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CAPÍTULO I As Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação

1.8. Síntese sobre os efeitos adversos do mundo virtual

As novas tecnologias da informação e da comunicação fazem parte constituinte do quotidiano de inúmeros indivíduos, bem como das suas interações sociais permitindo um alargamento não só das suas redes sociais, como a rapidez de comunicação e de informação. Contudo, o acesso a este tipo de tecnologias acarreta também a exposição a toda uma multiplicidade de novos riscos como o fornecimento de dados pessoais, danos

comerciais, violência em contexto virtual e dependências várias, incluindo das redes e dos dispositivos tecnológicos. Não existe um manual de instruções que regule a utilização que estamos a dar às tecnologias e a sua aplicação desregrada pode trazer consequências imprevistas quando nos tornamos vítimas da sua omnipresença. Atualmente, um dos grandes desafios que se coloca passa precisamente por saber utilizar convenientemente os universos digitais. A responsabilidade é nossa e implica a forma como nos construímos enquanto indivíduos e sociedades.

As tecnologias da informação e da comunicação oferecem-nos potencialidades inovadoras para a exploração do mundo social. Neste campo é incrível a quantidade de atividades que se podem desenvolver com uma simples ligação à Internet ou com a utilização de um dispositivo móvel. A “uberização” do consumo parece ser cada vez mais uma realidade entre os cyber consumidores. A ideia de que basta um smartphone para ter acesso a qualquer serviço personalizado vai continuar a mudar a nossa sociedade (exemplo da aplicação de viagens Uber). No entanto, não devemos esquecer que a utilização das tecnologias também arrasta consigo novos problemas que resultam, por exemplo, da má gestão destas ferramentas. Uma vez mais, devemos ter presente que o perigo se constitui numa ameaça que também navega por entre redes virtuais e quando nos ligamos, também nos aventuramos num território de vulnerabilidades. Hoje em dia já não somos, definitivamente, donos da nossa informação e no campo virtual a privacidade parece ser cada vez mais um termo em desuso, o que contribui, por um lado, o uso cada vez maior dos ambientes digitais e, por outro, a falta de uma cultura de segurança e de proteção dos dados pessoais dos utilizadores. Nos tempos que correm, temos sensores que nos acompanham para todo o lado e, por isso, devemos também refletir sobre os efeitos incalculados de uma sociedade que cresce sem qualquer conceito de privacidade. Neste aspeto a tecnologia intensifica cada vez mais a perda do espaço privado com aplicações que localizam os indivíduos, ao passo que nas redes sociais se convoca uma espécie de vaidade alheia que é partilhada em rede, sem que se atenda às verdadeiras implicações daquilo que se publica. Não nos devemos deixar de questionar perante um modelo que nos pressiona a tornar públicas as nossas intimidades, sob pena de nos tornarmos excluídos de um universo virtual.

O mundo das novas tecnologias da informação e da comunicação pode ser o mar de todas as oportunidades ou de todos os perigos. Tudo depende da forma como nos movimentamos dentro dos seus domínios. Todo o brilho tecnológico parece querer

deslumbrar-nos com todas as suas capacidades. Porém, na guerra digital tornamo-nos voluntariamente escravos com o objetivo de fazer parte das mais recentes tendências que marcam os tempos atuais. Achamo-nos livres, mas não devemos esquecer que somos também manipulados pela globalização da cultura, das redes, das modas e dos mais recentes aparelhos tecnológicos. Paradoxalmente podemos pensar que o indivíduo se parece agora menos individual do que nunca, que a sua vida nunca foi tão pública como agora, que a sua liberdade de expressão nunca foi tão inaudível e a sua liberdade de escolha nunca foi tão derivada das escolhas feitas por outros, neste nosso mundo global. Podemos pensar no próprio processo de globalização, como algo que consiste essencialmente na “difusão planetária de um economicismo invasor e dominador, que

instrumentaliza cada vez mais o homem ao dar-lhe, no fim, não um crescimento do seu saber-ser e do seu poder-ser, mas antes um consumo constantemente crescente de objetos que as inovações técnicas renovam de modo acelerado” (Karli, 2008, p. 99).

Devemos igualmente refletir sobre a questão da omnipresença que a tecnologia nos oferece, nomeadamente, se essa capacidade não se revela ao mesmo tempo num muro que construímos ao nosso redor, suportado por frágeis pontes virtuais que nos ligam aos outros. Toda a panóplia de dispositivos tecnológicos colocados à nossa disposição, não será no fundo mais uma forma de controlo que aprisiona mais do que liberta? Na sociedade capitalista existem hoje mais telemóveis do que pessoas e isto traduz-se em parte pela necessidade de estarmos permanente ligados e em relação com os outros. No entanto, devemos pensar se o facto de estarmos permanentemente contactáveis e em modo online, nos deixa verdadeiramente livres para viver a nossa vida. Neste aspeto, para que a vida – a vida real – não passe a ser somente aquilo que acontece enquanto estamos ligados virtualmente, talvez seja mesmo necessário refletirmos, enquanto sociedade, no espaço que os dispositivos móveis ocupam nas nossas vidas.

Esta nossa era marcada por constantes avanços tecnológicos parece fazer-nos temer ainda mais o vazio. Podemos encontrar pessoas ligadas ao mundo inteiro, mas simultaneamente prisioneiras de um enorme vazio em tempos de “liberdade vigiada”. Neste ponto devemos meditar sobre que tipo de vazios é que as comunicações virtuais e todo o arsenal tecnológico de hoje em dia nos preencherão. Não raras vezes, o vazio que se pretende preencher é o vazio do silêncio. O silêncio deixa de existir, mas aquilo que o ocupa pode ser muito pobre em significado. Na presença de todas as solicitações tecnológicas com que nos deparamos quotidianamente, há mesmo quem não se consiga

alhear de uma parte da realidade (virtual) para se poder concentrar e emergir noutra (real). Porém, devemos ter presente que para além dos benefícios que nos concede, a tecnologia também é violentamente aditiva. Ficamos rendidos com as habilidades do mundo virtual, todavia, os seus efeitos adversos também se vão desenhando lentamente nas nossas vidas. A tecnologia em si mesma é neutra. O que conta é a utilização que fazemos das ferramentas ao nosso dispor. As novas tecnologias não devem ser endeusadas nem substitutas do mundo real. Devem antes controlar-se os acessos e a forma como nos relacionamos com os seus meios. No mundo tecnológico tudo deve ser feito com conta, peso e medida. Como qualquer prática que se configure excessiva ou que lese terceiros, torna-se importante prevenir e educar para a necessidade de um compromisso de equilíbrio e de responsabilidade. Ao nível da utilização da Internet, antes de nos aventurarmos nos oceanos virtuais, devemos ter presente de que existem ganhos maiores em não se estar permanentemente agarrado às redes. Assim como nos devemos acautelar contra todos os fenómenos violentos que circulam por intermédio das mais recentes tecnologias.

CAPÍTULO II