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2.3 O PROJETO SEMENTES

2.3.1 Rotina das atividades

A rotina das atividades consiste em três diferentes momentos, sendo eles: 1)a acolhida - roda de conversa, intitulada como “cultinho”; 2) oficinas e 3) lanche. O horário de chegada das crianças é às 15 horas, quando se inicia a interação dos colaboradores com as crianças e a divisão dos participantes em dois grupos, sendo um para crianças na faixa dos três aos 12 anos idade, e dos adolescentes, até os 17 anos. Essa divisão é necessária para que o momento de conversa seja significativo e abrangente para todos, sem infantilizar os mais velhos que participam do projeto.

Nesse momento com as crianças, são contadas histórias com os diferentes recursos de mediação, para que seja um ambiente de fruição e contato com outros gêneros literários. No geral, são contadas histórias bíblicas, adaptadas ao seu contexto social, para que consigam

https://<www.instagram.com/somosonda/?hl=pt-br> Acesso em 07 de setembro de 2017.

20FACEBOOK- Projeto Sementes. Disponível em: <https://www.facebook.com/ProjetoSementesJF/>. Acesso em 07 de setembro de 2017.

compreender a mensagem transmitida e também desconstruir a visão de inferioridade e não reconhecimento de si que demonstram em seus relatos de experiência e no modo que se relacionam com os colaboradores do projeto. Como por exemplo, a Parábola do bom samaritano.

O objetivo foi problematizar o senso comum acerca do lugar de origem ser o único fator condicionante da vida como um todo, afirmando que o lugar de onde viemos não deve determinar quem nós somos e, tão pouco, nossa conduta de vida. A escolha por essa parábola deu-se pelo fato de os samaritanos serem mal vistos pelos judeus, e, quando comparado ao sacerdote e o levita – membros que exerciam função ministerial dentro do templo e, por isso, eram considerados „santos‟ na fé judaica, antes de Cristo – foi tido como aquele que amou seu próximo como Jesus ensinara a um perito da lei. Para fácil compreensão das crianças, utilizou-se como recurso o fantoche de um homem idoso, que lhes contava a história de um jovem rapaz que foi assaltado em uma rua perigosa e aguçava sua curiosidade para saber quem agiu em compaixão com o jovem e o socorreu. Abaixo segue a versão original da parábola, extraída do evangelho de Lucas, capítulo dez, do versículo 29 a 37 – Nova Versão Internacional.

A parábola do bom samaritano (Lc 10. 20-37)

“Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: "E quem é o meu próximo? "

Em resposta, disse Jesus: "Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes.

Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto.

Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado.

E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado.

Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele.

Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.

No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e disse-lhe: „Cuide dele. Quando voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver‟.

"Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? "

"Aquele que teve misericórdia dele", respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: "Vá e faça o mesmo".

Lucas 10:29-37- NVI

Versão adaptada:

“Certo dia, um moço estava andando na rua e já era tarde da noite. Vieram uns caras estranhos e levaram tudo o que ele tinha e não apenas isso, machucaram muito ele. Com medo, esse rapaz pensou que morreria, pois ninguém acharia ele ali. Até que passou um padre, muito bem vestido, conhecido por todos pelo bom trabalho na comunidade e ele pensou: “o padre é um homem e ele vai me ajudar”. Porém o padre estava muito atrasado para um compromisso em sua paróquia e triste, não pôde ajudar o rapaz, pois outros estavam esperando por ele e precisando de sua ajuda.

Passado um tempo, veio o “pastorzão do manto”, com a bíblia debaixo do braço, todo bonitão. O moço novamente pensou: poxa, agora esse vai me ajudar, tenho certeza. Mas o pastor também estava apressado, e o rapaz ficou muito triste, pensando ser aquele seu fim.

Quando ele já havia perdido as esperanças veio um “lelek” pela rua. Quando o rapaz o viu, pensou:

“se o padre e o pastor não me ajudaram, duvido que ele irá me ajudar, mas, de todo jeito, vou tentar”. Assim que o menino da comunidade viu o jovem deitado logo ofereceu ajuda, o levou para que cuidassem dele, deixando tudo o que tinha para que o rapaz ficasse bem. O “lelek” mostrou pra todos que o lugar de onde ele vinha e a maneira como se vestia e falava não mudavam seu coração, que era puro e agradava a Jesus”.

Os personagens da adaptação da história foram escolhidos por serem presentes no cotidiano das crianças. A igreja católica do bairro em que moram é muito atuante, e as crianças se relacionam com toda a paróquia. “Pastorzão do manto” é o nome de um personagem humorístico de um canal no YouTube que representa esse estereótipo de pastor das igrejas pentecostais. E “lelek” é um termo comum dado aos meninos da comunidade assim como eles, presente em músicas de funk. Quando o último personagem foi introduzido na história as crianças vibraram, pois o personagem representa como eles andam e falam, defendendo que este ajudaria o rapaz.

A resposta das crianças a essa história e toda a preparação para este momento foram muito satisfatórias. Preparamos o lugar com tecidos coloridos, nos acomodamos juntos e logo apresentei os fantoches a eles, fazendo brincadeiras com os personagens e com as crianças. A história foi contada de forma interativa, onde o narrador – o boneco Godofredo – fazia perguntas às crianças, com jargões marcantes na contação.

Eles demonstraram muito carinho com os bonecos, abraçando e beijando, enquanto estavam em minha mão, no momento da narrativa. Ao terminar a história, passei os bonecos para que pudessem tocar e brincar um pouco com eles, atendendo suas curiosidades.

Quando foram para a oficina de artes, deixei minha bolsa com os bonecos sobre um móvel, o que fez com que eles ficassem muito agitados para pegarem minhas coisas. Observei que estavam se movimentando de maneira diferente do comum, então aguardei para ver o que fariam. Cinco crianças arquitetaram uma ação que denomino de “o roubo dos fantoches”, onde um a um pegava um boneco em minha bolsa, observava se eu estava olhando e saia correndo, dando cobertura ao que vinha atrás dele. A ação foi muito rápida, e correram todos carregando minhas coisas para trás da tenda, onde, só ali, tiraram o que restava na bolsa para ver o que tinha dentro, enquanto outros vigiavam pra saber se alguém os seguia. As crianças envolvidas eram as mais novas do projeto, no qual a mais velha possui sete anos de idade. A maneira como arquitetaram a ação e agiram com tamanha naturalidade me chocou, mesmo sabendo que o único desejo era brincar novamente com os bonecos.

Com os adolescentes, esse é o principal momento para partilharem tudo àquilo que eles têm vivido como suas experiências pessoais, angústias, medos, e expectativas para o

futuro. Segundo o relato dos colaboradores do projeto, alguns se abrem para expressar os dilemas que enfrentam cotidianamente, o que gera grandes preocupações durante as preparações das palavras ministradas, para que sirvam como direcionamento para superarem aquilo que os assola, como, por exemplo, a falta de um bem material, a briga com algum colega, etc. A abertura de todos não é recorrente, pois a cada dia respondem de maneira inesperada.

Nos momentos de planejamento dos temas a serem trabalhados, são considerados assuntos como o consumismo e a cultura da ostentação, disseminados pelas mídias, especialmente nas músicas de funk; a importância dos relacionamentos, valorizando a si próprio e as pessoas, como, por exemplo, o papel da mulher na sociedade, não como um objeto sexual, mas com dignidade de ser humano; a perspectiva de futuro, dos investimentos em longo prazo, enfatizando a importância de se construir algo gradualmente, não recorrendo ao mundo do crime pelo desespero imediato; vícios e criminalidade, destacando sempre a paternidade de Deus, sendo esse o ponto inicial da conversa.

Existe também a preocupação em explorar as dinâmicas de grupos com eles, para que se envolvam com o tema, possam se divertir, e não tomem aquele encontro como um momento de “sermão”, onde recebem passivamente aquilo que lhes é ensinado. De acordo com alguns colaboradores sobre a compreensão dos temas:

A impressão que tenho é que quando a gente fala alguma coisa ou leva uma lição, uma reflexão ou algo assim sem mostrar aplicação prática na realidade deles, eles ficam bem quietos; não sei se absorvem muito. Mas, quando começamos a dar exemplos de coisas que são mais presentes na faixa etária deles ou alguma coisa mais prática, mesmo na realidade que eles vivem, eles participam mais.Parece que, quando a gente leva uma reflexão bíblica (por exemplo, uma lição que fale sobre respeitar o próximo, o cuidado com as palavras, etc.), eles ouvem e tudo, mas parece que acham que aquilo é utópico, sabe ! Não sei... Parece que veem que aquilo é fácil pra gente que vive em outra realidade, ali na igreja e tudo; e que pra eles isso não existe. Uma vez chamei a atenção do Sanderson (eu acho que era ele mesmo!), porque ele tava fazendo alguma coisa errada (não sei se tava dando uns tapas em alguém, ou chamando com apelidos que o outro não estava gostando). Aí falei com ele de respeito. Aí ele virou pra mim é falou: "Não, tia. Aqui é favela mesmo. Não existe isso não!", alguma coisa desse tipo. Da última vez que fiquei responsável pelo bate papo, fiz questão de frisar que abandonar práticas que não agradam a Cristo não é fácil pra ninguém mesmo (com a intenção de que eles não pensem que é difícil só pra eles), ressaltando que só com a ajuda de Deus, com Sua bondade e misericórdia, caminhando com Ele, dia após dia é que podemos ir melhorando a cada dia. Que sozinhos a gente não consegue mesmo!Essa é a impressão que eu tenho. Que participam, quando conseguimos fazer o link da lição na realidade em que eles vivem. E também quando a pessoa que está ministrando sabe incluí-los na conversa, fazendo perguntas, levando dinâmicas... Aí participam mais do papo. (Ana, responsável pelo projeto, diário de campo, 2017)

A assimilação por parte das crianças e dos jovens dos ensinamentos construídos acontece de maneira disforme, pois reagem de maneira distinta a cada intervenção. No geral, eles questionam muito sobre todos os conhecimentos que buscamos construir juntos e demonstram certa compreensão dos assuntos abordados, ainda que, logo em seguida, ajam de maneira oposta ao que foi ensinado, mas, em longo prazo, vemos alguns frutos, mesmo tímidos, do que tem sido construído.

Um princípio que sempre foi valorizado dentro da equipe de trabalho é fazer com que as crianças questionem o porquê de viverem da maneira como vivem. Pois, se eles questionarem as verdades que lhes são postas, não serão levados por aquilo que lhes é atribuído como “destino”. Segundo o relato de muitas crianças e a parir do que temos observado nesse período de aproximação, o consumo de drogas é demonizado, quando são mais novinhos, mas, à medida que eles vão crescendo, esse se torna um hábito natural, e o tráfico (ou “corres”, como eles dizem), vira uma ocupação normal.

Assim, fazendo com que questionem tal comportamento e apresentando a eles uma possibilidade nova de vida, em acordo com o propósito que todos nós fomos criados para viver, de forma digna e honesta, é que apontamos aquilo que buscamos em nossas vidas pessoais. Considerar a moral cristã como uma alternativa viável de vida acontece justamente nesse sentido de se entender no mundo. O discurso dos mais velhos, principalmente, é sempre carregado de muita dor, e quando questionados a respeito do que eles acham que nasceram pra ser, sempre se mostram confusos. Entendo e acredito que essas são imposições traçadas pela desigualdade social da nossa sociedade, onde, involuntariamente, eles se vêem marginalizados e inferiores em relação aos outros. A desigualdade não é apenas um fato bruto, ela é também um aprendizado, uma internalização das muitas e várias experiências de humilhações, indiferença, desrespeito, desprezo e estigmatização de um grupo social por outros grupos sociais. Este aprendizado prático pode começar na família, mas, certamente, estará presente em todas as instituições e contextos, onde a relação desigual de riqueza, prestígio, poder ou reconhecimento com outros grupos sociais se fizer visível ou apenas perceptível.

Nosso trabalho consiste em, justamente, lhes afirmar que individualmente, eles são pessoas importantes, que suas vidas têm significado, que são pessoas amadas independente do abandono pelos pais.

2.3.2 Oficinas

A divisão das oficinas deu-se por meio do levantamento das crianças interessadas nas atividades. Com base nesse critério, foram agrupadas em três grupos, definidos pela idade e gênero dos participantes. Separou-se em três grupos: meninos, meninas e as crianças pequenas com idade entre três e sete anos. A partir dessa separação, foram estudadas as possibilidades de trabalho, no sentido de contar com pessoas qualificadas para a realização das oficinas e também do espaço disponibilizado.

A divisão das equipes entre meninos e meninas foi adotada em virtude dos ensinamentos da Igreja. Além disso, eram as condições que dispúnhamos para realizar as atividades. No espaço religioso, essa distinção dos trabalhos entre mulheres e homens é parte da cultura religiosa. Aos poucos, temos tentado minimizar tal separação dentro do projeto, mas, muitas vezes, nos vemos sem estrutura para fazer essa integração entre as meninas e os meninos mais velhos. Atualmente, temos encontrado certa resistência por parte de algumas crianças por não concordarem mais com essa separação, e temos tentado buscar uma solução para esse problema, no sentido de contar com uma estrutura para atender a todos.

Oficina de Artes: destinada às crianças na faixa etária entre quatro a sete anos de idade. Em média, são oito crianças que frequentam regularmente as aulas. Nessa oficina, são realizadas atividades lúdicas, com brincadeiras e confecção de diferentes tipos de materiais.

São observados os comportamentos das crianças em relação ao outro, como, por exemplo, as palavras agressivas que fazem uso, recorrência de mentiras que nos contam em relação aos colegas, apego sentimental excessivo a determinados professores e suas principais indagações acerca de quem é Jesus e o porquê dos princípios ensinados de cidadania, constituição familiar, moral religiosa aplicados ao seu cotidiano. Essas observações visam promover o questionamento do porquê agredir os colegas, quando esses são ensinados a respeitar uns aos outros. Por meio dessas observações, são elaboradas as atividades que atendam às necessidades destacadas por nós.

Há também a intenção de proporcionar alguma contribuição para a construção de seus princípios pessoais, no que tange a sua moral, ética e cidadania, promovendo discussões e interações sobre a importância de cada um deles na sociedade em que vivemos, uma vez que seus discursos são carregados de marcas do preconceito cultural, presente em nossa sociedade. Como, por exemplo, “todo preto é feio”, e a escolha dos personagens negros sempre como os bandidos das histórias.

Assim, assuntos como igualdade racial e social, o respeito ao próximo, cuidado com o meio ambiente e com o próprio corpo, a valorização do estudo permeiam as atividades, à luz dos fundamentos da fé cristã, de respeito e amor ao próximo e a si mesmo.

Oficina de Dança: público especificamente feminino, com crianças entre os 7 a 14 anos de idade. São trabalhados diferentes estilos musicais, como balé contemporâneo e danças de rua. A consciência corporal, o respeito com o próprio corpo e com o outro são alguns dos aspectos explorados durante as aulas. As aulas nessa oficina são orientadas por uma professora de balé profissional de um estúdio renomado em nossa cidade, em conjunto com as meninas do ministério de dança da juventude.

Oficina dos Esportes: Voltada para os meninos, em sua maioria na etapa de transição da pré- adolescência para a adolescência. São realizados momentos de conhecimento de novas modalidades esportivas, quanto a sua técnica, regras dos jogos e etc. Ao final da aula, é comum que joguem futebol, por ser o esporte de preferência dos jovens.

3 ESTUDO DO CASO.

Após focalizar o objeto de estudo, prosseguiremos para a análise de três situações, ocorridas em momentos distintos, que se completam, para que, dessa forma, possamos vislumbrar o lugar da criança em suas falas.

Para não expor as crianças relatadas, os nomes utilizados a seguir são fictícios, escolhidos por mim. A decisão de não apresentar os nomes verdadeiros das crianças foi para preservar sua integridade, prevenindo qualquer possível perseguição em função dos casos relatados por elas.

Situação 1:

No caminho para a igreja, um grupo de cinco crianças me avistou de longe e pediram para que eu os esperasse, para que fossemos todos juntos.

Violeta: - Tia, por que você sempre vai a pé pra igreja? A gente sempre te vê passando. Você nem tem medo de andar por aqui. É muito perigoso às vezes.

Eu: - É muito perigoso? Eu não sabia. Vocês já viram alguma coisa que causou medo em vocês?

Margarida: - Ah, tia. Aqui vem muita gente procurar maconha [todas as drogas são chamadas de maconha por eles]. Os caras chegam perguntando se a gente vende só porque “nois” é pobre e mora na favela.

Eu: - Você fica triste com isso, Margarida?

Margarida: - fico né, tia. A gente é “preto”, mas é honesto. Eu não sou bandida pra vender maconha!

Cravo: - Eu não ligo. Toda vez, eu falo que aqui ninguém tem essa porcaria não. Na escola, o polícial falou que é errado. Isso é muito triste né, tem muita gente morrendo.

Ontem, teve baile, mataram um cara, só podia ser por causa da maconha. Aconteceu assim: o cantor tava cantando e, de repente, só ouviu: po po po e o cara caiu. Deus livrou minha tia, porque ela tava lá perto e viu tudo.

Eu: - Isso é muito triste e é por isso que nunca devem se aproximar desse tipo de coisa [drogas]

Cravo: - Nunca vou cheirar maconha, tia!

Cravo relatou com naturalidade o ocorrido no baile funk, mostrando, em seu celular, o vídeo do assassinato do jovem rapaz. Ao falar do uso das drogas, se referiu ao Proerd, programa educacional da Polícia Militar de Minas Gerais, sobre o combate às drogas. Na fala

de Margarida, a tristeza que sentiu ao contar que era confundida com uma bandida por ser negra e morar na favela, foi facilmente percebida.

Cravo é um menino muito maduro para sua idade, bastante comunicativo, sempre conta alguma situação ocorrida ao longo da semana. Sua família mudou-se da comunidade, restando apenas sua avó na vila. Dessa forma, está presente no projeto apenas quando vai visitar a avó aos domingos.

Margarida é uma menina muito esperta, travessa, se comunica muito bem com todos.

Sempre buscando chamar atenção, faz muita bagunça durante as atividades do projeto, mas busca se aproximar de todos os colabores. Quando percebe a aproximação de alguma outra criança, se mostra muito enciumada, e, rapidamente, encontra algum meio para afastar os colegas, na maioria dos casos, agredindo-os verbal ou fisicamente.

Situação 2:

Em uma roda de conversa, estávamos explorando o tema sobre os propósitos de Deus para nossas vidas, afirmando que Deus sonhou com algo para cada um de nós, individualmente. Assim, em um dado momento, questionou-se sobre o que eles achavam que Deus planejou para suas vidas, e a resposta de três das sete crianças presentes foi sobre ter uma vida mais tranquila.

Eu: - O que vocês acham que Deus sonhou para nós?

Jasmin: - Sofrer menos.

Violeta: - É, sofrer menos!

Eu: - Como assim sofrer menos?

Margarida: - Ter tudo o que a gente quiser.

Rosa: -Ah tia, uma vida sem tanta luta... E uma casa com piscina!

Questionei-me neste momento sobre o entendimento dessas crianças sobre o sofrimento da vida adulta, estendido a eles desde a tenra idade. Alguns (que não estavam presentes nesse dia), já trabalham com a mãe vendendo doces na rua para que “a vida seja mais fácil”, discurso esse da Orquídea, sete anos e seu irmão, Amarilis, quatro anos. Juntos deles, a prima Margarida, sete anos, que diz ajudar porque é divertido e sua tia precisa. O entendimento do trabalho como fonte necessária para obtenção do sustento e o compromisso com a luta oportunizam diferentes questionamentos acerca do modo como se enxergam dentro desse processo.

Orquídea é uma menina muito esperta, com respostas rápidas e questionamentos inteligentes. Sempre com perguntas complexas, é muito reservada, mas, ainda sim, carinhosa com todos. Depois de certo tempo, desde o início do projeto, foi que tive a oportunidade de conversar com ela, no sentido de compartilhar situações de sua vida. Todas as vezes que lhe encontrava, apesar do sorriso tímido, a tristeza era facilmente perceptível em seu olhar. Certo dia, em um culto de oração, ela chegou à igreja acompanhada por outras crianças da vila, eram cinco ao todo. Todos estranhamente bagunceiros e ariscos, com o comportamento diferente do habitual.

Em um dado momento, fui levada a repreendê-los, pois estavam atrapalhando os demais membros da congregação e, então, começaram a participar do culto, orando entre eles, como faziam os demais presentes na igreja. Todos eles, sem exceção, começaram a chorar de maneira copiosa, até que Lorena me pediu para lhe acompanhar ao bebedouro. Durante o trajeto, fomos conversando, e ela disse que seu pai estava preso e sua mãe fumava muita maconha e, às vezes, batia muito nela, e que isso doía muito. Ela repetiu a frase “isso dói muito, tia” diversas vezes. A dor narrada não era física, mas sim emocional, por ver sua família sem nenhuma estrutura. Sua mãe tem apenas 22 anos e três filhos, baixo nível de escolaridade e é viciada em drogas. Ainda assim, as crianças estão sempre bem cuidadas, de banho tomado e com roupas limpas, diferentes das demais crianças que participam do projeto.

O cuidado das crianças não é de responsabilidade apenas da mãe, mas também da avó, que é o porto seguro das crianças. Muitos casos foram expostos por ela, e, sem possibilidade de intervir de maneira eficaz nessa situação para mudá-la, orientei que não guardasse mágoa de sua mãe, pelo contrário, que a incentivasse a mudar de vida. Na semana seguinte, a mãe começou a vender doces, por R$ 1,00, no estacionamento da igreja, junto com as crianças.

Quando questionei o porquê da decisão à mãe, ela disse que precisava viver de maneira digna com seus filhos. A atividade não durou muito, e tenho notado certo sumiço das crianças nas atividades do projeto.

Situação 3:

Festa das crianças.

Foi organizada pela rede de Ensino da Igreja, uma festa em comemoração ao dia das crianças, e as crianças participantes do Projeto foram convidadas para o evento. Nesse dia,

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