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Roteiro das 40 horas de Angicos

No documento capa_final-v2.pdf 1 16/07/2014 10:52:41 (páginas 63-67)

Primeira hora – Aula de Cultura:

conceito antropológico de cultura.

Distinção entre objeto de natureza

e objeto de cultura. Cultura

mate-rial, cultura imaterial e padrão de

comportamento.

Segunda hora – Aplicação do

teste psicológico de Inteligência Não

Verbal (Pierre Weil) para aquilatar o

nível intelectual da turma.

Terceira hora – Primeira hora de

alfabetização. Belota. A, E, I, O, U. Os

alunos já começam a escrever, isto é, a

reproduzir a palavra belota.

Quarta hora – Ainda belota. Ba,

be, bi, bo, bu; la, le, li, lo, lu; ta, te, ti,

to, tu. Formação de palavras.

Quinta hora – Projeção da ficha

com a palavra sapato.

Conhecimen-to das “famílias” do esse e do pê.

Politização. Reconhecimento de

sapa-to como objesapa-to de cultura e debate

sobre a sua importância. (Frase de um

aluno: “O Governador é uma figura

muito importante, mas se deixar de

usar sapato perde a importância”.)

Sexta hora – Sapato. Exercício.

For-mação de palavras. Leitura coletiva e

in-dividual. (Algumas das palavras

forma-das e escritas pelos alunos nessa aula:

pote, papel, papai, pelo, Papa, Lobato.)

Sétima hora – Voto e povo.

Poli-tização e alfabePoli-tização. (Uma das

mo-nitoras, Dilma Ferreira Lima, descobre

“o tijolinho”, isto é, um modo de

expli-car aos alunos como é que são

forma-das as palavras.)

Oitava hora – Voto e povo.

Re-capitulação. Formação de palavras,

leitura coletiva e individual. Início da

disputa entre os Círculos de Cultura

para ver quem formava a maior

pala-vra. Palavras formadas: patativa, topa,

lata, sopa, passo (significando pássa

-ro), título. (Esta aula foi em uma

se-gunda-feira, depois de uma

interrup-ção, a primeira, de sábado e domingo.

Sentiu-se uma certa deficiência de re

-tenção, por falta de hábito.)

Slides apresentados por Paulo

Freire durante a Experiência das

40 horas de Angicos

Nona hora – Ficha de salina.

Po-litização e alfabetização. Início de

formação de frases. Através de data

(“Angicos, 5 de fevereiro de 1963”)

ensinou-se a “família do dê”. Frases

que os alunos formaram: “Salete vai a

salina”, “Noel viu o sal da salina”, “Luiz

vai ao sal”. A maior palavra: penisilina

(escrita com s porque ainda não

co-nheciam a letra c).

Décima hora – Salina.

Recapitula-ção, com todas as “famílias”.

Décima primeira – Milho e feira.

Al-fabetização e politização. Formação de

frases. (Exemplo: “Na feira, quando o

sol esquenta, pega a baixar o preço”). A

partir de então se descobriu a

pós-con-fecção de slides, com a vantagem de se

poder projetar na parede palavras

es-critas por alunos. A turma, já com letras

de menor tamanho, está capaz de

es-crever dentro de um quadrado de slide.

Décima segunda – Recapitulação.

A partir daí, ditados de palavras já

conhecidas.

Décima terceira – Recapitulação.

Ainda milho e feira. Foram aparecendo

os acentos no universo vocabular dos

alunos. Foi atendida a apetência deles.

Décima quarta – Ditados, leitura

coletiva e individual. Lh, r e rr.

Décima quinta – Goleiro.

Alfabe-tização e poliAlfabe-tização. Diferença entre

o g e o j.

Décima sexta – Ditado. Leitura

coletiva e individual. Formação de

pa-lavras e frases.

Décima sétima – Cozinha,

jar-ra, fogão e tigela. Alfabetização e

politização.

Décima oitava – Ditado.

Forma-ção de palavras.

Décima nona – Particularização

do z e nh. Formação de palavras e

fra-ses. Leitura individual e coletiva.

Vigésima hora – Particularização

do ão e do j. Diferenciação do am, an e

ão. Formação de palavras.

Vigésima primeira – Chibanca.

Politização e alfabetização. (Primeiro

texto mimeografado para a turma ler.

Grande dificuldade.)

Vigésima segunda – Ainda

chiban-ca. Leitura individual e coletiva,

forma-ção de palavras e frases. Noções de

plural e singular, masculino e feminino.

Vigésima terceira –

Recapitula-ção. (Primeira aula depois do carnaval.)

Vigésima quarta – Xiquexique.

Alfabetização e politização.

Vigésima quinta – Ainda

xiquexi-que. Formação de palavras e frases

como: “O xiquexique escapa muita

gente”; “Quando se come xiquexique

não se pode ir na casa dos outros”.

Vigésima sexta – Recapitulação

de todas as palavras. Leitura etc.

Vigésima sétima – Expresso.

Al-fabetização e politização. Formação

de palavras e frases.

Vigésima oitava – Ainda expresso.

Ênfase no x. (Na parte de politização

saiu uma frase assim: “A gente

cons-trói a entrada, mas só come poeira”.)

Vigésima nona – As sílabas

com-plexas: pra, pre, pri, pro, pru, tra, vra,

cha, nha, lha etc.

Trigésima hora – Bilro e almofada.

Alfabetização e politização. Formação

de palavras e frases. Foi distribuído

um jornal mimeografado, O Pau de

Arara, lido individual e coletivamente.

Trigésima primeira – Bilro e

al-mofada. Ditado. Leitura coletiva e

individual.

Trigésima segunda – O l

interca-lado, o s intercainterca-lado, o r intercalado.

(Falta, susto, curto.) Recapitulação,

com bilro e almofada.

Trigésima terceira – Recapitulação

total de alfabetização e de politização.

Trigésima quarta – Atenção às

dificuldades particulares de cada tur

-ma, em matéria de alfabetização.

Trigésima quinta – Aplicação dos

testes de alfabetização e politização.

Trigésima sexta – Aplicação dos

testes de alfabetização e politização.

Trigésima sétima – Formação de

frases. Recapitulação de aglutinação

de frases, formando composições.

Trigésima oitava – Composição,

para o teste final de alfabetização.

Atenção ainda a algumas dificuldades

das turmas.

Trigésima nona – Aula de

despe-dida, com recapitulação. (Houve

cho-ro entre alunos e monitores.)

Quadragésima hora – O

pre-sidente da República dá a aula de

encerramento.

Observações

1. Contadas só as horas de

alfabe-tização, essas atingem apenas 30

horas. Nas 40 horas estão

incluí-das também as horas gastas com

aulas de cultura (que é básico),

testes, verificação e avaliação.

2. O roteiro até a 13ª hora reflete

a média de índices alcançados na

maioria das classes. Da 13ª em

diante verificaram-se desníveis

de aproveitamento, obrigando os

monitores a insistir na

recapitula-ção de aulas e na projerecapitula-ção mais

demorada da mesma ficha. Esse

desnível foi aos poucos sendo

su-perado, de modo a se fechar a

úl-tima hora com o aproveitamento

igualado em todas as classes.

3. Na segunda semana de aulas,

justa-mente na faixa da 13ª hora, uma

mo-tivação muito maior, a chuva,

obri-gou a alguns alunos, os melhores,

por sinal, a abandonar as classes por

força da necessidade de trabalho na

pequena agricultura. Todos

lamen-taram a ausência, manifestando a

preocupação de não terem outra

chance de aprender a ler e escrever.

4. Quando se atingiu a 22ª hora, o

inverno havia “pegado” definitiva

-mente. Coincidiu este fato com o

início de obras públicas (grupos

es-colares, estradas, açudes) na região,

oferecendo mercado de trabalho

mediante pagamentos superiores

aos até então pagos na sede do

município, para fazer face à

concor-rência estabelecida pela agricultura.

Francisco de Andrade Araújo, um

homem de 45 anos, que foi

traba-lhar na construção de um grupo

es-colar em Macau, interrompeu a

fre-quência por duas semanas. Mas, em

seu lugar, deixou a fi lha de 9 anos,

que anotava as aulas e as transmitia

ao pai nos fi ns de semana.

5. Todos esses episódios confi

rma-ram a necessidade de se ajustar

o ano escolar ao ano de

traba-lho. No setor de alfabetização de

adultos mais ainda, pois o homem

está sujeito às condições de

mer-cado de trabalho para sobreviver.

Como era organizado o trabalho

“Éramos organizados em uma equipe de coordenação central, uma equipe de

supervisão e os coordenadores dos Círculos de Cultura. A equipe de coordenação

central tinha três pessoas: um coordenador didático (eu mesmo, porque era

formado e tinha didática), um coordenador para contatos políticos (Marcos Guerra)

e um coordenador da parte de conscientização. Houve muito apoio à experiência

e pudemos nos organizar muito bem. Íamos, inclusive, pessoalmente, participar

dos trabalhos nos Círculos de Cultura, acompanhando de perto o que acontecia.

A experiência foi sendo modifi cada em outros lugares em que foi aplicada, como

Angicos, Mossoró, Caicó e Quintas. É difícil que se repita da mesma forma. Aliás,

Paulo Freire me disse que talvez a experiência mais fi el ao Método tenha sido

a de Angicos. O que foi feito em outros estados do Brasil e em outros países

fugiu bastante à proposta inicial e foi recriada muita coisa. Ao fi nal do trabalho,

acreditávamos já que se poderia alfabetizar em 20 horas e com 12 palavras”.

Carlos Lyra

Fonte: Carlos Lyra. In: Tânia Fischer, Entrevista com Carlos Lyra. São Paulo: FEUSP, 1979, p. 3. Disponível em <www.dhnet.org.br/educar/40horas/a_pdf/40_horas_carlos_lyra_entrevista.pdf>. Acesso em 3 abr. 2014

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