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2 DIREÇÃO DE ARTE E O VISUAL DO FILME

2.1 CONSTRUINDO O VISUAL DO FILME

2.1.1 Roteiro: o primeiro referencial

Por que fazemos um filme primeiro por escrito para depois fazê-lo de verdade em imagens em movimento? E, se escrever é preciso, como se deve anotar uma história, uma idéia ou um sentimento pensando em imagens, nascido para se expressar através de imagens em movimento? [...] Uma estrutura dramática organizada através de palavras é transformável em imagens? (AVELLAR, 1986, p. 223)

Amarelo manga (2003) traz a leitura que Cláudio Assis faz do roteiro; as imagens vistas na tela são o resultado da transposição das palavras escritas por Lacerda, das situações, personagens e ambientes descritos por ele. Contudo, essa escrita, como todo roteiro, sofre adaptações, seja por inserção ou supressão de cenas, seja em função das condições de produção. Podemos citar como exemplo de adaptação o momento em que Dunga prepara o almoço e recebe Wellington, não em uma cozinha escura e mal organizada como consta no roteiro na sequência 09 – O Coração de Dunga (LACERDA, 2002), mas em uma espécie de área interna de serviço a céu aberto, bem iluminada, com roupas penduradas e de molho em grandes bacias, caliças jogadas em um canto, mantendo a desorganização proposta pelo roterista.

50 Para ler mais, ver Butruce (2005), item 1.4.3.1 A atuação dos níveis estruturais.

A tarefa de escrever um roteiro, conceber suas tramas, criar seus personagens, descrever seus ambientes de ação, requer não apenas criatividade e capacidade literária. Trata- se de escrever, descrever e, mais ainda, indicar possibilidades visuais. O roteiro é o início, o primeiro contato com a história e suas peculiaridades; com as ações, com os ambientes, com os personagens. O roteirista deve ter claro que o seu trabalho será modificado, adaptado conforme o ponto de vista do diretor e, também, de acordo com as condições de produção. Sugestões serão dadas para uma transposição mais efetiva, da escrita para a imagem, e serão incorporadas ao roteiro inicial.

Para Christopher Vogler, em A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores (2006), é importante trazer à tona o tema52 real da história a ser contada: defini-lo é essencial para fazer as escolhas corretas, em termos de diálogos, ação e cenário, e saber quais opções farão com que a história, como um todo, tenha um aspecto coerente.

No artigo Roteiro: o projeto narrativo audiovisual (2006), Elisabete Rodrigues ressalta a importância do roteiro, “[…] responsável pela ordenação lógica da história; esse modo singular de contar, um fazer projetural que trabalha com a palavra escrita carregada de intenções imagéticas” (RODRIGUES, 2006, p. 5). Enquanto estrutura verbal, encontra-se submetido às leis da discursividade; contudo, projeta uma estrutura dinâmica a ser transposta por meio da utilização dos recursos peculiares ao cinema.

Para Butruce (2005), o roteiro cinematográfico constitui, em si, o primeiro dado na elaboração de referências visuais: comunica ideias potencialmente visuais; proporciona uma primeira localização no tempo e no espaço e aponta diretrizes visuais em relação aos ambientes e aos personagens.

Em A linguagem secreta do cinema (1994, p. 36), Jean-Claude Carrière argumenta que o roteiro passa por constante evolução e aperfeiçoamento, por alterações, adaptações e modificações porque “[...] o que parece correto e apropriado no papel […] torna-se falso e forçado quando visto na tela”. Tais mudanças são implementadas a partir das intenções do diretor e de suas estratégias, passando também pela produção, pela filmagem, pela montagem. Essas adaptações ocorrem devido à dinâmica e às necessidades nas diversas fases de realização de uma obra audiovisual. Como resultado, dificilmente o filme do roteiro é o filme da tela.

52 Vogler (2006) sustenta que a palavra tema tem origem grega, com significado muito próximo ao de premissa, que vem do latim. Ambas significam algo posto antes, algo colocado anteriormente e que influencia para determinar um curso futuro. Pode ser uma observação distraída de um dos personagens, expressando uma crença que, depois, será rigorosamente testada, no transcorrer da história.

Humberto Barbaro, em Elementos de estética cinematográfica (1965, p. 118), assinala que:

[...] o roteiro pode ser definido como tentativa sistemática e ordenada para prever o futuro do filme em todos os seus pormenores; previsão que na prática se concretiza num manuscrito contendo a descrição, cena por cena, enquadramento por enquadramento, das ações aos diálogos, a indicação de ruídos, do acompanhamento musical, da solução de todos os problemas técnicos e artísticos, que se prevê para a realização do filme.

No livro Guión documental (2005), Simon Feldman sustenta que essa referência textual pode ser considerada um dos primeiros elementos concretos de trabalho em um filme, o eixo norteador de todo o percurso da criação fílmica. Servirá de base a todos os departamentos envolvidos em uma realização audiovisual; desde o diretor e os atores, passando por diretor de fotografia, de arte, de produção, desenhista de som e montador, até o produtor executivo, partem do roteiro para executar suas tarefas.

Para Rodrigues (2006, p. 4), é durante o processo de construção do filme que o encadeamento narrativo-dramático constituído por palavras será, então, “[...] realizado com a cenografia53, com a iluminação, com a atuação do personagem, com os movimentos de câmera, com a sonorização e os demais elementos técnicos”.

Por se tratar de praticamente um guia para a filmagem, o roteirista deve ter em mente que tudo o que colocar no roteiro será traduzido em imagens. As informações que este contém são fundamentais para que os profissionais possam transpô-lo para imagens. Sua história escrita se constituirá em materialidade a ser registrada pela câmera, assim como os seus personagens e os ambientes nos quais ocorrem as ações.