• Nenhum resultado encontrado

S ETOR DO C ALÇADO EM P ORTUGAL

CAPÍTULO II – E NQUADRAMENTO T EÓRICO

2.1. S ETOR DO C ALÇADO EM P ORTUGAL

2.1.1. Evolução do setor do calçado em Portugal

Ao longo dos últimos trinta anos, a indústria do calçado apresentou um forte crescimento, decorrente da integração de Portugal no espaço económico europeu e o acesso facilitado a um grande mercado. De acordo com a informação da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS) (2007), o setor do calçado foi o que apresentou maiores taxas de crescimento das exportações em Portugal.

Durante os anos 70 e 80, Portugal constituiu uma solução para as empresas estrangeiras que procuravam a deslocalização da sua produção, pelo que constatamos que as empresas portuguesas operavam essencialmente em regime de subcontratação. No entanto, o aumento da concorrência dos países asiáticos e de Leste, altamente competitivos, no que respeita a custos de produção e a qualidade, agrava a situação das empresas que estavam muito dependentes destas subcontratações (http://cadeiras.iscte.pt/EstrategiaII/.calcado_portugal. pdf).

A produção do calçado está essencialmente concentrada em dois polos, Felgueiras e São João da Madeira. Nesses polos e nas empresas aí localizadas, existe uma complexa rede de relações formais e informais: relações comerciais, essencialmente de subcontratação, relações de partilha de informação e conhecimento (APICCAPS, 2013).

Após três décadas de crescimento quase contínuo, a indústria teve de lidar com o aumento da intensidade concorrencial nos mercados internacionais que originou alterações no modelo competitivo. Muitas empresas estrangeiras que tinham sido atraídas para Portugal devido aos baixos custos de produção que aqui encontravam, decidiram não participar neste esforço de redefinição estratégica e deslocalizaram a sua produção para outros países, onde tem acesso aos mesmos fatores competitivos que antes as tinham trazido para Portugal. As empresas mais debilitadas sucumbiram à pressão competitiva, e não foram capazes de se ajustar no novo enquadramento concorrencial (APICCAPS, 2007).

Considera-se que, no ano de 2013 (tabelas 1, 2 e 3), as empresas das indústrias do setor do calçado beneficiaram dos sinais de recuperação económica, tanto em Portugal como nos principais mercados externos da indústria do calçado. “A economia portuguesa atravessa um

Capítulo II – Enquadramento Teórico

12

processo de correção de problemas estruturais e desequilíbrios macroeconómicos acumulados ao longo das últimas décadas” (APICCAPS, 2014, p.6). As projeções económicas para os próximos anos apontam para um período de recuperação moderada, resultado de uma evolução positiva da procura interna e da manutenção de taxas de crescimento significativas das exportações. Desde o ano de 2008, os empresários do setor mantêm uma perceção da situação conjuntural mais favorável (APICCAPS, 2014).

Tabela 1. Evolução da indústria portuguesa de calçado

1974 1984 1994 2004 2006 2008 2010 2011 2012 2013 Indústria Empresas Número 673 971 1 635 1 432 1 448 1 407 1 245 1 324 1 322 1 337 Emprego Número 15 299 30 850 59 099 40 255 36 221 35 398 32 132 34 509 34 624 35 044 Produção Milhares de pares 15 000 48 000 108 866 84 897 71 643 69 101 62 102 69 491 74 156 75 524

Valor bruto de produção

Milhares de euros 12 330 31 8891 1 620001 1 471214 1 338555 1 397617 1 283475 1 511085 1 797030 1 848 10 Fonte: Adaptado de APICCAPS, 2014, p.8

Tabela 2. Evolução da indústria portuguesa de componentes para calçado

1994 1999 2004 2006 2008 2009 2010 2011 2012 2013 Indústria Empresas Número - 263 303 297 267 259 240 252 258 258 Emprego Número - 5 569 5 431 4 707 4 090 3 901 3 848 4 282 4 262 4 263

Fonte: Fonte: Adaptado de APICCAPS, 2014, p.9

Tabela 3. Evolução da indústria portuguesa de artigos de pele

1994 1999 2004 2006 2008 2009 2010 2011 2012 2013 Indústria Empresas Número 255 238 188 179 162 139 113 97 100 102 Emprego Número 3 312 2 406 1 571 1 395 1 297 1 102 1 005 1 020 1 045 1 055

Fonte: Fonte: Adaptado de APICCAPS, 2014, p.9

2.1.2. Caracterização do setor de calçado em Portugal

Ao longo dos últimos anos, a indústria portuguesa de calçado tem-se revelado como uma das mais dinâmicas em termos internacionais. A indústria do calçado consiste numa atividade quase artesanal, baseada no saber fazer local, e transformou-se num negócio firme e direcionado para os mercados externos, contribuindo assim para o crescimento das

exportações. Portugal mostra ser um país com altos níveis de produção e comercialização nos diferentes segmentos do calçado mundial, no entanto, é no calçado de couro que os produtos nacionais mais têm notoriedade (Freire, 1999).

O calçado é considerado um bem de primeira necessidade, desta forma, a indústria de calçado portuguesa tem vindo a apostar em fatores de diferenciação, como o caso da produção de calçado de couro e a rapidez e flexibilidade do seu sistema produtivo para dar resposta às tendências e gostos dos consumidores (Leitão, Ferreira & Azevedo, 2008).

A aglomeração geográfica é um conceito que permite falar-se legitimamente de um cluster de calçado português pois o fabrico de calçado, como o fabrico de componentes, até mesmo o fabrico de artigos de pele, concentra-se num número limitado de concelhos em que as indústrias têm um forte peso na atividade económica. A concentração geográfica desenvolve uma função essencial no que respeita a viabilidade de um cluster, uma vez que permite a evolução de economias de aglomeração e fenómenos de difusão de conhecimento e formação de redes de empresas formais e informais, tal como acontece no cluster do calçado (APICCAPS, 2014).

Tendo em conta o número de trabalhadores (Figura 1), Felgueiras assume particular destaque, uma vez que, por si só, concentra mais de um terço da mão-de-obra da indústria de calçado e quase 30% da indústria de componentes. No que respeita a indústria de calçado, tem também importância os concelhos de Santa Maria da Feira, Oliveira de Azeméis e Guimarães, cada um com cerca de 12% do emprego setorial. A indústria considera-se, assim, organizada em dois polos geográficos: um que se organiza na região norte, em concelhos como Felgueiras e Guimarães, estendendo-se para ocidente até Barcelos; outro no limiar entre as regiões norte e centro, nos concelhos de Santa Maria da Feira e de Oliveira de Azeméis, envolvendo também concelhos limítrofes, com destaque para São João da Madeira. Em conjunto, estes cinco concelhos representam mais de três quartos do emprego na indústria portuguesa de calçado. Mais a sul, na zona da Benedita, existe um terceiro polo de menor expressão quantitativa.

Capítulo II – Enquadramento Teórico

14

Figura 1. Percentagem de trabalhadores da indústria de calçado por concelho (2012) (Adaptado de APICCAPS, 2014, p.66)

O cluster do calçado português é composto essencialmente por pequenas e médias empresas (APICCAPS, 2014).

Da análise da tabela 4, podemos constatar que os dados recolhidos comprovam que os maiores centros produtores de calçado se encontram em dois polos distintos: Felgueiras e Santa Maria da Feira.

Tabela 4. Cinco concelhos do país com maior produção de calçado

Ranking Concelho %

1.º Felgueiras 35,1

2.º Santa Maria da Feira 12,2

3.º Oliveira de Azeméis 11,9

4.º Guimarães 11,8

5.º São João da Madeira 5,1

Fonte: Adaptado de Indústria do calçado: O “peso pesado” da exportação nacional, 2013, p.5.

2.1.3. Ameaças e oportunidades do setor de calçado em Portugal

Independentemente da aposta em tecnologia que posicionou Portugal na liderança mundial, por si só já não é suficientemente sustentável para a obtenção de resultados mais elevados no panorama da globalização, caracterizada por um elevado crescimento da oferta a nível

mundial e dos estabelecimentos de venda organizada, que constantemente aumentam a pressão sobre as pequenas e médias empresas de países, como o sucedido com o nosso país. Não é suficiente ser-se um bom produtor. É necessária a adoção de uma estratégia de sucesso para cada empresa e que preveja: 1) pesquisa, criação e resposta a nichos de mercado, inovação de produtos que permita ultrapassar a concorrência, acompanhamentos de fenómenos sociais e culturais; 2) alcançar rapidamente o mercado através de engenharia e produções simultâneas; 3) criação de imagens de marca que proporcionem o aumento da qualidade, novas estratégias de marketing e de promoção; 4) desenvolvimento de competências ao nível do design, quer ao nível de moda, quer a nível funcional, aposta em calçado especializado, capaz de atingir nichos de mercado de elevado poder de compra; 5) domínio das novas tecnologias de informação e comunicação no apoio à gestão e administração, marketing e engenharia do produto; 6) implementação de missões de marketing organizadas no estrangeiro; 7) reflexão sobre os parâmetros que influenciam a produtividade e qualidade, desenho de estratégias de melhoria; 8) adaptação de estilos de gestão construtiva orientada para objetivos; 9) desenvolvimento de relações a montante e a jusante da produção, essencialmente em termos de fornecedores e clientes finais (Centro Tecnológico do Calçado de Portugal [CTCP], 2005).

Para maximizar o sucesso destas estratégias de desenvolvimento individual é ainda necessário a nível coletivo das empresas: 1) consolidação do cluster tecnológico, induzindo o desenvolvimento de bens de equipamento necessários à modernização tecnológica; 2) promover a qualificação dos ativos dos setores do cluster do calçado, retirando gradualmente o carácter tradicional caracterizado por “manual e moroso” e valorizar este aspeto no sentido de qualidade, flexibilidade e customizado; 3) promover o desenvolvimento transversal de aspetos relacionados com a literacia dos recursos humanos das empresas (literacia tecnológica e domínio de língua estrangeira), melhoramento da sua produtividade e flexibilidade; 4) fortalecer as ligações virtuais e/ou físicas entre fornecedores, fabricantes, clientes/ consumidores, através das novas autoestradas de informação; 5) favorecer o aparecimento de novos serviços de apoio à indústria de calçado, essencialmente nas áreas do design; 6) melhorar e alargar os serviços já oferecidos pelas entidades relacionadas com o cluster; 7) favorecer o aparecimento de novas ideias de materiais técnicos e tecnológicos que permitam à indústria vender novas ideias; 8) aparecimento de novas soluções de mercado mais

Capítulo II – Enquadramento Teórico

16

customizadas; 9) favorecer o investimento em larga escala tendo em conta a imagem do setor e do país, junto dos principais mercados (CTCP, 2005).

Documentos relacionados