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Rotação mental de objetos e de partes do corpo

No documento 2D:4D E ROTAÇÃO MENTAL (páginas 137-141)

É interessante verificar que a rotação mental, tanto de objetos como de partes do corpo, tem vindo a ser utilizada (embora ainda não tenha motivado muitos estudos) como instrumento de estudo sobre a natureza e a extensão dos deficits na cognição espacial em pessoas com algumas patologias neurocognitivas. É o caso, nomeadamente, de pessoas com a infeção pelo HIV,

Transtorno de Desenvolvimento da Coordenação, Distonia Focal da Mão (também conhecida como “câibra do escritor”) e Distonia Cervical Ideopática (e.g. Fiorio et al., 2006, 2007;Weber et al., 2010; Wilson et al., 2004).

Embora este tópico (utilização de testes de rotação mental em estudos clínicos) não seja central nesta dissertação, consideramos merecer aqui uma referência, dado o facto de as tarefas de rotação mental serem amiúde utilizadas como instrumento de medida das capacidades visuo-espaciais. E dado o facto, por outro lado, de os estudos clínicos nos poderem alertar para a implicação de fatores pouco investigados a ter em consideração (por exemplo, deterioração de sistemas e interrupção de processos neuropsicológicos envolvidos nas transformações mentais, etc.), que poderão afetar a capacidade cognitiva e visuo-espacial, nomeadamente ao nível da rotação mental.

Neste âmbito, começaríamos por salientar o trabalho de Wilson et al. (2004), no qual foram utilizadas tarefas de rotação mental com imagens de mãos, num estudo envolvendo crianças com Transtorno de Desenvolvimento da Coordenação (TDC) e outras saudáveis como elementos de controlo (N=34; crianças de ambos os sexos, idade média de 10,4 anos). Neste estudo, os autores testaram a possibilidade de as crianças com TDC poderem ter dificuldades em gerar uma

representação visuo-espacial precisa, devido a défices na suaimaginaria motora94. Segundo a sua previsão as crianças com TDC não estariam em conformidade com o padrão típico de responder para imaginar o movimento dos seus membros. A tarefa consistiu no julgamento da lateralidade de uma mão, após as imagens serem apresentadas em ângulos entre os 0º e 180º em intervalos de 45º e em qualquer direção.

Os autores destacam que os resultados foram consistentes com a sua hipótese. Mais exatamente, as crianças do grupo de controlo desempenharam de acordo com o padrão típico de rotação mental: ou seja, um moderado trade-off (à falta de melhor expressão) entre o tempo de resposta e o ângulo de rotação. Sublinhando que, no que diz respeito às crianças com TDC, o padrão foi menos típico, com uma função de trade-off de pequeno porte. Notando ainda que quanto à exatidão da resposta, esta não diferiu entre os grupos. Segundo estes autores, os resultados sugerem que as crianças com TDC, ao contrário das crianças do grupo de controlo, não recorrem automaticamente à imaginaria motora ao realizar a rotação mental, mas dependem de uma estratégia alternativa baseada no objeto que conserva velocidade e precisão. Sustentam também que isto pode ocorrer, porque é suposto essas crianças manifestarem uma reduzida capacidade de fazer transformações imaginárias a partir de uma perspetiva egocêntrica.

Por seu lado, Fiorio et al. (2006) realizaram uma investigação sobre Distonia Focal da Mão (DFM) ou “câibra do escritor” (N=30; sendo 15 com câibra do lado direito e 15 saudáveis), procurando investigar a possibilidade de os sujeitos afetados por DFM poderem ter dificuldades em tarefas envolvendo a rotação mental de partes do corpo; e ainda se quaisquer deficiências seriam específicas para o lado afetado ou generalizadas para outras partes do corpo. Neste estudo, conforme referem, a tarefa consistiu na apresentação de fotografias de mãos e pés, num monitor de computador, em diferentes direções. Durante a apresentação das imagens, os participantes deram o julgamento da lateralidade verbalizando se a parte do corpo apresentada era à esquerda ou à direita. Tal como salientam, deste estudo sobressaem dois resultados: em primeiro lugar, os pacientes com câibra do escritor foram mais lentos do que os sujeitos do grupo de controlo em relação à rotação das mãos, mas isso não aconteceu em relação à rotação dos pés; em segundo lugar, o padrão dos tempos de resposta aos estímulos nas várias orientações, sugere que a imagem motora mental dos controlos e dos pacientes reflete o tipo de

94 Utilizamos a expressão “imaginaria motora” como tradução de “motor imagery” à semelhança de outros autores portugueses nesta área, confrontados com o mesmo problema (veja-se por exemplo Martins, 2015; em especial a nota da p. 21).

processos e mecanismos invocados durante a execução real dos mesmos movimentos. Os autores sugerem que, a rotação mental de partes do corpo reflete as limitações anatómicas de movimentos da mão real. Referem ainda que os sujeitos com DFM apresentaram défices de rotação mental específicos para a mão. Notando enfim que os défices estavam presentes durante a rotação mental, tanto da mão direita (afetada), como da mão esquerda (não afetada), sugerindo que as alterações observadas podem ser independentes e existem mesmo antes das manifestações evidentes de distonia.

Fiorio et al. (2007) realizaram um outro estudo, desta feita envolvendo sujeitos afetados por

Distonia Cervical Ideopática (N=24; 12 diagnosticados com DCI e 12 controlos saudáveis), partindo do pressuposto de que os défices sensoriais e motores provocam um comprometimento específico na rotação mental das partes do corpo afetadas, investigaram a capacidade de pacientes afetados por DCI girarem mentalmente partes do corpo afetado (pescoço) e não afetado (mãos e pés). A tarefa consistiu na apresentação de estímulos corporais (fotos reais da mão esquerda ou direita, de pés e da cabeça de alguns homens jovens com uma mancha preta no lado esquerdo ou direito do olho) e não corporais (vista frontal de um carro com uma mancha preta no lado esquerdo ou direito do farol). Durante a apresentação dos estímulos os participantes tinham de verbalizar se as mãos ou os pés eram da direita ou da esquerda ou se a mancha do farol estava do lado esquerdo ou direito, sendo recolhidos os tempos de reação e precisão na realização das tarefas de lateralidade nos quatro estímulos. Os autores referem que os resultados obtidos sugerem que os pacientes com DCI são lentos em rotação mental de estímulos que representam partes do corpo (mãos, pés, cabeça). Notaram ainda que supostamente, esta anormalidade não se deveu a uma deficiência em geral de rotação mental por si, uma vez que a capacidade dos pacientes para rodar mentalmente um objeto não corporal (carro), não foi significativamente diferente dos participantes saudáveis.

Ainda neste âmbito, destaque-se o estudo mais recente de Weber et al. (2010) que incidiu sobre doentes infetados com HIV+ (N=19) e sobre um grupo de controlo (N=15) composto por pessoas seronegativas (HIV-), procurando averiguar a possível relação entre o desempenho de tarefas de rotação mental de objetos tridimensionais e de partes do corpo (mãos). Estes autores partiram da hipótese que haveria evidência de insuficiência relacionada com o HIV em tarefas de rotação mental e que um pior desempenho estaria associado com o comprometimento em medidas de funções executivas e memória de trabalho. Procuraram ainda avaliar se tal desempenho seria mais evidente na tarefa de rotação da mão (como exemplo daquilo que os autores denominam tarefas espaciais egocêntricas), tendendo a depender mais de zonas (mais) frontais do córtex,

que seriam particularmente afetados pela infeção do HIV. Apesar da modéstia da amostra, verificou-se uma relação significativa entre o estado serológico e o desempenho nas tarefas de rotação mental, no sentido em que os sujeitos com HIV cometeram um maior número de erros do que os sujeitos da amostra de controlo na tarefa de rotação da mão, mas não na tarefa correspondente de rotação do paralelogramo. Mencionam os autores a este respeito, que os erros de rotação da mão foram associados a um pior desempenho em medidas de funções executivas e memória de trabalho, mas não a medidas de visuo-perceção. É ainda referido que estes resultados preliminares sugerem que o défice observado na rotação mental das mãos pode surgir a partir de uma rede interrompida “estriado-fronto-parietal”.

Ainda relativamente à utilização das tarefas de rotação mental de objetos e de partes do corpo, tais tarefas também têm sido utilizadas simultaneamente (em situações não especificamente clínicas), no estudo da hipótese de interferência de mecanismos diferenciados no desempenho visuo-espacial.

Por exemplo, estudos como o de Kosslyn, Digirolamo, Thompson e Alpert (1998) com uma amostra composta por homens dextros saudáveis (N=12), também utilizaram duas tarefas de rotação mental (formas ramificadas angulares e desenhos de mãos humanas) e a monitorização do fluxo sanguíneo cerebral regional (FSCr) por meio de tomografia de emissão de positrões

(PET). Neste estudo, os autores procuraram testar uma explicação possível para o facto de as pessoas visualizarem objetos em rotação através de trajetórias. Segundo os autores observaram, pelo menos, dois mecanismos diferentes podem ser usados em rotação mental, um mecanismo que recruta os processos que preparam movimentos motores e um outro mecanismo que não o faz. Sublinham também que os resultados mostram que as áreas de ambos os hemisférios cerebrais são utilizadas nas versões da tarefa com os cubos. Notaram ainda que, na tarefa cujo estímulo eram figuras das mãos, apenas áreas do hemisfério esquerdo foram ativadas. É de notar que em relação à rotação de estímulos de partes do corpo (neste caso concreto as mãos), em estudos realizados posteriormente, nomeadamente por Parsons (2003) e Overney et al. (2005), foram encontrados resultados que estão em consonância com os observados por Kosslyn

9.Modulação da rotação mental de partes do corpo pela postura

No documento 2D:4D E ROTAÇÃO MENTAL (páginas 137-141)