GOVERNO GOLPISTA QUER CORTAR GASTOS COM OS TRABALHADORES MAS AUMENTA PARA OS RICOS E PARA A MÁQUINA PÚBLICA
2. As três escolas investigadas: Escola Bartolomeu Campos de Queirós (Brasil), Instituto Pedagógico Lewis Carroll e Escola Maternal Paulo Freire (Colômbia)
2.6. Uma síntese
A realização de uma investigação em dois países tão específicos e diversos entre si torna-se uma tarefa árdua e exige foco, fôlego, tempo e determinação. Assim, por se tratar de
uma pesquisa vinculada ao Doutorado Latino-Americano, como é exigido nas normas do Programa de Pós-Graduação em Educação, da Faculdade de Educação da UFMG, a pesquisa deve ser realizada em dois ou mais países da América Latina. Assim, foi necessário localizar esses dois espaços e, dentro deles, as especificidades de cada um e a partir da compreensão desses territórios, buscar compreender também as políticas de educação infantil e seus processos constitutivos. Neste sentido, o capítulo estruturou-se da seguinte maneira:
Inicialmente, por se tratar de um trabalho etnográfico, apresento alguns autores clássicos do campo da Antropologia e da Sociologia da Infância para, em seguida, apresentar a etnografia como lógica de investigação.
Logo após, apresento alguns conceitos sobre território, tendo como propósito estabelecer as diferenciações entre espaço e território e, dentro da discussão, são localizados alguns aspectos dos territórios brasileiro e colombiano.
Na seção subsequente, destaco a educação infantil na Colômbia antes e depois da Constituição de 1991. Um dos principais pontos tratados vincula-se à proposta estratégica nacional denominada de ―De Cero a Siempre‖ que, de acordo com o governo daquele país, a estratégia é colocar no centro, as mulheres gestantes, meninas e meninos desde o nascimento até os seis anos de idade. Apresento as alterações ocorridas na legislação que reconhece que os direitos das crianças não são postergáveis e não pode ser restituído posteriormente, destacando, por fim, as cinco estratégias estabelecidas para a educação infantil.
Em seção intitulada de ―O contexto territorial e político brasileiro: impactos e retrocessos na atual política de educação‖, retomo a ideia inicial sobre território e espaço para tratar a chamada ―globalização‖. Em seguida, em linhas gerais, descrevo o território brasileiro e a inserção do mesmo na América Latina. Por fim, apresento alguns aspectos relacionados à política destacando, de modo mais preciso, nos impactos da mesma sobre a educação e o currículo. No que concerne à proposta pedagógica de cada escola, busquei retratar o que julguei mais pertinente, pois cada uma das propostas apresenta questões muito específicas que, se tivesse que trazê-las, o trabalho ficaria muito alongado.
Já na seção sobre o município de Belo Horizonte, são apresentadas algumas características territoriais e populacional, juntamente a um breve histórico do município. De forma similar ao que ocorreu na Colômbia, a Constituição Brasileira, de 1988, representa um marco para a Educação Infantil no país. A partir da promulgação desta lei, novas formas de compreensão, de execução da política e de financiamentos é colocada em
vigência, passando a educação infantil, logo após promulgação da LDBEN, a integrar a educação básica, o que é tratado em seção denominada de ―A política de educação infantil no Brasil antes e após a promulgação da Constituição Federal (CF), de 1988. Na sequência, de modo mais específico, trato, ainda, da política de educação infantil em Belo Horizonte.
Por último, caracterizo as escolas e as turmas de educação infantil pesquisadas em Belo Horizonte e em Bogotá. Como ponto nevrálgico da pesquisa, o trabalho de campo resultou em inúmeros eventos com as crianças que serão analisados em capítulo subsequente. Contudo, cabe registrar as especificidades de cada instituição, as facilidades, os acertos, as dificuldades e as tensões:
A instituição de educação infantil de Belo Horizonte, nomeada na pesquisa de Escola Bartolomeu Campos de Queirós, ainda que seja uma instituição vinculada à escola de minha atuação profissional, como docente da Educação de Jovens e Adultos (EJA), apresentou dificuldade de aceitação do pesquisador em seu interior. Nas palavras da vice-diretora: ―se dependesse de mim, você não estaria fazendo pesquisa aqui‖. Explicitadas dessa maneira, essas palavras podem não significar muito, contudo, após esse tratamento, houve, por um período, o desejo de paralisar a pesquisa, pois além essa mesma vice-diretora não permitiu que o Projeto Político e Pedagógico da escola fosse consultado, sob a alegação de que ―há muita gente copiando os PPPs por aí, então, se quiser ler, tem que ser na minha frente‖.
Nas duas escolas da Colômbia, apesar da receptividade positiva por parte de crianças, professoras e direção/coordenação em relação à pesquisa e à presença do pesquisador em campo, houve problemas de ordem similar: na Escola Maternal Paulo Freire, ao solicitar da diretora para acessar o Projeto Político e Pedagógico, ela foi enfática: ―Envio para você nossa proposta, mas é necessário lembrar que é um documento interno da escola maternal. Por favor, não socialize com nenhuma instituição. Contudo, se necessitar utilizá-lo em sua tese, gentileza referenciar‖ (Diretora Camila). Já no Instituto Pedagógico Lewis Carroll, foram marcadas várias vezes a entrevista com a coordenadora. Para tanto, mesmo deslocando, exclusivamente, para entrevistá-la, a coordenadora não concedeu a entrevista e nem fez a devolutiva do questionário encaminhado por correio eletrônico, pois no último dia de minha permanência na Colômbia, ela desmarcou e solicitou para enviar a entrevista por email. Desta maneira, reformulei as questões e encaminhei para o seu ―correio‖. Ela não retornou com as respostas.
A nossa compreensão é a de que a produção de material empírico para uma pesquisa etnográfica necessita, efetivamente, de imersão no campo, precisão nos registros e
sensibilidade para a compreensão de eventos. Ao iniciar o trabalho, há uma sucessão de novidades e nem sempre é possível antever o que será encontrado no campo a ser investigado. Assim, tudo é novidade e os eventos vão se sucedendo à medida das interações propiciando condições favoráveis a olhares diferenciados daqueles colocados no projeto inicial e possibilidades de mudanças de foco, como ocorrido nesta pesquisa. Os enfrentamentos e os momentos de tensão, assim como os inúmeros encontros, os momentos de alegria e de descobertas, fazem parte do fazer etnográfico e também vão dizer muito sobre o campo investigado e sobre o próprio pesquisador.
CAPÍTULO II
2. Considerações sobre a revisão da literatura e a produção acadêmica do Brasil e