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Rubens Porto: as Diretrizes Construtivas e sua Arquitetura Ideal

Porto possuía um modelo de conjunto habitacional ideal, conformado por um agrupamento de propostas arquitetônicas e urbanísticas no campo da moradia social, que pôde ser identificado a partir do estudo e da análise de sua produção técnica e intelectual elaborada ao longo de sua carreira, sobretudo, na década de 1930; representada essencialmente por sua, já citada, tese “O problema das casas operárias e os Institutos e Caixas de Pensões”, publicada em 1938.

Nesse conjunto de proposições, Rubens Porto especificou desde as dimensões, materiais, tipologias habitacionais, etc., consideradas mais adequadas para a concepção de moradias, a um ensaio de plano urbanístico que deveria acompanhar essas sugestões. O engenheiro-arquiteto apresentou diretrizes básicas para o planejamento urbano, indicando as dimensões, quantidades e as localizações mais coerentes e adequadas dos equipamentos e serviços públicos, das áreas de lazer, das vias de circulação de veículos e de pedestres e do próprio conjunto de moradias, até a importância e especificações de serviços de assistência

 

221 A FCP objetivava: construir moradias para a população carente, elaborar medidas que complementassem as administrações locais, visando o fortalecimento do mercado da construção civil e a qualificação da mão de obra, realizar estudos das práticas comunitárias de construção (técnicas e materiais utilizados nas diferentes regiões do país), a fim de baratear o preço das construções, e financiar empresas e industriais no campo da habitação popular (ANDRADE E AZEVEDO, 1982).

aos moradores para os “novos núcleos habitacionais operários”, dos programas de educação familiar (que deveriam ser oferecidos e acompanhar as realizações das CAPs e IAPs), e do controle populacional desses empreendimentos.

Defendia o planejamento e a construção de conjuntos habitacionais em grandes áreas afastadas dos centros principais das cidades e deixava claro que os empreendimentos deveriam ser realizados em uma única etapa e não em “doses homeopáticas”. Mostrava-se contra a edificação de habitações econômicas entre construções pré-existentes. Quanto à localização desses grupos de moradias, Porto propunha sumariamente a implantação em grandes planos de organização regional, segundo eixos cuidadosamente estudados, como autoestradas, próximo às riquezas naturais existentes, rios, florestas, vales, etc.

Para ele, também era inconcebível construir unidades sem se prever ao mesmo tempo os espaços livres, as creches, as escolas, as áreas de lazer, o comércio, etc.; o que não era possível nos pequenos terrenos livres na cidade. Na mesma linha, Porto acreditava que a construção de casas espaçadas e isoladas, situadas no centro, atrairia os especuladores, fazendo com que as moradias concebidas e/ou adquiridas pelos órgãos de Previdência Social fossem submetidas ao mesmo processo de especulação de todo o resto da cidade.

Afirmava que a maior dificuldade a ser vencida para a concepção de moradias mínimas e higiênicas era o preço do terreno. Também por esse aspecto, Porto defendia a compra e a construção de moradias mais afastadas dos centros urbanos por parte dos IAPs e CAPs, onde os valores dos terrenos eram menores, reduzindo o preço da habitação, uma vez que o valor do terreno era absorvido pelo preço de venda ou aluguel da moradia. Num segundo plano, a edificação de unidades afastadas do centro promovia ainda o descongestionamento da cidade (PORTO, 1938, p.58).

A adoção das soluções habitacionais no centro, só seria justificada e aceitável no caso dos apartamentos para locação, destinados aos solteiros ou casais sem filhos, uma vez que os espaços seriam demasiadamente reduzidos devido ao alto custo do terreno nessas localidades; como empreendeu o IAP dos Bancários e o IAP dos Comerciários em diversas localidades. Em sua concepção era perfeitamente possível a reunião de um grande número de pessoas em uma pequena área, com ótimas condições higiênicas, caso os passos propostos pelo seu “manual” fossem seguidos.

A ocupação dessa tipologia por casais com filhos não era indicada por Porto. A seu ver, era essencial para a formação e educação das crianças e para a sanidade das mães, espaços generosos, onde poderiam ser desenvolvidas atividades diversas de lazer. Nesse sentido, o modelo mais adequado consistia em um conjunto habitacional, conformado por um grupo de 2.000 moradias padronizadas e produzidas em série. Essa vila, como chamada por vezes, deveria ser autossuficiente com escola, igreja, playgrounds e comércio, onde somente seria permitido o tráfego de pedestres em seu interior, evitando acidentes e conferindo à vila um “caráter bastante pituresco”.

       

Mais especificadamente, previa um edifício administrativo, com serviços públicos, instalações para a administração do conjunto, a residência do administrador, oficinas, garagens, serviço médico (pronto socorro), telégrafos e correio, além do posto policial. Haveria também um clube com piscina, biblioteca, ginásio e quadras esportivas; uma escola, instalada em uma área de 245 x 345m2, dotada de dois grandes playgrounds, para meninos e meninas separadamente; além de reservas florestais e viveiros de plantas.

Porto atentava ainda para algumas medidas de ordem técnica na concepção dos grandes conjuntos. A densidade deveria ser de 200 a 250 pessoas por hectare. O espaço reservado para as vias deveria corresponder entre 12% e 20% do terreno e os espaços entre as edificações deveriam ser aproveitados como jardins, quadras de esporte, etc. Os espaços livres entre os edifícios deveriam corresponder a um ângulo vertical que variava entre 15o e 25o. Paulo Bruna (1998, p.97) afirma acerca desse aspecto, que Rubens Porto recorreu à “(...) formula preconizada por Gropius para a disposição dos blocos sobre o terreno”. Também são percebidas preocupações quanto à orientação das edificações em relação ao sol, proposições fundamentadas em estudos acerca do tempo de insolação de cada fachada, e à orientação dos ventos. Nesse sentido, Porto sugeria que os quartos fossem projetados de modo a se evitar a insolação vespertina, a mais prejudicial, e as janelas das salas deveriam ser orientadas no sentido do vento principal, mormente para o Sudeste.

O modelo de moradia considerado por Porto (1938) como o mais adequado às famílias dos trabalhadores era o das casas geminadas dispostas em fila, com um ou dois pavimentos, encimadas por uma laje contínua em concreto, onde poderiam ser desenvolvidas atividades diversas e também se conformariam como passagens, ou jardins para o recreio das crianças. No modelo de conjunto habitacional de Porto eram vislumbradas tanto células coletivas quanto unidades unifamiliares contínuas. Para os solteiros e casais sem filhos, como já citado, preconizava-se as moradias coletivas situadas nos centros das cidades. As unidades habitacionais seriam de vários tipos, variando em área de 50 e 60m2.

Tanto os apartamentos quanto as residências isoladas ou contíguas deveriam, preferencialmente, ser duplex, uma vez que ofereciam uma economia de 15% de espaço e 20% nas despesas com corredores, iluminação, além da separação física entre as áreas social e íntima. Essa tipologia aliava, segundo Porto (1938), a intimidade da habitação isolada às comodidades e à economia proporcionada pela moradia coletiva222.

No caso da concepção de blocos de apartamentos, atentava para os aspectos referentes à sua implantação no terreno, à disposição dos cômodos em planta, em especial os banheiros, e à disposição do mobiliário nos cômodos. Destacava que a principal vantagem dessa tipologia habitacional era de cunho econômico e referia-se ao fato de que apenas 20% dos custos para a construção eram direcionados para a fundação e para a estrutura da edificação, podendo os 80% restantes – empregados nas instalações, vedações e revestimentos – serem pré-fabricados e estandardizados; aspectos essenciais para a produção

 

em série de moradias. Para os prédios não providos de elevador, Porto sugeria que o gabarito máximo deveria ser de quatro pavimentos, por razões de ordem econômica, higiênica e humana. Operando-se dessa forma, os idosos e as mulheres, principalmente as grávidas e com crianças de colo, seriam poupados do grande esforço físico desprendido para subir os andares. Propostas também discutidas no âmbito dos CIAMs.

Porto defendia o emprego dos pilotis nos blocos de apartamentos. Segundo ele, esse elemento oferecia diversas vantagens em termos da salubridade, da visibilidade do horizonte e do contato com a natureza; da circulação, uma vez que as ruas seriam substituídas por passagens cobertas permitindo o tráfego de pessoas independente das intempéries; por possibilitar a utilização das áreas térreas das edificações para a instalação de serviços públicos; e de privacidade, por evitar apartamentos térreos, que muitas vezes são desvalorizados por estarem constantemente expostos à rua. Do ponto de vista econômico, os pilotis eram indicados: por reduzir a necessidade e os custos com a terraplanagem, uma vez que permitiam a adequação da edificação ao terreno; por não exigir a impermeabilização do terreno; por evitar problemas de infiltrações nos passeios; por evitar a utilização de materiais caros para o revestimento do embasamento da edificação; e por facilitar as instalações de água, esgotos e iluminação.

Contudo, a principal vantagem da implantação dos pilotis nos blocos de apartamentos estaria, para Porto, relacionada ao desenvolvimento da vida social. Mais eficiente que os serviços e atividades oferecidas pelo órgão de assistência social proposto por Porto, no que concerne à educação do novo morador, seria tirar proveito dessas áreas térreas criadas pelos pilotis, que recuperam 95% da área construída. Para Rubens Porto:

(...) viver em sociedade é uma das melhores maneiras de educá-lo [o trabalhador], tanto mais quanto, dada a sua natural tendência no sentido de fazer melhor figura que o vizinho, se esforçará por não deixar transparecer, nas reuniões que ali se derem, seus eventuais maus instintos, procurando controlar-se para aparecer e para brilhar, o que não faria quando isolado ou mesmo em família (PORTO, 1938, p.45/46).

Observa-se, dessa forma, que Rubens Porto compartilhava da ideia da educação do novo trabalhador, do novo homem, imbuída no projeto desenvolvimentista instituído pelo presidente Getúlio Vargas a partir da década de 1930, e se mostrava preocupado com o aproveitamento mais adequado das horas vagas:

(...) com um pouco de jeito e persistência, pode-se forçar o operário a freqüentar com assiduidade essas reuniões, bastando, para tal, atraí-los por meio de distrações, como sejam: leitura de jornais (gratuitos), um bom rádio, ping-pong, bilhar, xadrez, damas e mesmo ‘cartas’, que geralmente tanto aprecia (PORTO, 1938, p.46).

Numa visão associada às ideias católicas, sanitaristas e higienistas, Porto acreditava que com o tempo ocioso, o operário era naturalmente atraído pelas rodas de botequim, onde imperavam os vícios e os maus costumes. Em sua concepção, os pilotis resolveriam essa questão. Mais especificadamente, acreditava que as horas de folga não poderiam ser encaradas como horas vagas, deveriam ser bem aproveitadas e

       

dedicadas ao progresso humano. Sendo assim, os Institutos e Caixas deveriam investir em bibliotecas e teatros, bem como em atividades instrutivas como a realização de cursos para o “aperfeiçoamento moral e cristão” (PORTO, 1938, p.81). Em se tratando desse aspecto em especial, Porto não propõe soluções concretas, apenas indica e/ou sugere caminhos.

Voltando ao modelo de moradia, Porto sugeria a produção em série e a inclusão das instalações modernas, como a água corrente, as canalizações, iluminação, etc., nas novas habitações. No já citado parecer do Decreto de criação das Carteiras Prediais dos Institutos do MTIC, Porto afirmou que era necessário, por parte do Serviço de Engenharia do Conselho Nacional do Trabalho (CNT), do qual fazia parte, a elaboração de projetos de casas tipo, a fim de se obter uma solução racional, que atendesse aos critérios de higiene, conforto e à qualidade dos materiais, além das necessidades da simplicidade de concepção, da solução racional da planta, da estandardização dos elementos de construção e do emprego racional dos materiais.

O engenheiro-arquiteto criticava a transferência dos modelos das construções europeias, com uso abusivo de vidros, por exemplo, para um país tropical como o Brasil. Cita como referencial nesse sentido, o “Estudo sobre o conforto térmico e o conforto visual no Brasil”, de autoria de Paulo Sá, do Instituto Nacional de Tecnologia (O PROBLEMA..., 1937); revelando uma tentativa de sintetizar as linhas do racionalismo internacional com a tradição local, sugerindo a utilização de materiais próprios das regiões.

Segundo Porto (1938), os materiais para a construção das unidades habitacionais por parte dos IAPs e das CAPs deveriam ser de primeira ordem e de fácil conservação. Mais especificadamente, o chefe da Secretaria de Engenharia do Conselho Nacional do Trabalho acreditava que seria justificada pela economia, a construção de casas utilizando-se materiais próprios dos locais onde seriam implantadas. Porto cita, essencialmente, o emprego da madeira nos estados da região Sul do país (O PROBLEMA..., 1937).

No tocante à planta das unidades habitacionais, Porto apresentou como melhor solução a tipologia conformada por duas salas, vestíbulo, cozinha, banheiro e dois ou três quartos, concebida por meio de uma arquitetura funcional223. Em se tratando dos ornamentos, Porto defendia a extinção da decoração e da exuberância das fachadas construídas pelas CAPs e IAPs para os seus associados, e que fosse abolida toda “(...) a fantasia, toda a decoração supérflua, tudo que encareça a mão-de-obra e exija material custoso, como, por exemplo, telhados complicados, varandas em balanço, etc. (...)” (PORTO, 1938, p.254). As varandas em balanço se mostravam uma inovação na moradia empreendida pela Bauhaus (Escola de Design, Artes Plásticas e Arquitetura de Vanguarda), que funcionou entre os anos de 1919 e 1933, na Alemanha. As proposições que defendem a simplicidade das fachadas e um estudo mais aprofundado da planta, em muito se assemelham ao colocado nos primeiros CIAMs e, no caso brasileiro, ao preconizado no I Congresso de Habitação, de 1931, e pela Jornada de Habitação Econômica, de 1941.

 

       

Na concepção de Porto (1938), os IAPs e as CAPs deveriam disponibilizar não somente as moradias, mas também, todo o mobiliário necessário a uma vida regrada e ao conforto mínimo do trabalhador e sua família. O mobiliário deveria ser adquirido em atacado por questões econômicas. Para ele, a entrega da casa devidamente equipada ofereceria, além de vantagens de ordem econômica, vantagens higiênicas. Nesse sentido, evitar-se-iam problemas comumente encontrados nas moradias operárias, como a incompatibilidade do tamanho e da quantidade da mobília dos trabalhadores às dimensões dos cômodos e à disposição das aberturas, portas e janelas; o que resultava, na maior parte dos casos, na obstrução das mesmas por armários e estantes que impediam a passagem e a distribuição adequada da luz natural e da ventilação; revelando também as preocupações de cunho higienista e de conforto térmico e lumínico do engenheiro- arquiteto.

Porto foi ainda mais a fundo, ao propor que também fossem incluídos nas residências concebidas pelos Institutos e Caixas, utensílios domésticos, tais como “(...) baterias de alumínio, aparelhos de boa louça, talheres de bom metal, toalhas e lençóis de bom pano (...)”, que deveriam ser adquiridos também em atacado, mediante o pagamento a vista, o que reduziria consideravelmente os custos (PORTO, 1938, p.36). O objetivo de Rubens Porto nessa proposta era garantir ao pobre viver em um ambiente são e confortável. Em sua concepção, tudo o que fosse necessário à vida doméstica deveria ser incorporado ao plano e não entregue ao livre arbítrio do ocupante224.

Apesar de reduzir o custo de aquisição dos equipamentos e utensílios domésticos supracitados com a compra em grandes quantidades e o pagamento a vista, a boa qualidade pretendida e a diversidade dos mesmos, resultaria no desprendimento de vultosas quantias. Isso causaria um descompasso, no sentido que os estudos e tentativas de redução do custo de produção e de repasse das moradias, com a utilização de novos materiais, técnicas e a redução de ornamentos, seria comprometido e, por vezes, anulado pelos valores da aquisição desses equipamentos domésticos. Esse quesito confere a essa proposta de Rubens Porto, em especial, uma dimensão distante da realidade social pretendida.

Não obstante o caráter quimérico dessa sugestão, que promoveria um distanciamento da essência social das ações das Carteiras Prediais dos Institutos e Caixas de Aposentadoria e Pensões, alguns presidentes a levaram em consideração. Pode-se citar como exemplo, a iniciativa do engenheiro chefe do IAP dos Comerciários, Helvécio Xavier Lopes, que incluiu em cada residência devidamente mobiliada da Vila Valdemar Falcão, na Ilha do Governador (RJ), um rádio portátil.

A disposição do mobiliário, bem como dos utensílios nas moradias dos trabalhadores construídas e/ou adquiridas pelas Carteiras Prediais, deveriam ser resultado de estudos. Mais especificadamente, os armários, os cabides, as prateleiras destinadas aos objetos usuais, cada compartimento, deveria ser previsto no plano, de acordo com Porto. Dessa maneira, os espaços livres seriam aumentados, pondo fim aos

 

       

obstáculos que comprometiam os movimentos e a vida dos trabalhadores em suas antigas casas não higiênicas e não econômicas (PORTO, 1938, p.43).

Dentre os regulamentos e portarias que incorporaram as sugestões e propostas defendidas por Rubens Porto para a construção das moradias operárias, se destaca o regulamento da Carteira Predial do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Marítimos (IAPM). Nesse regulamento é clara a semelhança entre as proposições de Porto e as diretrizes para a construção de moradias. No Art.48 do regulamento, que especifica as normas para as construções por iniciativa do órgão, lê-se: os prédios ou apartamentos serão do tipo econômico, respeitada a simplicidade de concepção, a solução racional da planta, a padronização dos elementos de construção e o emprego racional dos materiais, e obedecerão aos requisitos que os tornem higiênicos, confortáveis, de preço razoável, de conservação fácil e econômica, levando-se em consideração os hábitos e os gostos das regiões onde forem construídos.

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