• Nenhum resultado encontrado

SÍNTESE DO DEBATE TEÓRICO E QUESTÕES FORMAIS

1 CARACTERIZAÇÃO DAS PARTÍCULAS E DAS CONSTRUÇÕES SINTÁTICAS

5.2 SÍNTESE DO DEBATE TEÓRICO E QUESTÕES FORMAIS

No bloco anterior defini o termo alternância coordenativa-subordinativa(com) tendo em vista dois aspectos principais: i) a expressão do conjunto de elementos [DP1, DP2, V, conector], podendo o conector ser expresso pelas partículas mais/e/com, ora em uma configuração sintática de subordinação, na qual os DPs aparecem descontínuos, ora de coordenação, com a realização dos DPs contínuos; ii) o conteúdo semântico das sentenças, já que nas duas possibilidades estruturais o significado global da sentença parece ser o mesmo. Retomo aqui os exemplos (1) e (2) renumerados como (32) e (33), respectivamente. O fenômeno da alternância seria um indício de equivalência entre as sentenças abaixo?

(32) a. Miguel viajou mais/com a esposa. b. Miguel mais/e a esposa viajaram.

(33) a. João casou mais/com Maria. b. João mais/e Maria casaram.

Mostrei que, de um modo geral, as duas configurações sintáticas são pluralizantes, envolvem necessariamente mais de um participante no mesmo evento. A característica distintiva mais claramente observável entre elas é a assimetria sintática. Por outro lado, a questão semântica parece ser um pouco mais complexa. Na coordenação, a possibilidade de realização de um sujeito pronominal (“Eles viajaram/casaram”) parece indicar uma simetria semântica total entre os DPs, ou seja, a mesma participação no evento. Mas na forma subordinada os argumentos descontínuos seriam simétricos?

Para jogar alguma luz sobre o tema da alternância coordenativa-subordinativa(com), apresentei duas vertentes de trabalhos encontrados na literatura: i) os que consideram haver uma equivalência entre construções subordinadas(com) e coordenadas, pressupondo uma mesma estrutura profunda (FILLMORE, 1968; LAKOFF; PETERS, 1969; KAYNE, 1994); ii) os que têm discutido mais de perto as formações com DPs descontínuos, no âmbito dos predicados simétricos, tomando como base as propriedades semânticas dos argumentos verbais (DOWTY, 1991; CANÇADO, 2005; GODOY, 2008, 2010; WACHOWICZ; FRUTOS, 2010). Para essa vertente, a alternância estrutural revela condições de verdade diferentes.

Os trabalhos do tipo (i), orientados pelo modelo tradicional gerativo (CHOMSKY, 1970), partem da concepção de que há níveis de representação sintática: uma estrutura inicial “profunda” e outra gerada após o movimento de constituintes, a “superficial”. As propostas de análise apresentadas esbarram na CEC (ROSS, 1967), como já foi discutido. Supor que a estrutura coordenada gera uma subordinada implica a interpretação de que um dos termos da coordenação é extraído, uma hipótese que viola a CEC, mais especificamente a primeira parte: “em sentenças coordenadas, nenhum termo da coordenada pode ser movido”.

Os estudos do tipo (ii) se concentram na aparente contradição dos predicados simétricos com o Critério θ. A proposta para superar essa problemática está na concepção de papel θ como um conjunto de propriedades semânticas atribuídas a um argumento considerando-se o contexto de sua realização. O conjunto de acarretamentos projetados pelo verbo aos DPs descontínuos não é essencialmente o mesmo, alguma(s) propriedade(s) diferencia(m) os argumentos. Embora a simetria não seja total, ela ocorre em algum grau: “a simetria depende da seleção de pelo menos uma propriedade dos proto-papéis de Dowty (1991), mas não pode ser considerada homogênea” (WACHOWICZ; FRUTOS, 2010:456).

Ao longo da seção 5.1.1 busquei diferenciar duas situações em que as preposições

mais/com parecem introduzir um participante com o mesmo papel θ que um dos argumentos do

verbo: os comitativos, como em (32a), e os predicados simétricos, como em (33a). O primeiro tipo distingue-se do segundo essencialmente por introduzir uma entidade não requerida pelo verbo, um constituinte adjunto com a mesma função do Suj-DP.

Mostrei que a equivalência de papel θ nos DPs da construção comitativa é defendida por Arkhipov (2009), mas não por Baptista (2005b). Ilari (2008) et. al. consideram haver simetria total no caso do comitativo genuíno, mas não em casos que denotam apenas uma co-presença de um dos participantes no evento. Por sua vez, Wachowicz e Frutos (2010) e Godoy (2010) não consideram haver uma simetria total entre os argumentos dos predicados simétricos na estrutura subordinada(com), salvo algumas exceções.

O estudo ora realizado não pretende oferecer uma proposta adicional para explicar a atribuição temática dos argumentos simétricos, mas fazer uma generalização sobre a questão da simetria nas duas situações em que o ‘mais’ conector pode ocorrer, nas construções comitativas e com predicados simétricos, além de identificar os traços do ‘mais’ que permitem sua realização em determinados contextos.

No palco dos questionamentos teóricos sobre o tema estudado, uma gama de problemas foi levantada. As questões principais apontadas ao longo do presente capítulo são listadas e exemplificadas a seguir:

(34) As sentenças em (a) e (b) exprimem o mesmo valor semântico? a. Miguel viajou mais a esposa.

b. Miguel mais a esposa viajaram. (35) Na subordinação(com), mais é igual a com? (36) A sentença em (e) é igual a (c) e/ou (d)?

c. Miguel mais a esposa viajaram. d. Miguel e a esposa viajaram.

e. ? Miguel com a esposa viajou/viajaram. (37) Na coordenação, e é igual a mais?

(38) Mais é igual a com?

(39) E é igual a com?

(40) As sentenças em (f), (g) e (h) são idênticas? f. Miguel com a esposa viajou/viajaram. g. Miguel, com a esposa, viajou.

h. Miguel, mais a esposa, viajou.

(41) Que traços licenciaram o uso do advérbio mais como conector em (a) e (b)?

Não pretendo exaurir a lista acima e oferecer respostas para todas as questões. É preciso delimitar o campo de investigação como fiz na primeira parte da tese. Assim, decidi que as questões em (36), (38) e (39) não serão abarcadas por esta pesquisa, tendo em vista tratar-se do fenômeno da coordenação comitativa.

Por sua vez, o problema em (40) já foi respondido ao longo da discussão do capítulo. Trata-se de dois fenômenos distintos: coordenação comitativa em (f) e subordinação com

adjunto adverbial comitativo deslocado para uma posição pré-verbal em (g) e (h). Embora a disposição dos elementos na sentença em (g) pareça contínua, a pausa indicada pela vírgula estabelece uma diferença importante com a sentença em (f). Como esse é um problema que deve ser discutido no nível pragmático-discursivo, foge aos alcances e limites do estudo ora realizado. Nesta pesquisa, o foco é a relação dos argumentos com o evento denotado pelo V, nas construções subordinadas, sejam elas aparentemente contínuas (40h) ou claramente descontínuas (34a).

Frente aos questionamentos remanescentes (34), (35), (37) e (41), considero que (35) e (37) podem ser respondidas no bojo de uma análise mais ampla. Os contextos de restrição da variante mais revelam até que ponto a variante não-padrão mais assemelha-se às variantes padrão e/com, como apresentado na seção 5.3.2. Dessa forma, restam as questões em (34) e (41), e a partir delas delimito dois questionamentos formais que esta pesquisa busca responder.

a) Há simetria semântica entre o Suj-DP e o com-DP na construção comitativa? Ou seja, de que forma os participantes do evento podem estar relacionados?

b) Que traços teriam licenciado o uso do advérbio mais como conector?

A questão em (a) foi motivada pela discussão sobre as construções subordinadas e coordenadas: a posição sintática dos DPs descontínuos indica estatutos semânticos diferentes? De acordo com a proposta apresentada nesse estudo (seção 5.3.2) há alternância coordenativa-subordinativa (com) entre sentenças com os verbos simétricos e com os comitativos genuínos. A proposta de uma escala simétrica entre o Suj-DP e o com-DP tenta captar diferentes nuances de simetria que vão desde uma simetria total até uma simetria parcial.

A questão em (b) é uma ampliação do que foi estudado em pesquisa anterior, durante o Mestrado. Em Gomes (2014) busquei explicar o fenômeno mais conector considerando o contato entre línguas, nessa perspectiva, propus que o adverbio mais teria passado por um processo de relexificação (LEFEBVRE, 1998, 2001; LEFEBVRE; LUMSDEN, 1994) na formação do PB, por conta do contato linguístico com o substrato africano. A representação a seguir é apresentada por Lefebvre e Lumsden (1994):

(42) ENTRADA LEXICAL ORIGINAL LÍNGUA ALVO

[fonologia]i [matriz fonética]j usada

[propriedade semântica]k em contextos semânticos e [propriedade sintática]n pragmáticos específicos

CRIOULO

[fonologia]j ou [

ø

] [propriedade semântica]k

[propriedade sintática]n

(LEFEBVRE, 2001, p. 12)

O cenário sociolinguístico descrito na seção 3.1 permite inferir a presença de um substrato africano no Brasil com línguas em que há uma mesma partícula exercendo função comitativa e coordenativa entre DPs. Considerando esse fator sócio-histórico, o mais pode ter sido a escolha fonética da LP para relexificar uma entrada lexical copiada da(s) língua(s) do substrato, no período formativo do PB, conforme o esquema em (42). O mais conector no PB, passa a ter propriedades semânticas e sintáticas da entrada original (língua do substrato) e representação fonológica da língua alvo. De acordo com Muysken (1981a), no processo de relexificação, a entrada lexical copiada e a matriz fonética escolhida da língua-alvo devem ter algum aspecto semântico em comum, dessa forma, propus que o traço semântico <ADIÇÃO> teria licenciado a relexificação do advérbio mais (GOMES, 2014).

No estudo ora apresentado, busco uma explicação a partir de uma perspectiva formal não só do traço semântico, mas também de outras características do adverbio mais que podem ter atuado na ampliação de suas funções no português popular baiano. Pretendo ainda oferecer uma explicação relacionada aos contextos de restrição para o uso do mais, indicados a partir da análise sociolinguística tanto do português afro-brasileiro (GOMES, 2014) quanto do PPI e do PPC.