Capítulo 2: Preparo vocal de coros infantis: considerações e propostas
2.7. Roteiro de preparo vocal para coros infantis
Apresentadas todas as propostas pedagógicas que temos desenvolvido ao longo de nossa experiência profissional à frente de coros infantis, gostaríamos de encerrar este capítulo com uma sugestão de roteiro de preparo vocal. Recomendamos que ele comece com exercícios de postura e respiração, para preparar o corpo e a mente à prática coral. Os vocalises iniciais têm a função de aquecimento e podem ser de ressonância e dicção. Os exercícios que seguem visam o desenvolvimento técnico-vocal específico, como dicção, extensão e registros vocais, musicalidade, afinação e/ou brincadeiras cantadas, conforme as necessidades de cada coro. As necessidades são delimitadas pelas exigências do repertório e pelos aspectos musicais e vocais que precisam ser trabalhados.
Vale lembrar que os vocalises de aquecimento devem ter melodias com extensões vocais não muito amplas e que as modulações não necessitam abarcar os extremos grave e agudo. Inicialmente, privilegiar os registros médio e agudo, o uso da voz de cabeça e a boa administração da respiração. Nos vocalises de desenvolvimento técnico-vocal específico, pode-se ousar um pouco mais quanto às modulações e extensões, sempre respeitando os limites vocais infantis e a qualidade da sonoridade. A associação de recursos de aprendizagem (visuais, auditivos, corporais, lúdicos) viabiliza o ensino de canto para crianças e também deve ser utilizada.
Indicamos as quantidades de exercícios que consideramos ideais, porém, elas não são fixas e podem ser adaptadas ao tempo de ensaio, à faixa etária, ao tipo de coro e aos objetivos de trabalho de cada realidade coral.
Etapa Descrição
Postura e respiração • Concentração
• Alongamentos corporais • Posturas em pé e sentado • Respiração (1-2 exercícios)
Aquecimento vocal • Vocalises com vibração de lábios e língua, sons fricativos e nasais (1-2 exercícios)
• Vocalises de ressonância e articulação (2-3)
Desenvolvimento técnico-vocal
específico
• Vocalises de dicção em português ou outros idiomas, extensão e registros vocais, musicalidade e /ou auxílio ao repertório (2-3 exercícios)
• Vocalises de afinação, canto em vozes e/ou brincadeiras cantadas (1-2 exercícios)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesta tese, contextualizamos as premissas de um coro infantil, apontando a faixa etária, as possibilidades de agrupamento e as bases pedagógicas que consideramos ideais. Descrevemos o perfil do regente deste tipo de coro, realçando suas funções como intérprete, educador musical e vocal e agente social que fomenta cultura aos cantores e à plateia. Também detalhamos o preparo vocal de coros infantis, apontando sua importância na construção da qualidade sonora coral e apresentando seus elementos (postura, respiração, ressonância, articulação, extensão e registros vocais, afinação, canto em vozes e musicalidade) e algumas propostas pedagógicas, com base em revisões de materiais de Canto Coral, Canto, Regência e Educação Musical e, principalmente, em nossa experiência como regente, preparadora vocal e cantora.
Ao iniciar a pesquisa nossos objetivos eram minimizar a escassez de materiais em português e, através do preparo vocal, criar propostas que pudessem contribuir, efetivamente, com a melhora artística de coros infantis brasileiros. Nossa preocupação era a de elaborar um material que não fosse embasado apenas em teoria, mas que refletisse as necessidades das realidades que encontramos atualmente nos palcos e nas salas de ensaio. O material que criamos partiu de muitas reflexões e práticas pedagógicas com crianças e pré-adolescentes de variados contextos socioeconômicos, educativos e culturais. Os principais objetivos deste material são: viabilizar o ensino de canto para crianças; zelar pela saúde de vozes em formação; explorar a musicalidade, criatividade e autoexpressão dos cantores; e propiciar mais qualidade vocal à performance musical.
O desenvolvimento da pesquisa e escrita desta tese nos possibilitou constatar que: 1. Muitos coros infantis brasileiros apresentam algumas dificuldades vocais comuns, como, por exemplo, o pouco uso da voz de cabeça, a má inteligibilidade do texto, o canto com portamentos, a afinação imprecisa e a sonoridade coral pouco uniforme. Julgamos que, no preparo vocal de tais coros, estes aspectos devem ser aprimorados com prioridade.
2. As maiores potencialidades da voz infantil encontram-se no registro agudo, porém, muitas vezes, a fala do português brasileiro e os modelos vocais veiculados pela mídia e consumidos por nossos cantores priorizam o canto no registro grave (voz de peito). Assim sendo, se faz necessário ampliar a escuta, o repertório musical, as
tonalidades e a percepção vocal das nossas crianças e adolescentes, visando oferecer novas referências e recursos de colocação vocal.
3. Uma voz infantil não deve soar como uma voz adulta, então, não podemos esperar os mesmos volume e timbre das vozes maduras. Solicitar ao coro infantil que cante “mais forte”, certamente, o incentivará a gritar e a não usar a colocação vocal considerada adequada e saudável. É preciso respeitar as limitações e caraterísticas das vozes em formação.
4. A prática coral infantil não deve ter sua qualidade artística subestimada por sua faixa etária de abrangência. Crianças e adolescentes são totalmente capazes de alcançar uma afinação precisa e uma emissão vocal ressonante e refinada.
5. O preparo vocal deve perdurar por todo ensaio. O regente precisa estar constantemente atento à sonoridade coral e dominar estratégias que possam melhorá-la, tanto nos vocalises, quanto na interpretação das obras. As repetições devem ser objetivas e pouco enfadonhas. O coro não deve aprender e / ou seguir cantando de forma incorreta, sem a intervenção do regente.
6. A motivação dos cantores é primordial para que se desenvolva um trabalho coral envolvente, prazeroso e de excelência.
Embora tenhamos direcionado nosso trabalho a coros infantis, acreditamos que ele pode ser aplicado a outros tipos de coro, com adaptações e inovações que se façam necessárias. Talvez as propostas apresentadas sejam mais significativas a regentes em formação do que a regentes experientes, mesmo assim, esperamos que elas possam ser úteis e contributivas a todos. Desejamos que este material seja amplamente utilizado e que fomente novas pesquisas, composições e discussões sobre a temática.
Almejamos que o coro infantil, enquanto objeto de pesquisa, esteja mais presente em ambientes acadêmicos, oportunizando a formação mais consistente e atuante de novos regentes. Que grupos de pesquisa, projetos de extensão universitária, cursos livres, publicações permanentes e outros veículos de comunicação e interação sejam criados e possam proporcionar o aperfeiçoamento dos profissionais da área e a formação cultural de toda a comunidade.
Acreditamos no potencial artístico das crianças, da prática coral e de um preparo vocal lúdico, divertido, educativo-musical e saudável. Acreditamos, também, que a qualidade e futuro do canto coral infantil do Brasil está sob a responsabilidade de seus
profissionais e desejamos que eles não esmoreçam perante as dificuldades, sigam estudando e inovando, se mantenham unidos e generosos e possam fortalecer cada vez mais o canto coral de nosso país.
Finalizamos citando a maestrina Doreen Rao, a qual diz que “uma revolução da Educação Musical deve começar por garantir que toda criança tenha a oportunidade de fazer música com a voz cantada, de praticar sua musicalidade e interpretar com habilidade e conhecimento”43(RAO, 1993, p. 48). É nisso que acreditamos. É este o nosso compromisso e é por ele que seguimos trabalhando.
43A revolution from within music education must begin by ensuring that all children have the opportunity
to produce music with the singing voice, practice musicianship, and perform with skill and understanding.” (RAO, 1993, p. 48)
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ANEXOS
Tabela com normas para a pronúncia do português brasileiro no canto erudito (KAYAMA et. al, 2007, p. 29 a 37)