COMPRADORES (Poder de barganha dos
2.6 SÍNTESE CONCLUSIVA
Ao finalizar a presente seção, cabe destacar seu propósito que era transitar por componentes teóricos que permitissem aprofundar suficientemente o entendimento sobre concorrência, estratégia e competitividade empresarial. Entende-se que este objetivo tenha sido alcançado, uma vez que, a partir da desconstrução e reconstrução teórica realizada foi possível compor uma estrutura teórico-analítica que representa a intensão analítica do presente estudo. A figura 2.7 apresenta três blocos teóricos que sintetizam a fundamentação teórica desenvolvida. Sob um enfoque geral, o primeiro bloco procura destacar dois componentes em especial: (i) os paradigmas da VCS; e (ii) a perspectiva analítica da estrutura de mercado e padrão concorrencial. A partir da trajetória das tradições dos estudos sobre competitividade, foram sendo definidos os fundamentos para o surgimento dos principais
paradigmas da VCS. De forma complementar para a proposta do presente estudo, abordagens alternativas e com proposição analítica mais dinâmica como o que propõem Possas (1985) Ferraz et al. (1997) e Possas (1999) permitem que seja analisado o processo concorrencial tomando por base a estrutura de mercado e o padrão de concorrência de um setor.
O segundo bloco da figura 2.7 da evidência para o modelo IAD (Esser et al., 1994) como instrumental de análise a ser aqui utilizado e complementado por componentes teóricos do primeiro bloco, visando seu enriquecimento analítico a partir do queobjetiva este estudo. Há de se considerar que a perspectiva sistêmica dada à competitividade pelo modelo do IAD permite que se incorpore elementos dos demais níveis teórico-analíticos em torno da competitividade, não ficando a visão restrita ao nível micro, característica percebidas nos estudos administrativos sobre a competitividade.
O terceiro bloco ou elemento gráfico da figura 2.7, apesar de conter extensão textual compacta na fundamentação teórica desenvolvida, é a razão dos esforços despendidos na construção dos dois blocos comentados anteriormente. Convém destacar que os dois primeiros blocos em última instância, têm por finalidade, oferecer subsídios teórico-analíticos para que a gestão organizacional promova o desenvolvimento e alcance a longevidade em seus empreendimentos.
A figura 2.7 apresenta a perspectiva e desdobramento da literatura para a análise que este estudo se propõe a desenvolver.
Figura 2.7 – Estrutura teórico-analítica para estudo da competitividade
Desta forma, a revisão teórica desenvolvida abordou elementos relacionados ao processo estratégico, aos padrões e determinantes da concorrência, bem como, àqueles relacionados aos fatores determinantes da competitividade. A confrontação teórico-empírica desenvolvida no capítulo 7 procura demonstrar os vínculos teórico-analíticos propostos, buscando evidenciar a proposta em torno do ineditismo deste estudo.
Nas primeiras décadas do séc. XX passam a ser evidentes as limitações da visão neoclássica e sua perspectiva de maximização e a firma tida como tomadora de preço. Com a OI a firma passa a ser vista como detentora da capacidade de definir estratégias que possam posicioná-la perante os demais competidores em uma determinada estrutura de mercado, o que afirma sua posição ativa. Evidencia-se a relação causal entre estrutura, conduta e desempenho, com a denominação de paradigma E-C-D.
Os esforços para analisar mercados oligopolizados não se limitaram à proposta inicial de Mason e Bain. Na esteira deste pensamento vão emergindo a teoria dos mercados contestáveis (TMC), a teoria dos jogos, a teoria behaviorista, a teoria da agência, a teoria evolucionista e a teoria dos custos de transação. Consideram a partir desta solução teórica que a firma é não-estática sendo influenciada e influenciando o mercado.
Paralelo a estes esforços foi se desenvolvendo a tradição chamberliniana que também discorda do pensamento neoclássico de concorrência perfeita. Chamberlin (1933) se volta a estudar o comportamento da firma e o faz considerando o conjunto único de ativos e capacidades desta, evidenciando os elementos idiossincráticos sobre as definições estratégicas e os resultados obtidos. Recursos e competências únicas são fatores relevantes para a competitividade e desempenho empresarial.
A competição schumpeteriana passa a evidenciar o aspecto dinâmico da arena competitiva diferentemente da perspectiva estática observada nas estruturas analíticas da OI e da competição chamberliniana. Deve-se evidenciar que Schumpeter não tem como propósito analisar diretamente a competição. Seu foco é a inovação tecnológica que com o passar do tempo se transformou no elemento central da competição e também responsável pela mudança na estrutura produtiva. A queda da hegemonia do conceito de “fluxo circular”
neoclássico se intensifica com a perspectiva da mudança econômica alavancada por novas combinações gerando inovação tecnológica. Este fenômeno promove descontinuidades e faz da “destruição criativa” um instrumento de busca de vantagem competitiva.
Conforme propõe a figura 2.7, as teorias da competição discutem como as firmas competem por seu espaço mercadológico e sua sobrevivência e o fazem considerando abordagens distintas, evidenciando enfoques que mais tarde viriam a servir de pano de fundo para os paradigmas relacionados à vantagem competitiva e às decisões estratégicas.
Fundamentados de forma significativa nas teorias econômicas que tratam da firma e da competição, emergem o que Barney (1986) define como paradigmas da VCS. São dois níveis ou perspectivas de análise: um ao nível da indústria e outro no nível da eficiência da firma. No nível da indústria são apresentadas as abordagens das forças competitivas e do conflito estratégico. Inspirando-se nas proposições do paradigma E-C-D Porter (1980) propôs a estrutura das cinco forças competitivas para descrever como a competição se desenvolve. Shapiro (1989) defende a abordagem do conflito estratégico com base na teoria dos jogos. No nível da firma a perspectiva de análise sobre VCS paira sobre as propostas da RBV e da abordagem das capacidades dinâmicas.
A RBV realçada por Barney (1991) propõe que a vantagem competitiva emerge dos recursos únicos da firma, os quais devem atender às condições VRIN. A caminhada de construção da RBV indica traços da visão de Chamberlin (1933), onde já se tem indícios de recursos diferenciados da fima. A RBV foi significativamente influenciada pela proposta de Penrose (1959) que considerou os ativos distintivos da firma como estratégicos. A abordagem das capacidades dinâmicas carrega princípios da proposta schumpeteriana e dá aos evolucionistas e comportamentalistas relevância justificada em sua construção.
Se as teorias da competição tecem e apresentam teses do que está em volta do processo de competição e o fazem com enfoques distintos, os chamados paradigmas da VCS procuram dar objetividade e especificidade em caminhos pelos quais a vantagem competitiva pode ser alcançada e sustentada. A literatura destaca a individualidade de cada proposta paradigmática e são observados pontos fortes e limitações
em cada uma delas. Contudo, no presente estudo estas abordagens são adotadas sobre o prisma da complementaridade. São respeitadas suas características e contribuições distintas, porém, a proposta teórica sintetizada na figura 2.7 parte da premissa de que seja possível (e recomendável) ao decisor estratégico considerar as recomendações analíticas de cada uma delas ao definir as orientações estratégicas organizacionais. Ao fazê-lo, o processo analítico que permeia a elaboração e implementação da estratégia tem o foco de visão ampliado e logo, as decisões tendem a serem fundamentadas em um leque de informações situacionais mais completo.
Da forma como se encontra esquematizado na figura 2.7, o processo estratégico (estratégia) é desenvolvido pelo tomador de decisões ciente das circunstâncias e possibilidades da organização. Ao considerar os enfoques dos paradigmas da VCS, este passa a ter consciência de como sua empresa está ou pode estar posicionada, do comportamento dos players com os quais compete como que em um grande jogo, quais de seus recursos podem ser considerados ou vir a ser VRIN e das CDs estratégicas e operacionais de que dispõe. Observa-se que estratégias desenvolvidas fora da leitura real destes elementos tendem a conter vieses e consequentemente comprometer os resultados. Esta “leitura” do contexto organizacional vai acompanhar o processo estratégico que é contínuo e incessante, e mudanças nas condições de obtenção de vantagem competitiva refletirá nas decisões estratégicas. Evidencia-se um processo retroalimentador.
Por outro lado, a liberdade do decisor sobre questões estratégicas está atrelada à estrutura do setor e ao seu padrão de concorrência. As estratégias variam de um grupo de indústrias para outro. A perspectiva estratégica de um setor produtor de commodities apresenta abordagem que se diferencia da que apresentam setores produtores de bens difusores de progresso técnico, por exemplo. Da mesma forma, o grau de concentração dos oligopólios também exerce influência sobre a configuração das orientações estratégicas de cada setor. Em termos de análise, este é um vínculo que conecta o processo da estratégia ao setor do qual a firma participa, fazendo com que seja considerada sua configuração em termos de estrutura e padrão concorrencial.
Se o setor determina em linhas gerais a forma como a firma deve se portar em termos estratégicos, esta por sua vez, também pode inferir
na forma como o modelo concorrencial se apresenta. Liderança, inovação, inserção de novas tecnologias de produto, processo e gestão podem ser considerados exemplos de como uma firma pode inferir na forma como ocorre o processo concorrencial de um determinado setor. Desta forma, conforme o que se propõe na figura 2.7, a estrutura do setor e seu padrão concorrencial são determinantes da estratégia, mas também podem ser reconfigurados por esta. É uma relação dinâmica a qual deve ser considerada no processo estratégico.
Desta forma, o bloco “Desdobramento teórico-analítico da competitividade” reúne as principais vertentes teóricas que tratam da competitividade e que inferem no processo de definições estratégicas das firmas. As abordagens que discutem a estrutura do setor e padrão de concorrência são perspectivas analíticas que também transitam em termos de fundamentos, pelas teorias da competitividade, mas mantendo contudo, a perspectiva própria dos autores que às propõem. Entendem-se que os elementos contidos neste bloco gráfico podem ser utilizados visando gerar complementaridades em termos de análise.
O segundo bloco da figura 2.7 que recebe a denominação de “Instrumental”, indica a inserção do modelo do IAD (ESSER et al., 1999) na proposta analítica do presente estudo. O que ocorre é que, a partir de análises desenvolvidas pelo instrumental que este modelo oferece, torna-se possível ampliar o escopo da análise da competitividade. Isso ocorre em virtude do referido modelo elevar de forma explícita, a análise até o nível meta, o nível da sociedade. Acredita-se que a abordagem desenvolvida pelo IAD (Esser et al., 1994), conhecida como fatores determinantes da competitividade sistêmica, pode contribuir de forma mais consistente para estudos sobre competitividade. Este modelo figura em um nível explicativo maior em termos de profundidade, característica percebida também em modelos como por exemplo, o ECIB. Contudo, o modelo do IAD avança de forma mais específica até o nível meta.
Os quatro níveis apresentados pelo modelo do IAD (meta, macro, meso e micro) sintetizam fatores que apresentam inferências sobre a competitividade que se observa em um determinado setor. Conforme o nível de análise vai se distanciando da unidade produtiva, menor é a influência da empresa e mais submissa a ele a firma passa a ser.
O nível meta tem peculiaridades que fazem com que seja tratado de forma especial. A amplitude de seu “olhar” tem mais caráter sociológico e político do que propriamente econômico-competitivo, ainda que talvez seja em menor dimensão. Os interesses da nação e da sociedade tendem a variar de um setor para outro e planos de médio e longo prazo para os rumos de desenvolvimento de uma nação vão definir os setores prioritários. Setores sobre os quais recair a preferência do plano de desenvolvimento lograrão a sorte de ter os benefícios de incentivos e demais instrumentos de estímulo para seu aprimoramento e fortalecimento.
O impacto dos fatores do nível macro não afetam apenas o setor, e sim todo o conjunto de indústrias de uma determinada região ou país. Sobre as políticas voltadas a determinar os rumos macroeconômicos, o setor e suas firmas têm pouco poder decisório. Quando os governos tomam estas decisões seus impactos se refletem sobre todos os setores e de um modo geral, cabe aos seus agentes econômicos se adaptarem a elas. No momento que forem favoráveis a um ou mais setores, estes têm um significativo aliado em termos competitivo, especialmente para aqueles setores que participam de mercados globais ou que sofrem a concorrência de produtos substitutos. Há também, distinção sobre tudo que se trata de política setorial, quando for regime de incentivo específico para determinado setor.
Os fatores do nível meso estão relacionados à estrutura institucional próxima ao setor e as suas unidades produtivas. Neste nível a inferência da firma ou mesmo do setor já começa a ser mais efetiva. Instituições de fomento e de pesquisa podem indicar rumos ao processo produtivo cujo impacto sobre a competitividade pode pouco depender da firma em si, e mais das tecnologias disponíveis ou que venham a ser desenvolvidas e disponibilizadas ao setor. Contudo, a eficácia dos entes neste nível contribui sobremaneira para a competitividade do setor. Sem a presença deste portfólio institucional dando suporte a uma determina indústria, sua capacidade inovativa e possibilidades de aumento da performance produtiva podem ficar significativamente comprometidas. Há necessidade de desenvolvimento de novas tecnologias setoriais e da forma de conduzir os processos produtivos e de gestão. Iniciativas individuais tendem a se tornar onerosas, o que faz com que não sejam postas em prática, logo, o nível meso institucional do setor contribui e/ou influencia o desempenho do setor.
No nível micro sobressaem-se elementos diretamente voltados ao processo produtivo e logo, maior poder a firma detém sobre eles. O arcabouço de elementos sobre a competitividade do nível micro envolvem questões relacionadas à condução da firma, tanto no nível estratégico, quanto na esfera operacional.
Em termos de concatenação ou possíveis complementaridades dos blocos teóricos da figura 2.7, a proposição se embasa na incorporação de elementos das teorias da competição desenvolvidas pelas Ciências Econômicas, consorciados com elementos das Ciências Administrativas direcionados à competitividade e ao processo estratégico. Estes elementos teóricos são utilizados para explicar os resultados empíricos e ampliar a perspectiva analítica do instrumental utilizado (baseado nos níveis da competitividade sistêmica). A amplificação do potencial de análise proposto na figura 2.7 é esperado a partir da agregação de variáveis ou premissas dos componentes teóricos relacionados às variáveis utilizadas no modelo do IAD (ESSER et al., 1994).
As variáveis inerentes aos níveis da competitividade sistêmica (que estão relacionadas de forma operacional na secao 3.2) conformam a estrutura de análise central do presente estudo. O que propõeo esquema teórico da figura 2.7 é associar a estas, no momento da análise, subsídios ou elementos da estrutura do setor, de seu padrão concorrencial, das políticas públicas e das abordagens teóricas sobre competitividade.
A partir desta proposição teórico-analítica, se pretende explicitar que a competitividade de um setor posta à prova através de suas estratégias, envolve um escopo analítico que não se limita ao nível micro, nível da firma, mas transcende os níveis conforme propõe a competitividade sistêmica, e comporta-se conforme a estrutura e padrão concorrencial do setor se apresentar. Os vínculos observados indicam a necessidade de que estes elementos sejam considerados de forma interligada, ou seja, sistêmica, não havendo condições para a competição se houver afastamento dos fatores ali considerados. Cabe ressaltar que este entrelaçamento teórico possibilita desenvolver análises de forma mais consistente e mapear os elementos que estão envoltos na definição da competitividade de um setor de forma mais efetiva. Em termos de aplicação desta proposição teórica vale reafirmar que os fatores da competitividade sistêmica, especialmente os dos níveis meta,
macro e meso impactam sobre o setor promovendo mudanças em sua estruruta se for o caso ou inferindo sobre seu comportamento. As especificidades do setor são idiossincráticas e vão ser percebidas basicamente, nos níveis meso e micro.
A dinâmica teórico-analítica instrínseca na figura 2.7 possibilita duas leituras possíveis: (i) as estratégias desenvolvidas pelas firmas são moldadas a partir das peculiaridades do setor, além de se basearem consciente ou inconscientemente, em algum paradigma da competitividade. Também, determinadas estratégias criadas e implementadas pela firma podem influenciar e moldar o próprio setor, caso de inovações tecnológicas em produto, processos e/ou gestão; e (ii) os fatores determinantes da competitividade sistêmica possibilitam identificar elementos que moldam e estabelecem critérios e condições para a competitividade de uma indústrias e consequentemente, de suas firmas.
Frente a isso, com base na fundamentação teórica agregada neste capítulo e demonstrada de forma esquemática na figura 2.7, acredita-se que existam fundamentos e pressupostos consistentes ou ao menos, minimamente suficientes, para o desenvolvimento de propostas teórico- analíticas que aumentem a abrangência e consequente eficácia, das análises da competitividade setorial.