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Rudolf Laban e a teoria do movimento.

SEGUNDA PARTE

2.1 Rudolf Laban e a teoria do movimento.

Rudolf von Laban nasceu em 1879, na Bratislávia, região pertencente ao então Império austro-húngaro e faleceu em Londres (Inglaterra) em 1958. Ele dedicou a maior parte de sua vida ao estudo da Dança. De acordo com Preston Dunlop, Laban:

(...) was a man who saw structures and content in movement in way which very few other people had seen. Not only could he see structures and information in movement, just other as other people hear it in music or read it in words, but he found out and invented a way of writing down this information.140

Laban era filho de um oficial militar, que devido à sua função viajava muito. Ele acompanhou o pai em muitas dessas viagens, o que o levou a conhecer a cultura dos mais diferentes povos, tendo sido a dança do dervixes uma das manifestações que mais o impressionaram:

140

‘(...) foi um homem que viu estruturas e conteúdos no movimento de um modo diferente que poucas

pessoas podiam ver. Ele não apenas podia ver estruturas e informações no movimento, como outras pessoas podem ouvir a estrutura da música ou ler a das palavras, mas encontrou e criou um modo de transcrever esta informação.’ PRESTON-DUNLOP, V. Dance: A Linguistic Approach. Londres: Laban Centre of Movement,

Eu tive acesso a estes rituais através de um monge maometano, que se encarregou da minha tutela temporariamente, pelo fato de ser o único homem culto naquelas montanhas onde meu pai estacionara. Minhas conversas com este homem estão guardadas como um tesouro em minha mente. Nós conversávamos sobre a sabedoria, a dignidade e a felicidade humana e ele me contava e me mostrava um monte de coisas sobre a dança e os exercícios nos rituais religiosos.141

Ele desiste de seguir a carreira do pai no Exército para estudar durante sete anos em Paris, na Escola de Belas Artes. Aí então é que ele começa a interessar-se pelo espetáculo cênico, sobretudo aquele em que a Dança tem um papel principal. Laban, durante sua estadia em Paris teria entrado em contato com as idéias de François Delsarte (1811-1871), tendo sido aluno de um aluno deste famoso estudioso do movimento.

Em 1913, Laban fixa-se na Suíça, no Monte Veritá, onde abre uma Escola de Dança, na qual além de pesquisar o movimento, ministra aulas e conhece Mary Wigman, que mais tarde se tornaria sua assistente. É interessante notar que nessa escola as aulas de Dança, não possuíam parte técnica (exercícios repetitivos objetivando a destreza física), mas sim exercícios de Composição Coreográfica e Improvisação, além de serem feitas ao ar livre, com roupas confortáveis e pés descalços:

Na área do movimento, eram dados exercícios corporais (feitos de preferência no jardim, com os pés descalços, com roupas leves ou mesmo sem roupas para que o aluno tivesse maior liberdade de movimentos e percebesse melhor o contato com a natureza), jogos e danças individuais e em grupo e exercícios de improvisação e de composição de movimentos.142

Esse interesse pela ‘liberdade de movimentos’ acaba por estimular o aumento do fluxo de movimento das partes do corpo. Aliás, essa é a principal característica da Dança Moderna, o que para Laban a diferencia das demais formas de Dança:

141

HODGSON, John & PRESTON-DUNLOP, Valerie. Rudolf von Laban- An Introduction to his Work &

Influence. Plymouth: Northcote House Publishers, 1990, p. 12. In GUIMARÃES, M. C. A. Vestígios da Dança Expressionista no Brasil. Campinas, Dissertação de Mestrado apresentada ao Curso de Mestrado em

Artes do Instituto de Artes da Unicamp, 1998, p. 55.

142

Uma das diferenças mais evidentes entre as danças européias tradicionais e a dança moderna é que, as primeiras são quase exclusivamente de passos, e a última se vale do fluxo do movimento que se estende por todas as articulações do corpo.143

Em seu livro Modern Educational Dance, publicado em 1948, Laban chama a atenção para esta qualidade presente no mundo contemporâneo que é o fluxo do movimento. Aponta também para Isadora Duncan como sendo a precursora do valor do fluxo do movimento na Dança:

Isadora Duncan tornou a despertar o sentido da poesia do movimento no homem moderno. Numa época em que a ciência, especialmente a psicologia, procurava abolir radicalmente qualquer idéia de alma, esta bailarina teve o valor de demonstrar, com êxito, que existe no fluxo do movimento humano um princípio ordenador que não se pode explicar mediante os costumeiros fundamentos racionalistas.144

Também no mesmo livro Laban declara sua admiração pelo bailarino e compositor de danças Jean Georges Noverre, afirmando ter sido Noverre, o primeiro a perceber a necessidade de uma dança que expressasse seu tempo:

(...) Noverre foi o primeiro a descobrir que tanto as antigas danças campestres como as diversões da realeza eram inadequadas para o homem dos centros industriais que estavam surgindo.145

Para Laban, o movimento corporal não serve apenas para fins funcionais externos,

mas sim para revelar ao homem sua interioridade criando estados mentais, independente da vontade humana:

O movimento considerado desde sempre –pelo menos em nossa civilização- como um auxiliar do homem, utilizado para alcançar um propósito prático extrínseco, mostrou- se como um poder independente que cria estados mentais freqüentemente mais poderosos que a vontade humana.146

A Corelogia – nome que Laban deu à seus estudos sobre o movimento- concebe o movimento como um termômetro das emoções e pensamentos humanos. Ela era um tipo de

143

LABAN, Rudolf. Dança Educativa Moderna. São Paulo: Ícone, 1990, p. 16.

144 Idem, p. 13. 145 Idem, p. 11. 146 Idem, p.13.

gramática e sintaxe da linguagem do movimento, pela qual se compreende além das forma externa, o conteúdo mental e emocional.147

A Coreologia abrange a Corêutica (o estudo das formas espaciais), a Eukinética (o estudo das dinâmicas) e a Kinetographie (escrita do movimento). Dentro da Eukinética, Laban estudou a variação do Esforço presente nos mais diferentes tipos de movimento. Percebeu que o grau de Esforço na execução de um movimento provém da atitude interna de quem o executa, podendo ela ser apreciada através dos quatro fatores do movimento:

Os componentes constituintes das diferenças nas qualidades de esforço resultam de uma atitude interior (consciente ou inconsciente) relativa aos seguintes fatores de movimento: Peso, Espaço, Tempo e Fluência.148

O fator Espaço foi exaustivamente estudado por Laban, ganhando um estudo mais detalhado a partir da Corêutica (estudo das formas espaciais).

Laban publica em 1926, o livro Scriftanz, onde expõe seu método de notação dos movimentos, que ficaria reconhecido posteriormente, nos Estados Unidos como

Labanotation. Este estudo realizado desde 1917, a partir tanto da observação das mais

variadas danças quanto dos mais diferentes tipos de trabalho realizado nas fábricas, levou Laban a ver a dança e o trabalho como fontes de esforços rítmicos:

Para Von Laban, o trabalho e a dança tem antes de mais nada o denominador comum de serem esforços rítmicos: realizam movimentos pelos quais o homem não se contenta em reproduzir a vida quotidiana, mas produz uma vida mais elevada, transformando ao mesmo tempo o mundo e o homem que transforma o mundo.149

O interesse de Laban por uma dança que expressasse as emoções de seu tempo, o levou a estudar a movimentação de operários, vislumbrando em tais movimentos estados prejudiciais à mente, que poderiam ser sanados com movimentos compensatórios:

O estudo do movimento industrial confirmou a exatidão do achado intuitivo do artista. Sabemos hoje que os hábitos dos trabalhadores modernos criam com freqüencia, estados mentais prejudiciais, que nossa civilização está inevitavelmente destinada a sofrer, sem encontrar nenhuma forma de compensação. As compensações mais evidentes são,

147

LABAN, Rudolf. Choreutics. London: MacDonalds & Evans, 1996, p. VII. In GUIMARÃES, M.C.A. Op. cit., p. 61.

148

LABAN, Rudolf. O Domínio do Movimento. São Paulo: Summus, 1978, p.36

149

certamente aqueles movimentos capazes de equilibrar a desastrosa influência dos hábitos dos movimentos desequilibrados que se originam nos métodos contemporâneos de trabalho.150

Seu trabalho de notação de movimentos foi utilizado com o intuito de melhorar a eficácia dos movimentos dos operários, o que aumentava a produção e, conseqüentemente, o lucro das empresas. Embora apreciasse os movimentos dos operários esteticamente, Laban acabou por contribuir no reforço ao taylorismo, publicando o livro Effort em 1947:

Seu método é utilizado para a organização do trabalho, como reforço ao taylorismo, o que o leva a completá-lo: seu livro, Effort, 1947, aplica-se mais à notação dos gestos do trabalho manual.151

Seu intuito, no entanto, não era o de ‘cristalizar’ seus estudos sobre o movimento, ou de fazer da dança uma arte puramente racional, como geralmente muitos professores e estudiosos do movimento acreditam. Na verdade, Laban acreditava que a técnica de Dança –como ação educativa- deveria conciliar intelectualidade e sensibilidade criadora:

Deve-se mencionar, finalmente, que a nova técnica de dança procura integrar o conhecimento intelectual com a habilidade criativa, um objetivo de suma importância em qualquer forma de educação.152