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2. O (DES)CAMINHO DA SITUAÇÃO DE RUA: CONTEXTUALIZANDO A

2.4. S TREET PAPERS : UMA PROPOSTA DE PROTAGONISMO

A rua é caracterizada por ser um espaço de transição, pois é onde estão em movimento o tráfego e as pessoas em constante ir e vir, e onde estão situados os locais de trabalho, convívio e moradia. No entanto, para a população em situação de rua, o espaço da rua acaba se tornando um universo bem diverso do imaginado por quem não experiencia essa condição. Segundo Ive (2007, p. 15, acréscimos meus), em sua representação,

viver nas ruas é ter uma casa pública com paredes e tetos invisíveis. É aceitar os olhares invasores que vêm sempre de cima para baixo, ser chutado[a] e ofendido[a] sem motivos pelos[as] policiais ou simplesmente por pessoas incomodadas com a presença deles[as].

Vimos discutindo que a ideia que se tem das pessoas em situação de rua se deve muito ao que sabemos delas, ou melhor, ao que nos é seletivamente informado a seu respeito, e que à mídia hegemônica parece ser pouco (ou nada) interessante se deter em temas diversificados no tocante à população em situação de rua. Mas na esteira da mídia cidadã, surge e se desenvolve a proposta dos street papers. O conceito de street papers, ou jornais de rua, passa pela perspectiva urgente da mudança social.

De acordo com a INSP (International Network of Street Papers), os street papers são publicações independentes que oferecem oportunidades de geração de renda e de “autorrepresentação” àqueles/as que estão em situação de extrema pobreza. O sítio oficial do INSP conceitua os street papers como “jornais e revistas independentes que proporcionam oportunidades de empregabilidade a pessoas em experiência de pobreza e de falta de moradia” (INSP, 2012). Esse tipo de mídia compreende suportes variados, que abrange impressos como revistas e jornais. A temática pode ser exclusivamente relacionada à situação de vulnerabilidade social experienciada por milhões de homens e mulheres em diversas partes do globo, como no caso dos jornais, a exemplo do jornal Aurora da Rua, ou pode ser mais abrangente, como no caso das revistas que seguem o modelo das revistas informativas de cunho mais geral, mas que são bem sucedidos projetos alternativos para geração de renda, a exemplo da revista Ocas’, de São Paulo (ACOSTA, 2012), e da revista Cais, de Lisboa (RESENDE, 2012).

Os primeiros jornais com temáticas relacionadas a atores sociais em situação de vulnerabilidade social surgiram nos contextos de guerras e movimentos por caridade; desse modo, publicações surgidas desde o auge da Revolução Industrial, no século XIX – como a

inglesa War Cry –, são consideradas ‘embriões’ dos street papers. Elas lidavam com os resultados desumanos das guerras e da extrema pobreza no intuito de despertar o interesse pela ajuda caritativa aos/às diretamente afetados/as pelos conflitos. Havia, naquela época, uma forte relação com entidades religiosas. Não se pode entender, entretanto, tais publicações como street papers, pois além de pouco contar com a colaboração de pessoas em situação de risco social, elas não se debruçavam sobre a questão da situação de rua, problema social, como vimos, em expansão já naquele contexto (ABREU, 2003; HADDAD, 2007).

A situação de rua como temática central apareceu apenas na segunda metade do século XX, mais exatamente na década de 1980, em resposta ao apogeu das políticas neoliberais no mundo e suas consequências de desequilíbrio social. A forte pressão pela retração do Estado em ações no contexto socioeconômico – encabeçada pelos Estados Unidos e Reino Unido, e personificados nas figuras dos chefes de Estado Ronald Reagan e Margaret Thatcher – acarretou uma onda de desemprego e consequente explosão do endividamento e do desamparo social. A situação de rua passou, assim, a chamar a atenção pelo modo como vinha sendo representada nos periódicos de grande circulação e alcance. Desse modo, com a proposta de abordar o tema de maneira diferente da mídia hegemônica, foram criadas publicações voltadas para a denúncia da violação de direitos e a representação alternativa do grupo social em situação de rua, o mais afetado com os descompassos neoliberais.

É na década de 1990 que os street papers alcançam uma maior estabilidade. Se na década de 1980 alguns títulos – como as estadunidenses Street News e Street Sheet – ainda estavam alcançando notoriedade e formatando suas pautas de ação, é na década seguinte que mais periódicos são idealizados e se consolidam em outros lugares do planeta. É com a revista

The Big Issue, de Londres, que os street papers passam a se expandir de maneira mais padronizada, inicialmente pela Europa e, em seguida, por outras partes do mundo (HADDAD, 2007).

O conceito daquela revista, conforme indica sua página oficial, baseou-se no Street

News para tratar dos temas relativos à situação de rua e de risco social. Produzido por jornalistas e vendido por pessoas em situação de rua, a revista hoje é um exemplo de periódico de rua de sucesso, sendo publicada e comercializada em quatro continentes: Europa (Reino Unido), África (África do Sul, Namíbia, Quênia, Malaui), Ásia (Japão, Taiwan, Coreia do Sul) e Oceania (Austrália) (BIG ISSUE, 2012). O periódico de rua londrino também organizou a questão do trabalho com o material impresso, que consistia na preocupação com a definição de características como padronização, identificação e organização de uma equipe de

vendas formada por pessoas em situação de rua e/ou em condição de vulnerabilidade social que pudesse ser identificada como pertencente ao quadro oficial de vendedores/as.5

Com a repercussão da The Big Issue, redes de organização e apoio a street papers foram organizadas a fim de oferecer parâmetros para mais propostas de trabalho voltadas para a representação de atores sociais em situação de rua. Como explica Haddad (2007, pp. 42 e 44),

em 1994 foi criada a primeira rede internacional de street papers, a International

Network of Street Papers (INSP), que surgiu com o objetivo de prestar consultoria e ajudar a divulgar a proposta editorial dos street papers.

(...)

Em agosto de 1996, representantes de 26 street papers dos Estados Unidos e do Canadá criaram outra rede, The North American Street Newspaper (Nasna), com sede na cidade de Seattle, em Washington. Assim como a INSP, a Nasna surgiu com o objetivo principal de criar uma rede para os street papers, mas agora nos Estados Unidos e no Canadá, a fim de proporcionar suporte para a criação de novos projetos de street papers, além de divulgar o movimento.

Atualmente, as duas redes desenvolvem trabalhos conjuntos, articulando “juntas mais de setenta publicações filiadas, nos cinco continentes” (HADDAD, 2007, p. 44).

Na América Latina, quatro países estão representados na rede. O Brasil, a Argentina, o Uruguai e a Colômbia produzem street papers vinculados ao INSP. Entre jornais impressos e revistas, são eles Al Margen, Hecho en Buenos Aires, La Luciernaga (Argentina), Aurora da

Rua, Boca de Rua, Ocas’ (Brasil), La Callejera (Uruguai) e La Calle (Colômbia). Todos seguem as normas organizadas pelos parceiros na rede, que tratam questões relacionadas a identificação e compromisso daqueles/as que se vinculam à venda das publicações. Além disso, pessoas em situação de rua encontram no jornal uma possibilidade de se verem representadas de modo diferente da imagem disseminada pela imprensa de viés hegemônico. Rozendo (2011, p. 141) explica o processo de participação do ator social em situação de rua na dinâmica dos street papers:

A pessoa em situação de rua compra, com desconto, o produto da organização responsável pela produção e a revende pelo preço de capa. As publicações só podem ser compradas diretamente com os vendedores cadastrados, que circulam em pontos de venda alternativos, como cinemas, cafés, bares, museus, universidades, feiras e eventos. Os vendedores devem ter idade mínima de dezoito anos, receber treinamento, assinar um código de conduta e portar crachá.

Duas questões são bastante relevantes para a compreensão das dinâmicas dos street papers: o entendimento das publicações de rua como promotoras da reinserção social de pessoas em

situação de rua e o papel que os/as envolvidos/as desempenham nesses veículos. Ainda de acordo com a proposta de mídia cidadã, alguns desses jornais e revistas retratam em suas páginas histórias da vivência nas ruas com hibridismos diversos. Essas mesclas acontecem tanto no sentido da produção do material (gêneros) quanto dos temas abordados (discursos e estilos), já que a produção dos street papers conta com a contribuição de jornalistas profissionais e pessoas com trajetória de rua. Os conteúdos que são veiculados nesses espaços variam, pois há publicações de característica mais ‘mercadológica’ (com temas mais abrangentes misturados a temas específicos da realidade e do cotidiano da rua) e outras que se concentram em temas diretamente ligados à situação de rua.

A questão mais polêmica diz respeito ao grau de participação de pessoas em situação de rua e de jornalistas profissionais engajados/as com a proposta de visibilização daqueles atores sociais. Pesquisas apontam para práticas diversas: algumas iniciativas abordam a pessoa em situação de rua apenas como tema para a produção mais especializada de textos, outras lhes garantem papel mais ativo na produção de partes essenciais dos periódicos (RESENDE, 2012; ACOSTA, 2012; ROZENDO, 2011; HADDAD, 2007). Em todos os casos, o que podemos observar em comum é o trânsito de discursos que reorganizam a compreensão da situação de rua. Os street papers compartilham, desse modo, a característica de serem motores para novas representações – ao explicitarem que é a autonomia o mais relevante para a mudança social, na medida em que os/as envolvidos/as em situações de vulnerabilidade social são responsáveis pelo que vendem e por como lidam com a renda obtida desse processo. Nesse sentido, então, é pertinente o reconhecimento da cidadania como efetiva ação para a mudança social.

A questão do protagonismo passa, assim, a assumir posição central, pois os jornais e revistas de rua propõem os objetivos comuns da representação alternativa da realidade da rua e da alternativa para geração de renda; no entanto, entendo que essa política de representação é inseparável da atuação direta daqueles/as que passam por esse cotidiano de apartação – de outro modo, a representação não ultrapassa o foco na alteridade, incapaz de garantir a identidade pela autorrepresentação (RESENDE, 2012).

O projeto de street papers pode ser um espaço para a representação alternativa da situação de rua, mas pode ser ainda mais que isso se ultrapassar o retrato de uma personagem para buscar a inserção de pessoas em situação de rua em suas práticas de produção de conteúdos simbólicos. Abordar isso é marcar o espaço de evolução que reside na possibilidade de haver lugar para as vozes de grupos sociais que historicamente não têm encontrado espaço para desconstruir a imagem que lhes é imposta, garantindo a

autorrepresentação. As publicações de rua são, enfim, um elo entre o espaço concreto da cidade e a voz de quem é tradicionalmente representado/a como consequência indesejável dos excessos urbanos; sendo assim, precisam estar atentas para o fato de avançar para além da concepção de serem exclusivamente veículos de fonte de renda – o que pode posicioná-las na lógica do capital, perdendo a oportunidade da construção de hibridismos discursivos capazes de inaugurar novos modos de representação.

Seguindo Santos (2012, p. 30), entendo que “a socialização capitalista, originária de uma divisão de trabalho que a monetarização acentua, impede movimento globais [sic.] e um pensamento global”; desse modo, as publicações de rua podem cumprir importante papel na perspectiva da pessoa em situação de rua como participante de um espaço que constantemente lhe é mostrado como território de exclusão, mas para isso precisam estar atentas aos movimentos interpretados como principais: garantir apenas a venda ou também a construção de conteúdos simbólicos?