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Rumo a Canudos: novas e velhas dificuldades cotidianas

No documento ESTUDOS BRASILEIROS EM 3 TEMPOS: (páginas 187-200)

No ano de 1888 a população de Itapicuru sofreu com a seca, que só acabaria no ano seguinte; os fazendeiros, no entanto, além do desastre climático, tiveram que se haver com outro acontecimento que afetou profundamente suas atividades: a abolição da escravatura. Dantas Martins, já barão de Jeremoabo, escreveu em março a José Gonçalves da Silva,66 seu compadre, também fazendeiro e político baiano, sobre a estiagem e os efeitos em suas finanças: “Tambem estava aqui fazendo minha casa de residência, mas parei com a obra por falta de dinheiro. Não vendi um so boi este anno e a lavoura vai como sabes. Ainda não vi cousa igual, e cada mez vamos a peior”.67 “A fome bate a porta, e os assaltos e roubos tornarão no lugar.”68

Em outubro de 1888, contudo, as reclamações do Barão já misturavam os problemas climáticos com as dificuldades advindas da abolição: “Vou da peior forma, e só deixarei de naufragar pela fé que tenho em Deus e nos meos esforços. Chegamos aqui na noite de 10, felisme sahirão poucos inglezes (de Cotegipe),69 mas estes fasem o que querem e não é possível assim manter-se a

66. José Gonçalves da Silva, proprietário de fazendas na região de Vila Nova da Rainha (atual Bonfim), também militava no partido conservador, tendo sido eleito deputado provincial e geral. Em 16 de novembro de 1890, foi nomeado governador da Bahia pelo Governo Provisório e, em 1891, eleito pela Assembleia Constituinte novamente governador do Estado (SAMPAIO, Consuelo Novais, org. Canudos: cartas para o barão, 1999, pp. 251-252).

67. Arquivo Particular do Barão de Jeremoabo (doravante APBJ), carta do Barão a José Gonçalves, 25 de março de 1888. O barão estava então construindo sua nova residência no engenho Camuciatá, que viria a ser inaugurada em 1894.

68. APBJ, Carta do Barão a José Gonçalves, 22 de outubro de 1888.

69. Conforme registrado nos Anais do Senado, o Barão de Cotegipe, em meio à discussão acerca da lei de extinção da escravidão no país, teria se referido aos ex-escravos como libertos, sendo apartado por Candido de Oliveira, a quem respondeu com a máxima dos “inglezes”. A questão começou com a seguinte colocação de Cotegipe: “Falla-se em sociedades de

lavoura. Queria e quero imigrantes, mas onde o do para poder colocal-os?”.70

Frente à dificuldade de controle dos escravos recém-libertados, sonhava o senhor de engenho com imigrantes (que nunca chegaram). “Muitas famílias já tenho eu sabido estão caminhando e levando suas roupas.”71 A mão de obra era um problema, a seca outro, e os roubos, um terceiro.

Se, para o Barão, a despeito do fim da seca, a situação não parecia boa, com a alta dos preços dos gêneros alimentícios e o baixo valor da carne verde (atividade que, no cômputo geral de suas finanças, deve ter se tornado ainda mais importante frente aos problemas enfrentados pelos senhores de engenho baianos), como não estaria a vida do restante da população? É provável que a migração que o alarmara não tenha sido assim tão impactante nem duradoura, uma vez que, depois de 1890, ele não mais teceu comentário a respeito. Ainda assim, mesmo que tenha sido possível aos roceiros e pequenos criadores permanecerem em suas moradas, a alta do custo de vida e a perda de lavouras e animais devem ter aumentado a tensão na região.

O agravamento das tensões

Em 19 de janeiro de 1889, o adjunto do promotor da comarca de Itapicuru apresentou denúncia contra o liberto Ciríaco. “No dia 1º do corrente mez e anno, o Dor. José Dantas Itapicuru encontrando, quando percorria os pastos de sua fazenda Catú d’este termo, o denunciado a furtar capim nos capineiros da dita sua propriedade, teve de prendel-o em flagrante delicto e conduzil-o a presença da auctoridade competente n’esta villa [...]”.72 As testemunhas do processo eram majoritariamente vaqueiros e lavradores, um deles ex-escravo

protecção a libertos; sim senhores, são necessarias sociedades de protecção aos libertos, para dar-lhes occupação e collocal-os. O SR. CANDIDO DE OLIVEIRA: – Não há mais libertos; são cidadãos brazileiros. O SR. BARÃO DE COTEGIPE: – São libertos; mas direi, si quizer, até que são inglezes” (ANNAES DO SENADO, 1888, vol. I, p. 36).

70. APBJ, Carta do Barão a José Gonçalves, 22 de outubro de 1888.

71. APBJ, Carta do Barão de Jeremoabo a José Gonçalves da Silva, 30 de maio de 1888, apud CARVALHO JR., Álvaro. Cícero Dantas Martins: De barão a coronel: trajetória política

de um líder conservador na Bahia 1838-1903. Dissertação (Mestrado em História Social),

Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2000, p. 137.

72. O Dr. José Dantas Itapicuru era filho do segundo barão do Rio Real, João Gualberto Dantas, primo em primeiro grau de Cícero Dantas Martins, o barão de Jeremoabo. APBJ, Livro de Notas, f. 12v. APEB, Seção Judiciária, “Denúncia”, maço 3029, auto 7, 1889.

do próprio José Dantas, e outros dois, ao menos, seus agregados. Ciríaco, por sua vez, declarou ser “trabalhador de diária” e morador na vila havia nove anos (era natural de Abadia).

No ano seguinte, novo processo envolvia ex-escravos, dessa vez do pai do dr. José Dantas Itapicuru do processo acima. Consoante a denúncia, os libertos Bráulio e Firmino,

[...] fasem depredações nas lavouras dos moradores do Engenho Catú, julgando melhor entregar-se a furtos constantes e continuos, do que empregarem-se no trabalho.

É assim que na noite do 9 para 10 do corrente mez, os denunciados forão a roça de Ignacio, ex-escravo do supradito Barão, e furtarão uma purção de aipim e mandiocas. Este facto é a reproducção de outros constantemente praticados pelos denunciados, pois tem devastado as roças dos aggregados do mencionado Engenho Catú.73

De acordo com o depoimento de uma das testemunhas, os acusados, além de terem arrancado mandiocas e aipins de Inácio, já haviam arrancado e quebrado milho da roça de um vizinho e também furtado uma porção de espigas de milho, “onde trabalha como aggregado [José Toco]”. “Disse mais, finalmente, que os denunciados de longa data estão habituados a viver furtando os productos das lavouras dos agreggados do Engenho Catú e de outros pontos circunvizinhos e que vivem vagabundeando, sem procurarem meio de vida honesto.”

Dentre toda a documentação pesquisada, essas foram as primeiras denúncias de ocorrências desse teor, isso não quer dizer que situações aparentemente semelhantes não tenham acontecido antes. São comuns, na história do Brasil, casos de escravos que furtavam gêneros produzidos pelos fazendeiros, fosse visando à melhoria imediata de seu nível de vida (com o consumo do que fora furtado ou sua troca por outros produtos a que não tinham acesso) ou à acumulação de pecúlio (via negociação dos gêneros) para a compra de uma futura alforria.74

73. APEB, Seção Judiciária, “Sumário crime”, maço 3029, auto 16, 1890.

74. DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1984; MACHADO, Maria Helena. O plano e o pânico: os movimentos

Curiosamente, Ciríaco teria tão somente roubado capim, o que não parece se encaixar em qualquer dos casos acima. Quem sabe o fizera, entre outras coisas, para provocar seu antigo proprietário. Bráulio e Firmino furtaram gêneros alimentícios, mas que não eram plantados por seu ex-senhor e sim por antigos companheiros de cativeiro ou vizinhos de moradia. De acordo com o promotor, os dois acusados, após adquirirem sua liberdade, haviam se mudado para a vila, abandonando as terras do fazendeiro. Parece lícito pensar, então, que não fora fortuito o ataque a roças pertencentes a figuras que habitavam ainda as terras do engenho Catu; ao contrário, tal escolha nascera da pretensão de perturbar aqueles que haviam, de alguma maneira, mantido vínculos com o antigo senhor.

Antes de mais, é interessante acrescentar que, na comarca de Itapicuru, ao longo do século XIX, se não eram incomuns denúncias de roubo apresentadas contra a população, esse tipo de acusação envolvia quase sempre o roubo de animais, especialmente aqueles de propriedades de grandes ou médios fazendeiros e nunca algumas poucas cabeças de um pequeno criador ou vaqueiro.

Frente à necessidade do auxílio mútuo entre a população mais pobre – uma prática constante ao longo de todo o século, fosse para a construção de casas, cercas, o plantio e colheita de gêneros agrícolas, e um sem-número de outras situações cotidianas75 –, o roubo de roças de iguais indica um agravamento das tensões ou, no mínimo, uma alteração da situação até então vigente. O barão de Jeremoabo se referira ao aumento dos roubos nas épocas de seca, mas é difícil crer que a falta de chuvas seja suficiente para explicar

sociais na década da Abolição. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ; São Paulo: Edusp, 1994; RAMOS,

Donald. O quilombo e o sistema escravista em Minas Gerais no século XVIII. In: REIS, João José & GOMES, Flávio dos Santos. Liberdade por um fio. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

75. Os processos criminais pesquisados atestam para a prática cotidiana do auxílio mútuo, os chamados mutirões ou “adjutórios” como eram conhecidos então na Bahia. Ao contrário do que certa historiografia deixou registrado, tais práticas não acabavam necessariamente em violência e se, por vezes, havia alguma altercação ou violência física ao final, vários dos testemunhos encontrados nos processos foram relatados em meio a depoimentos sobre crimes ocorridos em outras situações – tornando-se acessíveis ao historiador tais informações devido à prática da população de relatar ao juiz o que fizera horas antes e depois do crime sobre o qual depunham. Nos mutirões juntavam-se, até 1888, livres, libertos, escravos e mesmo índios das aldeias circunvizinhas. Sobre essa questão ver: DANTAS, Mônica Duarte. Fronteiras

comportamentos como de Bráulio e Firmino (até porque períodos de seca não eram estranhos à região). No que tange, portanto, à prática do roubo entre iguais (ou nem tão iguais assim), é necessário considerar de forma mais abrangente as possíveis dificuldades enfrentadas pela população em fins da década de 1880 e começo da seguinte.

É mister retomar a questão do crescente controle territorial na região. Se os grandes fazendeiros não dominavam todas as terras da comarca de Itapicuru, as negociações registradas no tabelionato de Itapicuru e os processos civis envolvendo médios e grandes fazendeiros (muitos deles aparentados), especialmente a partir das décadas de 1870 e 1880, mostraram um movimento no sentido da aquisição ou, ao menos, de um controle crescente das áreas mais férteis ou com acesso direto a nascentes e rios. Assim, caso Bráulio e Firmino quisessem plantar sua mandioca ou milho, teriam que fazê-lo em terras de fazendeiros; frente à experiência do cativeiro, isso talvez lhes parecesse inaceitável. Quanto ao restante da população, mesmo para quem possuía terras, é provável que em períodos de estiagem a situação não fosse muito diferente. Para quem já era livre (ou liberto), a coincidência da seca com a abolição não poderia ser mais deletéria – coincidência que também não facilitava a vida de quem conseguia então sua liberdade. A seca dificultava a migração para áreas mais distantes (menos controladas, embora mais afeitas à falta de chuvas), colocando-os, portanto, na dependência de grandes fazendeiros, alguns deles com canaviais e engenhos, sedentos em substituir a mão de obra eventualmente perdida.

Considerando o conjunto das informações, é patente o agravamento, na década de 1880, das condições de sobrevivência da população, que a forçava a recorrer com mais frequência aos fazendeiros e às pessoas de posses – fosse em busca de terras, dinheiro para necessidades cotidianas ou outros auxílios em maior demanda nas épocas de estiagem – e isso num período marcado pela questão da (in)disponibilidade de mão de obra.

Da comarca de Itapicuru ao arraial de Belo Monte

Mal passara a seca iniciada em 1889, quatro anos depois um novo problema veio afligir a população. As feiras tinham um papel fundamental

na vida de pequenos sitiantes, vaqueiros, roceiros e agregados, fosse pelo aspecto da sociabilização ou, mais diretamente, por sua centralidade para a sobrevivência cotidiana. Nessas ocasiões vendia-se o excedente das rocinhas e compravam-se outros gêneros e produtos necessários para o dia a dia. No ano de 1893, foi facultada às municipalidades baianas a cobrança de novos impostos que recaíam sobre o conjunto das atividades comerciais realizadas nas vilas e cidades.76 Essa mudança desagradou à população de Soure, inclusive a figuras que possuíam casas de comércio na vila, suscitando manifestações acalouradas.

No dia 10 de abril de 1893, uma turba invadiu o barracão onde se realizava a feira da vila de Soure e destruiu as tabuletas em que estavam colados os editais dos novos impostos. Segundo o promotor, mais de quarenta homens e mulheres, armados de cacetes, facas e facões, “dando vivas e morras e sob o troar de foguetes, fizeram as taboletas em migalhas”.77

Consoante a denúncia e os depoimentos do intendente municipal e do presidente do conselho municipal da vila, um negociante do município (José Honorato de Souza Neto) teria instigado a população para, no dia da feira, destruir as referidas tabuletas – quando, pela primeira vez, fossem implementadas as novas cobranças. Os responsáveis pela destruição, antes de se dirigirem à feira, teriam se reunido na porta do referido negociante. A interpretação dada por ele ao conteúdo das tabuletas teria sido, em grande parte, responsável pelo ocorrido – ele teria dito à população, entre outras coisas, que o marido para viver com a mulher deveria pagar impostos, bem como a prostituta para exercer seu ofício.

Outra figura também teria contribuído para a agitação. O italiano Braz Vita, recém- chegado da vila do Tucano, haveria dito que sabia que lá as leis tinham sido rasgadas pelo povo “e que aqui deviam fazer a mesma cousa”. A resistência ao pagamento dos impostos não se restringiu, contudo, ao dia 10

76. Segundo Consuelo Novais Sampaio, a nova ordem republicana, especialmente a partir da organização das intendências municipais, permitiu às localidades a regulamentação dos impostos que deveriam custear os gastos dos municípios (SAMPAIO, Consuelo Novais, org.

Canudos: cartas para o barão, 1999, pp. 36-37).

77. APEB, Seção Judiciária, “Inquérito policial”, maço 1351, auto 4, 1893. Sempre que referidos o inquérito ou o processo abertos por ocasião da sedição do Soure, trata-se de informações retiradas do documento ora citado (salvo indicação em contrário).

de abril, continuando nas semanas seguintes, nos dias em que novamente se realizava a feira municipal, ou seja, 17 e 24 de abril.

No dia 17, autoridades compareceram à vila para garantir a ordem, entre elas o presidente do conselho municipal, o intendente, o juiz de direito, o promotor e o comissário de polícia. Corriam “boatos alarmantes de que os desordeiros viriam aggredir as Auctoridades”. Às duas da tarde o barracão da feira conservava-se vazio, e pela vila caminhavam grupos armados. Resolveram as autoridades se retirar do local, quando foram “estrondozamente pateados por parte dos desordeiros”. No próximo dia de feira, ou seja, no dia 24, os desordeiros armados ainda permaneciam na vila, o que, mais uma vez, obstou a cobrança dos novos impostos.

O juiz de direito julgou procedente a denúncia, por crime de sedição, “como agitadores e directores do movimento sediciozo”, contra o negociante e mais outras treze figuras, entre elas um certo José Felix. Ainda que o número de arrolados pareça alto (catorze ao todo), representava menos da metade dos originalmente denunciados pelo promotor (33). Braz Vita, ou Biagio Vita, não foi o único que, depois de realizado o inquérito, deixou de figurar na lista do juiz de direito; um certo Antonio Vicente Mendes Maciel (“vulgo Antonio Conselheiro” – como consta do inquérito) teve a mesma sorte.

Para o juiz, de acordo com os “depoimentos das testemunhas é fora de duvida que os denunciados excluidos da pronuncia e muitos outros que não poderão ser conhecidos, menos Bras Victa e Antonio Vicente, forão machinas e instrumentos dos incluidos, que concertarão, resolverão e dirigirão o movimento, no qual, alem da parte intellectual, tiverão alguns tambem parte phisica, despedaçando as taboletas e obstando a arrecadação das taxas”. Escreveu ainda o magistrado que, “pelos depoimentos das testemunhas não tiverão participação no crime Bras Victa e Antonio Vicente Mendes Maciel, sendo que este não estava presente na feira de 10 de Abril e na de 17 impediu que fossem atacados na casa em que estavão arranchados o Juis de Direito, Promotor e Comissario de policia, que ali forão para restaurar a ordem”. Eram, pois, improcedentes as denúncias contra ambos.

Para o promotor, Antonio Vicente estaria implicado na sedição por ter feito quórum nos protestos contra os impostos. Ele não estava na vila quando ocorreu a quebradeira, mas, como escreveu o promotor,

[...] chegando dias depois encampou o facto, acrescentando que o povo estava no exercicio de seos direitos em não pagar impostos. Bastou que estas palavras fossem proferidas para animar mais os desordeiros que n’elle depositão plena e illimitada confiança, sendo que alguns considerão-no um semi-Deus. Ha muitos annos que este individuo, verdadeiro maniaco, tem fanatizado o povo ingnorante, cauzando grandes e grandes prejuizos n’esta Comarca.

O promotor reconhecia, contudo, que Antonio Conselheiro fora responsável por evitar que a multidão, no dia 17, atacasse as autoridades. A situação, porém, era grave, até pela repercussão dos fatos. Por inspiração dos eventos de Soure, teriam ocorrido cenas semelhantes no arraial do Bom Jesus e na vila do Amparo, “sendo outros seos protagonistas e authores”. O promotor solicitava então que todos aqueles que tivessem alguma ligação com as pessoas envolvidas fossem também responsabilizados pelo crime.

De acordo com as testemunhas, cujos depoimentos informaram a decisão do juiz, Antonio Conselheiro não tivera qualquer participação nos acontecimentos que abalaram a ordem na vila, a despeito de sua proximidade com alguns dos “desordeiros”.

O Conselheiro, ao chegar à vila, depois do dia 10, se hospedou em casa de um certo José Felix, ativo participante na destruição das tabuletas, como também figura central nos protestos das semanas seguintes. No dia 17, antes da expulsão das autoridades, o povo, em muito maior número, teria se reunido, parte no barracão da feira, parte na casa do mesmo José Felix (onde, consoante o promotor, foram encontrados vários “cacetes”).

O Conselheiro não chegara à vila sozinho, mas acompanhado de seu séquito, o que teria concorrido para um maior ajuntamento de pessoas nos dias 17 e 24. Ainda assim, quando alguns dos responsáveis pelas destruições do dia 10 buscaram, na semana seguinte, incitar o grupo a agredir as autoridades, foram as palavras do Conselheiro que permitiram que o promotor, o juiz, o presidente do conselho, o intendente e o comissário de polícia deixassem a vila pacificamente.

José Calasans, em seu livro Quase biografias de jagunços, dividiu os conselheiristas, ou melhor, os habitantes do Belo Monte (nome dado pelo

Conselheiro ao arraial de Canudos) em quatro grupos: dos “beatos”, dos “combatentes”, dos “negociantes e proprietários” e, finalmente, das “outras figuras do Belo Monte”.78 Entre os beatos, havia um certo José Felix, alcunhado o “Taramela”. Para Euclides da Cunha, era ele o “guarda das igrejas, chaveiro e mordomo do Conselheiro”, tendo sob suas ordens as beatas de vestidos azuis cingidos de cordas de linho, encarregadas de sua roupa e exíguas refeições, bem como de acenderem diariamente as fogueiras para as rezas.79 A alcunha de Taramela teria surgido de sua função de abrir e fechar portas ou, segundo Calasans, de sua qualidade de contador de histórias (uma vez que taramela ou tramela significava falador). Por ocasião das desordens ocorridas em abril de 1893, o anfitrião do Conselheiro na vila de Soure chamava-se justamente José Felix, vila de onde era natural o “Taramela” de Canudos.

De acordo com Calasans, o “Taramela” já se encontrava no séquito conselheirista antes mesmo da ocupação do arraial de Canudos. Às vésperas do choque de Masseté, que ocorreu em maio daquele ano, havia, consoante informações deixadas por Salomão de Souza Dantas, um certo José Felix, “uma espécie de criado-grave, pessoa de toda confiança do Santo beato”.80

Segundo informações existentes no inquérito policial, quando da chegada em Soure da tropa requisitada pelas autoridades, José Felix e o restante dos acusados do crime de sedição, juntamente com o Conselheiro e seus seguidores, evadiram-se da vila.81 Apenas o negociante José Honorato de Souza Neto veio a retornar, posteriormente, ao local do crime. Para conseguir esse feito, em meio ao andamento do processo por sedição, requereu preventivamente um habeas corpus, concedido, em 6 de novembro de 1893, pelo tribunal superior sediado em Salvador. Segundo os desembargadores, o habeas corpus foi concedido devido à nulidade do processo, “resultante da incompetencia do juiz de direito formador de culpa que tinha impedimento

No documento ESTUDOS BRASILEIROS EM 3 TEMPOS: (páginas 187-200)