2. MARCO CONCEITUAL
2.4 SÍNTESE DO PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO MILITAR DO
O desenvolvimento do atual processo de transformação militar pelo qual
passa o Exército Brasileiro teve origem em percepções anteriores quanto a
necessidade de configurar a Força com capacidades compatíveis ao cenário
internacional apresentado (Exército, 2010). Nesse contexto, a Estratégia
Nacional de Defesa de 2008 (END) apresentou novas oportunidades para a
materialização da intenção de transformação; contudo, combinada com ações
do Estado no sentido de imprimir mudanças em todo o setor de defesa (Brasil,
2008).
A END (2008) apresenta ainda argumentos orientados para a
necessidade de realizar a transformação militar das Forças Armadas, afirmando
que a Nação exige tal feito, com a expectativa de possuírem forças militares
capazes de defendê-la de maneira eficaz (Brasil, 2008). Nesse diapasão o
documento estabelece como eixo estruturante de sua organização a
reorganização e reorientação das Forças Armadas, com o propósito de
desenvolver novas capacidades, fato que encontra sustentação nos estudos de
Elinor Sloan (2008), quanto ao nível mais profundo de mudança militar. Além
disso, esse fenômeno também se alinha com os argumentos de Covarrubias
(2007), ao descrever que a transformação se caracteriza pelo desenvolvimento
de novas capacidades, para cumprir novas missões.
Outrossim, o ordenamento de defesa persegue ainda conceitos atuais
relacionados às concepções da transformação militar; tais como o
desenvolvimento de novas capacidades combinadas com sistemas
tecnologicamente avançados, quando estabelece a importância estratégica do
setor cibernético; a necessidade de unificação de forças, direcionando o
conceito do esforço conjunto; e a demanda de operações no amplo espectro
(Brasil, 2008).
As determinações constantes da END combinadas com a situação
política e econômica vivida pelo país, à época de seu lançamento, mostraram-se
favoráveis à implementação da transformação militar no Exército Brasileiro. No
período, notou-se a percepção dos governantes de que a defesa era fator
indutor do desenvolvimento de avanços científicos-tecnológicos, e além disso,
constatou-se o crescente destaque do setor de defesa na agenda nacional. Tal
fenômeno atraiu o empresariado nacional a participar das ações de estruturação
da defesa (Brasil, 2010b, p. 44).
Em resposta ao demandado pela END 2008, o Exército desenvolveu a
Estratégia BRAÇO FORTE (EBF/2009), constituída de 02 (dois) planos
(articulação e equipamento), desdobrados em 04 (quatro) programas (Amazônia
Protegida; Sentinela da Pátria; Mobilidade Estratégica; e Combatente Brasileiro)
e 824 projetos, lançando bases para a determinada Transformação Militar.
Contudo, cabe assinalar que a estratégia em questão foi concebida sob a
percepção do período econômico vivido, deixando de projetar a possibilidade do
enfrentamento de dificuldades orçamentárias (Brasil, 2011b, p. 12).
Cabe registrar que a EBF (2009) tinha como finalidade criar condições
para a superação dos fatores críticos para o êxito na implementação dos Planos
de Equipamento e de Articulação do Exército, determinados pela END (2008).
Nesse sentido, a EBF (2009) orientou a Concepção Política do Exército –
materializada por meio da SIPLEx – e a Concepção Estratégica da Força
Terrestre, com o propósito de base para a superação dos fatores críticos
identificados (Brasil, 2009b).
Posteriormente, o Exército percebeu que os projetos inseridos na EBF
(2009) permitiriam o ingresso da Força na segunda etapa da transformação, a
modernização, uma vez que os mesmo possibilitavam a otimização das
capacidades para cumprir a missão de uma melhor forma; alinhando-se ao
conceito traduzido por Covarrubias (2007). Entretanto, a intenção de transformar
transcende tal perspectiva; vai além de estruturas físicas e equipamentos,
alcançando novas concepções (doutrinárias, de gestão e de pensamentos),
projetando a Instituição para o futuro (Brasil, 2011b, p. 13).
Nesse contexto, o Exército Brasileiro concebeu o PROFORÇA (Projeto de
Força), cujos estudos se desenvolveram através dos anos de 2009 e 2010,
culminando com seu lançamento em 2011. O citado documento baseava-se na
concepção da Força em capacidades orientadas pelo desenvolvimento de
vetores que conduziriam a Instituição à superação de seus óbices, atingindo por
fim a situação de Força Transformada; tudo isso, considerando marcos
temporais (2015, 2022 e 2031) (Exército, 2010).
Paralelo à concepção do PROFORÇA, o Exército Brasileiro desenvolveu
o documento intitulado O Processo de Transformação do Exército, no ano de
2010, baseando-se na EBF (2009) e no Planejamento Político do Exército
(SIPLEx) (Brasil, 2010b, p. 3). Registra-se ainda, que o citado documento
apresenta em seu conteúdo alternativas para as necessidades apontadas para o
desempenho eficiente do componente militar da defesa nacional, particulares à
Instituição. Além disso, é possível constatar a descrição das capacidades
necessárias ao EB em 2030, caracterizando o planejamento de longo prazo para
a implementação da transformação militar; fato que se alinha aos estudos sobre
transformação militar desenvolvidos por Elinor Sloan (2008) e Jaime Covarrubias
(2007).
O documento acima mencionado foi concebido com o propósito de
transcender a simples perspectiva de aquisição de equipamentos e armamentos
tecnologicamente avançados. A intenção da implantação da transformação no
Exército baseava-se na disposição para o estabelecimento de novas
concepções, sob pena de enfrentar todas as dificuldades arraigadas na cultura
institucional (Brasil, 2010b, p. 30).
Ao longo do processo de desenvolvimento e implantação da EBF (2009) e
do PROFORÇA, foram identificados obstáculos sistemáticos à consecução dos
mesmos. Esse fenômeno subsidiou os estudos desencadeados para o
estabelecimento da transformação da Força. Os obstáculos levantados foram
nominados como fatores críticos, os quais decorriam de deficiências estruturais,
concentradas nas áreas de doutrina, recursos humanos e gestão (Brasil, 2010b,
p. 30).
Tal como citado em seção anterior, para superar os fatores críticos
levantados, o Exército concentrou esforços em 06 (seis) áreas, denominadas de
Vetores de Transformação (VT)
34, os quais convergiam para as deficiências nos
campos da doutrina, dos recursos humanos e da gestão (Brasil, 2010b, p. 30).
Cabe ressaltar ainda que a Transformação do Exército passou a
constituir-se como um dos objetivos da Política Militar Terrestre, cuja finalidade
foi transformar o Exército em uma Força da Era do Conhecimento. Dessa
maneira, buscou-se institucionalizar as ações da transformação, facilitando a
sua execução pelos diversos Órgãos de Direção Setoriais (ODS), pelo Comando
de Operações Terrestres (COTER) e pelos Comandos Militares de Áreas, além
de favorecer o acompanhamento das atividades pelo Estado-Maior do Exército
(EME) (Brasil, 2010b, p. 43).
Alinhado nesta perspectiva, no ano de 2012, o MD lançou o Livro Branco
de Defesa Nacional (LBDN) (2012c), cuja finalidade é apresentar as ações do
Estado Brasileiro na área da Defesa Nacional. O citado documento dedica um
capítulo inteiro à Transformação da Defesa, caracterizando a importância do
assunto na agenda política do País. Neste capítulo é possível constatar todas as
medidas planejadas no nível político para a implementação de mudanças no
34
Doutrina, Preparo e Emprego, Educação e Cultura, Gestão de Recursos Humanos, Gestão
Corrente e Estratégica, Ciência e Tecnologia (C&T) e Modernização do Material e Logística.
mencionado setor, o qual está orientado em três vertentes: o Plano de
Articulação e Equipamento de Defesa (PAED), onde constam os projetos
estratégicos das Forças Armadas; a Modernização da Gestão; e a
Reorganização da Base Industrial de Defesa (BID).
O aparecimento da temática transformação militar nos documentos de
Estado – END e LBDN – apontam para a preocupação do nível político com o
assunto, manifestando a intenção de implantação dessas atividades a partir dos
mais altos níveis decisórios. Tal fato encontra alinhamento às pesquisas
desenvolvidas por Farrell, Rynning, & Terriff (2013), os quais colocam que as
mudanças militares devem impactar o escopo das instituições, a fim de que
produzam a eficiência necessária.
Dentre os diversos fatores mencionados que antecederam o
planejamento e desenvolvimento da transformação do Exército, cabe destacar o
citado sacrifício institucional em mobilizar um Batalhão para atuar como força de
paz no Haiti, além das sérias restrições orçamentárias vividas desde o final do
século XX. Tais fatores somaram-se à conjuntura do período, contribuindo para
a consecução das ações direcionadas à transformação (Brasil, 2010b).
Sendo assim, do exposto, pode-se depreender que a transformação
militar do Exército Brasileiro foi desencadeada em decorrência da combinação
de uma série de fatores, que se constituíram em barreiras ao aprimoramento da
Instituição. Esse fenômeno refletiu diretamente nos alcances e potencialidades
da Força Terrestre, manifestado pela diminuição da capacidade de projeção de
poder e de defesa do País. Nesse contexto, o Exército elaborou ações e
diretrizes como resposta aos desafios apresentados, os quais constavam de
documentos institucionais, cujos conteúdos se revestiam em ações orientadas
ao aprimoramento dos recursos militares, caracterizando o aprofundamento da
transformação do Exército Brasileiro.
3. A DOUTRINA MILITAR E SUA EVOLUÇÃO
No documento
ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO ESCOLA MARECHAL CASTELLO BRANCO
(páginas 61-66)