2.2 O espaço urbano
2.2.2. Rossios, adro e arrabalde
Um dos elementos fundamentais da tessitura urbana das cidades medievais portuguesas era a existência do rossio. Zona destinada à realização de feiras e de mercados locais e sobretudo, regionais, era o local por excelência da interacção entre as gentes campesinas e os habitantes da vila, e portanto, zona privilegiada de interpenetração campo-cidade.
Poderiam existir mais do que um rossio, dependendo quer da morfologia da zona de assentamento da localidade, quer da importância e pujança comercial68 da respectiva região. De facto, Palmela, localizada em zona interestuariana – Tejo e Sado –, na confluência de vias de comunicação que ligavam o Alentejo à Lisboa "capital" do Reino, zona de passagem de mercadores, de gentios locais e de comitivas reais, oferecia todas as condições para se assumir como uma importante placa giratória.
Assim, não nos surpreendeu a identificação de dois rossios em Palmela69, estando um deles localizado junto ao chafariz no cabo NO da vila, onde desembocavam a Rua Direita e a Corredoura, e o outro precisamente no pólo oposto destes eixos viários, junto ao adro de S. Pedro, estalagem da vila e Reguengo dos Fetais – que o envolve em todas as suas confrontações rurais.
Outro espaço poderia ser agrupado a estes dois. Num mapa de 195270 surge o topónimo "Largo do Rocio", junto à zona onde desemboca a antiga estrada medieval que ligava as vilas de Palmela e de Setúbal, e da qual ainda hoje possuímos vestígios, na zona SO da localidade. A considerar a prevalência deste topónimo até meados do século passado – hoje denomina-se "Largo D. João I" – como reminiscência de tempos medievais, isso levar-nos-á a reconhecer a existência não de dois mas sim de três rossios
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Sobre o comércio inerente à exploração dos domínios territoriais das Ordens, ver: BALARD, Michel, "Commerce", in Prier et Combattre. Dictionnaire européen des ordres militaires au Moyen Âge, dir. Nicole Bériou e Philippe Josserand, Paris, Fayard, 2009, pp. 247-249.
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Anexo IV, mapa 4. 70
Palmela, nº 217-A, ed, Rotep, org. Camacho Pereira, Casa da Pimenteira-Cruz Quebrada, nº 29, Julho de 1952.
em Palmela na Época Medieval. Aliás, não nos admira que, de facto, pudesse aí ter existido um rossio, com as respectivas funções comerciais, mercê da sua localização em zona de entrada e saída da vila rumo à localidade sadina. Poderia ter acontecido, e aqui entramos, claramente, no capítulo da mera hipótese, que a perda de função e a transformação deste espaço relativo ao rossio tivessem levado a uma transferência do mesmo para a área situada junto ao adro de S. Pedro, que vai gradualmente ganhando pujança e predominância ao nível sócio-económico. É, contudo, uma hipótese sobre a qual não possuímos, até à data, qualquer dado empírico que a sustente.
Quanto ao adro, temos a indicação da existência de um único, o de S. Pedro, localizado em pleno coração da vila, estendendo-se por uma área de, aproximadamente, 0,3ha (80,3 x 35,2m)71. Estava na confluência da Rua Direita e da Corredoura, que já cima referimos, abarcando ainda nas suas confrontações as sobreditas ruas do Ouro e do Pelourinho – adjacente à anterior. Para além disto, um dos rossios da vila era-lhe contíguo, estando também nas suas imediações a única estalagem de Palmela.
Seria com certeza o espaço mais concorrido da urbe, quer pela presença de uma das duas paroquiais, quer também dos Paços do Concelho e, porventura, da audiência dos tabeliães. Assim, afirmar-se-ia como ponto de mercado local quotidiano, de reuniões do concelho e da vereação, de assinatura de escrituras e contratos, enfim, zona de convívio onde se tomaria contacto com as notícias do Reino, bem como onde seriam efectuados anúncios que ali seriam apregoados – como, por exemplo, a leitura das visitações ou a exaltação da figura do Mestre da Ordem. E acima de tudo, nomeadamente em épocas festivas, afirmar-se-ia como local de pregação, de romaria e de procissão.
De igual forma, mas com menor dinamismo social, político e económico, também a paroquial de Santa Maria contaria com um perímetro em seu redor em cujos limites se realizariam enterramentos72, como o demonstra a prática de saída, nas duas igrejas, às Segundas-feiras sobre as sepulturas73. Assim, estes espaços, revestiam-se
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Anexo IV, mapa 4. 72
Apesar de ser provável a sua existência, o rol da visitação é absolutamente omisso a este respeito. A referência aos valores a receber pelas sepulturas aponta para a sua existência física, AN/TT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago/Convento de Palmela, códice 151, mf. 727, fol. 124.
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AN/TT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago/Convento de Palmela, códice 151, mf. 727, fols. 124v.º-125.
igualmente de um sentido devocional, servindo de plataforma de interacção entre o mundo dos vivos e o dos mortos.
Por fim, não encontramos na documentação em estudo qualquer referência a arrabalde(s) da vila. Não obstante, o já citado mapa de 1952 indica a existência de um "Largo do Arrabalde" e de uma "Travessa do Arrabalde", contíguos, a Oeste do Adro de S. Pedro e a Sul da Corredoura. De facto, na Crónica de D. Fernando, de Fernão Lopes, é referido o arrabalde de Palmela – a par do de Almada – como local de pernoita das hostes de D. Nuno Álvares Pereira em contexto da guerra contra Castela por ocasiões da crise de 1383-8574. Também Isabel Cristina Fernandes considera a existência de um arrabalde nesta zona, sob a encosta Norte do castelo da vila, onde a minoria moura se teria instalado aquando da sua descida da zona amuralhada do castelo, situação esta atestada pela presença, próxima, de uma "Rua de Nenhures" e de silos de cronologia medieval recuada com depósito de materiais de tipologia moura75.