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2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.2 ROTINAS ORGANIZACIONAIS

2.2.3 Rotinas organizacionais e fluxo do conhecimento

O fluxo do conhecimento se compõe na interação entre os atores organizacionais no desempenho de suas atividades cotidianas (BERGER;

LUCKMANN, 1998). Nesse sentido, a construção das rotinas consolida a maneira como o conhecimento é codificado, transformado e compartilhado entre os atores organizacionais (ZOLLO; WINTER, 2002).

As capacidades dinâmicas constituem-se a partir das atividades rotineiras direcionadas à mudança dos recursos, uma vez que se estruturam e se consolidam ao longo do tempo por meio da aprendizagem organizacional (ZOLLO; WINTER, 2002). Por sua vez, os processos organizacionais estão imersos nas rotinas da organização, bem como incorporados em sua elaboração estratégica (TEECE, 2014).

As capacidades dinâmicas são norteadas pela experiência acumulada da organização, por isso desvelar caráter histórico e processual torna-se relevante.

Conforme destaca Winter (2003, p. 991), a rotina é um “comportamento que é aprendido, altamente padronizado, ou quase repetitivo, baseado em parte no conhecimento tácito e nas especificidades dos objetivos”.

Diante disso, a organização molda suas rotinas por meio da codificação do conhecimento. O fluxo de conhecimento integra sentidos, significados, rotinas e práticas que constituem o cotidiano organizacional e estão imbricados na maneira

como os recursos são integrados, construídos e reconfigurados (EASTERBY-SMITH; PRIETO, 2008). Conforme destacam Zahra, Sapienza e Davidsson (2006, p.926), o conhecimento organizacional “envolve um conjunto de tudo o que é conhecido ou compreendido pela organização e seus membros, enquanto que as capacidades substantivas da organização são o conjunto de coisas que a organização pode fazer”. Dessa forma, pode-se considerar que o desenvolvimento de capacidades dinâmicas envolve um processo de recurso-em-uso, que é suportado por meio do fluxo de conhecimento imbrincado nas rotinas dinâmicas (FELDMAN; WORLINE, 2011).

Zollo e Winter (2002) são os principais autores a explorarem a aproximação dos conceitos de rotinas de capacidades dinâmicas e aprendizagem. Para os autores, as rotinas são padrões estáveis e sistemáticos, pelos quais a organizações desenvolvem suas atividades. Conforme discutido por Miner et al. (2006) e Shulz (2006) as rotinas não são apenas evidência da aprendizagem organizacional, mas também seu motor. Diante disso:

O processo de aprendizagem fornece uma perspectiva útil sobre a dinâmica das rotinas organizacionais. Isso nos permite ver que o processo de mudança nas rotinas organizacionais é também um processo de aprendizagem organizacional. (FELDMAN, 2000, p. 625.Tradução nossa).

A dimensão de estabilidade e mudança das rotinas concebe a noção de que há um fluxo do conhecimento que se propaga na organização. Para Schulz (2006) a rotina é fonte de estabilidade para as ações cotidianas, em que mesmo havendo mudanças, não se altera o padrão de como as coisas são feitas. Entretanto, quando se trata de mudança, torna-se possível assumir que as rotinas também são fonte de mudança por meio da aprendizagem. Dessa forma, o processo de aprendizagem, seja deliberado ou emergente, envolvem as rotinas possibilitam a base para o desenvolvimento de uma memória organizacional, que pode ser fonte de estabilidade, como de mudança (MINER et al., 2006).

Os processos que compõem a aprendizagem organizacional são permeados por um fluxo de conhecimento composto por um feixe de relações sociais que perpetuam rotinas e capacidades. Nesse sentido, o conhecimento não é algo estanque ou que contido na “mente dos atores”, mas envolve um fluxo de conhecimento, um processo de conhecer (knowing) que se constitui e reconstitui no

dia-a-dia de uma organização a partir da interação de diferentes atores (ORLIWKOSKI, 2002).

O debate a respeito do fluxo do conhecimento e mudança nos recursos oferece novos olhares a respeito dos processos, rotinas e a elaboração e renovação estratégica. Ressalta-se que a dimensão tácita do conhecimento é concebida de maneira diferente entre a perspectiva de capacidades e de práticas: a primeira enfatiza que o conhecimento é incorporado nas rotinas, devido ao seu grau de complexidade torna-se fonte de valor, uma vez que reduz possibilidade de imitação por outras organizações; já a segunda compreende a dimensão tácita a partir da interação entre os atores e do processo de enactment no ato performativo das rotinas (PARMIGIANI; HOWARD-GREENVILLE, 2011).

Apesar dessas diferenças, ambas as perspectivas apresentam lacunas teóricas no tocante ao nível de análise, posto que a perspectiva de capacidades tem buscado desvelar os microfundamentos (TEECE, 2007; FOSS, 2011; PETERAF;

STEFANO; VERONA, 2012; HELFAT; PETERAF, 2015) e abordagens recentes de rotinas tem buscado elucidar os resultados macro ou a interrelação entre as rotinas (HOWARD-GRENVILLE et al., 2016; KOUAMÉ; LANGLEY, 2017). Por conseguinte, tal questão pode ser reconhecida como uma das principais lacunas teóricas, de modo que autores como Salvato e Rerup (2011) propõem uma análise integrada entre micro e macro na pesquisa de rotinas e capacidades.

As rotinas organizam o fluxo de conhecimento, padronizando ações que objetivam produzir resultados significativos a partir das decisões estratégicas (PATRIOTTA, 2003). O fluxo do conhecimento encontra-se incorporado nas interações sociais e experiências vivenciadas (ARGYRIS; SCHON, 1978;

ANTONELLO; GODOY, 2009). Com isso, a partir de seu caráter interpessoal, os papéis sociais e as regras que guiam a coletividade, se refletem na maneira como a organização cria, se apropria e manifesta um corpo específico de conhecimento (ARGYRIS; SCHON, 1978).

A construção de sentido presente nas rotinas organizacionais é a base pela qual é possível analisar fluxo do conhecimento, uma vez que as rotinas se constituem na ação, desdobrando-se na institucionalização e reconhecimento de determinadas práticas organizacionais em meio a experiências compartilhadas (ANTONELLO; GODOY, 2009). Para tanto, o conhecimento derivado das interações

institucionalizadas transforma-se em mecanismos estáveis por meio das rotinas (GHERARDI, 1999; PATRIOTTA, 2003).

Essa aproximação entre as capacidades dinâmicas e conhecimento possibilita analisar a criação, absorção, integração e reconfiguração de conhecimento (VERONA; RAVASI, 2003). Por meio dos sentidos compartilhados os indivíduos coletivamente buscam atribuir sentido ao fluxo de informações oriundas do ambiente interno e externo (WEICK, 1995; WHITTINGTON; MELIN, 2003;

ANTONELLO; GODOY, 2009). Diante disso:

A perspectiva de capacidades poderia retirar ideias das práticas e focar em um nível mais baixo de análise, considerando como os atributos específicos da firma podem afetar a coordenação, compartilhamento de conhecimento, e execução de tarefas internamente e entre rotinas. (PARMIGIANI;

HOWARD-GREENVILEE, 2011, p. 445.Tradução nossa).

Se há processos de comunicação que conduzem a vida na organização, há também reflexos dessa comunicação sobre o compartilhamento do conhecimento organizacional e na maneira como as oportunidades ambientais são assimiladas e interpretadas pela mesma, por meio dos processos de SSR. Tais aspectos sustentam não apenas o monitoramento do ambiente, mas como a organização assimila e compartilha conhecimentos já existentes e novos conhecimentos necessários para a reconfiguração dos recursos organizacionais. As rotinas consolidam a maneira como o conhecimento é compartilhado nas organizações.

Conforme determinadas rotinas se institucionalizam, os processos de aprendizagem tornam-se constantes, fazendo com que as dimensões das capacidades dinâmicas se desenvolvam. Diante disso, se evidencia um processo recursivo entre as rotinas e a aprendizagem (BECKER, 2005).

Os recursos se reconfiguram por meio de dois processos: exploitation e exploration (MARCH, 1991). O termo exploitation envolve aproveitar o conhecimento que a organização já detém, aproveitando-o de maneira efetiva, por meio do refinamento, da escolha, seleção e execução. De maneira complementar, Cohen e Levinthal (1990) afirmam que o exploitation envolve a habilidade da organização incorporar conhecimento adquirido, de modo a transformar suas operações.

Com base nessas questões, pode-se considerar que os processos de mudança nas organizações descortinam um novo arranjo nos processos, estruturas e comportamentos, indicando não apenas como aprendizagem ocorreu, mas como

as relações interpessoais estabelecem novos significados, rotinas e sistemas formais e informais de criação e compartilhamento de conhecimentos (FLEURY;

FLEURY, 2004). As mudanças envolvidas na reconfiguração de recursos envolvem mudanças nas rotinas, e cada nova dinâmica ou movimento de ruptura, mudança na dinâmica interna e criação de rotinas envolve um movimento no fluxo do conhecimento, seja em determinados conhecimentos que caem em desuso, seja em um novo fluxo de conhecimento em direção a um processo de institucionalização do conhecimento.

Para Eisenhardt e Martin (2000) os processos de criação de conhecimento são aspectos chave que orientam a evolução das capacidades dinâmicas. Além disso, a dinâmica das capacidades dinâmicas pode variar com base em sua dependência do conhecimento existente, ou seja, em mercados moderados, as capacidades dinâmicas dependem do conhecimento, e em mercados de rápida mudança, a incerteza em tais ambientes não permitem antecipar possíveis retornos e as capacidades dinâmicas desenvolvem-se menos no conhecimento existente e mais em criar conhecimentos de acordo com as situações emergentes.

Teece (2000), quando trata do conhecimento, compreende que os ativos organizacionais são constituídos por um conhecimento tácito e codificado que dificultam que os concorrentes copiarem tais conhecimentos. Vale ressaltar que o conhecimento, para o autor, pode ser algo gerenciado enquanto ativo e não um processo de conhecimento organizacional, mas de gestão do conhecimento para a criação de valor. Além disso, destaca que o conhecimento organizacional está incorporado nos processos e rotinas e estruturas, podendo ser transferido de uma organização para outra, desde que um grupo de indivíduos com padrões de trabalho já estabelecidos permaneçam em conjunto em uma outra organização.

Patriotta (2003) argumenta que o processo de criação e institucionalização do conhecimento conduz a novos arranjos organizacionais, como novas rotinas.

Segundo o autor, esse fluxo envolve criação, uso e institucionalização do conhecimento; institucionalização sendo o processo pelo qual componentes significativos do conhecimento e da ação humana são incorporados em uma estrutura de significado estável. A configuração particular do conhecimento é afetada por três fatores importantes: história (o conhecimento volta ao segundo plano como resultado da sedimentação de experiências de aprendizado ao longo do tempo), hábito (conhecimento quando está profundamente internalizado e institucionalizado

tende a ser usado quase automaticamente) e; c) experiência (o conhecimento por definição tácita está relacionado a isso). O processo de inovação e conhecimento estão diretamente conectados. Nesse sentido, aspectos incrementais e inovações em uma organização está envolta no modo como uma organização explora e utiliza o conhecimento existente adquirido ao longo dos anos, principalmente alterando suas rotinas e criando práticas padronizadas (BENNER; TUSHMAN, 2003).

A pesquisa desenvolvida por Patriotta (2003) em fábricas automotivas relaciona o conteúdo do conhecimento ao tipo de conhecimento (projeto com conhecimento de blueprint, rotinas com fluxo de conhecimento e sensemaking com conhecimento de experiência) precisa ser entendido à luz de um processo paralelo, onde também há atrofia de velhas competências. Nesta atrofia, ocorre a desinstitucionalização do conhecimento, onde o conhecimento a partir da experiência é suspenso, o conhecimento procedimental que está nas rotinas entra em descontinuidade, e os conhecimentos obtidos nas plantas vão para o desuso (TAKAHASHI, 2007).

As capacidades dinâmicas estão envolvidas por significados compartilhados que os indivíduos coletivamente buscam atribuir ao fluxo de informações do ambiente interno e externo (WEICK, 1995; WHITTINGTON; MELIN, 2003). Logo, reconfiguração dos recursos pode ser analisada através das mudanças nas rotinas que, por sua vez, podem ser analisadas através da mudança e do processo de institucionalização e desinstitucionalização do conhecimento. Através da reconfiguração de recursos e organização estabelece novas configurações (EISENHARDT; MARTIN, 2000), acumula experiências, articula e codifica o conhecimento (ZOLLO; WINTER, 2002), bem como estabelece padrões de atividade através de processos de aprendizagem (WINTER, 2003), gerando novas ideias, produtos e serviços (TEECE, 2007, 2014). O conhecimento compartilhado na organização integra práticas que constituem uma organização e estão embutidas na maneira como os recursos são integrados, construídos e reconfigurados (EASTERBY-SMITH; PRIETO, 2008). Diante disso, assume-se neste estudo que o fluxo de conhecimento organizacional diz respeito a forma com que a organização cria, utiliza e institucionaliza os conhecimentos referentes as suas atividades (PATRIOTTA, 2003). O processo de conhecer (knowing) se constitui no dia-a-dia de uma organização a partir de diferentes atores imersos nas rotinas (ORLIWKOSKI,

2002). Rotinas representam, assim, um fluxo completo de conhecimento (PATRIOTTA, 2003).

Partindo-se desses aspectos, ressalta-se que apesar desse fluxo ser descrito na literatura, ele pode não seguir um fluxo esperado no cotidiano organizacional. Este processo pode ser acelerado, retardado ou mesmo caótico em função de outros fatores organizacionais, como por exemplo, a realização improvisada de atividades desempenhada pelos atores organizacionais. O improviso, assim, pode gerar impactos na formação, dinâmica e consolidação das rotinas organizacionais, podendo gerar também resultados não intencionais.

Durante as primeiras análises do caso estudado, observou-se que esse fator especificamente estava presente e que estava influenciando as mudanças organizacionais advindas da reconfiguração de recursos. Por isso, foi necessário incluir na fundamentação teórica a literatura sobre improviso, a fim de fundamentar a compreensão da realidade que estava sendo analisada. Assim, a próxima seção explora o conceito de improviso e a aproximação entre improvisação e as rotinas organizacionais.