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Rua do Almada, Travessa da Praça da Trindade, Praça da Trindade

Capítulo 1 – Salão Jardim da Trindade: das pré-existências ao projeto do Cinematógrafo

1.2. Rua do Almada, Travessa da Praça da Trindade, Praça da Trindade

Até ao ano de 1912, num terreno compreendido entre a Rua do Almada, a Praça da Trindade e a Travessa com o mesmo nome (atualmente Rua Dr. Ricardo Jorge) existiu uma habitação de consideráveis dimensões, com entrada a partir da Rua do Almada e com um extenso jardim posterior. Na mesma rua, do seu lado esquerdo, encontraríamos uma outra habitação de dimensões mais reduzidas, cujo jardim traseiro ocuparia quase a totalidade do próprio lote e dos dois contíguos. Seriam estas as habitações e respetivos jardins que iriam ser aproveitados e em grande medida absorvidos pela construção do Cinematógrafo da Trindade, ou como ficaria conhecido, Salão Jardim da Trindade, que inicia as obras em 191281.

Numa tentativa de clarificar a forma como este Salão Jardim iria desenvolver neste espaço, revelou-se necessário o estudo dos seus antecedentes e a apresentação de uma análise sumária dessas pré-existências.

Até aos inícios do século XVIII, o Porto era ainda uma cidade muralhada, com traçado marcadamente medieval mas que, ainda nesse século, veio a registar um crescimento e desenvolvimento comercial, económico e também demográfico. Este facto deveu-se, em grande medida, não só à produção vinícola e ao seu comércio, mas também ao terramoto de 1755 em Lisboa, que causou uma grande emigração para o Porto82. Ainda

assim desde o século XVI e XVII, a cidade apresentava já um crescimento que extravasava este limite muralhado, causado pela construção em massa dentro de muros na cidade, sob domínio filipino. Já aqui estava prevista, não intencionalmente, um crescimento radial da cidade83.

81 CINEMATÓGRAFO – Jardim da Trindade – Cinema. Construir. [Licença de obra n.º: 174/1912]. Porto:

Arquivo Histórico Municipal do Porto. Reprodução digital disponível em <http://gisaweb.cm- porto.pt/units-of-description/documents/78406/ ?q=Trindade>. fls. 318-326

82 TEIXEIRA, Manuel C.; VALLA, Margarida – O Urbanismo Português. Séculos XIII-XVIII. Portugal-

Brasil. [Lisboa]: Livros Horizonte, 1999. ISBN 972-24-1061-X, p. 293 e 294

83 FERRÃO, Bernardo José – Projecto e Transformação Urbana do Porto na Época dos Almadas.

1758/1813. Uma contribuição para o estudo da cidade pombalina. Prefácio de Fernando Távora. 2ª ed.

O primeiro plano de desenvolvimento urbano para o Porto fora de muralhas foi pensado já no início do século XVIII84, ainda por iniciativa do Cabido da Sé. Este plano pretendia tomar medidas para controlar, sobretudo, alguns problemas de desenvolvimento urbano. A primeira etapa deste desenvolvimento estaria pensada para a zona do Campo das Hortas (extramuros), situada entre a porta do Olival e a porta dos Carros e que, mais tarde, se desenvolveria para a zona do Laranjal, onde se situaria a Rua do Almada, como iremos perceber85.

Entretanto a situação económica em Portugal apresentava-se cada vez mais favorável e intensificou-se na viragem para o século XVIII. Esta circunstância está ligada não só à descoberta do outro no Brasil, «cujo fluxo mais importante coincidirá com o reinado de D. João V (1706-1750)» mas também à assinatura do Tratado de Methuen86,

em 1703, entre Portugal e Inglaterra. Graças ao acordado neste Tratado, o Porto seria amplamente favorecido, principalmente por esta cidade ser um «centro exportador da mais importante região vinícola portuguesa». Além do aumento produtivo, a atividade económica disparou e, assim, estavam garantidos os investimentos para as transformações na estrutura urbana87.

Esta fase de progresso económico e sociocultural coincidiu com o já referido terramoto que destruiu Lisboa em 1755. Esta catástrofe obriga a estratégias de reconstrução e, por isso, «à concentração das atenções e recursos nacionais» neste esforço de voltar a erguer parte da cidade. Ficamos a conhecer aqui a figura de Sebastião José de Carvalho e Melo, conhecido por Marquês de Pombal, e responsável pela Secretaria de Estado dos Negócios do Reino88.

Teria sido à luz deste contexto que a Junta das Obras Públicas foi criada. Contudo, como Joaquim Ferreira Alves refere, não é possível, à partida, designar uma data precisa

84 TEIXEIRA; VALLA – O Urbanismo Português…, p. 293 e 294 85 Ibidem, p. 293 e 294

86 Trata-se de um acordo comercial onde Portugal abandona o «proteccionismo votado à sua indústria

nascente» e que permite o acesso a bens, como tecidos e lanifícios ingleses, e em que a Grã-Bretanha se compromete a reduzir um terço da tributação dos vinhos nacionais. Neste sentido, a produção nacional em Portugal aumenta de sete mil para quarenta e quatro mil pipas anuais. Este aumento que favorece em grande medida o país acontece ao longo de todo o século XVIII. Cf. FERRÃO – Projecto e Transformação Urbana

do Porto na Época dos Almadas…, p. 156

87 FERRÃO – Projecto e Transformação Urbana do Porto na Época dos Almadas..., 1989, p. 156 88 Ibidem, p. 172

para a sua criação, embora se aponte para o ano 1758. Ainda assim acrescenta que «uma série de referências levam-nos a pensar que a sua instituição foi mais tardia, e bem assim a ter certeza que só a partir de 1763 começou a desempenhar as suas funções»89. A sua criação manifestou-se benéfica, a nível local, na cidade do Porto, visto esta cidade ter ficado devedora de «toda uma política de desenvolvimento no campo da sua morfologia urbana», assim como da própria modernização da cidade90. Teria ficado como presidente desta Junta, João de Almada e Melo, primo de Marquês de Pombal que, mais tarde e ao lado do seu filho, Francisco de Almada e Mendonça governaram a cidade do Porto entre 1757 e 1804, sucessivamente91.

A reconstrução levada a cabo em Lisboa, com Marquês de Pombal à cabeça, foram por demais importantes, como influência, para o novo plano urbanístico que se estava a pensar no Porto. O objetivo primordial dos Almada era um planeamento e diversas obras de reestruturação da cidade, definindo, em primeiro lugar, as principais artérias que já se encontravam em expansão para fora das muralhas.

Esta junta, além dos projetos de planeamento urbano, estaria igualmente encarregada da execução das obras. Estas obras foram possíveis, acima de tudo, graças à já referida crescente economia da cidade pelo comércio do vinho do Porto, tendo sido, para tal, criada a Companhia de Agricultura das Vinhas do Alto Douro. Esta Companhia, fundada pelo próprio Marquês de Pombal em 1757, era a que suportava em grande medida os encargos destas obras, tal como refere Manuel Teixeira: «O próprio financiamento das obras empreendidas era feito fundamentalmente à custa de um imposto sobre o vinho lançado pela Companhia de Agricultura das Vinhas do Alto Douro»92.

Entre os principais objetivos das obras promovidas pelos Almada encontram-se a pretensão de promover o desenvolvimento fora de muralhas de forma ordenada; facilitar os acessos à cidade e seus centros vitais com esta abertura de novos arruamentos; renovação da zona ribeirinha e a criação de novos bairros ou zonas residenciais para a

8989 ALVES, Joaquim Jaime Ferreira – O Porto na Época dos Almada (1757-1804). Arquitectura. Obras

Públicas. Volume 1. Tese de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da

Universidade do Porto, 1987, p. 175

90 Ibidem, p. 175

91 TEIXEIRA; VALLA – O Urbanismo Português…, p. 294-295 92 Ibidem, p. 294-295

burguesia comerciante, fora do núcleo medieval. Devemos ainda salientar que não foram apenas estas as preocupações almadinas: nas suas planificações, demonstravam igualmente preocupações a nível da higienização, limpeza, serviço de abastecimento das águas, pavimentação da maioria das ruas existentes e criação de passeios. Aliadas a estas preocupações, a abertura de novos arruamentos tentavam corresponder ainda a um enobrecimento da cidade, ao mesmo tempo que respondiam a necessidades funcionais diversas e fruto da evolução socioeconómica da cidade (algo que já vem, não só desta época dos Almada correspondente ao século XVIII, mas também dos períodos de D. João I e D. Manuel I)93.

A primeira grande obra realizada por parte da Junta das Obras Públicas extramuros foi o desenvolvimento urbano da zona a norte da praça das Hortas e do Bairro com o mesmo nome que pretendiam regularizar, planificando um novo bairro que veio a ser conhecido como o dos Laranjais94. Foi a partir daqui que nasceram novas aberturas como

foi o caso da Rua do Almada (que se irá articular à Rua das Hortas, aberta desde 1718) ao lado do chamado Bairro da Rua do Almada ou dos Laranjais que nasceu desta expansão ordenada, dentro da tal necessidade e pretensão em dar continuidade, para norte, ao desenvolvimento urbano da cidade numa zona que era de imediata proximidade às muralhas da cidade95.

Na primeira metade do século XVIII teria sido planeado a construção de praças e traçado urbano com formas regulares e, na mesma linha, arquiteturas com caráter mais erudito. Sendo que, nesse sentido, teria sido decidido também que os projetos, sobretudo para as habitações, se iriam adequar e respeitar a topografia do terreno assim como a malha pré-existente, o que poderia resultar num conjunto mais irregular. No entanto, na segunda metade do século XVIII, esta zona teria recebido diversas construções da burguesia e nobreza portuense contrariamente ao previsto no anterior projeto que previa aforamentos feitos com a aristocracia96.

93 OLIVEIRA, J. M. Pereira de – O espaço urbano do Porto. Condições naturais e desenvolvimento.

Volume II. Tese de Doutoramento em Geografia apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1973, p. 265-268

94 ALVES – O Porto na Época dos Almada (1757-1804)…, p. 203 95 OLIVEIRA, J. M. Pereira de – O espaço urbano do Porto…, p. 268 96 TEIXEIRA; VALLA – O Urbanismo Português…, p. 294

Tais construções poderiam ser facilmente justificadas, tendo em conta que, sendo zonas extramuros, a disponibilidade de áreas livres se manifestam mais propícias a transformações, aliado ao facto de que a nobreza portuense começava a participar na vida comercial da cidade, levando assim à construção de casas solares adaptadas a um traçado urbano muito idênticas às estruturas compositivas e organizativas das habitações burguesas contemporâneas. As diferenças, aponta Bernardo Ferrão, regem-se apenas nas frentes construtivas e no número de pisos97. Manuel Teixeira acrescenta ainda que esta situação poderia corresponder, de igual modo, «quer ao diferente estatuto da zona que se estava a construir quer, provavelmente, a mudanças na estrutura económica e social do Porto que se faziam sentir neste princípio do século XVIII.».98

Já as ruas, como elemento vital da cidade, quando abertas, teriam de ser largas e retilíneas e os próprios edifícios, na sua conceção, eram obrigados a seguir um programa pré-definido e com uma composição uniforme nas fachadas (o que retirava certa liberdade ou não deixava espaço para iniciativa privada). Assim, os proprietários dos terrenos que pretendiam construir, teriam de seguir um programa arquitetónico definido pelos arquitetos da Junta das Obras Públicas. Porém, toda a organização dos edifícios «por detrás das fachadas uniformes» era deixada a cargo dos promotores conforme as necessidades de cada um.99

Assim, de entre as razões enumeradas para o estudo e cuidado no planeamento do bairro dos Laranjais seria, como refere Joaquim Ferreira Alves «não permitir que se continuasse a construir segundo o “particular capricho”»100.

Apesar deste programa onde os desenhos de alçados das habitações vinham a acompanhar os projetos para a abertura dos novos arruamentos ou melhoramentos dos pré existentes, Francisco Barata Fernandes observa que, entre os diferentes lotes, não existe correspondência tipológica101. No geral, estes projetos de alçados de conjuntos eram realizados para as habitações plurifamiliares. Ainda que muitas das habitações com

97 FERRÃO – Projecto e Transformação Urbana do Porto na Época dos Almadas…, p. 155 98 TEIXEIRA; VALLA – O Urbanismo Português…, p. 294

99 Ibidem, p. 296

100 ALVES – O Porto na Época dos Almada (1757-1804)…, p. 203

101 FERNANDES, Francisco Barata – Transformação e Permanência na Habitação Portuense. As formas

caráter burguês ou nobre tenham sido construídas ainda durante o trabalho da Junta de Obras, é um facto que a preocupação da elaboração destas propostas tenham sido votadas a este tipo de habitação plurifamiliar. Por seu turno, a burguesia portuense, continuava a preferir habitar em edifícios de habitação unifamiliar, significando, nesse sentido «Independência de acessos, privacidade e ligação à terra.»102

Os edifícios plurifamiliares, apesar de seguirem a morfologia daqueles que já se encontravam dentro do limite das muralhas (anterior aos Almada), eram relativamente mais largos e sistematicamente maiores, mais profundos e com uma área livre para logradouro, correspondente a cada lote103. A Rua do Almada não será exceção na construção destas habitações, e iremos evidenciar que dois dos edifícios que irão ser ocupados pelo Salão Jardim da Trindade, além de respeitar estas configurações, mantêm o aspeto exterior da fachada.

Barata Fernandes distingue os edifícios de habitação corrente da burguesia portuense entre «o da continuidade com a tipologia polifuncional almadina e o da casa burguesa monofuncional»104 que estabelece rutura com o anterior. O primeiro, além de todas as características expostas com algumas divergências (sobretudo a nível da dimensão e ocupação do lote), anexa já instalações sanitárias nas traseiras (ainda de forma muito rudimentar), pé direito mais alto em cada piso, maior número de áreas para arrecadação e armazenamento e organização dos «logradouros com jardins e hortas»105. Esta tipologia, ao ir de encontro com as de habitação plurifamiliar, inscreve-se, sem qualquer interrupção, lado a lado com estas, ao longo dos arruamentos e será «fundamentalmente uma solução de centro urbano» (ainda que apareçam nas ruas que se desenvolveram fora e de acesso à cidade). A casa burguesa monofuncional «corresponde à especialização de uma edificação eminentemente urbana numa só função: a de habitar», ou seja, é um tipo de construção que se insere da melhor maneira, pelas suas características, na área da cidade definida por uma «coroa semicircular polarizada» desde o centro muralhado106. Desta feita, percebemos que o edifício habitacional com maiores 102 Ibidem, p. 142-143 103 Ibidem, p. 143 104 Ibidem, p. 170 105 Ibidem, p. 170 106 Ibidem, p. 170

dimensões que o novo Cinematógrafo da Trindade vai aproveitar para a sua construção poderia corresponder ao primeiro grupo de construções burguesas, pela compatibilidade de características que se apresentam, sobretudo na organização e valência dos espaços da habitação e por tão bem se inserir na malha urbana almadina.

Porém, chegados aqui, salientam-se dois eixos que se justapõem nestes desenvolvimentos urbanos da segunda metade do século XVIII na cidade do Porto: em primeiro lugar o poder absolutista representado pelos Almada, traduzidos na uniformidade e ordenamento urbanístico, e, em segundo lugar, o poder da burguesia que «efectivamente comandava os processos económicos de urbanização e de promoção habitacional da cidade». Neste último caso, tais circunstâncias ter-se-iam traduzido numa ausência desta pretendida uniformidade de dimensões de parcelas urbanas, excetuando alguns casos em que os terrenos eram expropriados e eram reorganizados, ou terrenos que não teriam ainda sido urbanizados. Portanto, era mais simples definir uma estrutura de loteamento mais uniforme com os lotes de dimensões fronteiras pouco largas e bastante profundos)107.

As diretrizes deste planeamento almadino para expansão da cidade portuense não vieram a concretizar-se na sua totalidade. A estagnação destas obras deve ser vinculada com as contingências conturbadas que pontuam o Porto neste século, como as invasões francesas, entre 1807 e 1813 e, alguns anos depois, pela guerra civil, entre 1832 e 1834108. Através da análise da Planta Redonda de George Balck109, publicada em 1813110, é possível perceber, por um lado, dos objetivos dos Almada para a cidade – assim como da extensão das suas obras –, mas, por outro lado, denota-se como a cidade não teve o desenvolvimento com que haveria sido proposto111.

Todavia, entendemos que algumas das artérias rasgadas na cidade pelos Almada já se encontram em grande medida «preenchidas» com construções, embora em algumas das ruas secundárias estas ainda estivessem por concretizar112. Esta planta apresenta-nos

107 TEIXEIRA; VALLA – O Urbanismo Português…, p. 296 108 OLIVEIRA – O espaço urbano do Porto…, p. 285

109 Dir. George Balck, Cidade do Porto: planta redonda, 1813. In Arquivo Histórico Municipal do Porto.

Disponível em <http://gisaweb.cm-porto.pt/units-of-description/documents/535310/?q=balck+1813>

110 Ver Anexo 1, Figs. 1 e 2

111 OLIVEIRA – O espaço urbano do Porto…,, p. 285 112 TEIXEIRA; VALLA – O Urbanismo Português…, p. 296

a cidade do Porto pela primeira vez cartografada em forma documental e sintetizada além de «constituir um marco particularmente importante no estudo da evolução do plano urbano na cidade do Porto.» 113, tornando-se, por isso, um ponto de partida que nos oferece uma ideia geral do plano urbano da cidade neste tempo e pode-nos auxiliar numa leitura evolutiva até aos nossos dias. A partir desta seguiram-se muitas outras plantas «de diverso interesse e valor, quase todas relacionadas com os acontecimentos históricos e militares»114.

É, portanto, a partir da leitura das plantas de George Balck de 1813115, juntamente com as de Teles Ferreira de 1895116, e em concordância com o primeiro pedido de licença de obras para a construção do Cinematógrafo da Trindade117, que conseguimos continuar a nossa leitura deste novo edifício que se implantaria no ângulo formado pelas Ruas do Almada, Travessa e Praça da Trindade. Ao entendermos o desenvolvimento urbano desta zona do Laranjal e a importância que a Rua do Almada e a Praça do Laranjal adquiriam desde meados do século XVIII, a par da sucinta reflexão sobre a tipologia habitacional portuense nestes séculos (sobretudo com as propostas do estudo de Barata Fernandes118) conseguimos construir um pensamento sobre este edifício pré-existente.

Vamos, de igual modo, perceber a ocupação e volumetria desses espaços habitacionais pré-existentes e a maneira como o edifício do cinematógrafo se iria inscrever no local e podemos, desta maneira, ter uma base sólida para a análise do nascimento e evolução do Salão Jardim da Trindade.

Como foi referido no início do subcapítulo, ambos os edifícios teriam a sua entrada a partir da Rua do Almada. Esta, delineada por Francisco Xavier Rego, teve a sua

113 OLIVEIRA – O espaço urbano do Porto…, p. 285 114 Ibidem, p. 285

115 Dir. George Balck, Cidade do Porto: planta redonda, 1813. In Arquivo Histórico Municipal do Porto.

Disponível em <http://gisaweb.cm-porto.pt/units-of-description/documents/535310/?q=balck+1813>. Ver Anexo 1, Figs. 1 e 2

116 Dir. Augusto Geraldo Teles Ferreira, Planta topográfica da cidade do Porto, 1892. Quadrícula 255. In

Arquivo Histórico Municipal do Porto. Disponível em <http://gisaweb.cm-porto.pt/units-of- description/documents/519573/?q=teles+ferreira+255>. Ver Anexo 1, Fig. 3 e 4

117 CINEMATÓGRAFO – Jardim da Trindade – Cinema. Construir. [Licença de obra n.º:

174/1912]…,Fls.318-326. Ver Anexo 2.1, Fig. 1

construção iniciada em 1761 e prolongou-se até à segunda metade do XVIII119, sendo já nessa altura considerada uma das artérias principais e mais extensas da cidade120.

A habitação de maiores dimensões121 inseria-se entre os três arruamentos referidos – Rua do Almada, Travessa da Praça da Trindade e Travessa da Trindade – e ocupava uma área relativamente extensa em relação aos edifícios habitacionais mais próximos122, organizando-se, de uma maneira geral, por um edifício principal, com anexos adjacentes, um pequeno pátio aberto, a partir do qual se organizam estas dependências, e um jardim, também ele extenso, que lhes ficava imediato123.

O jardim, que mais tarde veio a ser parcialmente aproveitado para a nova construção, encontrava-se voltado para a Praça da Trindade e em parte para a Travessa da Trindade, apresentando uma traça regular com inclusão de fontes e escadarias de acesso à habitação principal124.

Contiguamente a este complexo encontraríamos, num lote mais reduzido, a outra habitação que se caracterizava pelo seu desenvolvimento em profundidade, com um jardim que ocupava quase a totalidade de dois lotes e que iria integrar, igualmente, o novo espaço.

Como tal, entendemos, a partir deste primeiro projeto125, que o edifício do cinematógrafo estava pensado para ocupar o espaço de um complexo habitacional com jardim posterior e iria aproveitar o jardim da habitação que se encontrava à sua esquerda, na Rua do Almada126.

Contrariamente ao complexo pré-existente que teria a sua frente e, assim, entrada pela Rua do Almada, o novo espaço passaria a assumir as três frentes, designadamente,

119 ALVES – O Porto na Época dos Almada …, p. 204-205 120 Ibidem, p. 206

121 CINEMATÓGRAFO – Jardim da Trindade – Cinema. Construir. [Licença de obra n.º: 174/1912]…,

fls, 323: Planta Geral; Alçado para a Travessa da Praça da Trindade; Alçado para a Rua do Almada. Ver Anexo 2.1, Figs. 1 a 3

122 Ver Anexo 1, Figs. 3 e 4

123 CINEMATÓGRAFO – Jardim da Trindade – Cinema. Construir. [Licença de obra n.º: 174/1912]…,

fls, 323: Planta Geral. Ver Anexo 2.1, Fig. 1

124 CINEMATÓGRAFO – Jardim da Trindade – Cinema. Construir. [Licença de obra n.º: 174/1912]…,

fls, 323: Planta Geral

125 CINEMATÓGRAFO – Jardim da Trindade – Cinema. Construir. [Licença de obra n.º: 174/1912]…,

fls. 321-321-v; 323. Ver Anexo 2.1,, Figs. 1 a 3

para a Rua do Almada, Travessa da Trindade e Praça da Trindade e incluiria, como iremos ver, entradas e saídas a partir das mesmas127. De modo a integrar o novo edifício do