4.4 Ryan e Bernardo - os dois alunos que terminaram o curso
4.4.1 Ryan
Observa-se, a partir dos dois excertos a seguir da entrevista inicial, que Ryan, além de mencionar o aspecto relativo à importância do inglês para o futuro, demonstra estar envolvido no ensino-aprendizagem do idioma.
Ryan (Anexo XI, p. 189):
P: Fazer inglês muda alguma coisa na sua vida?
R: Acho que pode mudar no futuro, eu conseguir me comunicar com outras pessoas.
P: Como você se sente aqui na aula?
R: Eu tô tentando me dedicar o máximo pra mim aprender.
P: Como você se sente aqui com a gente?
R: Como assim?
P: Você gosta? Não gosta?
R: Gosto.
(...)
P: Hoje em dia, fazer inglês, pra você, é o quê?
R: Seria hora de mim aprender.
Observa-se o papel ativo do aluno na aprendizagem da língua-alvo: “Eu tô tentando me dedicar o máximo pra mim aprender”. Ao longo dos dois anos de curso raramente faltou. No início, tinha muita dificuldade para falar, mas ao final do curso era perfeitamente capaz de estabelecer diálogos simples, sobre assuntos do dia a dia, com seu colega de classe.
Seu envolvimento é considerado neste trabalho um investment, um investimento em sua identidade. O conceito de investment, proposto por Norton (2000), supera o de motivação por capturar de forma mais adequada a complexa relação existente entre os aprendizes e a língua-alvo e “concebe o aluno como alguém com uma história social complexa e múltiplos desejos” (NORTON, 2000, p. 11). A partir do conceito de investment ou investimento, acredita-se que, ao investir em uma segunda língua, o aprendiz poderá adquirir “ampla gama de recursos simbólicos e materiais” (LONGARAY, 2009, p. 54).
Nas palavras de Jordão (2010), o investimento em uma segunda língua “tem o potencial de nos levar a perceber o mundo de outras maneiras, de vislumbrar alternativas de significar e construir nossas identificações e desidentificações, nosso engajamento com o mundo” (JORDÃO, 2010, p. 434).
Acredito que a aprendizagem de uma língua estrangeira traz, de fato, benefícios mais amplos, que ultrapassam uma visão puramente linguística (em oposição à discursiva). Os efeitos possíveis e desejáveis do contato com uma língua diferente da língua materna incluem “a possibilidade de participação em comunidades interpretativas diferentes, em comunidades de prática culturalmente distintas”
(JORDÃO, 2010, p. 434).
Desse modo, a noção de investment pressupõe que, quando um aprendiz fala, ele não apenas troca informações com outros falantes, mas constantemente organiza e reorganiza sentidos relativos a quem ele é e como se relaciona com o mundo social.
Nesse sentido, destaco a seguir mais um excerto da entrevista inicial no qual Ryan manifesta a expectativa de se “comunicar com outras pessoas” em inglês. Ou seja, a expectativa de participação em comunidades de prática culturalmente distintas.
Ryan (Anexo XI, p. 189):
P. Você pensa em fazer faculdade? Como é que você se imagina no futuro?
R. Não sei.
(...)
P: Fazer inglês muda alguma coisa na sua vida?
R: Acho que pode mudar no futuro, eu conseguir me comunicar com outras pessoas.
Saliento que o aluno, ao ser perguntado sobre como se imagina no futuro, responde, “Não sei”. Porém, na entrevista final, os planos de Ryan são diversos.
Observar-se-á que o aluno passa a ter outros planos para o futuro que demonstram a vontade de viver em um país falante de língua inglesa.
O excerto a seguir refere-se à entrevista final e o aluno demonstra ter progredido no idioma além de demonstrar que o ensino-aprendizagem de inglês na ONG provocou mudanças em relação com o mundo. Nas palavras dele: “consigo entender melhor quando eu ouço alguma música ou vejo algum filme, que eu tenho que ver legendado”. Em relação à expectativa que ele manifestou na entrevista inicial, de se comunicar com outras pessoas, Ryan afirma: "eu já fiz alguns amigos, poucos que falam só inglês, de outros países”.
Ryan (Anexo XI, p. 191):
P: Ryan, você tá aqui há 2 anos, foram 2 anos de inglês aqui. Pra você alguma coisa é diferente?
R: Só consigo entender melhor quando eu ouço alguma música ou vejo algum filme, que eu tenho que ver legendado.
P: O que você achou disso?
R: Bom. Eu também quando crescer não pretendo morar no Brasil, pretendo morar no Canadá ou na Nova Zelândia.
(...)
P: E aqui na medida em que o tempo foi passando, o que você percebeu?
R: Eu fui melhorando aos poucos, não algo extraordinário, mas fui melhorando.
P: Tem mais algum exemplo? Você já deu dois.
R: Eu já fiz alguns amigos, poucos que falam só inglês, de outros países.
Os últimos excertos evidenciam que a noção de investimento parece ser adequada por considerar que houve uma mudança da relação do aluno com o mundo que o cerca. Ryan fez amigos de outros países: “Eu já fiz alguns amigos, poucos que falam só inglês, de outros países” e tem uma compreensão maior de filmes e músicas em inglês. Estabeleceu-se uma relação com um novo saber, que proporcionou uma
forma diferente “de entender/construir o mundo, de fazer sentido das coisas”
(JORDÃO, 2011, p.434).
Em relação ao futuro, o aluno evidencia que houve uma mudança em seus planos: “quando crescer não pretendo morar no Brasil, pretendo morar no Canadá ou na Nova Zelândia”. Na entrevista inicial o aluno não havia expressado esse desejo.
Ao ser perguntado sobre o seu futuro anteriormente ele não havia manifestado nenhuma expectativa.
Entendo que o ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras abre janelas para o mundo, faz os sujeitos vislumbrarem que o mundo é maior do que pensam ser e oferece novas perspectivas, possibilidades que até então não existiam. Segundo Jordão (2004):
O sujeito que aprende uma língua estrangeira aprende também que sua identidade nacional não é a única possível, nem a melhor, mas sim uma dentre várias [...] ele aprende que o mundo se encontra repleto de identidades diferentes da sua. (JORDÃO, 2004, p.433)
Antes de passar à análise da entrevista de Bernardo, chamo a atenção para mais um aspecto interessante na entrevista final de Ryan que diz respeito à maneira pela qual o aluno se posiciona ao falar do ensino-aprendizagem de inglês na organização:
Ryan (Anexo XI, p. 192):
P: Se você tiver que terminar essa frase: pra mim, aprender inglês significa...
R: O que eu falei antes, evoluir.
P: Mais alguma coisa?
R: Se tornar um ser humano melhor.
P: Quando você fala que todo mundo devia aprender inglês, por quê? O que vai acontecer na vida dessas pessoas?
R: Evolução do cérebro.
P. Em que sentido?
R. No sentido de saber se abrir às coisas e conversar com outras pessoas.
P. De outras línguas?
R. Sim.
Fica claro que para o aluno, aprender inglês envolve muito mais que progredir na língua, envolve “Evolução do cérebro” e “Se tornar um ser humano melhor”. Muito
interessante o fato de que o aluno menciona a evolução do cérebro pois pela “via biológica”, o ensino-aprendizagem de uma língua estrangeira representa a “formação de novas conexões entre os neurônios” (LEFFA, 2003, p. 12). Ryan indica que há benefícios relacionados ao ensino-aprendizagem de inglês que se estendem para aspectos cognitivos.
A seguir, analiso no próximo item trechos da entrevista inicial e da entrevista final de Bernardo que, assim como Ryan demonstra que o ensino-aprendizagem de inglês na organização vai além do progresso na língua e produz modificações em sua relação com o mundo.