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CAPÍTULO 3. NARRATIVA DE ALUNOS E EXPERIÊNCIA TEMPORAL: A

3.5 Roteiro da oficina desenvolvida no CEABM: uma proposta de trabalho para

MÉDIO

Conforme exposto anteriormente, a produção das narrativas pelos alunos do ensino médio do CEABM foi precedida pela elaboração e realização de uma oficina, cuja finalidade foi muni-los de informações e procedimentos necessários para a coleta e tratamento dos dados colhidos sobre seus bairros. Essa etapa antecedeu a escrita efetiva das narrativas.

Na sequência, relato como a oficina foi encaminhada e desenvolvida no CEABM, aqui composta como uma proposição, um roteiro de trabalho, cuja pretensão é configurar-se num procedimento possível de ser adequado a outras realidades educacionais. Conforme Barca, uma das funções das pesquisas na área da educação histórica é exatemente esta, ou seja, “criar, implementar e analisar situações de aprendizagens reais, em contextos concretos, e disseminar resultados que possam ser ajustados a outros ambientes educativos” (BARCA, 2012, p. 37).

ROTEIRO DE TRABALHO PARA DESENVOLVIMENTO DE OFICINA VISANDO PRODUÇÃO DE NARRATIVAS DE ALUNOS SOBRE OS BAIRROS ONDE VIVEM.

PRODUÇÃO DE NARRATIVAS HISTÓRICAS POR ALUNOS DO ENSINO MÉDIO TEMA: Produção de uma narrativa histórica

TURMA: Aplicável ao Ensino Médio – 1ª, 2ª ou 3ª série ASSUNTO: Conhecer e contar a história do seu bairro

OBJETIVOS: 1 - Identificar possíveis carências de orientação temporal, 2 – Possibilitar aos estudantes pesquisarem a história dos seus bairros, 3 – Acessar a memória que circula naqueles espaços.

DURAÇÃO DA ATIVIDADE: 8 aulas

1º PASSO

Primeiramente procuramos apresentar a metodologia da oficina aos alunos, falamos sobre a importância do compromisso e da participação de todos para o sucesso da atividade, esclarecemos quais recursos seriam utilizados e os objetivos da atividade.

2º PASSO

Reservamos o segundo encontro para aplicação de um questionário. As questões do questionário serviram para colher informações socioeconômicas dos alunos e de suas famílias. Serviu, ainda, para acessar conhecimentos e visões prévias dos educandos em relação à escola, ao conhecimento histórico e sobre os bairros onde vivem. A aplicação desse questionário permitiu, também, conhecer em quais bairros os alunos moram e há quanto tempo (ver APÊNDICE A).

3º PASSO

REALIZAÇÃO DA OFICINA

1º Momento: Apresentamos aos alunos as partes que caracterizam uma narração. Optamos por imprimir o material (podem ser utilizados slides), entregar aos estudantes e estabelecer um diálogo com eles sobre como produzir um texto com início, meio e fim (ver APÊNDICE B).

2º Momento: Propomos aos alunos que exercitassem sua capacidade de narrar. Proposição: Assistir trechos do jogo Brasil 1 x Alemanha 1, partida final da Olimpíada do Rio-2016, na qual o time brasileiro foi campeão após vencer cobrança de pênaltis, e descrever o que ocorreu na partida. (ver APÊNDICE B).

4º PASSO

1º Momento: Conversamos com os alunos sobre o campo da história oral, especificamente, seu uso como técnica de pesquisa. Na sequência, apresentamos a

eles dicas e recomendações sobre como fazer uma boa entrevista (ver APÊNDICE C).

2º Momento: Mostramos aos alunos trecho de um vídeo no qual um estudante realiza uma entrevista. Na sequência, selecionamos dois alunos e simulamos a realização de uma entrevista. Em seguida, apontamos os acertos e os erros cometidos durante a experiência.

5º PASSO

Encaminhamento da atividade: com base nas informações repassadas pelos alunos no questionário, os separamos conforme os bairros onde moram e solicitamos que escolhessem um objeto em seu bairro que tivessem interesse em conhecer melhor. Esclarecemos os procedimentos que deveriam tomar para a realização e transcrição das entrevistas, a escrita e a entrega das narrativas (ver APÊNDICE D).

6º PASSO

Definimos um tempo (pode ser bem mais que uma aula) para o tratamento das dúvidas dos alunos que ainda possam existir sobre a atividade a ser desenvolvida. Estabelecemos o prazo de duas semanas para a entrega das narrativas (ver APÊNDICE D).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo principal deste trabalho foi investigar como se manifesta a consciência histórica de estudantes do Colégio Estadual Adolfo Bezerra de Menezes (CEABM), em Araguaína-To, por meio de narrativas por eles escritas sobre os bairros onde moram.

Para Luís Fernando Cerri, estudos sobre consciência histórica são particularmente complexos porque se referem “a fatores mentais, difíceis de investigar porque não são reconhecíveis obviamente como fatos” (CERRI, 2011a, p.48). Daí recorrermos ao pensamento do alemão Jörn Rüsen (2001, 2011), que aponta a narrativa histórica como uma possibilidade de evidenciar, empiricamente, a maneira como os sujeitos se relacionam com a temporalidade e o uso prático que, eventualmente, possam fazer dessa apreensão.

Segundo Rüsen, quando um indivíduo narra uma história, ele “mobiliza a experiência do tempo passado, a qual está gravada nos arquivos da memória, de modo que a experiência do tempo presente se torna compreensível e a expectativa do tempo futuro, possível” (RÜSEN, 2011, p. 97). No presente trabalho fizemos uso desse caminho teórico proposto por Rüsen no estudo da consciência histórica, qual seja, de utilizar a narrativa histórica no trabalho de identificar como os indivíduos se orientam temporalmente.

No entendimento dos autores que estiveram na base de nosso estudo, o ensino de história não é capaz de criar consciência histórica nos sujeitos, mas pode exercer influência sobre a maneira como interpretam as mudanças e permanências no tempo, provocando alterações na forma como elaboram o diálogo do presente com o passado alterando, assim, suas perspectivas futuras.

Nesse sentido, conforme a experiência desenvolvida e relatada nesta pesquisa, estimular estudantes a produzirem narrativas que envolvam seus espaços de vivência, permite visualizar não só suas concepções temporais como os colocam em contato com os mecanismos de construção do conhecimento histórico como a oralidade (entrevista), com a possibilidade de manusear um documento histórico que eles próprios ajudaram a construir (transcrição das entrevistas) e, muito importante, acessar parte da história do seu bairro, conhecimento muitas vezes inacessível e ignorado nas aulas de história de muitas escolas.

Para o desenvolvimento de um bom trabalho com o uso de narrativas produzidas por alunos sobre os seus bairros onde eles moram, consideramos que o modelo da Aula Oficina foi apropriado (BARCA, 2004). Um dos principais pontos dessa proposta didática é a centralidade que oferece aos conhecimentos prévios dos alunos como pressuposto para uma aula que tenha sentido histórico.

Nesse sentido, o formato da oficina que ora desenvolvemos, como etapa anterior à confecção das narrativas pelos estudantes do CEABM, com a aplicação de questionário voltado para a busca de informações e visões prévias deles em relação aos bairros que residiam esteve em conformidade com essa perspectiva.

Muitas vezes, com certo tempo de docência e frente aos problemas conhecidos de ministrar muitas aulas, pouco tempo para estudo e planejamento, escoramento no livro didático, muitos professores costumam formatar suas aulas no modelo de aula conferência, centrado nele mesmo e na crença de que os estudantes “não sabem nada”, “não pensam”, num tipo de ensino em que seu lugar é “receber as mensagens e regurgitá-las corretamente em teste escrito” (Barca, 2004. p. 131).

Em contraposição a essa proposta, apresentamos um roteiro com o passo a passo da oficina que realizamos com os estudantes do CEABM. O roteiro tem condições de, mediante adequações, ser utilizada em outros ambientes educativos, podendo ser útil a um ensino de história que produza, efetivamente, aprendizado histórico. Resumidamente, o ponto central é os alunos vêem sentido histórico no que é ensinado, medida que provoca efeitos positivos na formação histórica com repercussões sobre a consciência histórica.

O trabalho que desenvolvemos, metodologicamente, se alinhou com a perspectiva da pesquisa-ação, de Thiollent (2007), para quem esse tipo de pesquisa social deve ter, em seu horizonte, a intenção de mudança sobre a realidade pesquisada. Nesse sentido, a pesquisa revelou narrativas interessantes, sendo que a maioria evidenciou agudas carências de orientação temporal, sinais de que o ensino de história ao qual foram submetidos exerceu pouca influência sobre suas consciências históricas. Sendo assim, a realização de atividades que levem em conta a produção dos alunos, que considerem o lugar onde vivem, que possibilitem o exercício de suas competências narrativas, em especial, as que ampliem suas experiências históricas, podem atuar favoravelmente na formação da competência de interpretação que, por sua vez, resulte na competência de orientação.

Sobre essa possibilidade, Rüsen (2007) entende que

[...] as divergências entre as experiências do presente e as expectativas de futuro, com as quais se deve lidar no agir, dirigem seu olhar para o passado, com a intenção de construir delas uma imagem realista e de cogitar como superá-las. A alteridade em relação ao passado, experimentada, abre o potencial de futuro do próprio presente (RÜSEN, 2007, p. 112).

Nesse sentido, quanto mais ampliar sua experiência histórica, quanto mais possibilidades de interpretar essa experiência ligando-a ao presente que se vive, amplia-se também as possibilidades de uma realidade diferente no futuro.

No questionário aplicado aos alunos, na fase anterior à produção das narrativas, perguntamos a eles “Para que serve o conhecimento histórico?”. O resultado, de certa forma, se aproximou muito daquilo que verificamos depois, na fase de análise das narrativas, conforme pode ser constatado na tabela abaixo:

TABELA 12 – O CONHECIMENTO HISTÓRICO SERVE PARA QUE?

ÍTEM %

Entender sobre o passado para compreender o presente 63,1% Saber sobre a História de pessoas e acontecimentos importantes 31,5%

Aprender sobre o que aconteceu no passado 26,3%

Descobrir o que aconteceu, entender o que está acontecendo e

prever o que acontecerá 21%

Não sei responder 0,0%

Não serve para nada 0,0%

Fonte: Questionário aplicado aos alunos da 2ª série E do CEABM. 2017.

As respostas dos alunos mostraram que mais de 60% dos estudantes consideram o conhecimento histórico como um aprendizado que serve “para entender o passado para compreender o presente”. Pouco mais de 30% o considerou válido para “saber sobre a história de pessoas e acontecimentos importantes”. “Aprender sobre o que aconteceu no passado” foi a resposta de 26% dos alunos. O entendimento de que o conhecimento histórico serve para “descobrir o que aconteceu, entender o que está acontecendo e prever o que acontecerá” foi a escolha de 21% dos nossos colaboradores. Nenhum aluno marcou as opções “Não serve para nada” e “Não sei responder”.

A opção mais acessada pelos estudantes na qual o conhecimento do passado tem a função de compreender o presente se aproxima muito da concepção temporal

presente nas narrativas dos alunos. Esse resultado aponta para uma realidade na qual a maior parte dos estudantes investigados não identifica, ainda, no conhecimento histórico algo que possa ter alguma utilidade na vida prática, na medida em que as expectativas em relação ao porvir não têm lugar, muito embora as distinções qualitativas entre passado e presente tenha, em diversas vezes, se mostrado.

Por fim, entendemos que a análise das narrativas produzidas pelos alunos do CEABM confirmou as referências de Rüsen quanto ao potencial desta de evidenciar sinais da consciência histórica e da competência narrativa dos sujeitos. Continua, contudo, a falta de sentido, de uso prático do que se aprende na orientação do agir. Essa “falta de sentido” constatada nesta experiência, em nosso entendimento, e o principal problema a ser combatido no CEABM no que se refere ao ensino de história.

REFERÊNCIAS

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FONTES COMPLEMENTARES

Livros didáticos

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BRAICK, Patrícia Ramos. MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao

terceiro milênio. Vol. 2. 3ª Ed. São Paulo. Moderna. 2013.

Sites

IBGE. Disponível em <<https://cidades.ibge.gov.br/brasil/to/araguaina/panorama>>.

Apêndice A – Termo de assentimento de pais e alunos autorizando participação e

uso das informações na pesquisa.

FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS

PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO

Programa de Pós-Graduação em História Mestrado/profissional em Ensino de História Campus Universitário de Araguaína-TO.

TERMO DE ASSENTIMENTO DE ALUNOS E PAIS

Pesquisador Responsável: Iltami Rodrigues da Silva

Endereço: Avenida Europa, Qd. 76, Lote 10 – Setor Jardim dos Ipês II CEP: 77820176 – Araguaína-TO

Fone: (63)98444-9526/

E-mail: [email protected]

Você está sendo convidado para participar da pesquisa “ENSINO DE

HISTÓRIA E NARRATIVA DE ALUNOS: UM ESTUDO SOBRE CONSCIÊNCIA HISTÓRICA NO COLÉGIO ESTADUAL ADOLFO BEZERRA DE MENEZES EM ARAGUAINA-TO”. Seus pais permitiram que você participasse. Queremos, com

essa pesquisa, investigar de que forma se expressa a consciência histórica dos alunos do ensino médio, segunda série “E”, período vespertino. Considerando que todos possuem consciência histórica (RUSEN, 2001), nosso objetivo é identificar, por meio de narrativas produzidas pelos referidos alunos, acerca de seus locais de vivência (bairros onde moram), como ela se manifesta, se cabem na classificação ruseneana (tradicional, exemplar, crítica e genética) ou fogem a elas, se conseguem ligar o conhecimento histórico às suas vidas práticas/cotidianas e a maneira como isso se realiza. A pesquisa terá momentos prévios nos quais me reunirei com os alunos da segunda série “E”, na sala de aula, em seis encontros, totalizando oito aulas, para a realização de uma oficina. Nessa oficina, o objetivo será explicar a eles

como será realizada a pesquisa e, principalmente, discutir e exercitar, elementos importantes para a produção dos seus textos, como por exemplo, o que é e como se estrutura uma narrativa, o que é história oral e como se realiza uma entrevista. Os alunos serão orientados a escreverem uma narrativa sobre algum objeto localizado em seu bairro com o qual possua alguma ligação, afinidade, interesse, identificação. Como exemplo, deixamos aberto a possibilidade de falarem sobre lugares (igreja, praça, rua, centro comunitário, etc), fatos ou acontecimentos como festas populares, a violência, as carências de infraestrutura (se existirem) ou outro tema que tivesse alguma ligação com ele, que chame a sua atenção ou que tenha algum apelo identitário. Os educandos, para produzir e fundamentar suas narrativas, serão orientados a realizarem uma entrevista, usando a metodologia da história oral, com um indivíduo de sua escolha que tenha algum vínculo com o assunto que ele irá escolher e tratar. Os alunos que participarão da pesquisa possuem entre 16 e 19 anos de idade. Esclareceremos a cada um que não são obrigados a participar da

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