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Sílvia Ramos Página 97 algumas pessoas referem fobias, aparentemente infundadas, mas não são capazes de

as partilhar ou de as ultrapassar:

nunca mais consegui nadar como deve ser, nunca consegui dar mais do que três braçadas sem ter que pôr os pés no chão (…). (Francisca)

lembra-me, (…) de eu andar com pavor, eu sei lá, com medos de coisas, mas eu não contava a ninguém. (…) medo de morrer (…) eu achava que me ia acontecer alguma coisa, que eu ia ter uma doença e que ia morrer. (…) andava nervosa porque tinha medo, e que não conseguia dormir de noite porque tinha medos. É que eu não sei que medos (…). Eu nunca fui festejar o Ano Novo a lado nenhum! Nem pensar, não consigo! (…) eu tenho pavor ao Ano Novo, ando sempre nervosa, ando sempre agitada (…) ando sempre triste e mesmo com medo do ano que aí vem, não sei, é uma coisa que me assusta. Detesto Natal e Ano Novo. (Marta)

Tenho pânico de calores intensos, porque eu acho que vou morrer, não vou conseguir respirar e vou morrer… eu acho que isto tem tudo, posso estar errada, mas para mim isto está tudo relacionado com este processo todo daquilo que foi a minha vida depois de eu ter perdido o meu irmão e a minha mãe. (…) neste momento sinto-me uma pessoa muito limitada na minha vida, porque há muita coisa que eu não faço porque tenho pânicos e tenho medos, e passa por centros comerciais andar de comboio, andar de metro, (…). E isso para mim é… completamente dramático! (Clara)

A vida das pessoas pode ser restringida não só pelos próprios processos depressivos (que podem ou não estar presentes), como também por estes medos, muitas vezes sem qualquer fundamento. Viver a vida de modo apreensivo, inseguro, talvez com alguns pânicos, eventualmente pode conduzir à necessidade (quase) permanente de fazer uma introspeção, uma autoanálise, numa procura contínua de se compreender melhor, na busca da felicidade. Estas fobias podem estar relacionadas com situações em que as pessoas não têm qualquer controlo sobre elas e, por vezes, as lembranças são de tal modo dolorosas que são como que eliminadas da memória. Os medos, as fobias, os pânicos como que lhes roubam a autonomia, tornam as pessoas dependentes de terceiros:

eu tenho fases da minha vida que parece que tentei de alguma forma apagar, porque não me recordo! (…). E eu acho que por isso mesmo eu tenho tido vários processos de… de depressões e tenho muitos pânicos, que estou a tentar tratar e que percebo que é… que está tudo relacionado com situações em que eu perco o controlo, ou seja… e que eu deixo de ter controlo daquilo que pode acontecer. (…) eu faço sempre uma análise daquilo que eu faço ou daquilo que eu penso, tentar perceber porque é que eu sou assim (…). (Clara)

eu tinha muitos ataques de pânico. Eu não conseguia… tive uma fase que eu não consegui sair de casa. (…). Eu começava nuns nervos, nuns nervos, nuns nervos “Como é que eu saio de casa para ir ao supermercado!” (…). Eu nunca fiz uma viagem, eu acho que nunca consegui (…) penso que não consigo estar dentro de um avião. Quando eu estou num centro comercial e estou a ter um ataque de pânico (…) estar em público, muita gente, mesmo que seja ao ar livre, eu tenho ataques de pânico. Nas tais ditas festas populares, está tudo feliz e contente, eu começo a ter ataques de pânico. Isto tudo eles dizem que tem a ver com o meu passado, de eu ter crescido assim (Marta)

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Sílvia Ramos

É certo que as pessoas carregam o seu passado consigo, independentemente do tempo volvido. A dor, a mágoa, o sofrimento decorrente da vivência do luto fraterno, coíbe com alguma frequência as pessoas de se libertarem desta angústia que quase as sufoca. E é a recordação deste passado que muitas vezes impede as pessoas de alcançarem os seus objetivos pessoais e/ou profissionais. O receio de voltar a passar pelo mesmo, o medo que a sua história, que a história dos seus pais se repita, barra os sonhos um dia construídos:

Percebi que nunca iria conseguir ser pediatra no último ano da faculdade, quando tive a minha filha. (…). E estava de facto na Estefânia, na altura, com um miúdo que (…) foi proposta cirurgia para a remoção dos fecalomas (…). Lembro-me do miúdo ter saído da sala a gritar (…), era um miúdo que tinha sofrido a perda do pai e conversava muito pouco, enfim. Eu tive uma crise de choro naquela altura e percebi que nunca poderia ser pediatra. De todo! (…). Associo agora, que aquele foi… eu tinha tido a minha filha e a minha filha deveria de ter oito meses. (…) nunca tinha pensado nisso! Mas foi aos oito meses (…). Foi horrível, foi horrível porque eu engravidei e comecei logo com medos! (Mariana)

tenho de medo de… (…) eu hoje não anestesio crianças pequenas… porque não tenho distanciamento afetivo, percebe?, não tenho! (…) eu tenho uma grande insegurança, eu tenho uma grande insegurança! (…) nós dificilmente aceitamos falhas nossas onde quer que seja, mas aqui… eu acho que iria ser muito mau, muito mau mesmo! (Mariana)

De facto, este medo de sofrer novamente, mas agora pelos próprios filhos, também intervém na relação entre as pessoas que viveram a perda de um irmão durante a sua infância ou adolescência e aqueles que lhes são próximos, mesmo que sem qualquer consciência da ligação com a sua vivência anterior de perda. A necessidade de controlo sobre os filhos supera o que racionalmente seria esperado, sempre pelo receio que algo possa acontecer:

Enquanto eu puder decidir eles não têm mota nem andam de mota. Tiraram a carta (…), partilham o carro (…), mas mota não (…) não é algo que eu faça conscientemente! (...). Tenho que os soltar e tenho dificuldade! Não durmo quando eles saem, dormito… e eles gozam comigo. (…) Preciso de saber quando ele sai e quando ele chega para ficar minimamente descansada. E quando eles saem à noite é isto, saber que está tudo bem. (…) trouxe isto do meu passado (…). E não tinha pensado nisso até agora… (…). (Isabel)

O amor que um pai ou uma mãe tem pelos próprios filhos é tão grande que não é possível medir ou quantificar, e o mesmo se pode dizer em relação ao medo de os perder. E a ideia desta possibilidade está sempre presente, a memória do sofrimento dos seus pais está muitas vezes acima do desejo de desempenhar um papel maternal ou paternal:

Sílvia Ramos

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