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3. AS RELAÇÕES ENTRE O PODER LOCAL E O PODER CENTRAL

3.2 Áreas de conflitualidade entre poder real e concelhio

3.2.5 A ruptura final

O abalo político provocado em Madrid pelos levantamentos populares tinha sido grande. Havia então que desarticular a oposição interna afastando do reino os seus elementos tidos como mais proeminentes. Em Janeiro de 1638 já alguns membros das ordens religiosas dos agostinhos, dominicanos e jesuítas tinham chegado a Madrid. A

eles se juntaram os nobres e ministros tidos por “populares”.679

O projecto de uma visita extraordinária aos tribunais e magistrados em geral, pois que em Portugal não havia justiça, particularmente contra os poderosos, no que governo e “populares” estavam de acordo, era medida susceptível, só por si, de provocar a revolta da fidalguia, já que, a concretizar-se tal projecto, não se poderia esta eximir a

responsabilidades que lhe seriam exigidas.680

Em 1639 é extinto o Conselho de Portugal e substituído por duas Juntas, uma em Portugal e outra em Madrid, às quais tinham acesso castelhanos. Se Olivares, através das políticas fiscais, tinha atacado os privilégios eclesiásticos, nobiliárquicos e concelhios, punha agora em causa a sua função de mediadores entre rei e reino, função que vinham desempenhando com proveito próprio havia décadas. A isto havia ainda a juntar o projecto de admitir no comércio da Carreira da Índia “personas de todas las

675 AHMB, ibidem, Lvo 52, fl. 98vº. 676 AHMB, ibidem Lvo 53, fls. 68-69. 677 AHMB, ibidem, fls. 69vº-71. 678 AHMB, ibidem, fls. 73vº-75.

679 Cf. António de Oliveira, op. cit., pp. 233-234. 680 Cf. idem, ibidem, pp. 239-240.

naciones”. Esta política, ao alienar o apoio das classes preeminentes, irá fracassar e

precipitar a secessão do reino.681

As reformas olivaristas admitiam duas opções, a adaptação ou a revolta. Se a primeira era o objectivo de Madrid a segunda era acalentada por muitos portugueses,

apesar da inibitória superioridade militar contrária. O desastre naval de Downs682, em

1639, e a revolta da Catalunha, em Junho de 1640, vão inverter o equilíbrio de forças ibérico.683

O levantamento da Catalunha vai aumentar a pressão militar sobre Portugal. Em Beja a requisição de soldados para o condado catalão ocorreu ainda antes de Junho; em dezanove de Fevereiro o corregedor da comarca, Doutor António de Azevedo de Pina, compareceu em Câmara com uma carta de Sua Majestade em que se continham instruções para que a Câmara fizesse armar soldados, quantos pudesse, para se enviarem

para aquele território.684 Desde Dezembro de 1639 que se tinham mandado efectuar

levas, na previsão de um ataque francês. Aproveitando o descontentamento português, bem patenteado nas sublevações de 1637-38, a França tinha iniciado os preparativos de uma grande força naval para fazer um ataque directo ou apoiar uma sublevação

portuguesa.685 Na Primavera do ano seguinte deviam concentrar-se na Catalunha o

maior número possível de soldados. Provavelmente poucos ou nenhuns chegaram a

partir para a guerra contra a França.686 As medidas de prevenção contra uma eventual

invasão francesa, mandadas suspender em dezassete de Julho de 1640, exigiram um grande esforço financeiro que em Portugal atingiu particularmente a nobreza e os mais

possidentes.687

A cooperação militar de Portugal com Castela contra a Catalunha tinha sido imposta no contexto da União de Armas. A necessidade de socorro da Índia e do Brasil era reconhecida: nas costas do Brasil, em Janeiro de 1640, a armada sob o comando do conde da Torre, D. Fernando de Mascarenhas, fora desbaratada pela frota holandesa. No

681 Cf. Fernando Bouza ALvarez, Portugal no Tempo dos Filipes, Lisboa, Edições Cosmos, 2000, p. 204. 682 “(…) Filipe IV perdeu quarenta e tres navios, seis mil vassalos e seiscentas bôcas de fogo, e Portugal o

galeão Santa Thereza, e novecentos homens. A victoria memorável de Tromp salvou o reino”. (Cit. Luiz Augusto Rebello da Silva, op. cit., p. 478).

683 Cf. Rafael Valladares, op. cit., p. 44. 684 AHMB, Vereações, Lvo 55, fls. 31-31vº. 685 Cf. António de Oliveira, op. cit., p. 246. 686 Cf. idem, ibidem, p. 257.

Oriente os mesmos holandeses atacavam Malaca, que veio a capitular em Janeiro de 1641. Olivares, porém, deu prioridade à campanha militar contra a Catalunha e fez

depender o auxílio a Portugal da cooperação deste contra os rebeldes catalães.688

Seis mil infantes a que se juntaram soldados recém-chegados do Brasil, para além de pelo menos mil soldados castelhanos dos presídios das áreas de Cascais, Lisboa e Setúbal, marcham para a Catalunha deixando Portugal cada vez mais desguarnecido. No final de Agosto de 1640 o Conde-Duque convoca “todos os títulos e nobreza”, bem como “comendadores e cavaleiros das ordens militares” para acompanharem o monarca

às cortes de Aragão e Valença. O Duque de Bragança recusou-se a estar presente.689

A revolta eclodiu a um de Dezembro de 1640. Foi a nobreza média que a encabeçou pois um vasto sector da alta nobreza, secular e eclesiástica, achava-se

assimilada ao regime dos Habsburgos.690

A aclamação do Duque de Bragança como rei de Portugal fez-se em Beja a cinco de Dezembro. Estando presentes em Câmara o Doutor Manuel Cabral, juiz de fora e dos órfãos e que também servia do geral, os vereadores Mateus de Brito Godins e Fernão de Sousa de Castelo Branco e o Doutor António de Azevedo de Pina, corregedor interino da comarca, aí compareceu um próprio, que dizia chamar-se Martim Figueira Pereira, com uma carta, escrita em Vila Viçosa a dois desse mês, assinada com um sinal de rei, na qual se continha como Lisboa e outras localidades tinham levantado por rei de Portugal D. João, o quarto deste nome, Duque de Bragança. De imediato se mandou chamar a nobreza da cidade e gente da sua governança, a quem o corregedor leu a referida carta após o que todos vitoriaram o novo rei dizendo “Viva el-rei D. João o quarto deste nome duque que foi de Bragança.”

Mateus de Brito Godins, vereador mais velho e fidalgo de Sua Majestade, alvorou então a bandeira real da cidade da janela da Câmara, dizendo “Viva e viva el rei D. João o quarto deste nome duque que foi de Bragança e ora nosso rei de Portugal”, ao que todos responderam em altas vozes dando os mesmos vivas.

688 Cf. idem, ibidem, pp. 259-260. 689 Cf. idem, ibidem, pp. 258-259. 690 Cf. Rafael Valladares, op. cit., p. 44.

Em nota final ao auto de aclamação o escrivão, Francisco Fialho Guedes, declarou que a todo o sobredito se achou presente o procurador do povo, Custódio Dias, junto com o povo.

Segue-se uma extensa lista de assinaturas. Reflecte esta a estrutura institucional camarária e a rígida estratificação social, replicando o esquema de redacção dos termos de vereação. Assinam primeiro os oficiais régios da administração periférica, o corregedor, interino, sublinhe-se, e o juiz de fora e dos órfãos, que presidia às vereações. O provedor, Dr. Jacinto Lopes Machado, não se achou presente. Seguem--se os vereadores, o vigário geral, Dr. Miguel Jácome Esquível, o procurador do povo, homens da governança da cidade e homens de segunda condição. Entre estes surgem, contrariando o procedimento normal, as assinaturas de Manuel Pegas de Beja, Francisco da Costa Alcoforado e Jerónimo de Carvalhal Freire, homens de primeira condição.

Lapso compreensível pela agitação que decerto caracterizou aqueles momentos.691

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