interferir na ação. Personagem sincrético que se apodera de um vocabulário mineiro “sertanês”
(inspirado na linguagem de Guimarães Rosa), ele enfatiza a fusão do universo trágico shakespeariano com a cultura popular do interior de Minas Gerais. Conforme Junia Alves e Marcia Noe, o narrador “conforma as palavras portuguesas em um mineiro “sertanês”, por meio de afixação e aglutinação e, mais ainda, manipulando as normas gramaticais para explorar o potencial poético-comunicativo da língua pátria” (ALVES; NOE, 2006, p. 90). Através de seu personagem, o público é instigado a participar ativamente do espetáculo e a utilizar a imaginação, como ilustram os dois exemplos a seguir: “Mas meu senhor, minha senhora, a vida não é um circo às avessas. […] mire e veja”, e, mais para frente, “Convido-vos a transformar esta praça no salão de festa dos Capuleto” (VILLELA, 1992).
De acordo com Fernanda Miranda Alves Costa, “a área cênica, delimitada por um círculo de farinha de trigo, consegue reconquistar a atmosfera do espaço cênico grego, onde ator e paisagem se fundem, capturando o pôr-do-sol e o horizonte da cidade” (COSTA, 2008, p. 6). Nas encenações ao ar livre, o público
circundava o espaço onde acontecia o espetáculo, permitindo um contato muito próximo com os atores.
A peça encenada pelo Galpão apresenta convenções circenses, como: uma Julieta que se equilibra na corda bamba, Montéquios e Capuletos que fazem acrobacias, um Romeu que anda de perna de pau. Os atores se movimentam como se estivessem dentro de uma arena circular. Há a presença de sombrinhas, guarda-chuvas, malabarismos, danças, pantomina, maquiagem que dão um colorido todo especial ao espetáculo. As cores do vestuário fazem alusões às cidades históricas de Minas e ao Barroco mineiro. Notam-se inúmeros elementos da cultura popular, tais quais: os personagens lutam com espadas de São Jorge, carregam ramos de arrudas e flores de plástico, há no palco uma perua veraneio 1974 que remete às carroças dos mambembes, que é toda decorada com pétalas de flores e que faz as vezes de balcão onde Romeu e Julieta trocam as juras de amor. Segundo Eduardo Moreira, “fizemos uma inversão: Romeu fica em cima (numa plataforma de madeira montada sobre o carro) e Julieta fica embaixo, sentada ao volante da Veraneio”
(CABRAL, 2012). Nos anos 1980, o carro carregava os jovens atores do grupo Galpão apresentando peças nas ruas Brasil afora. "Quando convidamos Gabriel Vilela para dirigir uma peça nossa a primeira coisa que ele decidiu é que o cenário seria nossa Veraneio. Antes mesmo de saber que peça íamos fazer, já sabíamos que seria encenada no carro", relata Moreira (In: CABRAL, 2012).
Outros elementos da cultura popular que aparecem na encenação são os instrumentos musicais (tais quais a sanfona e o violão) e as cantigas da tradição mineira como, por exemplo, a seresta, a modinha e a valsa. Nesse sentido, afirmam Junia Alves e Marcia Noe (2006, p. 25):
A intenção da companhia mineira – parece-nos evidente – é sublinhar as tradições nacionais, questionar e abalar a autoridade constituída e criticar a hegemonia dos grupos mais favorecidos. A peça, assim representada, reitera a premissa do dramaturgo italiano Dario Fo de que 'toda peça é política'. […] a trupe visa estimular a comunicação e a interação entre o ator e o espectador, convidando este último a participar não só da montagem do espetáculo, como também da crítica social que a peça constrói […] o circo exige de sua plateia uma participação corpórea e proporciona ao espectador um exercício emocional, por meio de resposta física às experiências da exibição.
Mesmo os ensaios da montagem original do Romeu e Julieta do Galpão foram realizados em praça pública, em uma cidadezinha145 do interior de Minas Gerais. Segundo Eduardo Moreira (GRUPO, 2012), um dos fundadores do Grupo Galpão e o ator que interpretou o Romeu, o grupo ensaiava na praça da cidade e as pessoas que voltavam do trabalho no campo, já no final da tarde, paravam para ver a encenação. À medida que o público reagia às atuações, o grupo ia aprimorando o espetáculo, encontrando o tom da peça.
Moreira explica também que Romeu e Julieta é uma tragédia de
“precipitação”146, em que os personagens agem muito mais do que pensam. Para ele, “a perna de pau dá muito bem essa ideia de uma certa falta de equilíbrio. Você está lá em cima mas pode cair a qualquer momento” (GRUPO, 2012).
Figuras 3 e 4: Romeu e Julieta.
Fontes: http://www.revistabrasileiros.com.br/wp-content/uploads/2012/06/Shakespeare.jpg e http://sistemas6.vitoria.es.gov.br/diario/imagens/banco/2012_10/img_00029615.jpg. Acesso em:
10/05/2014, às 18:30.
Além da perna de pau, outros elementos utilizados na montagem sugerem a noção de que viver é perigoso, de que a vida é frágil, a mudança é provável, a queda é inevitável, como a corda bamba e o ilusionismo (ALVES; NOE, 2006, p.92).
Isso fica claro numa das falas do narrador “Verdade maior é que se está sempre num balanço” (BRANDÃO 1992 apud ALVES; NOE 2006, p. 94).
145 Como destaca Fernanda Miranda Alves Costa (2008, p. 5), a “ancoragem da encenação deste
“Romeu e Julieta” foi obtida nos ensaios abertos realizados em Morro Vermelho, vilarejo de trabalhadores rurais, próximo a Caetés.
146 Junia Alves e Marcia Noe descrevem Romeu e Julieta a partir da visão do diretor Peter Brook
“como a tragédia da precipitação, da instabilidade e do exílio é retomada no interior do Brasil e transrepresentada para nossa realidade, enriquecida com recursos teatrais de circo, da commedia dell'arte italiana e da dramaturgia greco-latina” (ALVES; NOE, 2006, p. 86).
A peça foi apresentada 250 vezes em 10 países, para plateias de mais de 4 mil pessoas, tendo sido muito bem aclamada no Shakespeare Globe Theatre, em Londres147. Pela competência dos atores, pela destreza do diretor e todos os elementos anteriormente mencionados, Romeu e Julieta do Galpão recebeu os títulos de Melhor Espetáculo e Melhor Figurino em um festival realizado no Texas, Estados Unidos e no Brasil a peça foi premiada mais de 40 vezes.