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SÃO PAULO APLAUDE SEUS JOVENS COMPOSITORES

No documento A ESCOLA DE COMPOSIÇÃO DE CAMARGO GUARҭIERI (páginas 172-177)

Um dos acontecimentos marcantes da vida paulista, neste mês de julho, foi a apresentação no Teatro Municipal, de um grupo de jovens compositores brasileiros da Escola Camargo Guarnieri, a única verdadeira escola de composição que existe no Brasil dos nossos dias. Na interpretação do Coral Paulistano, regido pelo maestro Miguel Arquerons, e da pianista Eudóxia de Barros, por muitos títulos considerada como uma das melhores intérpretes da música brasileira, desfilaram, naquela ocasião, inicialmente, páginas de destinação coral, apresentadas como trabalhos de contraponto, de autoria de Pérsio M. Rocha, Marisa Tupinambá, Sérgio Vasconcelos Correa, Lina Pires de Campos e Oswaldo Lacerda, seguidas de composições pianísticas de José de Almeida Prado, Nilson Lombardi, além de compositores já mencionados. O concerto foi encerrado com duas obras camerísticas de grande envergadura: as Variações e Fuga para Quinteto de Sopros e a Sonata para viola e piano, de Oswaldo Lacerda.

OBRAS CORAIS

Na primeira parte do concêrto, foi apresentado o seguinte programa: “Onde vais Helena?” (coro misto a 4 vozes, 1961); “Côco de ganzá” (do Rio Grande do Norte); “Subi pelo tronco” (coro feminino, a 3 vozes, 1960); “João Cambuete” (coro feminino a 3 vozes, 1962), acalanto de Pernambuco; “Padre Francisco” (coro misto a 4 vozes, roda infantil de Cananéia).

“Em tôdas essas páginas, observou a compositora Dinorá de Carvalho, no seu

“compte-rendu” – “Diário da Noite” -, ressalta-se a espontaneidade dos seus autores. Como ainda se encontram na fase experimental, é perfeitamente natural que se mantenham discretos na tentativa de música coral. Os temas folclóricos foram aproveitados e desenvolvidos numa simplicidade acariciante”.

Caldeira Filho, no “Estado de São Paulo”, comentou que todas as peças embora de diverso valor, pareceram-lhe dignas de elogio pela claridade da polifonia, aproveitamento das vozes como veiculação expressiva no contexto contrapontístico e significativa variedade de realização.

PRODUÇÃO PIAÍSTICA

A segunda parte do concêrto, confiada à interpretação de Eudóxia de Barros, teve início com Nove Variações sôbre “Ciranda, Cirandinha” (1962), de Marisa Tupinambá.

Alinhamos, a seguir, integralmente, os comentários de Dinorá de Carvalho sôbre essa parte da apresentação:

Essas variações são de fino lirismo, harmonizadas com simplicidade, revelando-nos uma técnica apreciável de composição. “A Valsa no. 2”, de Pérsio M. Rocha (1960) é brilhante e bem equilibrada. De Lina Pires de Campos, “Sete Variações” sôbre

“Mucama bonita” (1961), de um acento leve e álacre, apresentando aprimorada escritura bem contrapontada.

“Suíte Infantil” (1961) e “Seresta” (1961), de Sérgio Vasconcelos, desenvolve-se dentro de um contexto simples e cativante, tendo-se destacado o “Baião”, gracioso e bem dançante, e o sentimento apaixonado de “Serestas”. De Nilson Lombardi ouvimos “Ciclo miniaturas” (1960), trabalho bem enquadrado na técnica pianística, e “Ponteio no. 3”, obra de notável gôsto.

Enceraram essa parte as “14 Variações sôbre Xangô” (1962) de José Antonio de Almeida Prado, que, com apenas 19 anos de idade, desponta como a maior revelação de compositor do ano. Em apenas dois anos de estudos com o maestro Camargo Guarnieri, apresentou as difíceis “Variações” sôbre o tema “Xangô”. Esse trabalho se destaca, em algumas variações, pela harmonização de marcada ousadia; outras, por feliz achado de elementos novos, nutridos de vivo rítmico. É uma página de acentuado caráter generosamente trabalhada, digna de admiração.

O público, aplaudia tôdas as peças, tornou-se ainda mais caloroso diante do talento do jovem Almeida Prado.

A consagrada intérprete de obras pianísticas Eudóxia de Barros confirmou, mais uma vez, o seu lindo talento de admirável executante dos autores nacionais. Imprimiu calor, suavidade, mantendo-se à altura na variedade dos trechos dos caracteres expressivos contidos nas peças. Sua arte interpretativa valorizou as páginas dos jovens compositores. Foi longamente ovacionada.

“SURPREEDETE LIBERDADE DE CRIAÇÃO”

O crítico do “Estado de São Paulo” fêz os seguintes comentários sôbre as mesmas:

As Nove Variações sôbre “Ciranda, Cirandinha”, de Marisa Tupinambá, pareceram-nos equilibradamente contrastantes em caráter, interessante como escrita e

promissora liberdade de linguagem. Pérsio M. Rocha, elaborou bem a sua Valsa no. 2 e Lina Pires de Campos, em Sete Variações sôbre “Mucama bonita”, apoiou-se num conceito avançado e fecundo da forma tratada. Sérgio Vasconcelos Correa, em Seresta, mostrou-se elegantemente “torturado”, como convém ao gênero. ilson Lombardi tratou com inegável poder de síntese expressiva as cinco peças do Ciclo Miniatura, de encantadora singeleza, e mostrou-se ainda original como realização no Ponteio no. 3. As Quatorze Variações sôbre “Xangô”, de J. A de Almeida Prado, revelaram o poder criador digno de nota desse jovem que ainda não chegou a casa dos vinte. Destacam-se nelas: um trabalho composicional realizado com surpreendente liberdade de criação; alguma pesquisa do timbre pianístico como fator expressivo; e, se não nos enganamos, sugestões de outras formas nacionais, numa coexistência pacífica que alargou o âmbito expressivo do tema.

O jovem autor é dotado de grande imaginação – transbordante musicalidade. Eudóxia de Barros reafirmou seu encantador talento e sentia-se que, para ela, tocar música brasileira não é favor prestado e sim honra recebida.

MÚSICA DE CÂMARA

Na última parte do programa foram apresentadas duas obras de Oswaldo Lacerda:

Variações e Fuga para Quinteto de Sôpros e Sonata para viola e Piano nas interpretações de conjuntos formados por Salvador Cortese – Flauta; Walter Bianchi – oboé; Gustavo A. Busch – fagote; e Silvio Oliani – trompa; o primeiro, e Eudóxia de Barros – piano; e Johanes Oeslsner – viola. Eis os registros dos críticos já mencionados:

Dinorá de Carvalho: As “Variações e Fuga” para quinteto foram escritas em 1962, baseando-se o autor no tema de “Canôa Virou”. É um trabalho estrutural bem planejado, de equilíbrio formal, utilizando um material nôvo com recursos técnicos dentro da atmosfera da música nacional. Destaca-se uma dolente “Modinha”, de traços polifônicos na 4a variação.

Escrever um quinteto para sôpros é, por si só, um trabalho ingrato. Tão precisa realização merece realmente inúmeros encômios. Os intérpretes: Salvador Cortese (flauta), Walter Bianchi (oboé), Leonardo Righi (clarineta), Gustavo A. Busch (fagote), e Silvio Oliani (trompa), numa execução homogênea e valiosa, colaboraram para o brilho da apresentação.

A “Sonata para viola e piano” foi composta em 1962, com os movimentos: Decidido – Cantante – Alegro. Essa Sonata é uma obra construída livremente, de equilibrado tratamento contrapontista, muito inteligente no domínio de idéias, com originais invenções pessoais e felizes de elementos novos.

Os intérpretes Johanes Oesner (viola) e Eudóxia de Barros conseguiram notável coesão de sonoridades com musicalidade, realizando uma bela execução.

O autor e seus intérpretes foram calorosamente aplaudidos.

Caldeira Filho: As seis variações – Simples, Gracioso, Incisivo, Seresteiro, Rápido e Dramático – possuem nítido caráter expressivo, o que implica em outras tantas caracterizações estilísticas, de resto bem observadas. O tema (“A canôa virou”) é tratado em fragmentos modificados e mesmo sua exposição inicial, em uníssono, já é algo elaborada, nessa obra a procura do contraponto tem como causa o desejo de realçar o timbre puro de cada instrumento e não empastá-lo pela superposição harmônica. Vaxada em linguagem atonal, a obra não teve por isso sacrificado o seu caráter brasileiro, tanto mais que subsistia a lexiologia dos motivos, estruturados basicamente em impulso-repouso, bem como a idéia do tema (ou equivalente) e desenvolvimento; daí, organicidade e autêntico espírito composicional. A “Sonata” tem um primeiro movimento monotemático, construído sôbre tema de caráter afro-brasileiro, apoiado em escala hexacordal, não rigorosa. Exposição e desenvolvimento se sucedem em constante aproveitamento dos dois instrumentos (a viola não pôde escapar a ser por vezes encoberta pelo piano”, cujas possibilidades líricas são exploradas na tranqüila parte central e se expandem livremente no segundo movimento, eco de longínqua modinha. O movimento final é alegre rondó, no qual o contraste entre os temas não lhes anula o parentesco; desenvolve-se com liberdade e mútua funcionalidade estrutural dos dois instrumentos. Eudóxia de Barros e Johanes Oelsner interpretaram carinhosamente a “Sonata”.

O quinteto executante das “Variações” se compunha de Salvador Cortese, flauta; Walter Bianchi, oboé; Leonardo Righi, clarineta; Gustavo A. Busch, fagote, e Silvio Oliani, trompa.

“FORMAÇÃO COSTRUTIVA”

Esse programa, - conclui Caldeira Filho – como se vê, representa considerável avanço quanto à primeira audição de 1953. Podemos afirmar que o concêrto em apreço, superando a desigualdade de valor de obras de principiantes e de “seniors”, responde com fatos a uma suposta crise da composição musical brasileira. Esta mostrou esplêndida vitalidade graças a êsse grupo de jovens merecedores de todo o nosso respeito. O estudo por êles feito é de composição e não de aplicação de processos. De resto, não se notou nenhum exclusivismo técnico e a grande variedade de expressão daquele grupo de peças é prova de que foi respeitada a personalidade dos alunos, o que lhes permitiu afirmações realmente “pessoais”. A grande importância do fato é que os jovens compositores estão aprendendo a lidar com as idéias musicais e com o material sonoro específico, o que supõe nêles a animadora crença da

existência de idéias e de música. Há formação construtiva. Honestamente, e inteligentemente, dá-lhes Camargo Guarnieri a indispensável base de “métier”. Cada um poderá depois seguir o próprio caminho.

Jornal do Commercio Rio de Janeiro – 22 de Julho de 1962 Fonte: Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) Acervo Camargo Guarnieri - Caixa de recortes 1962 (Julho)

AEXO XV

No documento A ESCOLA DE COMPOSIÇÃO DE CAMARGO GUARҭIERI (páginas 172-177)