3. RESULTADOS
3.3. Séries ao longo do gradiente estuarino com um intervalo temporal longo
Nas amostragens realizadas na zona intermédia, no âmbito das séries de longo do gradiente estuarino com um intervalo temporal longo, foram capturados um total de 71 taxa diferentes e um total de 1401 indivíduos (Tabela 18).
Na zona Intermédia, os Polychaeta foram o grupo taxonómico dominante, tanto em número de espécies (53,5%) como em abundância (34,7%), seguindo-se os Malacostraca com 15,5% do total de taxa identificados e 16,5% de abundância, e Bivalvia com 22,5% do total de taxa identificados e 11,2% de abundância (Figura 23). É importante ainda salientar que apesar de os Clitellata serem representados apenas por dois taxa, a sua abundância é considerável (30,5%). Os taxa dominantes foram Tubificoides sp. (20,6%), Streblospio shrubsolii (10,4%) e Chaetozone setosa (8,1%).
Tabela 18 – Número de taxa incluídos nas classes representadas e respectiva abundância, nos dados recolhidos durante as amostragens realizadas em 2003 e 2014 na zona intermédia do estuário do Tejo
Classe Número de taxa Número de indivíduos Bivalvia 16 158 Clitellata 3 428 Gastropoda 2 64 Malacostraca 11 231 Maxillopoda 1 34 Polychaeta 38 486 Total 71 1401
Figura 23 – Composição relativa (número de taxa e abundância) das amostras recolhidas durante as amostragens realizadas em 2003 e 2014 na zona intermédia do estuário do Tejo.
32 Nas amostragens realizadas nas baías, no âmbito das séries ao longo do gradiente estuarino com um intervalo temporal longo, foram capturados um total de 48 taxa diferentes e um total de 1922 indivíduos (Tabela 19).
Os Polychaeta foram o grupo taxonómico dominante nas baías, tanto em número de espécies (50,0%) como em abundância (73,3%), seguindo-se os Malacostraca com 20,8% do total de taxa identificados e 18,4% de abundância, e Bivalvia com 18,7% do total de taxa identificados e 5,1% de abundância (Figura 24). Os taxa dominantes foram Chaetozone setosa (52,6%), Streblospio shrubsolii (8,8%) e Polydora cornuta (5,4%).
Tabela 19 – Número de taxa incluídos nas classes representadas e respectiva abundância, nos dados recolhidos durante as amostragens realizadas em 2003 e 2014 nas baías do estuário do Tejo
Classe Número de taxa Número de indivíduos Bivalvia 9 99 Clitellata 2 19 Gastropoda 2 9 Malacostraca 10 354 Maxillopoda 1 31 Polychaeta 24 1410 Total 48 1922
Figura 24 – Composição relativa (número de taxa e abundância) das amostras recolhidas durante as amostragens realizadas em 2003 e 2014 nas baías do estuário do Tejo.
33 Nas amostragens realizadas na zona inferior do estuário, no âmbito das séries ao longo do gradiente estuarino com um intervalo temporal longo, foram capturados um total de 46 taxa diferentes e um total de 591 indivíduos (Tabela 20).
Os Polychaeta foram o grupo taxonómico dominante na zona inferior, tanto em número de espécies (50,0%) como em abundância (77,1%), seguindo-se os Bivalvia com 21,7% do total de taxa identificados e 6,5% de abundância (Figura 25). Os taxa dominantes foram Chaetozone setosa (48,0%), Streblospio shrubsolii (8,6%) e Melita Palmata (7,9%).
Tabela 20 – Número de taxa incluídos nas classes representadas e respectiva abundância, nos dados recolhidos durante as amostragens realizadas em 2003 e 2014 na zona inferior do estuário do Tejo
Classe Número de taxa Número de indivíduos Bivalvia 10 39 Clitellata 2 11 Gastropoda 3 21 Malacostraca 8 64 Polychaeta 23 456 Total 46 591
Figura 25 – Composição relativa (número de taxa e abundância) das amostras recolhidas durante as amostragens realizadas em 2003 e 2014 na zona inferior do estuário do Tejo.
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3.3.2. Evolução temporal
A serie de dados do gradiente estuarino, apesar de consistir apenas em duas datas de amostragem, o intervalo entre estas é superior a 10 anos, o que permite analisar potenciais alterações num intervalo maior de tempo, ao contrário do Porto do Buxo, Portinho da Costa e Expo nos quais se podiam identificar tendências de evolução.
O cálculo do índice AMBI para as zonas intermédia, baías e zona interior do estuário indicaram uma diminuição dos valores entre 2003 e 2014 (Figura 26), com valores do erro-padrão que apontam para uma variabilidade relativamente baixa dentro de cada zona. Os valores de AMBI oscilaram entre 3,07 e 3,69 na zona intermédia, entre 2,19 e 3,74 nas baías, e 2,58 e 4,00 na zona inferior. Os valores médio obtidos indicam uma melhoria do estado Moderado para Bom em todo o estuário, entre 2003 e 2014.
Figura 26 – Valores de AMBI e respectivo erro-padrão para a zona intermédia (A), baías (B) e zona inferior (C) em 2003 e 2014.
A distribuição geográfica com base no número de espécies para a zona intermédia mostra um aumento no número de espécies 0 e espécies 2, de 2003 para 2014 (Figura 27), sendo o aumento mais acentuado para as espécies 2, tal como tinha sido observado para as séries temporais da Expo, localizadas nesta área do estuário do Tejo.
Figura 27 – Percentagem relativa do número de espécies do norte e espécies do sul na zona intermédia em 2003 e 2014: Espécies 0- Espécies com uma distribuição exclusivamente a norte da Costa Atlântica do Sul da Europa; Espécies 2 – Espécies com uma distribuição exclusivamente a sul da Costa Atlântica do Sul da Europa.
35 Apesar de um aumento no número de espécies 0 na área intermédia, a abundância das mesmas não acompanhou essa tendência (Figura 28), ao contrário da abundância das espécies 2, que sofreu um elevado incremento na abundância, corroborando, uma vez mais, as tendências observadas nos dados obtidos na Expo.
Figura 28 - Percentagem relativa do número de indivíduos do norte e indivíduos do sul na zona intermédia em 2003 e 2014: Indivíduos 0- Indivíduos com uma distribuição exclusivamente a norte da Costa Atlântica do Sul da Europa; Indivíduos 2 – Indivíduos com uma distribuição exclusivamente a sul da Costa Atlântica do Sul da Europa.
Apesar da percentagem de espécies 0 e 2 não apresentar variações assinaláveis nas baías, entre 2003 e 2014 (Figura 29), registou-se um incremento significativo na abundância das mesmas, em particular das espécies 2 (Figura 30). Apesar de não haver uma predominância no nº de espécies de nenhum dos grupos, a abundância das espécies 0 é bastante superior à das espécies 2.
Figura 29 - Percentagem relativa do número de espécies do norte e espécies do sul nas baías em 2003 e 2014: Espécies 0- Espécies com uma distribuição exclusivamente a norte da Costa Atlântica do Sul da Europa; Espécies 2 – Espécies com uma distribuição exclusivamente a sul da Costa Atlântica do Sul da Europa.
36 Figura 30 - Percentagem relativa do número de indivíduos do norte e indivíduos do sul nas baías em 2003 e 2014: Indivíduos 0- Indivíduos com uma distribuição exclusivamente a norte da Costa Atlântica do Sul da Europa; Indivíduos 2 – Indivíduos com uma distribuição exclusivamente a sul da Costa Atlântica do Sul da Europa.
Na zona inferior do estuário do Tejo o número e abundância de espécies 0 como as 2 diminuem entre 2003 e 2014, sendo que as espécies 0 deixaram de ser registadas neste local em 2014 (Figuras 31 e 32). Mesmo com este padrão de declínio, as espécies 2 são mais representativas na zona inferior que as espécies 0, algo que não corrobora os dados obtidos no Porto do Buxo e Portinho da Costa.
Figura 31 - Percentagem relativa do número de espécies do norte e espécies do sul na zona inferior em 2003 e 2014: Espécies 0- Espécies com uma distribuição exclusivamente a norte da Costa Atlântica do Sul da Europa; Espécies 2 – Espécies com uma distribuição exclusivamente a sul da Costa Atlântica do Sul da Europa.
37 Figura 32 - Percentagem relativa do número de indivíduos do norte e indivíduos do sul na zona inferior em 2003 e 2014: Indivíduos 0- Indivíduos com uma distribuição exclusivamente a norte da Costa Atlântica do Sul da Europa; Indivíduos 2 – Indivíduos com uma distribuição exclusivamente a sul da Costa Atlântica do Sul da Europa.
Para os dados de 2003 e 2014 correspondentes à zona intermédia, baías e zona inferior do estuário, o teste G-de-independência mostrou que não existem diferenças significativas entre as frequências absolutas de espécies 0 e 2 em qualquer um dos locais (Tabelas 21, 22 e 23).
Tabela 21 – Resultados do teste G-de-independência realizado para determinar se as frequências do número de espécies 0 e 2 na zona intermédia do estuário são dependentes do ano de amostragem
Espécies 0 Gw = 0,07 g.d.l. = 1 P > 0,05 2003 2014 --- Espécies 2 Gw = 0,03 g.d.l. = 1 P > 0,05 2003 2014 ---
Tabela 22 – Resultados do teste G-de-independência realizado para determinar se as frequências do número de espécies 0 e 2 na baías são dependentes do ano de amostragem
Espécies 0 Gw = 0,46 g.d.l. = 1 P > 0,05 2003 2014 --- Espécies 2 Gw = 0,46 g.d.l. = 1 P > 0,05 2003 2014 ---
Tabela 23 – Resultados do teste G-de-independência realizado para determinar se as frequências do número de espécies 0 e 2 na zona inferior do estuário são dependentes do ano de amostragem
Espécies 0 Gw = 0,072 g.d.l. = 1 P > 0,05 2003 2014 --- Espécies 2 Gw = 0,120 g.d.l. = 1 P > 0,05 2003 2014 ---
38 Para as frequências absolutas do número de indivíduos 0 e 2 na zona intermédia, baías e zona inferior do estuário, o teste G-de-independência mostrou que existem diferenças significativas tanto para indivíduos 0 como para os indivíduos 2 na zona intermédia (Tabela 24) e nas baías (Tabela 25), enquanto na zona inferior não existem diferenças significativas na frequência absoluta de nenhum dos grupos (Tabela 26).
Tabela 24 – Resultados do teste G-de-independência realizado para determinar se as frequências do número de indivíduos 0 e 2 na zona intermédia do estuário são dependentes do ano de amostragem
Indivíduos 0 Gw = 5,19 g.d.l. = 1 P < 0,05 2003 2014 Indivíduos 2 Gw = 47,96 g.d.l. = 1 P < 0,001 2003 2014
Tabela 25 – Resultados do teste G-de-independência realizado para determinar se as frequências do número de indivíduos 0 e 2 nas baías são dependentes do ano de amostragem
Indivíduos 0 Gw = 109,39 g.d.l. = 1 P < 0,001 2003 2014 Indivíduos 2 Gw = 8,06 g.d.l. = 1 P < 0,01 2003 2014
Tabela 26 – Resultados do teste G-de-independência realizado para determinar se as frequências do número de indivíduos 0 e 2 na zona inferior do estuário são dependentes do ano de amostragem
Indivíduos 0 Gw = 1,87 g.d.l. = 1 P > 0,05 2003 2014 --- Indivíduos 2 Gw = 0,39 g.d.l. = 1 P > 0,05 2003 2014
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Tendo em conta que foram analisados os dados de três áreas diferentes para 2003 e 2014, na ordenação PCO foram identificados os fatores ano e áreas. A PCO explicou uma variância total de 29,6%, sendo evidente uma separação dos dados relativos a 2003 e 2014 ao longo do primeiro eixo de ordenação (Figura 33). No entanto, não parece haver uma separação entre as amostras recolhidas nas diferentes áreas do estuário.
Os vetores do AMBI e da distribuição geográfica parecem indicar que estas variáveis estão associadas aos padrões identificados na ordenação das estações de amostragem, sendo o AMBI o vetor mais representativo. Os valores mais elevados do AMBI estão associado às amostras de 2003, indicando uma melhoria da qualidade ecológica em 2014. Já o vetor da distribuição geográfica indica uma associação das espécies 2 aos dados de 2014, sobretudo nas estações de amostragem da zona intermédia.
Para o gradiente estuarino foram apenas representados os vetores de espécies que tinham uma correlação de Pearson r > 0,4. Podemos observar que existem espécies associadas tanto aos anos mais antigos como os mais recentes, sendo todas elas espécies 1 com a exceção de Boccardiella ligerica que está classificada como espécie 0. Já para o AMBI estes dois grupos são algo distintos, sendo que o grupo associado ao ano de 2003 é composto sobretudo por organismos do grupo ecológico III, enquanto o grupo associado a 2014 é composto sobretudo por organismos que o AMBI classificou no grupo ecológico II. Isto mostra que ocorreu um decréscimo no valor do AMBI entre 2003 e 2014, algo suportado pelos dados obtidos na média do AMBI.
39 Figura 33 – Análise de Componentes Principais (PCO) das estações de amostragem da zona intertidal da zona intermédia (I2003 e I2014), baías (B2003 e B2014) e zona inferior (L2003 e L2014) dentro de um espaço multidimensional definido pelos factores ano e áreas. A matriz original de dados foi transformada por raiz quadrada e foi usado o coeficiente de similaridade de Bray-Curtis. Só foram representados os vetores de espécies que tinham uma correlação de Pearson r > 0,4 com os eixos da PCO.
A PERMANOVA mostrou que existem diferenças significativas para a composição taxonómica entre os anos 2003 e 2014 (Pseudo-F = 4,53; P(perm) = 0,001. Não houve uma interação significativa entre os fatores ano e áreas (p < 0,05).
Para o AMBI a PERMANOVA também indicou diferenças significativas entre anos com (Pseudo-F= 14,99; P(perm) = 0,001), sem interações significativas entre os dois fatores testados (p < 0,05).
Já para a distribuição geográfica, não foram encontradas diferenças significativas para os fatores ano e áreas (p< 0,05).
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