Capítulo 3 Casando com brasileiros
3.1. Rupturas no parentesco
Como visto anteriormente, o sistema de parentesco japonês aportado pelos imigrantes estava organizado nos princípios da coletividade, hierarquia de gênero e geracionais, no culto aos antepassados e na continuidade do nome ou a honra da família. Uma vez no Brasil, as famílias imigrantes buscaram dar continuidade a esse sistema sendo o miai uma das vias de perpetuação do parentesco, uma vez que o matrimônio sendo selado entre as famílias japonesas asseguraria a ininterrupção dos modos de vida e das famílias nipônicas. Nesse sentido, o casamento para fora do círculo das famílias japonesas significaria a ruptura de todo o sistema familiar comprometendo o sistema hierárquico, a posição do chefe e a honra da família.
De acordo com Befu, (1962, p.36 apud CARDOSO, 1998, p. 82) para compreender a família japonesa tradicional, se faz necessário distinguir a família como unidade de parentesco e a família como unidade de produção. Se a primeira concepção atentaria para a continuidade genética da patrilinearidade no sistema, a segunda concepção enfatizaria a perpetuidade do nome da família e sua ocupação. É certo que, como vimos no sistema tradicional do parentesco japonês, nos casos em que não havia um sucessor biológico, ou devidamente capaz, para herdar o papel de chefe na família recorria-se a adoção de um filho ou um genro para a sucessão familiar. No caso das adoções vê-se, de acordo com Silva (2012), que tal sistema não pode ser pensado exclusivamente pelos laços de sangue. É certo que no sistema de transmissão da herança e da sucessão familiar a sucessão pelo chonan (filho mais velho) ou pelo ototsugi (o filho mais próximo na linha de sucessão) seguia a via preferencial na perpetuidade da família, mas não a exclusiva. E seguindo Cardoso (1998), compreende-se que não havia a supremacia de uma concepção sobre a outra, mas a coexistência dessas concepções evidenciava a maleabilidade do sistema e a importância da genealogia, uma vez que, a
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perpetuidade do nome da família poderia ser assegurada e transmitida por um não consanguíneo adotivo.
Contudo, cabe observar que durante a era Meiji, no processo de unificação do Estado, uma relação entre família, sangue, território e cidadania passa a ser estabelecida pelo Estado com o mapeamento e registro das famílias por meio do Koseki Tohon, o Registro de Família japonês. De acordo com autores como Sasaki (2009) e Silva (2012), em 1871 o governo japonês criou a Lei de Registro Civil, um banco de dados nacional de todas as famílias japonesas contendo nome e sobrenome. Para além de reunir os dados de todas as famílias, tal mapeamento visou reunir os japoneses e tecer a concepção do "súdito" japonês comum sob o projeto e discurso de unificação do povo e enriquecimento da nação estabelecendo-se daí fortes relações entre o governo e povo. Nesse sentido, como apontado por Silva (2012), a instituição do ie passa a ser reflexo na política de intermediação entre o Estado e as famílias e as relações de hierarquia do ie passam a coincidir com as relações hierarquizantes do governo para com os seus súditos. Nesse momento histórico, se instituiu juridicamente a definição de quem é japonês e quem é descendente (pelo princípio da patrilinearidade) e se firmou o direito de cidadania japonesa por meio do princípio Jus Sanguinis. O sangue e o registro nacional Koseki Tohon passam a assumir valor e atribuições jurídicas acerca dos direitos e deveres dos cidadãos japoneses e a definir quem é japonês.
Se retomarmos toda a política de unificação do território japonês durante o período Meiji, lembraremos que houve nela o forjamento de uma origem mítica do povo japonês e a construção de um ideal de homogeneidade dos japoneses. E se tomamos o sangue como símbolo descritivo para a condição de ser japonês aliada a pretensa homogeneidade do povo, pode ser inferido que tal definição não teria posto em xeque o sistema de continuidade do parentesco japonês pela via da adoção. Como pontuado por Silva (2012), se a síntese complexa de ie e Koseki Tohon para a definição de ser japonês é perpassada pelo sangue japonês, há que ser compreendido que o sangue enquanto substância biológica não é irredutível em face as relações sociais com a perpetuação do núcleo familiar pela via da adoção de não consanguíneos
Isso posto, tendo em mente a complexidade da imigração japonesa para o Brasil, a centralidade da família para a emigração, o sistema de parentesco aportado pelos imigrantes, vê-se na formação das famílias forjadas, isto é, a construção de famílias artificiais sem relações de sangue e sem relações sociais entre os membros do núcleo familiar, o lançar a mão da
concepção de família japonesa enquanto relações sociais como saída para a vinda ao Brasil (SAITO, 1973; SAKURAI, 1993). Dito de outra forma, na vinda para o Brasil, o núcleo familiar perpassado pelos laços de sangue, pelas relações sociais ou pela própria composição das famílias artificiais davam mostras da flexibilidade do parentesco japonês e como ele acompanhou o contexto da emigração. Sendo assim, pode ser entendido que no contexto da emigração, a flexibilidade do sistema de parentesco podia ser tomada e reelaborada para os fins do migrar entre os japoneses sem constituir uma ruptura do próprio sistema. Entretanto, vê-se que no contexto da imigração no Brasil, a extensão dessa flexibilidade do sistema de parentesco não estaria posta para aqueles que se situavam para além do círculo da homogeneidade, isto é, para aqueles que estavam "fora", os brasileiros.
Com o "sangue japonês" assumindo o símbolo descritivo do ser japonês na era Meiji, é importante colocar esse símbolo em perspectiva no tocante a imigração japonesa no Brasil para analisar a recusa dos casamentos com os brasileiros. Pois se compreendermos o sonho de retorno como a tônica da família imigrante anterior ao fim da Segunda Guerra Mundial, o preconceito mútuo entre japoneses e brasileiros e se compreendemos que os brasileiros eram concebidos como gaijin48(estrangeiros) por não aportarem qualquer traço de familiaridade ou similitude para a sua incorporação no sistema de parentesco; do ponto de vista do parentesco japonês se faz evidente os motivos de o casamento com brasileiros significar uma ruptura na família.
Dito de outra forma, se o sangue adquiriu valor e símbolo na definição do ser japonês durante a era Meiji, ainda assim ele não era irredutível no parentesco haja visto a perpetuidade desse sistema pela via das relações sociais quando das adoções. Assim, vê-se que a perpetuidade da família firmada há séculos entre não consanguíneos no Japão passava a ser firmada entre não consanguíneos, contudo todos esses sujeitos estariam inseridos dentro do discurso de homogeneidade idealizada do povo japonês. Ou seja, se se incorporava um não consanguíneo à família, se incorporava um filho ou um genro de "sangue japonês". E ao trazermos essa lógica para a imigração japonesa no Brasil, até o presente, o símbolo "sangue japonês" assumiria forte posição entre os nipodescendentes representando simbolicamente os traços de sua especificidade frente aos demais. Se no Brasil, pela via do miai se assegurava a perpetuidade da família japonesa, isso se assegurava entre japoneses e descendentes, se
48 Termo da língua japonesa para designar o estrangeiro ou aquele que “é de fora”, “aquele que está fora”. A
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assegurava na colônia. A perpetuidade da família japonesa não estava à disposição da incorporação dos diferentes, não se estendia para os brasileiros. Se como vimos, o miai era a aliança entre as famílias nipônicas, o casamento com brasileiros significaria a ruptura da família, pois esse matrimônio atentaria contra a perpetuidade do sistema de parentesco e as relações de hierarquias e devoções desse sistema.
Nesse sentido, o casamento com brasileiros não nipodescendentes significaria o rompimento de uma estrutura fundada na relação de obediência e respeito entre pais e filhos, pois a escolha e eleição do cônjuge já não passaria pelas alianças entre as famílias, mas sim pelo jugo de um indivíduo. O indivíduo se portaria não mais como sendo uma extensão da sua família, mas como uma pessoa singularizada impondo a sua escolha frente ao coletivo. O casamento de japoneses com brasileiros e de nipodescendentes com não nipodescendentes representaria a morte simbólica da ordem familiar marcando um momento de passagem da família, enquanto modelo do parentesco, para a sobreposição do indivíduo rompedor do sistema ao impor a sua decisão, sentimento e vontade sobre a família. Esse indivíduo inaugurará um novo molde de família diferente do prescrito pela família e pela comunidade. Esse novo arranjo familiar já nasce indesejado porque é exterior a ordem local. É o casamento que não derivava da aliança, mas sim do conflito. Não era o casamento arranjado, mas o casamento indesejado porque provocava a ruptura do parentesco japonês com a imposição da escolha do indivíduo justamente no seio de uma ordem coletiva hierarquizante.