2 AS TRÊS FACES DA PSICOLOGIA DO TRABALHO E
3.2 Síndrome de Burnout, suas causas e consequências
Neste capítulo foram abordadas as causas e consequências da Síndrome de Burnout. Na linha de pensamento de Lautert (1997), a instalação da Síndrome de Burnout ocorre de maneira lenta e gradual, acometendo o indivíduo progressivamente. Gallego e Rios (1991), distinguem três momentos para a manifestação da síndrome. Num primeiro momento, as demandas de trabalho são maiores que os recursos materiais e humanos, o que gera um estresse laboral no indivíduo. Neste momento, o que é característico é a percepção de uma sobrecarga de trabalho, tanto qualitativa quanto quantitativa.
São muitos os autores que citam a sobrecarga de trabalho e fatores interpessoais como principais causas do Burnout, dentre eles Castro e Zanelli (2007), Cortez e Grossi-Milani (2018), Ruviaro e Bardagi (2010), entre outros. Castro e Zanelli (2007), explicam que em síntese, a Síndrome de Burnout não se reduz à exaustão física e emocional resultante da alta sobrecarga de trabalho. Evidenciam-se além disso, estressores de ordem interpessoal (falta de suporte) e também estressores relativos às interferências burocráticas (conflitos e ambigüidade de papel e falta de autonomia) que, ao atuarem em conjunto, tiram do indivíduo a sua condição de sujeito capaz de realizar bem seu trabalho, bem como, de realizar-se através do trabalho que executa.
No entendimento de Paganini (2011), as suas principais causas estão intimamente relacionadas com os fatores de estresse ocupacionais: fracasso e frustração. A Síndrome de Burnout está ligada aos fatores ambientais no qual o sujeito realiza seu trabalho. No entendimento de Ruviaro e Bardagi (2010), a síndrome costuma aparecer com maior frequência em profissionais que mantêm uma relação constante e direta com outras pessoas e que estão expostos a uma sobrecarga de trabalho.
Almeida, Machado e Sá (2013) destacam que sua identificação nem sempre é fácil, pelo fato de ser confundida com o estresse. Apenas um médico ou psicoterapeuta pode diagnosticar esta síndrome, baseado na observação do quadro clínico do paciente e das três dimensões que a envolvem.
No entendimento de Almeida, Machado e Sá (2013), as profissões mais afetadas pela Síndrome de Burnout são as que lidam diretamente com pessoas, em uma relação de cuidar, tais como: médicos, professores, enfermeiros, psicólogos, entre outros. Desta forma, as áreas da saúde e educação são as mais propensas ao desenvolvimento desta síndrome.
Na mesma linha de pensamento, Rivero (2015) explica que a Síndrome de Burnout afeta principalmente pessoas que prestam assistência ou são responsáveis pelo desenvolvimento/cuidado de outras pessoas, tais como médicos, enfermeiros, psicólogos, professores, assistentes sociais, agentes penitenciários, policiais, bombeiros, cuidadores de pessoas com doenças degenerativas, entre outros.
Há convergência nas pesquisas utilizadas para este trabalho de que ocorre uma maior incidência da Síndrome de Burnout em profissões que tenham como característica lidar diretamente com as pessoas, quer seja na área de saúde, educação, entre outras. Arraz (2008) explica que não existiu uma definição unânime sobre esta síndrome, permitindo um consenso em considerar que seu surgimento no indivíduo é uma espécie de uma resposta ao estresse laboral. No entendimento de Montalvão, Cortez e Grossi-Milani (2018), a exaustão emocional é o sinal principal da síndrome e se caracteriza pelo sentimento de sobrecarga de trabalho, gerando um estresse laboral que leva o indivíduo a apresentar-se com pouca energia para realização das tarefas cotidianas.
Mendonça e Bezerra (2016), explicam que em casos mais graves, os indivíduos, que sofrem a Síndrome de Burnout, contam as horas para o dia de trabalho terminar, sempre pensam nas próximas férias e utilizam inúmeros atestados médicos para passarem uns dias em casa e aliviarem o estresse e a tensão provenientes do trabalho. O desinteresse pelo trabalho, a fadiga, o stress, o surgimento de doenças relacionadas ao Burnout são alguns dos problemas observados nas pessoas acometidas por este problema, conforme relatam alguns pesquisadores.
Arraz (2018) explica que a Síndrome de Burnout é um grave problema que atualmente atinge os profissionais que mantém contato constante com pessoas, surgindo a partir da relação excessiva com esses indivíduos, fazendo com que estes percam o sentido de sua relação com a profissão. A grande incidência encontra-se entre os profissionais da área da educação e da saúde, devido as características dessas profissões que exigem contato com outros indivíduos.
A função do trabalho, além de suster o indivíduo e sua família, é o de promover a realização do mesmo, sob todos os aspectos. No entanto, quando por vários fatores ocorre o adverso, surgem os mais diferentes problemas, dentre os quais o estresse ocupacional e as doenças relacionadas ao trabalho, conforme relatam vários autores.
No entendimento de Rivero (2015), os sintomas físicos da Síndrome de Burnout incluem dores de cabeça constantes; tonturas; alterações no sono;
problemas digestivos; falta de ar e, excesso de cansaço. O autor complementa que os sintomas psíquicos da Síndrome de Burnout podem ser a ansiedade; a dificuldade em concentrar-se; as variações de humor; a perda de motivação no emprego e, ficar isolado dos colegas de trabalho.
No entendimento de Santos, Lima e Cabral (2016), a relação do trabalho com as doenças leva ao sofrimento e consequentemente ao estresse. Compreendendo o estresse como um dos problemas mais comuns que o ser humano pode enfrentar, tendo como características um estado de tensão, levando ao desequilíbrio intenso no organismo, que pode desencadear diversas doenças graves. Quando esse estresse tem relação direta com a ocupação, trabalho desenvolvido pelo sujeito, ele recebe o nome de estresse ocupacional.
Na linha de pensamento de Arraz (2018) e, Paganini (2011), a exaustão emocional é caracterizada pela apatia e sentimento de esgotamento no trabalho, tendo como causas principais o conflito nas relações interpessoais e a sobrecarga de trabalho. É considerada componente primordial da síndrome, por ter consequências físicas e psicológicas para o trabalhador.
No entendimento de Paganini (2011), o Burnout é constituído de três dimensões, as quais remetem às manifestações clínicas e consequências, dentre as quais: Exaustão Emocional, Despersonalização e Baixa Realização Profissional.
Rivero (2015) converge com Paganini (2011) quanto as três dimensões da Síndrome de Burnout, entendidas como Exaustão Emocional, Despersonalização e, Baixa realização pessoal no trabalho. Paganini (2011) aborda de forma mais detalhada as três dimensões da Síndrome de Burnout.
Paganini (2011), explica que a despersonalização é o estado psíquico em que o sujeito apresenta dissimulação afetiva, impessoalidade, descomprometimento com resultados, irritabilidade, desmotivação, alienação, desenvolvimento de atitudes depreciativas e cinismo. A despersonalização surge como resposta de enfrentamento aos estressores, porém, acaba gerando distanciamento entre o agente afetado pelo Burnout e as pessoas relacionadas em seu âmbito de trabalho. Complementa o autor que a baixa realização profissional é caracterizada pela autoavaliação negativa, seguida de um declínio
no sentimento de competência e êxito, além de pensamentos de fracasso e baixa autoestima, seguido da intenção em abandonar a profissão.
No entendimento de Arraz (2018), as consequências da Síndrome de Burnout merecem destaque, visto a sua incidência, potencialidade do acometimento, domínios afetados e, por vezes, sua irreversibilidade. Estas se manifestam além da esfera pessoal-profissional, repercutindo sobre a organização escolar e relacionamento com os alunos, deflagrando um processo deteriorativo da qualidade da relação e de seu papel profissional.
Paganini (2011) ainda explica que no trabalho pode ocorrer a diminuição na qualidade de serviço resultante da fadiga, desmotivação, resultando em uma maior propensão a acidentes. Complementa o autor que na vida social fica evidente o isolamento social, onde normalmente o indivíduo afasta-se do grupo, podendo resultar em problemas conjugais como divórcio, pois nem sempre a família suporta o acúmulo de todos os sintomas inerentes ao Burnout. No aspecto organizacional, o indivíduo tende a apresentar baixa produtividade devido ao esgotamento e lentidão, além de uma maior incidência de faltas do empregado – que passam a ser frequentes, uma vez que para o indivíduo acometido é uma fuga, cita-se ainda a possibilidade de abandono do serviço ou profissão, em uma clara tentativa de solucionar o problema desta forma.