2 A ANÁLISE DO DISCURSO FILIADA A PÊCHEUX
4.1 RUBEM ALVES
Informar sobre o autor das crônicas aqui analisadas tem o propósito de localizar o leitor desta dissertação no tempo e no espaço a respeito das publicações de Rubem Alves. Tais informações levam o leitor das crônicas a entender determinados discursos ali presentes, principalmente, no que diz respeito ao sistema educacional.
Nasce em 1933, o mineiro Rubem Alves, na cidade de Boa Esperança. Foi rico, mas também foi pobre. Dos tempos de pobreza só tem memórias de felicidade, quando rico, paradoxalmente, conheceu a infelicidade e o sofrimento. Isso ocorre quando se muda com seus pais para o Rio de Janeiro e é matriculado no Liceu, um dos colégios mais famosos da grande metrópole. Neste começa a fazer comparações, quando se descobre caipira, pois seus colegas cariocas não perdoam seu sotaque mineiro e fazem dele motivo de chacota. Diante deste e de outros fatos, conhece a solidão, mas encontra acolhimento na religião. Suas idéias na religião, no entanto, são recebidas com desconfiança. Em 1959, casa e tem três filhos: Sérgio, Marcos e Raquel. Inventando estórias para sua filha, descobre-se escritor de estórias para crianças. Por um período (1963), estuda em New York e volta ao Brasil um mês depois do golpe militar. É denunciado como subversivo pelas autoridades da Igreja Presbiteriana, à qual pertence na época. Naquele espaço, experimenta o medo e fica conhecendo melhor o espírito dos ministros de Deus. Necessitando sair do Brasil, vai para Princeton, Estados Unidos, onde estuda e escreve sua tese de doutoramento. Trata-se de um dos primeiros brotos daquilo que posteriormente recebeu o nome de Teologia da Libertação. O tempo passa e muda seu jeito de pensar. Volta ao Brasil em 1968, com um Ph.D debaixo do braço, mas sem emprego. O economista Paulo Singer lhe abre a porta do ensino superior, indicando-o para uma vaga para professor de Filosofia na FAFI-SP. Em 1974, transferiu-se para a UNICAMP, onde ficou até se aposentar.
Os duros golpes que recebe na vida fazem Rubem Alves descobrir a literatura e a poesia que lhe dão o pão para o corpo e a alegria para a alma. Ao falar de Ciência, diz que esta é fogo e panela: coisas indispensáveis na cozinha. Sente-se como Nietzsche, que dizia haver abandonado todas as ilusões de verdade. Em suas crônicas, é comum usar discursos de Nietzsche, T. S. Eliot, Camus, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Adélia Prado, entre outros.
Quanto à formação profissional, é professor, educador, pedagogo, poeta, filósofo, teólogo e psicanalista. Acredita que, no mais profundo do inconsciente, mora a beleza, razão pela qual acredita em mudanças no ser professor. Exerce a arte com prazer. Segundo ele próprio, as conversas com seus pacientes são fontes de inspiração para escrever as crônicas.
Com formação bastante heterogênea, Rubem Alves se mostra polivalente, sabendo falar e criticar quando se faz necessário. É, principalmente, do lugar de educador que Rubem Alves fala em suas crônicas, mas ele diferencia educador e professor.
O primeiro, disse ele, habita um mundo em que a interioridade faz a diferença, em que as pessoas se definem por visões, paixões, esperanças e horizontes utópicos, enquanto o segundo é um “funcionário de um mundo dominado pelo Estado e pelas empresas”, é uma entidade gerenciada, administrada segundo a sua excelência funcional, excelência esta que está sempre julgada a partir dos interesses do sistema. [...] Alves conclui que, na realidade, o segundo é funcionário, e o primeiro é um funcionário ruim, justamente porque o ritmo do mundo do educador não segue o mundo da instituição. (GHIRALDELLI Jr., 2006, p.137).
Com freqüência, ouve-se também a voz do psicanalista nas crônicas, expondo seu ponto de vista através de seu dito. Ou seja, são várias as FD de que se apropria para produzir seus discursos, pois nelas se inscreve e de lá fala com o intuito de produzir um efeito de sentido determinado. O seu discurso revela críticas ao sistema educacional brasileiro e, nas obras que abordam o tema Educação, age com um estilo próprio e marcante ao tecer críticas. Estas, no entanto, ocorrem porque deseja ver oferecida aos alunos do país uma educação mais justa, e aos professores, a possibilidade de se realizarem como mestres.
Seu estilo leva o leitor à reflexão. Mostra-se corajoso e mordaz ao apontar os problemas que circunscrevem a Educação, pois tal tema lhe causa perplexidade e inquietação. Por isso, ao produzir seus discursos, aparenta ser possuidor de um espírito
infantil, que acredita na vinda de “Papai Noel” para realizar seus sonhos. Na obra Conversas sobre educação (2003), existe uma preocupação especial com o leitor-professor, uma vez que afirma ser o ato de educar um desafio e, para que este se realize, é preciso mostrar ao docente que ele pode trabalhar o discente, buscando desenvolvê-lo em sua plenitude. Para isso, a forma-sujeito percorre uma grande variedade de temas, provocando no leitor-professor uma reação transformadora a fim de que se torne educador.
Diante de tudo isso, pode-se dizer que os discursos de Rubem Alves não se enquadram entre os dos escolanovistas8 mas age com a visão destes, pois busca novas concepções de ensino. Conversa, em suas obras, com aqueles que fazem a escola – administradores, professores e alunos –, no intuito de mostrar, principalmente, aos professores, não pedagogias, mas suas experiências. Sua maneira tranqüila e serena de falar, ou melhor, de escrever toca educadores mais sensíveis para um ideário romântico, uma vez que cultiva o respeito à individualidade da criança, à valorização da infância, à criatividade. Muitas vezes critica a ciência, a tecnologia e o planejamento julgando-os como responsáveis pela infelicidade do homem. Assim, incentiva o cultivo do sonho de um passado bom que deveria estar presente dentro de cada ser ao atuar no dia-a-dia. Segundo Ghiraldelli Jr. (2006, p.137):
A escola para Rubem Alves [...] não planeja, não racionaliza, não treina. Daí a ‘coerência didática’ de Rubem Alves expressa em forma e conteúdo de seus livros: ele não escreveu textos convencionais, mas sim textos de contos, de estórias, de fábulas com conclusões moral-normativa para o aluno e o professor.
Para finalizar, segue o que diz o próprio autor em entrevista a Josué Machado (2007, p.12-18) à revista Língua9. Rubem Alves confirma que escreve de forma clara e
direta, com frases curtas e por meio de parábolas porque descobriu que o inconsciente só entende a linguagem poética e diz que a linguagem em prosa é coisa de ciência. Afirma que transgride regras propositalmente por acreditar que elas são para aqueles que não sabem andar e precisam de muletas. Diz ainda que ama escrever e que não escreve com método porque não há método para o amor: coloca as idéias no papel como se fosse um mapa a ser seguido, mas depois percebe que é inútil e deixa as idéias fluírem. “Escrever para mim, é
8 Termo derivado de escolanovismo: movimento renovador do ensino, a escola nova. 9 Publicação mensal com matérias referentes à Língua Portuguesa.
como armar um quebra-cabeça. É brincar... Viver só no desfrute é um tédio. É preciso construir alguma coisa que contribua para melhorar as pessoas e o mundo”. No que se refere ao sistema educacional, confirma que seus livros estão cheios de referências aos absurdos do atual sistema.
Assim, escreve crônicas sobre diversos temas, mas, para este trabalho foram escolhidas apenas as que se referem, de algum modo, à Educação. Desta forma, lêem-se na seção vindoura esclarecimentos sobre o corpus em análise neste trabalho.