4.2 Competências conceituais
4.2.1 Saúde coletiva
As competências conceituais referem-se ao domínio cognitivo, dizem respeito aos conhecimentos necessários para o desenvolvimento dos processos de trabalho, ou seja, das competências operacionais.
Para fins didáticos, dividimos as competências conceituais em dois blocos: saúde coletiva e psicologia.
Integralidade / conceito ampliado de saúde
Um dos conceitos encontrados nos documentos analisados foi o da integralidade como uma condição para realização dos processos de trabalho do psicólogo na APS. Agrupamos nesta categoria também os termos visão integral, global do indivíduo e processo de saúde-doença.
“A intervenção teve início, já havia sido organizada a minha escala de trabalho, com a divisão de horários dentre as atividades propostas. Ou seja, existia desde o início um planejamento para as ações, fato este que auxiliou na garantia de integralidade no processo de trabalho”. (D 1) “A atuação da Psicologia buscou promover a saúde mental em todas as atividades realizadas na Unidade de Saúde da Família baseando-se nos conceitos expostos anteriormente. Partindo de uma visão integral dos indivíduos atendidos, considerando-os em sua totalidade e partilhando da idéia de integração da rede municipal de serviços de saúde, a Psicologia utilizou como principais ferramentas de trabalho as noções da Clínica do Cuidado, da Psicologia Comunitária e da técnica de Aconselhamento”. (D 1)
“Através de um trabalho bem planejado e da assistência efetiva e eficaz dos agravos de saúde mental, a Psicologia pode contribuir para o sucesso da equipe de saúde no sentido de garantir integralidade e resolutividade nos atendimentos às pessoas”. (D 1)
“Assim, esse movimento na saúde mental acena com uma proposta de atendimento global do indivíduo através de uma rede de atenção ancorada numa visão que contemple os aspectos biológico, psicológico, e
social, numa tentativa de superar ações baseadas na dicotomia corpo/mente”. (D 3)
“Assim, consideramos que a interdisciplinaridade e por conseqüência a “postura interdisciplinar” necessariamente precisa ser desenvolvida à luz de contextos em que trabalhamos, como uma condição central, para produzir ações em saúde que levem em conta a integralidade dos olhares, incluído aqui, principalmente, o solicitante de nossos serviços”. (D 3)
“Visitas domiciliares com profissionais da equipe como forma de conhecer a dinâmica das famílias, suas condições socioeconômicas para compreensão do seu processo saúde e doença. Além de facilitar o acesso a quem não poderia ir a UBS. Era um instrumento utilizado pela Estratégia de Saúde da Família e um dos objetivos desta atividade era fortalecer o vínculo profissional-comunidade”. (D 2)
“Assim, na caracterização dos serviços prestados pelos psicólogos, a fim de intervir no processo de saúde-doença, podemos identificar atendimentos grupais, capacitações e atendimentos individuais com enfoque psicossocial”. (D 7)
Promoção da saúde
Outro conceito importante na área de saúde coletiva, citada pelos psicólogos foi o da promoção de saúde.
“Constituindo-se em um espaço de trocas, de lazer e de promoção da saúde, o grupo não possuía temas pré-estabelecidos de forma que se discutia aquilo que surgisse enquanto eram realizadas atividades manuais, valorizando-se assim o conhecimento popular”. (D 1)
“Finalizando, as propostas desenvolvidas neste projeto eram indissociáveis da perspectiva da promoção da saúde e esta experiência nos confirmava a importância de entendermos promoção de saúde como processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade de vida e reforçar as ações comunitárias para concretização de ações que visem à saúde”. (D 2)
“Desenvolver uma estratégia que compatibilize os pressupostos da promoção da saúde com as ações cotidianas de assistência, dentro de um modelo de atenção integral; identificar juntamente com a equipe de Saúde da Família os mecanismos adequados ao fortalecimento da promoção da saúde em um determinado território”. (D 2)
“Buscou-se fazer uma análise dos principais motivos de procura ao serviço e de quais transtornos mentais eram mais predominantes em cada território. Esse mapeamento deu-nos subsídio para elaborarmos estratégias de intervenção nos territórios buscando ações de prevenção e promoção à saúde mental do indivíduo em sua comunidade”. (D 2)
“Aplicar apropriadamente um conjunto de ações múltiplas e intersetoriais em promoção da saúde no seu território, com base em metas estabelecidas conjuntamente”. (D 2)
“Este exercício de construir e desconstruir a prática fundamentou a construção de uma proposta de sistematização de um modelo de intervenção psicológica, tendo como referência de atuação a Unidade Básica de Saúde da comunidade, com o intuito de tornar o conhecimento e a linguagem psicológica mais palpável e coerente com a realidade da clientela a ser atendida, permitindo, assim, um trabalho psicológico de promoção da saúde efetivo e eficiente”. (D 3)
“A partir desse prisma e da demanda existente na comunidade assistida pelo PSF em Vespasiano, julgou-se que a inserção do psicólogo na equipe de trabalho poderia contribuir no sentido de ampliar a promoção da saúde dos pacientes portadores de diabetes e hipertensão arterial mediante a atenção para com os aspectos psicológicos, tanto em termos de prevenção quanto de tratamento”. (D4)
Encontramos um direcionamento para realização de grupos de promoção de saúde.
“Grupos de educação para saúde: são aqueles formados a partir da necessidade de transmitir informação para as pessoas sobre temas de saúde, próprios dos programas da atenção básica, como por exemplo grupos de gestantes, grupos de puerpério, grupos de mães da hora de comer, grupos de diabetes etc.”. (D 3)
“Neste momento, tratarei especificamente das atividades de núcleo em função dos objetivos de trabalho. Estas se referem àquelas que requerem conhecimentos específicos em Saúde Mental. As atividades desenvolvidas foram agrupadas em quatro grupos: atendimento singularizado na Unidade, visita domiciliar, pronto-atendimento e grupo de promoção de saúde”. (D 1)
“O grupo de promoção de saúde ocorreu com regularidade semanal, todas as terças-feiras das 14 horas às 17 horas, constituindo-se em um espaço de trocas, de lazer e de promoção da saúde. Não havia temas pré-estabelecidos de forma que se discutia aquilo que surgisse enquanto eram realizadas atividades manuais, valorizando-se assim o conhecimento popular”. (D1)
Acolhimento
O acolhimento também foi um dos conceitos citados nos documentos analisados.
“Este trabalho foi desenvolvido com toda equipe da ESF. A importância de discutirmos as questões relacionadas à organização dos serviços de saúde se fez necessária para entendemos o Acolhimento como um processo muito mais amplo que a mera recepção do paciente ou uma nova modalidade de triagem, e sim o modo como a unidade assume o paciente, estabelecendo um compromisso que impõe responsabilidades da unidade frente às necessidades de saúde da comunidade”. (D 2)
“Destacamos também que, além de explicar nossas condições de um trabalho com a criança, explicávamos a questão do sigilo em nosso trabalho, sendo isso um aspecto muito importante no processo de atendimento, já que visava protegê-la de eventuais reclamações da família ou do sistema de referência, como também para relaxar o campo de intervenção, favorecendo assim, um vínculo de acolhimento, para então sim, poder “olhar e compreender” o sistema familiar no qual ela estava inserida”. (D 3)
Nas unidades de registro do documento (D 3), podemos observar formas práticas para aplicar o conceito de acolhimento, seja abrindo horários de emergência para atendimento, ou através do atendimento no posto de saúde, ou mesmo através da atenção domiciliar.
“Estabelecemos desde o começo um horário para “emergências”, visando atender as pessoas em forte crise emocional, tentativas de suicídio, ou pessoas que no nosso entender, requeriam acolhimento imediato”. (D 3) “Acolher o paciente seja no posto ou na sua residência através de visitas domiciliares, fazendo um trabalho de controle da medicação, higiene pessoal e de inserção social”. (D 3)
Interdisciplinar
Outra questão conceitual encontrada nos documentos analisados trouxe o termo interdisciplinar, percebido pelos psicólogos, como um pré-requisito para atuar em equipe de saúde.
“Refletindo sobre os fatores que influenciam a interação não apenas entre os profissionais, mas também entre a equipe e a comunidade, especialmente a capacidade de lidar com as diferenças e a importância da comunicação entre os membros de uma equipe interdisciplinar, onde cada qual com sua subjetividade, desejos e resistências pudessem coletivamente avançar num trabalho integrado e mais eficaz”. (D 2)
“Assim, consideramos que a interdisciplinaridade e por conseqüência a “postura interdisciplinar” necessariamente precisa ser desenvolvida à luz dos contextos em que trabalhamos, como uma condição central, para produzir ações em saúde que levem em conta a integralidade dos olhares, incluído aqui, principalmente, o solicitante de nossos serviços”. (D 3)
“Dessa forma, na quase totalidade das entrevistas (6), as psicólogas destacaram a importância de uma atuação interdisciplinar, caracterizada como um processo em constante construção e interação entre os demais profissionais de saúde (equipe), juntamente com a comunidade”. (D 8) Clínica do cuidado
“Partindo de uma visão integral dos indivíduos atendidos, considerando- os em sua totalidade e partilhando da idéia de integração da rede municipal de serviços de saúde, a Psicologia utilizou como principais ferramentas de trabalho as noções da Clínica do Cuidado, da Psicologia Comunitária e da técnica de Aconselhamento”. (D 1)
Intersetorialidade
A intersetorialidade aparece como outra categoria conceitual.
“Estabelecer mecanismos que favoreçam a intersetorialidade e a participação comunitária no contexto de comunidade/território saudável”. (D 2)
“Aplicar apropriadamente um conjunto de ações múltiplas e intersetoriais em promoção da saúde no seu território, com base em metas estabelecidas conjuntamente”. (D 2)
Doenças crônico-degenerativas
Um dos documentos trouxe a preocupação em saber e compreender acerca das doenças crônico-degenerativas.
“Portadores de Doenças crônico-degenerativas: Compreender as manifestações clínicas da doença, fatores preponderantes que a desencadeiam, sintomas, complicações, tratamento, repercussões (físicas, psicológicas e sociais) na vida do paciente”. (D 2)
Na tabela 4, podemos observar o quadro geral quanto a competências conceituais relacionadas ao campo da saúde coletiva. Estão relacionadas às categorias quanto ao número total de documentos analisados e número de documentos onde a categoria se fez presente. Para facilitar a visualização, a tabela foi construída em ordem decrescente.
Tabela 4 - Categorias de competências conceituais: Saúde Coletiva Competências Conceituais: Saúde Coletiva
Categorias Nº documentos /ocorrências
Integralidade/Conceito ampliado saúde 9/4
Promoção da Saúde 9/4 Interdisciplinar 9/3 Acolhimento 9/2 Clínica do cuidado 9/1 Intersetorialidade 9/1 Doenças crônico-degenerativas 9/1
Fonte: Análise documental técnica
O conceito de integralidade e promoção de saúde foi citado em quatro dos nove documentos, seguido de interdisciplinaridade citada em três documentos. Já o termo acolhimento foi citado em dois documentos, a clínica do cuidado, a intersetorialidade e as doenças crônico-degenerativas foram citadas apenas em um documento respectivamente.
É importante comentar que as categorias conceituais surgiram da análise de documentos, onde foram buscados relatos de experiências com foco em processos
de trabalho. Elas não vieram das referências teóricas dos documentos, buscaram-se os termos relacionados em conjunto com as atividades desenvolvidas.