CAPÍTULO 3 A LEITURA DA ESCRITA: REGISTROS DE ANÁLISE DA
3.3 O trabalho desenvolvido pelo leitor-pesquisador
3.3.2 Rupturas da densidade semântica do texto e a relação
As pesquisas registradas nos tópicos que antecedem a esse possibilitam considerar o fato de que o desconhecimento de conteúdos das designações lexicais restringe o conhecimento de mundo do leitor. Tais restrições tornam-se mais acentuadas quando se tornam extensivas ao corpo do texto; razão pela qual, optou-se por apresentar os procedimentos de que se valeu o produtor-leitor para poder estender tais conhecimentos, tendo por parâmetro o título da obra e de um de seus textos, qual seja, “A Folhinha”.
Ressalta-se que a bibliografia referente a “títulos” aponta que eles podem ou não ser partes integrantes do texto como, no caso do tipo estímulo-aberto, cuja função é ludibriar o leitor, na medida em que abre várias perspectivas, vários campos conceptuais, para a tematização. Todavia, para Eco (2004), todo título oferece ao leitor
sugestões para topicalizar o texto a ser lido, isto é, faculta ao leitor a construção do tema.
Para Van Dijk (1983), a função do tópico é configurar para o leitor o conteúdo do dizer do autor, ou seja, sobre o que se fala e, assim sendo, ele está sempre associado ao contexto do discurso, pressuposto pelo vocabulário do texto, cujos conteúdos são expandidos por frases – enunciados de sentidos, formalizados por uma palavra, uma ou mais orações. Considera o autor que o tópico de uma unidade textual não se dissocia do “comentário”, pois se o primeiro se reporta a informações socialmente partilhadas, o segundo se reporta a informações novas. Essa relação inexorável e necessária entre o que se sabe, informação conhecida, e o que não se sabe, informação nova, garante a progressão semântica do texto. Logo, o texto não se apresenta ao leitor dividido em dois blocos: tópico, informação velha e comentário, informação nova, pois as informações topicalizadas são ao mesmo tempo comentadas; mas o tópico é reiterado em toda a extensão textual.
Nessa acepção, ele é reiterado sob a forma de tema para não só garantir a sua continuidade e permansividade, mas sempre em progressão semântica; por conseguinte, essa retomada se dá por processos de nominalização, não podendo haver grau elevado de distanciamento entre o que foi anteriormente nominalizado e o que está sendo. Assim, o reconhecimento do tópico se dá por diferentes processos de nominalização como hiperonímia, hiponímia, sinonímia, inscritas na relação das formas vocabulares, que não podem ser literalmente reproduzidas. Trata-se, portanto, da coesão remissiva lexical também indissociável da coesão seqüencial, por meio da qual o conteúdo condensado por tais formas nominalizadas é expandido por regras ou recursos gramaticais.
Observou-se que o título-estímulo-aberto não faculta ao leitor construir uma ancoragem significativa em relação ao recorte temático a ser desenvolvido pelo texto, podendo-se considerar que esse tipo de título cria um clima de suspense, ou tem o
propósito de guardar algum segredo, a ser desvendado ao término da leitura. Para Eco (2004), o título ativa uma porção do saber-enciclopédico do leitor, organizado por uma rede de informações codificadas, cuja extensão, depende do conhecimento prévio do leitor. Esses conhecimentos são expandidos e reconstruídos à medida que se lê o texto e se redimensionam os conhecimentos prévios do leitor. Nesse sentido, considera-se o título parte integrante do texto devendo manter com ele uma relação de coerência local e global.
A) Do título para o texto
O produtor-autor para manter as relações coesivas entre o título e o texto inicia o primeiro parágrafo reiterando a mesma designação dada ao título, de modo a expandir o conteúdo semântico da referida designação por meio de um conjunto de velhas informações, entretecidas a novas. Esse movimento de expansão deve implicar, conforme proposto teoricamente, na focalização de que decorrerá a tematização, topicalizada pela referência conceptual, inscrita na designação “Cidades Mortas”, qual seja, “a decadência”: tema da obra, conforme apontado na pesquisa apresentada no item 3.3.1, de caráter sócio-histórico-cultural.
Apresentam-se, abaixo, os resultados da leitura realizada pelo pesquisador-leitor, cuja organização privilegia a construção da base de texto. Observa-se que o movimento para tal procedimento teve por ponto de chegada as proposições explícitas produzidas pelo ato de descodificação significativa da microestrutura do texto produto.
Construção da Base de Texto 1º Parágrafo
A folhinha inventou- a algum boticário do interior para uso de sua cidade- aldeia, onde correm os dias tão iguais e parecidos que só por m eio dela podem os distinguir um a segunda dum a terça ou quarta- feira.
Segm ent ação do1 º parágrafo: crit ério = ent onação ( / / )
Vocábulos relevant es = Est rat égias de uso
Progressão Sem ânt ica do Tem a
Proposições da B.T. e conhecim ent os prévios não est endidos por out ros t ext os
A folhinha / / • Retom ada ou repetição do título
... aquela de que eu vou
falar •
A folhinha é um calendário e não a folha de um pequeno arbusto, e tam pouco um a cadernet a de folhas pequenas para anot ar “ o fiado” .
I nventou- a algum / / boticário
do interior/ / ...
• Ret om ada ou repet ição do t ítulo pelo vocábulo “ a”
• I ntroduz o vocábulo boticário, m as não com o farm acêutico;
proprietário ou adm inistrador de bot ica= loj a ou farm ácia, m as com o alguém que t ant o pode ser dono ou propriet ário de um arm azém onde se com ercializam gêneros ou produtos diversos. ( HOUAI SS,2001) . • Qualifica o boticário
com o hom em de um a cidade do interior ( aquela das cidades m ortas) ; logo, um a cidade circundada por t erras cuj a agricultura é decadente; cidade que não recebe a luz do progresso ou da urbanização.
... aquela que é produto de um invento, cuj o inventor é um boticário.
... este boticário é um habitante das cidades m ortas...
... inform a ao leitor que o boticário é um dos habit ant es do int erior = vive distante da capital, do progresso, do m undo urbano. Tam bém é um hom em rural.
• O boticário não é inventor do calendário gregoriano, m as um hom em aldeão que descobriu o fat o de: a) ser possível m edir o tem po
de trabalho em dias prévios não estendidos por outros textos;
b) para t ant o, bast a que para cada dia da sem ana corresponda um a folhinha na qual sej a regist rada, em t int a negra, o núm ero do dia da sem ana de 2ª à Sábado;
c) registro dos Dom ingos em t int a verm elha fará a diferença;
d) boticário ao conhecer esse tipo diverso de folhinha com preendeu sua função social e opt ou por part ilhar esse invento com os dem ais habitantes;
e) boticário com preende ser possível ter outra m edida de t em po capaz de
diferenciarem dia de t rabalho do out ro.
Segm ent ação do1 º parágrafo: crit ério = ent onação ( / / )
Vocábulos relevant es = Est rat égias de uso
Progressão Sem ânt ica do Tem a
Proposições da B.T. e conhecim ent os prévios não est endidos por out ros t ext os
... para uso de sua cidade aldeia / / ...
... onde correm os dias tão iguais e parecidos/ / que só por m eio dela podem os diferenciar / / um a segunda dum a terça ou quarta- feira.
• Retom a pelo uso do pronom e “ sua” a relação de posse inalienável ent re o boticário e o lugar por ele habit ado = cidade- aldeia =
povoado.
• Menor do que um a vila cuj os habitantes se qualificam por vivência rural= aldeão;
• Retom a cidade- aldeia pela form a vocabular “ onde” ;
• Qualifica a vivência dos aldeãos pela igualdade com o os dias são vividos.
• Ret om a pela form a vocabular “ dela” ( por m eio de+ ela) a folhinha e atribui a ela um a função= diferencia os dias da sem ana.
OBS: a form a verbal no plural do verbo “ poder” = podem os significa que o boticário, tanto quanto os dem ais habitantes, tam bém não era capaz de diferenciar os dias dasem ana entre si.
... é habitante de um a cidade- aldeia; logo com o todos nasceu e vive em um m esm o am biente, no contexto da decadência, com o se fora da I dade Média.
• Faz o tem a progredir por m eio de um a relação de m eio e fim = a folhinha foi criada para ser usada pelos habitantes da cidade- aldeia; tem um a função social, qual sej a:
a) na cidade- aldeia os aldeãos não m edem o tem po em sem anas de sete dias; b) para os aldeãos, de segunda a sábado, o t em po t ranscorrido é aprendido com o um t odo= causa que leva o boticário a criar a folhinha; c) o obj etivo é
ensinar aos aldeãos essa outra m edida de t em po = função socialatribuída à folhinha. • boticário não é o inventor da folhinha, m as o seu reprodutor e divulgador desse tipo de calendário em sua cidade- aldeia.
• A sem ana é m edida em dois tem pos: o de trabalhar e o de descansar.
Síntese das relações entre as proposições da base de texto do 1º parágrafo Causa do invento da folhinha = fato sociocultural: a medida de tempo é cultural; logo, um aldeão não divide o tempo como o homem urbano-moderno. Nas cidades-aldeias = cidades mortas, seus habitantes não diferenciam os dias que antecedem ao domingo entre si.
• Conseqüência = o boticário inventou (reproduziu) o calendário sob a forma de folhinha;
• Meio = cada folha de “A Folhinha” ensina que os dias da semana não são iguais; • Fim = aldeãos aprenderem outra medida para o tempo de trabalho.
• Esquema: Ka (causa) <-> Kõ (conseqüência) não dividir tempo criou a folhinha
meio – fim = aprender outra medida desse tempo semanal de trabalho
2º Parágrafo
Um só dia tem feição própria; o dom ingo. Assinala- o a roupa lim pa, a roupa nova, a roupa pret a que surge pelas ruas a t om ar sol no corpo de t oda a gent e. Redobram de m ovim ento as praças. Caras novas de gente extram uros dão ares de sua graça. Há m ercado cedo, m issas até às onze; depois, pelo resto da tarde, continuam a assinalar o Dia do senhor caboclos e negros encachaçados, aglom erados pelas vendas. Vendem elas m ais pinga nesse dia do que durante a sem ana inteira. Todos voltam para casa m ais ou m enos chum beados. Os de “ cair” dorm em na cidade. Os de pinga exaltada, no xadrez. E assim transcorre o belo dom ingo sem necessidade de irm os à folhinha para saberm os que dia é.
Segm ent ação do 2 º parágrafo: crit ério= ent onação ( / / )
Vocábulos relevant es= Est rat égias de uso
Progressão Sem ânt ica do t em a
Proposições da B.T. e conhecim ent os prévios não est endidos por out ros t ext os
Um só dia tem feição própria/ / o dom ingo/ / ...
• O dom ingo é o único dia da sem ana que tem identidade.
• Reitera para o leitor que os dias de trabalho não têm um a
ident idade própria para cada um deles.
A identidade pressupõe diferenciar, logo, quando se vive os dias de m odo sem pre igual, torna- se im possível diferenciar um do outro.
Segm ent ação do 2 º parágrafo: crit ério= ent onação ( / / )
Vocábulos relevant es= Est rat égias de uso
Progressão Sem ânt ica do t em a
Proposições da B.T. e conhecim ent os prévios não est endidos por out ros t ext os
Assinala- o/ / a roupa lim pa,/ / a roupa nova,/ / a roupa pret a que surge pelas ruas/ / a tom ar sol no corpo de t oda a gent e. Redobram de m ovim ent o as praças. Caras novas de gente extram uros/ / dão ares de sua graça. Há m ercado cedo,/ / m issa até às onze;
• A identidade do Dom ingo está em : a) usar roupa nova; lim pa e preta;
b) essas roupas ficam guardadas durante os dias de t rabalho e, no dom ingo, tom am sol = são vestidas no dia do Sol = luz; c) as praças têm m aior m ovim ento; há pessoas diferentes nas praças: aquelas que vêm à cidade para fazer com pras no m ercado e ir à m issa pela m anhã; há várias m issas.
• I nform a para o leitor que durante a sem ana usa- se roupa velha e suj a, m as não se usa roupa pret a; os dias de trabalho sem anal não são dias de Sol, pois neles não há luz = diferenças;
• Vive- se exposto ao Sol, sob ele desde que nasce até se pôr; a praça não tem m ovim ento, vida; as pessoas que a freqüentam são sem pre as m esm as; as pessoas do cam po não vão à cidade e tam pouco assistem às m issas, apenas trabalham . Não há várias m issas.
A repetição im pede que se apreenda diferenças: repetir sem renovar é m orrer a cada dia. Os dias diferem entre si quando são vividos de m odo diferenciado e não rotineiram ente.
O dom ingo é diferent e por ser dia de ir à cidade fazer com pras, assistir à m issa e passear na praça. No dom ingo a cidade tem outra feição: aquela dos que m oram além dos seus lim ites geográficos.
• As ações do período da m anhã diferem daquelas do período da tarde: a) os hom ens aglom eram - se nas vendas; esses hom ens são caboclos ( filhos da m istura do branco com o índio) e negros ( aqueles que foram escravizados nas fazendas de café) ; bebem cachaça = em briagam - se para com em orar o Dia do Senhor = de descanso. • Os que não se
em briagam m uito volt am para as casas; • Os que se em briagam
m uito dorm em na cidade;
• Os que bebem m uito e se exaltam , dorm em no xadrez = prisão.
• I nform a o leitor que essa função diferente deve ser focalizada em dois blocos: m anhã e t arde. Na part e da tarde os aldeãos entregam - se à bebida e o boticário vende m uita pinga. Dom ingo é dia de beber, volta- se para casa em briagado para dorm ir. Mas há aqueles que bebem tanto que sequer conseguem voltar para casa e dorm em na cidade. Há aqueles bêbados agressivos que dorm em na prisão.
O dom ingo, no período da tarde é dia de se
em briagar.
• O dom ingo para o boticário é dia de t rabalho e de m aior lucro.
• A pinga tam bém diferencia os hom ens- aldeãos entre si.
Segm ent ação do 2 º parágrafo: crit ério= ent onação ( / / )
Vocábulos relevant es= Est rat égias de uso
Progressão Sem ânt ica do t em a
Proposições da B.T. e conhecim ent os prévios não est endidos por out ros t ext os
/ / E assim transcorre/ / o belo dom ingo/ / sem necessidade de irm os à folhinha/ / para saberm os que dia é.
O dom ingo é vivido de m odo diferenciado dos dem ais dias da sem ana, m as todos eles são iguais aos outros.
“ saberm os” no plural, sem fazer rem issão a qualquer suj eito gram atical, refere- se, por um lado aos habitantes, da cidade- aldeia = o boticário e os outros = caboclos e m estiços; tam bém se refere ao leitor da obra CI DADES MORTAS que, habitante do interior t am bém não diferencia os dias da sem ana entre si.
• Na cidade –aldeia os dom ingos tam bém são sem pre iguais.
I ncorpora o leitor, brasileiro = caboclo = ( nascido de índia e branco) , m estiço ( indivíduo que provém do cruzam ento de pais de raças diferentes) proprietários ou em pregados de boticas ( com ércio) = aqueles que não são produtores das riquezas do cam po, que nãopart icipam do grupo do poder com o hom ens que têm a m entalidade do aldeão = não diferenciam dias de trabalho, nem os dom ingos dos m eses.
• Na cidade –aldeia o tem po é vivido sem pre igual. O dom ingo é diferenciado pelo consum o da cachaça no período da t arde, e, à noite pelo excesso de em briaguez, pois aqueles que não conseguem voltar para casa dorm em na cidade ou na prisão. • aldeão é o hom em do
povo que não se faz capaz de atribuir identidade aos dias de um calendário e tam pouco a si m esm o. Esse habitante não tem identidade.
B) Proposições da Base de Texto estendidas por intertextos
• A medida de tempo do calendário lunar tem a duração de 7 dias para cada fase da Lua, pois no 8º ela muda independente do dia da semana. Assim, por exemplo, no dia 21 de janeiro de 2004, vive-se a fase da Lua nova que é seguida pela Lua crescente a partir do dia 29 de janeiro desse mesmo ano, contudo, o dia 21 de janeiro é uma quarta-feira. Por conseguinte, na 1ª semana de 2004, vive-se a fase da Lua nova e tem-se essas fases 3 domingos: 4,11,18/01/2004. Logo, não há coincidência entre o calendário pagão e o cristão; razão pela qual a folhinha pode ser interpretada por esses 2 calendários: tempo de plantar, de colher e tempo de descansar ou louvar ao Senhor e de embriagar-se.
Para o habitante da cidade-aldeia e de suas adjacências, o tempo semanal é interpretado pelo calendário cristão, por meio de 2 leituras, quais sejam:
Aldeãos – habitantes de Cidades Mortas
Caboclos e negros boticário
Fregueses da botica dono da botica
Trabalham durante a semana descansa durante a semana
Descansam no domingo trabalha no domingo Poucas horas para o descanso poucas horas de trabalho Muitas horas para o trabalho mais horas de descanso
Ir à missa não ir à missa
Gastar o dinheiro receber o dinheiro ganho na semana
• Observa-se assim que o boticário exerce papéis sociais diferenciados no corpo social das Cidades Mortas (dono da botica, vendedor), se comparado àqueles exercidos pelos demais aldeãos (compradores ou consumidores de produtos de 1ª necessidade, neles incluindo a pinga). Contudo há entre eles relações de complementaridade que os iguala na medida em que todos são aldeãos: habitantes das Cidades Mortas, fato que os identifica como homens que, culturalmente, fazem uso da mesma medida de tempo. Por conseguinte, essa diferença, se por um lado os torna semelhantes pela mesma condição de vida sociocultural – todos têm como medida tempo o calendário cristão, que atribui identidade ao domingo - por outro lado, no âmbito sócio-econômico eles se diferenciam pela qualidade de proprietário e não-proprietário. Mas ser proprietário de uma botica das Cidades Mortas também é viver a rotina do tempo de decadência. É nesse sentido que o produtor-autor faz
uso do verbo “poder” no plural, pois tanto o boticário quanto os demais aldeãos, inclusive o produtor-autor, atribuem identidade apenas aos domingos, quando comparados aos demais dias da semana: de trabalho para os outros, de descanso para o boticário, e vice-versa. Assim, o proprietário de uma botica situada nas Cidades Mortas é o comerciante que menos trabalha e mais descansa, imitando até certo ponto a oligarquia que agrega para si os valores dos bens do capital do mercado nacional: o café. Mas o comerciante-aldeão agrega para si valores do capital da cultura e ideologia cristã-mercantilista da colonização: vive no tempo cíclico do “trabalhar seis dias” e “descansar no 7º” e, nesse sentido, identifica-se com quem está nas alturas: o Criador; mas, na Terra, diferencia-se daquele(s) que, hierarquicamente, ocupa(m) posição(ões) no poder: o rei, em tempos de colonização; a classe dos grandes proprietários rurais, em tempos de República. O aldeão é, portanto, o brasileiro que assiste à transferência do poder real português de posse das Terras que cultiva. Entre o céu e a Terra está a igreja a perdoar os seus pecados e entre o homem e o seu outro está a “botica”, hoje “boteco”
... a ambrosia dos lugarejos pobres... Dessa forma, escapam todos ao cansaço da mesmice. (cf. p.11). Logo, domingo é dia para fugir à rotina da semana e vender mais.
C) Das proposições locais para as globais
Giasson (1993) afirma que as proposições são produtos de relação entre conceitos sem os quais não se constrói a unidade semântica da Base de Texto; razão pela qual a construção de proposições exige domínio de conhecimentos não lingüísticos associados aos lingüísticos. Desprovidos dessa associação não se tem habilidades para produzir proposições, visto que elas agregam ou condensam o entrelaçamento entre dois ou mais conceitos. Por conseguinte, e conforme apontam as análises acima, a produção de novos sentidos está fundada em proposições que têm como matriz não só a compreensão de conceitos, mas também o modelo ou marco cognitivo que faculta a associação entre eles. Esse marco é a decadência do Vale do
Paraíba, em razão da permanência do modelo de ocupação e cultivo do solo. Portanto,