4 ROSA LUXEMBURGO E A LUTA DAS MULHERES
4.3 Rosa Luxemburgo e o protagonismo das mulheres
Em maio de 2018 Isabel Loureiro lançou uma série de vídeos resultantes de um curso sobre o pensamento de Rosa Luxemburgo. Na terceira videoaula da série, Loureiro (2018)
discutiu as contribuições de Rosa Luxemburgo para o movimento feminista. O vídeo aborda uma questão central para a nossa discussão nesta seção. Esse ponto central seria precisamente aquilo que consideramos um dos principais aspectos que ligam o pensamento de Hannah Arendt e Rosa Luxemburgo, e denotam a influência que Rosa Luxemburgo exerceu sobre as feministas alemãs da década de 1980, a saber: a ação autônoma como forma de emancipação.
Loureiro (2018) foi assertiva em destacar que Rosa Luxemburgo era uma inspiração para as mulheres daquela época por ocupar o espaço público por meio de sua atuação como jornalista, intelectual, professora e oradora. Além disso, podemos destacar também sua ativa participação nos partidos políticos sociais democratas e comunistas na Alemanha e na Polônia. Rosa Luxemburgo, até os dias atuais, permanece como uma importante referência para o movimento feminista.
São interessantes as observações de Loureiro (2018) relativas à análise da acumulação de capital, segundo a qual seriam os espaços extra capitalistas que permitiriam acumulação capitalista. Nessa perspectiva, as feministas alemãs da década de 1980 teriam atualizado essa concepção que incorpora o trabalho doméstico como elemento fundamental para a acumulação de capital, uma vez que seria o trabalho mal remunerado das mulheres que permitiria a manutenção do salário dos trabalhadores em patamares baixos (LOUREIRO, 2018).
Partindo dessa relação entre acumulação de capital e exploração das mulheres, Loureiro (2018) introduz a concepção de Silvia Federici (2017), que apresenta uma análise de transição do feudalismo para o capitalismo do ponto de vista feminino, distanciando-se de Karl Marx, que não teria considerado a especificidade do trabalho feminino no processo de acumulação primitiva de capital, como também de Michael Foucault, que, segundo Federici (2017), teria omitido a caça às bruxas e o discurso sobre a demonologia em sua análise.
De acordo com Loureiro (2018), os personagens, o Calibã e a Bruxa50, representam duas formas de resistência à lógica do capitalismo: o escravo e as mulheres, que não se ajustavam ao papel destinado a elas na divisão do trabalho necessário para acumulação do capital (bruxas, curandeiras, hereges, mulheres que vivem sozinhas, entre outras).
Na interpretação de Federici (2017),
Calibã não apenas representa o rebelde anticolonial cuja luta ressoa na literatura caribenha contemporânea, mas também é um símbolo para o proletariado mundial e, mais especificamente, para o corpo proletário como terreno e instrumento de resistência à lógica do capitalismo. Mais importante ainda, a figura da bruxa, que em
50 O título do livro de Silvia Federici, Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva é inspirado na peça A tempestade, de Shakespeare.
A tempestade fica relegada a segundo plano, neste livro situa-se no centro da cena, enquanto encarnação de um mundo de sujeitos femininos que o capitalismo precisou destruir: a herege, a curandeira, a esposa desobediente, a mulher que ousa viver só, a mulher obeah que envenenava a comida do senhor e incitava os escravos a se rebelarem (FEDERICI, 2017, p. 23).
Federici (2017) observa que sua análise se distingue das conclusões de Marx sobre acumulação primitiva na medida em que não considera, como faz Marx, o processo de acumulação apenas do ponto de vista do proletariado assalariado de sexo masculino, uma vez que se dedica mais especificamente sobre as mudanças que essa acumulação introduziu na posição social das mulheres na produção da força de trabalho, incluindo fenômenos que estariam ausentes em Marx tais como: o desenvolvimento de uma nova divisão sexual do trabalho; a construção de uma nova ordem patriarcal, baseada na exclusão das mulheres do trabalho assalariado e em sua subordinação aos homens; a mecanização do corpo proletário e sua transformação, no caso das mulheres, em uma máquina de produção de novos trabalhadores e, o que considera mais importante, a perseguição às bruxas, na Europa e no Novo Mundo, que julga ter sido fundamental para o desenvolvimento do capitalismo.
A caça às bruxas constituiu um dos acontecimentos mais importantes do desenvolvimento da sociedade capitalista e da formação do proletariado moderno, na medida em que desencadeou uma campanha de terror contra as mulheres bruxas, aprofundando a divisão do trabalho entre mulheres e homens e inculcou um medo que destruiu um universo de práticas, crenças e sujeitos sociais cuja existência era incompatível com a disciplina do trabalho capitalista, redefinindo assim os principais elementos da reprodução social.
O estudo de Federici (2017) dá continuidade a um dos principais temas estudados por Luxemburgo, expandindo seu âmbito para a teoria feminista ao considerar que a redefinição das tarefas produtivas e reprodutivas e as relações homem-mulher durante o período de acumulação primitiva do capital teria estabelecido os papéis sexuais na sociedade capitalista: “Se é verdade que na sociedade capitalista a identidade sexual se transformou no suporte específico das funções do trabalho, o gênero não deveria ser tratado como uma realidade puramente cultural, mas como uma especificação das relações de classe” (FEDERICI, 2017, p. 31). Nesse sentido, a autora considera que a “feminilidade” teria sido construída por meio de uma função-trabalho que ocultaria a produção da força de trabalho sob a aparência de um destino biológico.
Outro exemplo sobre as formas de resistência das mulheres perante o avanço do capitalismo foi destacado por Löwy (2015) ao comentar a respeito de estudos recentes que se embasam na teoria do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo:
Ainda em nossos dias — anos 90 — trabalhos em diferentes disciplinas científico- sociais continuam a ser inspirados pela teoria do desenvolvimento desigual e combinado. Um exemplo interessante é o dos trabalhos recentes da antropóloga norte- americana Carol McAllister sobre a região do Negeri Selimban na Malásia: analisando a combinação das formas tradicionais de economia, de família e de ritos com as novas relações econômicas e sociais impostas pelo capitalismo, ela mostra como as mulheres tentam combinar a sua participação no regime assalariado moderno com formas de resistência “tradicionalista” ao desenvolvimento do capitalismo que subverte o sistema matrilinear tradicional (LÖWY, 1995, p. 80)
As reflexões presentes nesta seção sobre os escritos de Rosa Luxemburgo que concernem à luta das mulheres, bem como a centralidade da concepção de ação autônoma como emancipadora e as formas de resistência empregadas pelas mulheres no decorrer do desenvolvimento capitalista nos permitem estabelecer algumas ligações com as discussões presentes neste estudo. Nota-se, atualmente, o crescimento significativo do impacto e da visibilidade do movimento feminista no Brasil e no mundo. Consideramos que o aprendizado propiciado pela luta das mulheres por garantia de direitos, autonomia, maior democratização e representatividade nas instituições e, neste sentido, por maior participação no espaço público, repercutiu na forma de organização do movimento secundarista durante a ocupação das escolas estaduais de São Paulo em 2016, tema que abordaremos na próxima seção.
5 “OCUPAR E RESISTIR”: O MOVIMENTO DOS SECUNDARISTAS EM SÃO