3 A relação entre espaço e sua virtualidade, o que o protagonista imagina / processos
3.1 Viajar, localizar, nomear, imaginar
3.1.1 Ruminar e viajar
Nos roteiros de L’Éducation sentimentale é possível localizar traços de subjetividade e a voz de Frédéric, o que é da ordem da imaginação ou desejo do personagem, seu pensamento ou fala, seu ponto de vista, percepção ou julgamento, a abertura para o que se expande, depois, como espaço da imaginação do personagem. A edição transcrita, preparada por Tony Williams, divide os roteiros em três categorias: sobre o romance como um todo, sobre uma parte e sobre um capítulo. Em um dos roteiros do romance como um todo, durante a viagem para Nogent, Frédéric rumina o que tinha acabado de ver no navio:
De Montereau à Nogent, il rumine ce qu’il vient de voir. Me Arnoux rentre dans le type
de la Littérature de l’époque il s’en déclare amoureux. et se reconnaît une grande passion.165
O personagem repassa em pensamento detalhes do que viu de Mme Arnoux no navio. No texto publicado, referente a essa cena, não está a palavra ‘rumina’, e sim as imagens do que Frédéric repassa em pensamento.
163
FLAUBERT, G. L’Éducation sentimentale. Paris: GF Flammarion, 2001, p. 164 e 165.
164
FLAUBERT, G. Carta a sua sobrinha Carolina, Croisset, 17 de agosto de 1876. BOLLÈME, G. Extraits
de la correspondance, Paris: Seuil, 1963, p. 274 e 275.
165
FLAUBERT, G. L'Éducation sentimentale. Les scénarios. Édition préparée par WILLIAMS, Tony. Paris: José
No roteiro: ‘Me Arnoux rentre dans le type de la Littérature de l’époque’. No texto
publicado: ‘Elle ressemblait aux femmes des livres romantiques. Il n’aurait voulut rien ajouter,
rien retrancher à sa personne.’ As duas frases do texto publicado produzem um efeito curioso:
Ela, Mme Arnoux: mulher dos livros românticos. Ele, Frédéric, que também é personagem de romance, ‘não acrescentaria nem tiraria nada à pessoa’ de Mme Arnoux. É possível identificar na palavra retrancher a proximidade com o trabalho de composição do scriptor, ele faz acréscimos ou retira passagens de um texto.
O ruminar de Frédéric volta a aparecer no antepenúltimo capítulo do livro, novamente durante uma viagem de Paris a Nogent, e então a palavra ruminar entra no texto publicado.
Frédéric ne comprenait rien à tant de rancune et de sottise. Son dégoût de Paris en augmenta; et, le surlendemain, il partit pour Nogent par le premier convoi.
Les maisons bientôt disparurent, la campagne s'élargit. Seul dans son wagon et les pieds sur la banquette, il ruminait les événements des derniers jours, tout son passé. Le souvenir de Louise lui revint.
– « Elle m'aimait, celle-là! J'ai eu tort de ne pas saisir ce bonheur. Bah! n'y pensons plus!... »
Puis, cinq minutes après:
– « Qui sait, cependant ?... Plus tard, pourquoi pas ?»
Sa rêverie, comme ses yeux, s'enfonçait dans de vagues horizons.
– « Elle était naïve, une paysanne, presque une sauvage, mais si bonne!»
À mesure qu'il avançait vers Nogent, elle se rapprochait de lui. Quand on traversa les prairies de Sourdun, il l'aperçut sous les peupliers comme autrefois, coupant des joncs au bord des flaques d'eau; on arrivait; il descendit.166
No início do livro, Frédéric volta a Nogent ruminando um conjunto de expectativas, tudo o que começa a imaginar a partir do contato recente com Paris e Mme Arnoux. Frédéric se lembra de cenas da viagem no navio, cenas de um passado recente. O universo se expande quando o personagem se lembra de Mme Arnoux. As palavras sugerem uma visão nítida, “tout son voyage
lui revint à la mémoire, d’une façon si nette […] L’univers venait tout à coup de s’élargir”. No
acontecimentos dos últimos dias e o passado – o que não se realizou. Ao pensar em Louise, vizinha da família em Nogent, seu devaneio e olhar têm horizontes vagos. “Sa rêverie, comme
ses yeux, s'enfonçait dans de vagues horizons”. No início e no fim do livro: o trajeto Paris-
Nogent, a volta ao ponto de partida. No fim do livro, quando Frédéric chega a Nogent, é surpreendido pelo casamento de Deslauriers com Louise, il se crut halluciné.
Il se crut halluciné. Mais non! C’était bien elle, Louise! – couverte d’un voile blanc qui tombait de ses cheveux rouges à ses talons; et c’etait bien lui, Deslauriers! –
portant un habit bleu brodé d’argent, un costume de préfet.167
O uso do verbo crer (ou acreditar) evidencia a possibilidade de desvio ou engano em relação a uma percepção, funciona como um modalizador. Instantes antes de morrer, Félicité, personagem do conto Un cœur simple, ‘acredita ver’ nos céus um papagaio gigantesco.168 Emma Bovary morre ‘acreditando ver’ a face do homem que está na rua, de quem escuta as palavras. A expressão ‘acreditar ver’ introduz o delírio em relação à percepção de Félicité e Emma. No texto de L’Éducation sentimentale, Frédéric ‘se acredita alucinado’, mas não se trata de alucinação. O narrador explicita a negação da percepção que o personagem tem de si mesmo e descreve Louise e Deslauriers, em uma cena breve, o casamento dos dois. O que é descrito não corresponde a um devaneio ou alucinação de Frédéric. Frédéric volta a Paris ‘honteux, vaincu, écrasé’. Paris- Nogent-Paris. O trajeto que se repete evidencia a falta de perspectiva para o personagem.
O ruminar de Frédéric, enquanto viaja (e também enquanto caminha), é atividade de produção imagética, que não necessáriamente se apresenta como imagem no texto do romance. Por vezes, as imagens são apenas sugeridas, mas mais frequentemente se desenvolvem com
166
FLAUBERT, G. L’Éducation sentimentale. Paris: GF Flammarion, 2001, p. 539.
167
FLAUBERT, G. L’Éducation sentimentale. Paris: GF Flammarion, 2001, p. 540.
168
“[...] e, quando exalou o último suspiro, ela acreditou ver nos céus entreabertos um papagaio gigantesco, planando acima da sua cabeça.” FLAUBERT. Três contos. (Trois contes, Paris: 1877). São Paulo Cosak Naify, 2004, p. 53.
muitos detalhes. Para o scriptor, a produção imagética pode começar com uma descrição de paisagem, frequentemente uma descrição focalizada, a paisagem a partir do ponto de vista do personagem. Contemplar a paisagem, por sua vez, provoca no personagem o ato de ruminar, ao que se associa a produção imagética. O ruminar envolve diferentes temporalidades e também diferentes atividades relacionadas à imaginação, tais como lembranças, pensamentos, sonhos, expectativas, devaneio, delírio e alucinação.