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Acordei às 4h e tomei meu café. Aproveitei para fazer o diário. – Estava horrível minha cara: um misto de Renato Russo com o Boi da Cara Preta –. Fui até a praia, ainda escuro, para ter uma idéia de como estava o mar.

– Boas notícias!

Mar bem mais calmo: pouco vento e estava terral, ou seja, não estava de sul.

Começo a arrumar tudo. Levo o caiaque vazio para a beirada do mar e começo a embarcar as coisas.

Na primeira luz eu já estava no mar. Não queria correr nenhum risco de falhar na missão daquele dia. Finalmente mar calmo e favorável. Rapidamente, sem muito esforço, me coloco em média de velocidade de 7,5 km/h e subindo.

– Aleluia!

Vou passando rente à costeira oeste do Sahy. Várias prainhas com casas que nem sabia que existiam. Ficava pensando em quem morava ali. Não eram casas simples, de pescador. Algumas com caiaques na porta. – Que coisa boa – . Mas logo ficaram para trás, no meu imaginário; e eu ia de vento em popa.

Quando chegava nas pontas, o mar se agitava e ficava grosso, mas logo voltava à tranquilidade. O vento agora soprava maral, que era do meu lado esquerdo, o que me fazia derivar um bocado para as praias. A cada prainha que passava eu já ficava analisando: esta dá para sair; aquela dá para acampar. Já estava virando costume.

Passei por várias prainhas acampáveis e que numa emergência poderia voltar e dormir.

Na falta de um camping ou ilha, é melhor dormir numa praia deserta e de difícil acesso, do que numa praia de cidade; fora que muitas cidades nem permitem acampar.

Chovia muito ao redor: no montão, alcatrazes e para o lado do Rio de Janeiro. Céu preto desabando. Adoro ver as nuvens se desmanchando em água. Estava torcendo para não chover em mim, porque não estava muito calor e seria muita água.

Estava chegando na ponta leste de Boracéia: mais mar grosso. Ao lado direito mais uma praia chamada Brava e à esquerda uma ilhota; e no canal entre elas, ondas

levantavam e quebravam por causa das pedras rasas da ilha, – o que me obrigava a dar uma surfadinha –. Seguindo em frente, após passar a turbulência, mais mar calmo e favorável; mas agora era hora de ligar o piloto automático: a temida e entediante Boracéia tinha chegado! O vento foi sumindo. A chuva ao redor se foi e dava para ver o arquipélago de Alcatrazes nitidamente, com o sol destacando seu enorme paredão de cor

avermelhada: lindo e imponente.

A mar ficou um espelho: como uma piscina. O caiaque estava voando.

– Não resisti!

Comecei a mandar ver na remada. Parecia um cavalo doido. Que maravilha sentir o caiaque andando bem: – a primeira vez em uns 200 km! – . Mas mantive assim só por uns vinte minutos, porque logo a razão me fez lembrar que aquilo poderia mudar; fora que ainda tinha muita água pela frente e um outro dia inteiro de remada.

E não deu outra: quando me aproximei da ponta leste da Riviera entrou vento sul e mar mexido tudo novamente. Pontas mexidas e remadas pesadas. Daí pensei:

– Quer saber? Vou aproveitar e dar uma parada na Riviera.

No canto leste é sempre tranquilo, – mas tem que sair bem no canto –. E foi

perrengue dando a volta na costeira com altas ondas quebrando nas pedras rasas até conseguir virar para a praia.

– Enfim calmaria.

Saí na praia: reta e sem onda. Tomei "whey" e dei uma esticada, andando um pouco para circular o sangue nas pernas. Essa parada não estava prevista, mas foi uma boa sair ali. Fiquei somente uns dez minutos em terra, mas queria descansar uns trinta no total, antes de encarar aquele mar todo contra e encrespado. Embarquei; passei a

arrebentação e a costeira, ficando ali um tempo relaxando e tentando imaginar onde eu iria sair naquele final de dia:

– Será que daria para sair na praia Branca?

Tentava não pensar muito nisso. Tinha criado uma estratégia de dividir as metas em três: chegar, desembarcar e arrumar lugar para dormir. Assim minimizava o estresse.

Fui remando bem de leve, remada de descanso. Na próxima ponta já veria Bertioga, o canal e a praia Branca. – Era o que eu achava –. Voltei à cadência normal de remada, passei pela ilha da Riviera, seguindo para ponta da costeira que dá em Bertioga.

Que mar mexido: paulada total! Avançava lentamente, mas estava divertido. Quando finalmente me livro do mar agitado, – acho que deviam faltar uns dez ou treze quilômetros para a praia Branca –, mar contra e confuso; e eu não conseguia entender onde teria que sair.

– Isso começa a deixar a gente louco!

À minha direita uma extensa praia. Pensava:

– Só pode ser Bertioga! Mas onde estaria o canal de Bertioga? Porque se visse o canal, teria certeza de que era lá mesmo.

Olhando do mar, toda a costa fica praticamente reta e você perde totalmente a perspectiva. Faltava pouco, só uns sete quilômetros, ou seja, pouco mais de duas séries de meia hora de remada cada; mas os dois dias anteriores agora estavam cobrando alto.

Eu estava sentindo uma leve dor no baço; ou por lá. Alguns chamam de “dor de burro”. Isso me fez ficar atento à minha condição física, pois algo devia estar bem no limite, o que agravou minha necessidade de chegar em terra logo e a ansiedade por não conseguir entender onde era a tal praia Branca. Minha mente não estava cem porcento.

Começaram uns pensamentos fortes catastróficos, que não conseguia conter: perder o remo; ou perder o rumo; – como acontece com mergulhadores que sofrem lesão no tímpano ou intoxicação por CO2, que descem ao invés de subir e acabam morrendo –.

Comecei a me preocupar com minha sanidade. Pensei:

– Imagina se eu fico doido e começo remar para o mar aberto?! Já pensando como seria apertar o botão de SOS do SPOT.

Poderia ser um leve problema renal, resultando no acumulo de creatinina, que faz a gente alucinar, o que fazia sentido, pois a musculatura estava muito castigada. Isso eleva a quantidade de creatinina no sangue; mas é só uma especulação. Também poderia ser só resultado da solidão e do estresse de tantos dias me afetando. Só sei dizer que foi muito estranho e sentia urgência de chegar logo em terra firme.

Sabia que tinha uma ilhota em frente à praia Branca, mas as únicas ilhas que

conseguia identificar visualmente ficavam ao sul, – ilha Guará, descobri depois –, ou seja, à esquerda do paredão que via à minha frente; e o GPS apontava bem para o meio daquilo tudo. A gente vai percebendo onde são mais exatamente os locais de saída testando a derivação para esquerda e direita, comparando o desvio que dá na rota.

Fazendo isso percebi que sempre quando mirava numa “bolotinha”, a rota se mantinha alinhada:

– Só podia ser aquela a ilhota!

Só quando restavam uns três quilômetros, realmente entendi onde sairia; e uma coisa que pensei ser uma ilha era, na verdade, a ponta do canal de Bertioga, onde à esquerda ficava a praia Branca. Por isso não coseguia me localizar. Do ponto de onde eu estava no mar, não era possível ver o canal de Bertioga! Eu nunca iria encontrá-lo. Entendem agora a importância de um GPS?

Agora era só chegar. A ansiedade baixou, mas ainda não me sentia seguro com relação a minha capacidade mental: era como se um eu meu divagasse e o outro tentasse manter o foco no objetivo.

Forçava pensamentos racionais e lógicos para não esvair. Se faltassem muitos quilômetros eu certamente pararia em um local emergencialmente; mas faltava tão pouco agora. Uma insegurança estranha e um certo medo inexplicável me rondavam. Foi uma experiência muito marcante.

O mar estava realmente grande ali e fui me achegando de mansinho: finalmente praia Branca. Primeira etapa: chegar, estava cumprida; agora, desembarcar? Sei não. Remei toda a extensão da praia a uma distância segura, antes da arrebentação, estudando como as ondas quebravam e se haveria uma forma segura de sair. As ondas estavam muito grandes e a praia era definitivamente de tombo. As vagas, onde eu estava, deviam ter pelo menos uns três metros. Remei a praia de norte a sul e não tinha um ponto fácil de sair. É verdade que numa praia de tombo a onda perde altura rapidamente antes de arrebentar, mas isso não quer dizer que perca energia.

A questão é que se você errar na técnica de saída, acaba sendo socado no banco de areia da beira da praia; e se bater de frente: adeus caiaque. De lado também pode

danificar tanto o casco quanto o leme; ou equipamentos que estão no deck do barco.

Você mesmo pode ser até ejetado do assento; e mesmo que consiga sair sem maiores danos, se não for rápido, rola de volta e fica nesse vai e vem. Quando finalmente

conseguir sair, pode ainda tomar uma caiacada nas pernas; ou deixar o barco à deriva, tendo que correr atrás dele feito um abestado.

– Cena patética! Ilária para quem vê; dramática para quem sofre.

Para sair com estilo numa praia de tombo com mar grande exige-se muito treino.

Falando um pouco da técnica, para sair em praia reta, pode-se tanto fazer “front side surf”, ou seja, descer a onda e ir reto, fazendo leme para corrigir a direção, e por fim terminar de lado, em alto estilo, aterrissando suave e saindo com o remo no colo, sem nem precisar segurá-lo: linda manobra; ou também pode-se entrar já direto em “side surf”, ou seja, tomar a pancada de lado e ir assim até reduzir a energia da onda, tomando o controle de volta e terminando no mesmo estilo.

Mas para sair em praia de tombo “bonito”, você tem que fazer “Crest surf”, ou seja, surfar na crista da onda e nunca descê-la, pois se você descer vai ter que fazer side surf, ou seja, não vai capotar, mas não será uma aterrissagem suave! – Será mais ou menos como um Boeing aterrissando sem trens de pouso após a cabeceira da pista! –. Então, você tem que perseguir a vaga, para no momento que ela estourar estar exatamente com o cockpit sobre ela. Assim, como mágica, ela te colocará sobre areia, como se fosse uma mão te carregando, pois vai recuar rápido e, em um segundo, aquele volume todo de água vai se tornar areia; é bem legal. Mas você tem que sair e puxar o barco rapidinho, pois também, como uma mão, a próxima onda vem para te dar uns bons tabefes!

Eu preferi não arriscar. Eram muitas variáveis e pouco treino nessa modalidade, num local totalmente desconhecido. Então dei a volta na ilhota pelo lado desprotegido, porque o lado protegido era raso e estava quebrando onda que nem na praia.

Paguei o preço: mar mexidíssimo e muito pesado; mas podia contemplar três praianhas e lá o mar estava normal. Me aproximei da que estava mais perto. Não sabia nem o nome. Inspecionei se haviam pedras na beira e não: estava bom de sair. E lá fui eu, surfadinha em praia de tombo. Errei a saída e acabei descendo a onda, um pouco de desleixo, confesso, por estar com ondas de mais ou menos um metro somente; aterrissei na pancadinha de lado.

Fiquei me imaginando na outra praia, se tivesse cometido esse erro.

– Boa decisão. Sem dúvida.

Mas não sabia se tinha sido uma boa decisão em relação à segurança, pois mal tinha chegado e já tinha gente de mochila na praia. Não gostei do clima e fiz questão de

entocar, logo que desembarquei, todos os equipamentos eletrônicos no compartimento de carga. Estava chegando um casal e perguntei se era bom de acampar ali, e o rapaz me respondeu um “não sei” desconfiado. Acho que acabei com o barato dos dois! Apesar de que a praia era grande o suficiente para ficar cada um num canto. Na verdade, acho que as pessoas é que tinham medo de mim, um cara todo de preto com um remo na mão.

Estranhão, não?

Fui inspecionar melhor o local.

A praia tinha uma boa área acima da linha da maré, com bastante cobertura de árvores, mas com sinais de fogueira e muito, muito lixo. Me preocupei se não iam lá para usar drogas e se embebedarem: o que me exporia a esse tipo de gente. Outra coisa ruim é que as pessoas deixavam sacos com lixo orgânico amarrados nas árvores! A praia fedia como uma latrina sanitária. Dava asco de pisar naquela areia. Daí você até começa a dar razão para a proibição de acamparem em ilhas! Mas ainda sou mais a favor da educação e controle da quantidade de pessoas que visitam os locais, como em Noronha, por

exemplo; além de poder usar isso para gerar renda, cobrando uma taxa para dormir, que seria revertida para pessoas que trabalhariam nesse controle. Mas isso é uma outra história.

Voltando à narrativa, existia, além das árvores, bastante restinga. Então entoquei meu caiaque e a barraca de forma que não desse para vê-los da praia. Mas grande coisa, logo chegou uma pessoa e acampou embaixo de uma outra árvore: fez até fogueira. Não falei com ele. De certa forma, era melhor que costumassem acampar lá.

O Nilton me ligou e me informou que eu estava na praia Preta. Disse que era uma praia perigosa. Resumindo suas palavras: perigosa para os equipamentos eletrônicos.

Algumas pessoas que estavam acompanhando ficaram preocupadas de eu ter saído ali. Eu também estava.

Era a última noite e tinha tudo para ser uma noite ruim: não era um lugar paradisíaco, fedia, cheio de gente suspeita e um chão duro, que estava prestes a ser meu carrasco.

Mas nesse ponto já olhava o que tinha feito e agora já estava em casa; praticamente. Não tinha borrachudo, mas tinha pernilongo, daqueles que dão bastante reação alérgica e fica um calombo: me fizeram lembrar da minha infância, quando passava as férias em Praia Grande, com meus avós.

Fui comendo as sobras: Duas latas de atum e um monte de pão com pasta de

amendoim; fora o "whey" e suplementos, claro. Não estava cansado, mas não estava nem perto de estar recuperado; e torcia para o outro dia ser fácil.

Já noite caída, entre dormidas e acordadas: uma chuva boa para brincar de cabana, como na infância. Ficava às vezes vendo os diários e fotos; outras vendo as rotas no GPS, relembrando tudo que tinha passado. A vontade de chegar e acabar logo cresciam, mas tentava manter o foco no agora; e no logo mais. Não queria estresse no último dia.

Queria chegar bem e com folga.

Barraca montada na praia Preta: última noite.

Dia 8