CAPÍTULO 3: REGIÃO E DISCURSO POLÍTICO - OBJETOS DE MANUTENÇÃO DO PODER
3.1 S OBRE OS CONCEITOS DE REGIÃO E RUGOSIDADE
A região é um dos temas centrais da ciência geográfica. Para além das diferenças conceituais decorrentes das diversas formas de pensamento daqueles que fazem a Geografia, seu uso é de fundamental importância para o entendimento do espaço geográfico. Este termo parece carregar uma forte vinculação com a história dos lugares, já que geralmente as regiões foram criadas em função de algum aspecto cultural, físico, econômico ou ainda administrativo.
Em nosso entendimento, a região analisada em nossa pesquisa, as Missões, representa aspectos decorrentes de diversas formas de classificação de uma região. A polissemia do termo permite ao mesmo tempo uma disputa entre estas diversas formas de classificação e uma riqueza nos exemplos apresentados.
Ao mesmo tempo, a região é um destes termos que permitem uma comparação ou associação com outros conceitos geográficos. Se pensarmos na região como aquela porção de terra onde no passado viveu uma sociedade baseada na agricultura, na catequização e na criação de gado através dos ensinamentos jesuítas, e que estes povos deixaram marcas na paisagem após o fim desta civilização, podemos tecer uma associação entre a região e uma rugosidade, pois para Santos (2004:140):
O que na paisagem atual, representa um tempo no passado, nem sempre é visível como tempo, nem sempre é redutível aos sentidos, mas apenas ao conhecimento. Chamemos rugosidade ao que fica do passado como forma, espaço construído, paisagem, o que resta do processo de supressão, acumulação, superposição, com que as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares.
Estas rugosidades de que nos fala Milton Santos, são também as marcas deixadas no espaço por nossos antepassados. A manutenção de algumas destas marcas, como no caso das Ruínas de São Miguel, reforça os laços de identidade, de pertencimento a uma comunidade regional.
Porém, como estes espaços são o resultado de um acúmulo de tempo, que nem sempre é linear, ou seja, ele apresenta rupturas, a apropriação destas marcas através de uma identificação com a história verificada naquele espaço nem sempre é instantânea. Afirmamos isso em decorrência da pouca ou nenhuma importância dada aos monumentos jesuíticos durante o processo de reocupação das Missões após o esfacelamento da experiência jesuítica no Rio Grande do Sul.
Os relatos históricos sobre a reocupação desta região dão conta de que havia “muito mato e apenas restos de edificações”. Esses relatos ainda ilustram as grandes dificuldades para a efetiva ocupação do atual município de Santo Ângelo por parte de seus fundadores, Pinheiro Machado e Antônio Manoel.
A valorização histórica da região somente passou a ocorrer em decorrência dos estudos realizados sobre os “sete povos” em diversas cidades do estado e do Brasil.
Da mesma forma, o reconhecimento das ruínas de São Miguel como “Patrimônio Histórico da Humanidade” na década de 1980, também alavancou o conhecimento sobre a saga missioneira e possibilitou ganhos significativos com o turismo. Dessa forma, na
atualidade da região missioneira, podemos pensar numa aproximação do conceito de
“rugosidade” cunhado por Milton Santos com o de região.
Além disso, devemos ressaltar que o termo “região” é utilizado indistintamente pela população em referência a uma área qualquer na cidade ou em outra escala de referência (GOMES, 1995). Dessa forma, a partir de um uso popular, que foi passado de pai para filho, a expressão “região das Missões” acabou se tornando uma região política, quer dizer, hoje ela representa uma área administrativa do estado do Rio Grande do Sul onde, entre outras políticas, o governo destina recursos e desenvolve projetos.
Porém, a região enquanto objeto de estudo científico, está longe de um consenso em termos conceituais, pois como afirma Corrêa (1987: 23):
A utilização do termo entre os geógrafos, no entanto, não se faz de modo harmônico: ele é muito complexo. Queremos dizer que há diferentes conceituações de região. Cada uma delas tem um significado próprio e se insere dentro de uma das correntes do pensamento geográfico.
Esta complexidade mencionada por Roberto Lobato Corrêa é decorrente dos diferentes contextos quando do estabelecimento dos conceitos de região. Para a criação do conceito de região natural, pesou o contexto da expansão imperialista no final do século XIX. Este período caracterizou-se pela necessidade maior de conhecimento e classificação da superfície da terra em diversas regiões, daí o surgimento de seis grandes regiões associadas a critérios naturais: polar, temperada fria, temperada quente, tropical, montanhosa subtropical e terras baixas e úmidas equatoriais (CORREA, 1987: 24).
Em oposição ao enfoque “natural” dado à região, surge a região geográfica dos possibilistas.
Para os pensadores desta corrente, a relação do homem para com a natureza representava um processo evolutivo entre esta e aquele. (CORRÊA, 1987)
E finalmente e, obviamente, sem esgotar as definições conceituais do termo região, já que buscamos tão somente adequar coerentemente a melhor conceituação para o nosso objeto de pesquisa, o enfoque da Geografia Crítica completa parte da história conceitual do termo região. Para esta linha de pensamento, os conflitos existentes numa estrutura social, assim como as marcas, as “heranças culturais e materiais” configuram e reconfiguram determinada região.
Acreditamos que a “região das Missões”, da qual faz parte o município de Santo Ângelo, pode ser caracterizada a partir desta “visão de mundo” protagonizada pela Geografia Crítica.
O marco inicial desta região mencionada, enquanto “herança cultural”, foi o ambicioso projeto de evangelização/catequização dos índios implantado na América do Sul.
As missões evangelizadoras tinham como principal objetivo levar a “cultura superior”
européia aos povos atrasados, aos incivilizados. Esta experiência foi bem sucedida, pois houve grande progresso destas missões, tanto em número quanto em produtividade, já que se desenvolveram as plantações de trigo, erva-mate, além da pecuária e do artesanato.
Do trágico desfecho deste projeto de ocupação até uma nova forma de valorização do espaço, passaram-se décadas. Foi somente em meados do século XIX que alguns pequenos grupos de paulistas, e depois imigrantes, resolveram reocupar a região das Missões.
Como já mencionado neste trabalho, a ruptura e os diferentes modos de ocupação deste espaço, acarretaram certo distanciamento entre os fatos históricos recentes, ou seja, o fim das reduções e o entendimento da questão por parte dos novos moradores.
Os indícios deixados por jesuítas e indígenas jamais foram apagados, eles na verdade tardaram a serem descobertos. Estas ruínas, além de todo artesanato indígena, ilustram um
“acúmulo desigual de tempos” e também de espaços, que atualmente mesclam-se com hotéis de luxo e demais itens da infra-estrutura turística regional.
Dessa forma, a região vista pela ótica “crítica” da geografia e as marcas deixadas por nossos antepassados expressadas no conceito Miltoniano de rugosidade são complementares.
A existência da região enquanto “área demarcada” onde ocorre a aplicação de uma administração ou ainda o reconhecimento desta por parte das esferas superiores de poder é problemática. Não existe um consenso sobre o marco inicial da utilização desta denominação em relação às Missões.
Segundo o Atlas do IBGE (2006:27) que versa sobre a região e o contexto literário no Brasil, a região das Missões não pode ser considerada uma região geográfica, pois:
A forma de ocupação da terra da área das Missões não perdurou após a destruição das mesmas. Os índios dispersaram-se pelo território do que veio a ser o Rio Grande do Sul e foram absorvidos posteriormente nas estâncias da Campanha Gaúcha. “Assim, não se pode considerar a área das Missões como uma região geográfica, ainda que ela tenha expressão no imaginário nacional, tanto pela força da experiência ali empreendida quanto pelas ruínas que ainda dela dão prova.
Por outro lado, as últimas políticas territoriais do governo do estado do Rio Grande do Sul, como no caso da implantação dos Conselhos Regionais de Desenvolvimento (COREDES), dão conta duma classificação regional que considera as Missões como região administrativa e, portanto geográfica. Da mesma forma, se pensarmos a região como algo
como uma herança cultural, como “marca” espaço-temporal, a região das Missões pode sim ser considerada algo vivo no imaginário popular.