2. Véspera do Drama
2.1. Sólon: performance poética, política e religião
A tradição de estudos clássicos do drama é concorde sobre a validade daquilo que o Mármore de Paros (uma importante inscrição cronológica remontando aproximadamente ao ano de 260 A.E.C.) afirma sobre a institucionalização dos concursos trágicos.95 O texto de Marm. Par. ep. 43, que foi reconstituído num delicado processo de análise filológica por Jacoby (1904, p. 108-9), afirma basicamente o seguinte: “De quando Téspis, o poeta que ensinou o drama na cidade, foi o primeiro a atuar [hypekrínato], e o prêmio do bode foi
92 Segundo a famosa análise aristotélica (com os termos aqui traduzidos conforme a versão de Gazoni, de 2006). A frase no original é: “anánkē oûn pásēs tês tragōidías mérē eînai héx, kath' hò poiá tis estìn hē tragōidía; taûta
d' estì mýthos kaì ḗthē kaì léxis kaì diánoia kaì ópsis kaì melopoiía.” (Arist. Poet. 6.1450a).
93
A mesma objeção (relativa à classificação do ditirambo como “gênero literário”) foi suscitada por Batezzato (2013, p. 94): “The very concept of literary genre may be felt to be inadequate, especially in a literary
civilization where the type of poetry was determined by occasion and performance traditions.”
94
Esse ponto será desenvolvido mais adiante a partir das reflexões elaboradas por Else (1965), Herington (1985), entre outros.
estabelecido [...].”96
Ainda que a passagem contenha palavras de difícil tradução, posto que seus significados não permaneceram diacronicamente estanques (como no caso dos verbos hypokrínomai – relacionado a hypokritḗs [ator]97 – e didáxō, além do substantivo drâma), geralmente aceita-se tal testemunho como indicativo da aurora dos concursos dramáticos.
A nebulosa figura de Téspis (sobre a qual mais será dito oportunamente) pode ser relacionada por meio do drama a outra figura, menos nebulosa, que teve profunda influência sobre a história político-social de Atenas no séc. VI, qual seja, a do sábio, legislador e poeta Sólon. A referência a um pretenso encontro dos dois é feita por Plutarco. Ainda que se possa contestar a historicidade de muito do que é narrado por esse autor – afinal, ele mesmo afirma (em Sol. 27.1) não sacrificar uma anedota bem-atestada (e conveniente à personalidade do biografado) somente em prol de cânones cronológicos [khronikoîs tisi legoménois kanόsin] –, o caso merece ser referido, na medida em que relaciona duas das figuras mais importantes do período inicial de desenvolvimento da tragédia e evidencia o posicionamento de cada uma delas com relação à novidade que então surgia.
Na mesma obra supracitada, Plutarco narra o seguinte:
Como Téspis apenas começasse a desenvolver a tragédia e muitos fossem atraídos pela novidade da prática (embora ela ainda não tivesse sido transformada numa disputa competitiva), Sólon, sendo naturalmente afeito a escutar e aprender coisas novas, ainda mais na velhice (quando se entregava ao ócio, à folgança e, por Zeus!, aos vinhos e à música), foi ver Téspis atuar em pessoa, conforme a prática dos poetas antigos. Depois do espetáculo, dirigindo-se a ele, perguntou-lhe se não se envergonhava de mentir tanto diante de tantas pessoas. Como Téspis respondesse que não havia nada de terrível em falar e fazer tais coisas por brincadeira, Sólon, tendo batido com força seu bastão na terra, disse: “Em breve, contudo, louvando e estimando sobremaneira tal brincadeira, vamos encontrá-la também em nossos contratos.” (Plut. Sol. 29.4-5).98
É certo que a anedota tem um matiz consideravelmente platônico,99 mas, ainda assim, é reveladora de certa reação com a qual a novidade do espetáculo dramático pode ter sido recebida em meados do séc. VI, sobretudo pelos setores mais conservadores da sociedade
96 Em tradução. Para detalhes do texto grego e de outras asserções do mesmo documento pertinentes para o período aqui tratado, cf. Apêndice, p. 119. Esse texto foi recentemente questionado, embora não haja segurança de que a nova proposta de texto – mais conservadora – deva ser aqui adotada. Cf. CONNOR, 1989, p. 26-32. 97 Para algumas considerações sobre o verbo hypokrínomai e seu uso “teatral”, cf. NAGY, 2013, p. 232. 98
Cf. Apêndice, p. 164. 99
Tal é o motivo para que Else (1965, p. 45, n. 35) a refute como suspeita, alegando que: “Plutarch, Solon 29,
tells a story which brings Thespis and Solon together: how Solon watched a performance of the new art of tragedy, with Thespis as actor, and took occasion to register emphatic disapproval of his “telling such great lies,” i.e., impersonating somebody else. Similarly Diog. Laert. I, 59. But such a remark would come with dubious grace from the author of “Salamis”, and the story is so clearly Platonic in inspiration that its authenticity is suspect.”
ateniense.100 Se tal anedota possui algum valor histórico, ela não pode se referir a uma data anterior à morte de Sólon (dois anos depois do início da tirania de Pisístrato, conforme Plut. Sol. 32.2), ou seja, por volta do ano 559. Nessa época, a pólis ainda ressentia-se dos conflitos internos que a perturbaram, mormente ao longo da primeira metade do séc. VI, e será importante considerar tal contexto a fim de que se entenda a complexidade das relações desenvolvidas entre as diversas camadas sociais e certas manifestações culturais, tais como a instituição dos festivais religiosos e as apresentações poéticas que aí se davam.
Uma das principais fontes para tal período, a Constituição dos Atenienses, possivelmente escrita por Aristóteles (ou por um dos peripatéticos), relata que a escravidão por dívidas assolou o território da Ática desde um período anterior a Sólon e que, como o problema paulatinamente atingisse proporções mais amplas, provocou uma série de conflitos entre os notáveis [gnṓrimoi] e o povo [tò plêthos] (Arist. Ath. 2). Conforme tal trecho, a posse da terra, restrita a poucos “latifundiários”, era alugada aos chamados clientes [pelátai] por um preço, que, caso não pudesse ser devolvido após um determinado período, concedia a prerrogativa ao proprietário da terra de prender seu “cliente” (bem como sua família) a fim de vendê-lo como escravo e reaver o que lhe era devido. Tal domínio econômico, por parte da classe dos “Homens de bem [Eupatrídai]”, engendrava sua supremacia também sobre a vida política, social e religiosa, posto que numa sociedade agrária, tal como a da Atenas de então, a posse da terra era o que condicionava os demais fatores (ELSE, 1965, p. 33-4).101
O revolucionário estudo de Thomson (1941), defrontando-se com tais conjunturas socioeconômicas, aventou dois agravantes principais para a intensificação de tal crise ateniense no fim do século VII e início do VI: em primeiro lugar, a pequena participação dos atenienses no movimento de expansão colonial que se dera previamente no mundo helênico e que em inúmeras póleis oferecera um alívio para as contendas pela posse da terra; em segundo lugar, a invenção da moeda e o início de sua circulação na bacia do Egeu, a partir dos reinos orientais (que se evoquem as histórias lendárias de Midas, o rei frígio que tornava ouro tudo o que tocava, e de Giges, o opulento soberano da Lídia).
A consequência dessa última inovação foi uma facilitação das trocas e do comércio, com um impacto profundo na forma tradicional das próprias relações humanas: a lógica aristocrática de uma sociedade orientada por relações de troca em bases mais conservadoras – como era típica do período arcaico, com uma instituição como a da xenía [hospitalidade], por
100
Cf. HÖNN, 1948, p. 145.
101 Problemas de mesma ordem também ocorriam em Mégara, vizinha de Atenas, entre os sécs. VI e V (ONELLEY, 2009, p. 15-22), encontrando eco em vários dísticos elegíacos dos Theognídea.
exemplo – viu-se profundamente perturbada pela introdução da moeda.102 Essa realidade deixa-se entrever na sintética formulação de Heráclito (frag. 90 DK) acerca do fenômeno, pois – tal “como todas as coisas trocam-se a partir do fogo e o fogo, a partir de todas as coisas –, do ouro, as posses e, das posses, o ouro”.103 A circulação de riquezas, que a partir de então começava a se tornar uma realidade, ampliava as possibilidades de pequenos proprietários se livrarem do controle imposto pelos “notáveis”, ou seja, pelos latifundiários cuja estabilidade econômica passava a poder ser minada pela mobilidade do dinheiro.104 Nessa época, o comércio intensificou-se, novas fortunas começaram a se formar a partir de arriscados empreendimentos comerciais105 e a aristocracia agrária – esforçando-se por manter seu poder a todo custo – aumentou a pressão sobre os lavradores responsáveis pela exploração de suas terras. O resultado foi – além de um impacto considerável na concepção das próprias relações humanas106 – uma intensificação da rigidez na cobrança das dívidas, com o consequente aumento de lavradores que se viam na desventura de terem a família, além de si mesmos, vendidos como escravos para saldar o que deviam. Como se tal quadro já não fosse ruim o bastante, uma vez que os responsáveis pela administração da justiça eram os mesmos “notáveis”, os abusos praticados em seu exercício agravavam ainda mais a situação dos pequenos produtores (MEIER, 2012, p. 66).
Nessas circunstâncias, o conflito social [stásis] começava a se delinear de maneira inevitável,107 como sugerem certos versos da famosa Eunomia de Sólon acerca de tal situação:
102 Cf. CARSON, 1999, p. 10.
103 Na tradução (adaptada) de Costa (2002, p. 146). No original (Plut. De E apud Delphos 388d-e): “hōs gàr
ekeínēn aláttousan ek mèn heautês tòn kόsmon ek dè toû kόsmou pálin heautḕn apoteleîn ‘pyròs t᾽ antameíbetai pántá', phēsìn ho Hērákleitos, ‘kaì pýr hapántōn, hókōsper khrysoû khrḗmata kaì khrēmátōn khrysόs’.”
104 Cf. THOMSON, 1941, p. 86; GENTILI, 1988 [1985], p. 64. A atitude ambígua de Teógnis com relação à riqueza pode ser compreendida nessas mesmas linhas, “pois ao mesmo tempo que representa para os nobres o sustentáculo da autoafirmação política e um meio de garantir-lhes o status no topo da pirâmide social, transforma-se no principal agente aniquilador da casta aristocrática.” (ONELLEY, 2009, p. 75).
105 Nas linhas do que já era expresso pelos versos de um poeta tradicionalista como Hesíodo (Trabalhos e dias 631-4). Na tradução de Mantovaneli: “Então arrasta a nau esguia para o mar e dentro apresta/ a carga desejada, para que com lucro voltes para casa./ Assim como meu pai e o teu, Perses grande tolo,/ costumava navegar em naus, em busca de uma vida próspera [...].” No original: “kaì tóte nêa thoḕn hálad’ helkémen, en dé te phórton/
ármenon entýnasthai, hin’ oíkade kérdos árēai,/ hṓs per emós te patḕr kaì sós, méga nḗpie Pérsē,/ plōízesk'en nēusí, bíou kekhrēménos esthloû.”
106 Para possíveis reflexos do impacto causado pelas noções de fungibilidade (monetária) para o pensamento expresso na poesia de Sólon, cf. GAGNÉ, 2009, p. 37-9. A partir da poesia de Simônides, algumas décadas posterior, cf. CARSON, 1999, p. 10-27.
107 Cf. Arist. Ath. 5.1. Além disso, vale lembrar: a primeira tentativa de tirania em Atenas, que se estima ter acontecido no fim do séc. VII, por iniciativa de Cilón, é um claro sinal da intensificação de tais conflitos. As histórias que circulam sobre o miasma provocado nessa ocasião pelos Alcmeônidas (da família de Mégacles), com o assassinato impiedoso dos responsáveis pela tentativa frustrada de golpe, têm suas principais fontes em: Hdt. 5.71; Thuc. 1.126; Plut. Sol. 12.1 (para um tratamento das mesmas, cf. VLASTOS, 1946, p. 67; FROST, 1984, p. 286-7; ALMEIDA, 2003, p. 2-4; LAUGHY, 2010, p. 88-91). Para detalhes da concepção arcaica sobre o miasma, cf. DODDS, 1951, p. 35-7; LAUGHY, 2010, p. 92-3. Meier (2012, p. 68) aventa como uma das possibilidades de explicação da forma tardia por que a tirania veio a se firmar em Atenas (somente com
À cidade toda já está vindo essa inevitável ferida e vem rapidamente à molesta escravidão,
a qual desperta a revolta civil e a guerra adormecida, [20] que destrói de muitos a adorável juventude –
pois, devido aos inimigos, rapidamente a mui amada cidade exaure-se em concílios caros aos injustos.
Esses males voltam-se contra o povo: dos necessitados chegam muitos a uma terra alheia
[25] vendidos e em correntes vergonhosas atados. *
Assim o mal público vai até a casa de cada um e, do pátio, detê-lo já não querem as portas,
mas, ao alto, cerca acima lança-se e encontra todas, [30] ainda que alguém se esconda no âmago do tálamo. (Sol. 3 G-P2 = 4 W2, v. 17-30).108
Esse quadro terrível encontra-se num dos poemas mais importantes para a definição de uma concepção de díkē [justiça] para Sólon, não sendo por acaso que a confusão social esteja aí profundamente relacionada a um problema de ordem interna à própria pólis (IRWIN, 2005, p. 98-100). Ainda que não seja possível destrinchar aqui as nuances do pensamento ético de Sólon – desenvolvido, sem dúvida, em resposta às difíceis circunstâncias do contexto em que se encontrava –, é significativo que ele tenha não apenas avançado considerações sobre uma justiça imanente (3 G-P2 = 4 W2), mas também sentido necessidade de dar explicações sobre a aparente impunidade e, em muitos casos, desbragada injustiça nos negócios humanos (1 G-P2 = 13 W2).109 Nesse sentido, buscando esclarecer uma difícil realidade social cuja compreensão devia escapar aos limites do entendimento humano,110 o poeta teria avançado ideias para uma justiça transcendente – assentada na autoridade de Zeus, que a faria valer mesmo após a passagem de algumas gerações humanas –, de modo a poder oferecer algum consolo aos
Pisístrato, mais de meio século depois da tentativa de Cilón) o tamanho da região e as dificuldades para organizar o poder num território tão vasto e fragmentado.
108
Cf. Apêndice, p. 17.
109 Cf. Apêndice, p. 12. Para as mais diversas considerações sobre o conceito de díkē em Sólon – levando em conta alguns poetas do mesmo período –, cf. entre outros: VLASTOS, 1946; ALLEN, 1949; HALBERSTADT, 1955; GAGARIN, 1973; GAGARIN, 1974; DICKIE, 1978; HAVELOCK, 1978; TEDESCHI, 1982; LORAUX, 1984; LORAUX, 1989; LOEFFLER, 1993; STODDARD, 2002; ALMEIDA, 2003, p. 175-240; BLAISE, 2005; BLAISE, 2006; GAGNÉ, 2009. Um tratamento cuidadoso dessas questões deve levar em conta a complementaridade dos diferentes aspectos da díkē de Sólon, nas linhas gerais adotadas por Archibald Allen (1949) e Fabienne Blaise (2005), não por meio da construção de contradições internas, como faz Kate Stoddard (2002). Na contramão de todas as abordagens anteriormente mencionadas, merece destaque negativo a compreensão “protagórica” de díkē defendida por Rodgers (1971) para poetas arcaicos.
110 Sobre a incognoscibilidade da realidade humana, em suas determinações divinas (ALLEN, 1949, p. 62), convém evocar dois fragmentos de Sólon: “Dificílimo é entender da sabência a invisível/ medida, a única que de fato tem os limites de tudo.” (Sol. 20 G-P2 = 16 W2). “Totalmente invisível é a mente dos imortais para os homens.” (Sol. 21 G-P2 = 17 W2). Cf. Apêndice, p. 24; p. 25.
inúmeros injustiçados que não viam em sua realidade os efeitos de uma justiça imanente.111 Levando-se em conta outros testemunhos da época, Sólon não foi o único a refletir sobre as contradições sociais inerentes ao período arcaico.112
Vale lembrar que mesmo um homem de estrato social elevado, como provavelmente era Sólon, não estava isento de embaraços econômicos num período de desenvolvimentos tão conturbados. Conforme Plutarco (Sol. 2.1), enquanto ainda era jovem, Sólon se viu obrigado a embarcar no comércio [hṓrmēse néos ṑn éti pròs emporían], seja para amainar os problemas financeiros de sua família, seja para adquirir conhecimentos e experiências – o que era tradicionalmente mal visto por setores mais conservadores da aristocracia.113 Independentemente da veracidade histórica dessa informação – para além da existência do indivíduo Sólon –, o fato de que tal tradição faça parte da biografia atribuída a um poeta e legislador ateniense que teria vivido durante esse período indica características de uma situação econômico-social na qual mesmo os representantes eminentes das camadas mais elevadas da sociedade podiam – verossimilmente – passar por dificuldades de ordem econômica desse tipo.
Nesse ponto da história, talvez seja oportuno evocar o nome de uma terceira figura que, ao lado das de Sólon e Téspis, teve uma atuação de primordial importância no quadro sociopolítico de Atenas desde o segundo quarto do séc. VI até sua morte (próxima ao período provável de instituição dos concursos trágicos): Pisístrato. Embora não sejam conhecidos muitos dados concretos de sua biografia, algo pode ser especulado a partir daquilo que é informado pelas principais fontes sobre o período. O que mais interessa por ora é a probabilidade de que ele tenha sido um conhecido de Sólon (ou mesmo seu parente, conforme D.L. 1.49) e que, apesar de certa diferença etária entre ambos, tenham se tornado amigos –
111
Embora essa concepção de uma justiça atuando sobre os “herdeiros” de um determinado crime seja estranha ao pensamento moderno, ela tem a virtude de explicar situações aparentemente incompreensíveis de uma perspectiva ética para a humanidade – como o sofrimento de inocentes ou a boa fortuna de pessoas reconhecidamente injustas –, empregando um traço comum a crenças arcaicas moral-religiosas, como a da solidariedade familiar na expiação de uma culpa. Cf. GLOTZ, 1904, p. 168-9; VLASTOS, 1946, p. 67; p. 76; DODDS, 1951, p. 33-4, contra GAGNÉ, 2009, p. 43-4.
112 Há alguma confluência entre o que afirma Sólon nesse fragmento (bem como em sua obra como um todo) e aquilo que aparece nos Trabalhos e dias de Hesíodo, na Eunomia de Tirteu (fr. 2 W) ou em dísticos elegíacos de Teógnis (v. 39-43), indicando contextos relativamente afins às preocupações de cada um desses poetas. Cf. IRWIN, 2005, p. 63-7; BRUNHARA, 2012, p. 154-6. Para sugestões sobre o conceito de eunomía em Sólon e em outros poetas arcaicos, cf. JAEGER, 2013 [1933-47], p. 173-89; HALBERSTADT, 1955; HAVELOCK, 1978, p. 261-2; TEDESCHI, 1982, p. 34-41; ALMEIDA, 2003, p. 196-8; BLAISE, 2005, p. 10-21; IRWIN, 2005, p. 189-93; BLAISE, 2006, p. 119-24.
amizade devida, segundo Plutarco (Sol. 1.2), em grande parte à beleza juvenil de Pisístrato, atributo que, inclusive, teria despertado um amor apaixonado no mais velho.114
Sobre a importância das tradições biográficas desenvolvidas em torno dessas duas figuras – Sólon e Pisístrato –, vale evocar a interessante ressalva concessiva de uma estudiosa do assunto:
[A] atenção com essas tradições “legendárias” pode na verdade situar as carreiras de Sólon e Pisístrato num continuum que permita a cada um deles iluminar a carreira do outro com consequências significativas para a maneira como a história desse período é construída. (IRWIN, 2005, p. 134).
A convergência existente entre muitas das ações e empreitadas junto às quais seus nomes vieram a estar associados indica que – mais do que relações familiares, de amizade ou eróticas – ambos poderiam estar conectados em vários níveis significativos para a compreensão de uma realidade arcaica.115 Em todo caso, a participação de Sólon no incidente relatado por Plutarco (Sol. 8) e parcialmente corroborada pelos versos elegíacos do poema de Sólon, “Salamina” (do qual três fragmentos num total de oito versos ainda sobrevivem, 2 G- P2 = 1-3 W2), foi de suma importância para o futuro de Atenas. Ao que tudo indica, os atenienses haviam engajado uma longa guerra contra a cidade de Mégara pelo domínio da ilha de Salamina, cuja posse ofereceria ampla vantagem do ponto de vista estratégico-militar, sobretudo em questões de defesa territorial, além de benefícios econômicos, uma vez que a rota marítima para o istmo de Corinto passava por aí (NOUSSIA, 1999, p. 61). Segundo Plutarco (Sol. 8), como a duração da guerra fora demasiada, tendo levado à exaustação as forças dos atenienses, uma lei teria sido criada para proibir (sob pena de morte) que novas
114
A impossibilidade cronológica dessa relação foi postulada por Arist. Ath. 17.2 (embora tal trecho esteja em flagrante contradição com o que fora dito pouco antes, em Ath. 14.1). A maneira mais interessante de conciliar (parcialmente) os testemunhos é adiar a data tradicional da atuação legisladora de Sólon (por volta de 594) em mais ou menos uma vintena de anos. Tal possibilidade, aventada por Parker (2007, p. 24), concilia uma série de contradições que de outra forma eivariam toda tentativa de levar a sério os principais testemunhos acerca desses fatos. Segundo tal reconstrução, Sólon: teria nascido no terceiro ano da 36ª Olímpiada, por volta de 634/3; durante sua akmḗ, quarenta anos depois (no terceiro ano da 46ª Olimpíada, por volta de 594/3), teria sido arconte em Atenas, atuando como mediador da crise política (Arist. Ath. 5; Plut. Sol. 14; D.L. 1.62); algum tempo depois, durante um tempo entre 590-70, teria recebido plenos poderes para atuar como legislador, a fim de propor soluções para a crise, com a possibilidade de assumir a tirania, caso quisesse (Arist. Ath. 6; Plut. Sol. 16.3; D.L. 1.49); durante a década seguinte teria se exilado e viajado por lugares distantes (Arist. Ath. 11; Plut.
Sol. 25.3-5; D.L. 1.50); teria retornado a Atenas e morrido algum tempo depois, talvez durante o arcontado de
Hegestrato, em 561/0 (Plut. Sol. 32.3). O fato de que tenha morrido com mais de sessenta anos de idade, e menos de oitenta, seria corroborado por um poema atribuído ao próprio Sólon (26 G-P2 = 20 W2), que “corrige” os famosos versos onde Mimnermo (fr. 6 W) falava da morte feliz aos sessenta anos de idade: “Que octogenário se achegue o quinhão da morte.” Cf. Apêndice, p. 26. Para um tratamento desse jogo intertextual, cf. DAWSON, 1966, p. 45-6.
115 Para mais detalhes dessa convergência, cf. IRWIN, 2005, p. 267-89. As considerações dessa estudiosa são em grande parte devedoras do que já haviam sugerido Nicole Loraux (1984; 1989) e Fabienne Blaise (1995).
hostilidades contra Mégara fossem promovidas. Sólon, revoltando-se contra o que lhe parecia um retrocesso, mas, buscando evitar a punição prevista pela referida lei, teria fingido a perda de seu juízo [eskḗphato mèn ékstasin tôn logismôn], lançando-se à ágora com um barrete na cabeça [exepḗdēsen eis tḕn agoràn áphnō, pilídion perithémenos], e teria recitado seu poema, subindo na pedra do arauto [anabàs epì tòn toû kḗrykos líthon]. A história da loucura é confirmada por Diógenes Laércio (1.46), embora aí se diga que um arauto é quem teria recitado o poema de Sólon. Outra referência ao barrete, utilizado como indicativo de sua