6 REVISÃO DE LITERATURA
6.1 Saúde indígena
6.1.5 Saúde da mulher indígena
A atenção à saúde no Brasil revela-se ainda mais precária quando analisamos a situação das indígenas que, assim como as mulheres negras, fazem parte de grupos populacionais que estão mais expostos a tratamentos inadequados e ações insuficientes de
cuidado e prevenção. A situação das mulheres indígenas agrava-se, ainda, pelo fato de constituírem um grupo bastante suscetível ao desenvolvimento de doenças e carências nutricionais, em função de alterações fisiológicas e hormonais ocorridas ao longo da vida. (VENTURA, 2006; FALÚ, 2006).
Se os dados gerais sobre a saúde indígena disponíveis são escassos, no contexto da saúde das mulheres índias as dificuldades são ainda maiores. Os autores que discorrem sobre este tema são unânimes ao indicar a precariedade dos conhecimentos epidemiológicos e antropológicos sobre a saúde da mulher indígena no Brasil, permanecendo uma lacuna no conhecimento dos determinantes sócio-culturais, ambientais e biológicos da saúde reprodutiva desta população, o que compromete tanto o debate sobre o tema, como o próprio planejamento da saúde (AZEVEDO, 2009; COIMBRA JR.; GARNELO, 2003; FERREIRA, 2013a; MONTEIRO; SANSONE, 2004).
As poucas pesquisas epidemiológicas sobre saúde reprodutiva da mulher indígena tendem a ser restritas, enfocando particularmente as infecções sexualmente transmitidas ou o câncer ginecológico. Além disso, em sua grande maioria, tanto os estudos antropológicos, como os epidemiológicos, foram realizados dentre poucas etnias situadas na Amazônia, o que restringe a possibilidade de generalização (COIMBRA JR.; GARNELO, 2004).
Tal configuração tem dificultado a realização de um diagnóstico preciso a respeito da qualidade de vida desta população e representa importante desafio ao delineamento de uma política de saúde reprodutiva, assim como de um programa universal que atenda a diversidade de demandas no campo da saúde reprodutiva da mulher indígena no país (COIMBRA JR.; GARNELO, 2004).
Estes fatores são agravados pelo fato de que o SIASI, sistema responsável pela produção de informação sobre a saúde indígena, não contém as informações de nascimentos, variáveis básicas como peso ao nascer, “apgar” do recém-nascido, tipo de gravidez, número de consultas de pré-natal e número de filhos tidos anteriormente. Nas informações de mortalidade também não constam as variáveis como: o tipo de óbito, o total de ocorrência do óbito e as relacionadas à condição do óbito (VARGA; VIANA, 2014).
Um dos poucos dados conhecidos é referente aos altos níveis de fecundidade das mulheres indígenas. Dado este que difere entre as situações do domicílio desta população de forma que as indígenas residentes fora das terras acompanham o padrão da população não indígena, com uma baixa fecundidade (IBGE, 2012).
Os pouquíssimos estudos disponíveis revelam também um quadro alarmante, marcado por elevadas prevalências de doenças sexualmente transmissíveis, lesões
ginecológicas de etiologia variada, mastopatias, além de queixas generalizadas de dores do baixo ventre, dispareunia e leucorréia (COIMBRA JR.; GARNELO, 2004).
Só no ano de 2013, no Brasil, foram 68 casos de AIDS entre indígenas notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), sendo 28 gestantes infectadas e 12 óbitos de mulheres causados pelo vírus HIV (BRASIL, 2014c).
Segundo o Departamento de Informática do SUS (DATASUS), no ano de 2012 foram registrados na população indígena brasileira, 23 óbitos maternos, sendo 16 por causas diretas, geralmente causas evitáveis, resultado da baixa qualidade da assistência pré-natal, de intervenções desnecessárias, omissões e tratamentos incorretos (BRASIL, 2012b).
Apesar de existir uma síntese dos indicadores de saúde indígena, não há nela dados referentes à saúde da mulher, como mortalidade materna, via de parto, número de consultas pré-natais. O único dado referente às mulheres indígenas diz respeito à cobertura vacinal de 10-49 anos (BRASIL, 2010a).
O único inquérito da FUNASA que aponta alguns dados específicos da mulher são os referentes ao I Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição dos Povos Indígenas, realizado entre 2008-2009 em parceria com a Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO), que teve por objetivo caracterizar o estado nutricional de mulheres entre 14 e 49 anos de idade e crianças menores de cinco anos, com base em uma amostra probabilística representativa da população indígena residente em aldeias de quatro macrorregiões do país, a saber: Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul/Sudeste, nas quais foram entrevistadas 6707 mulheres, 6285 crianças, e visitados 5277 domicílios e 113 aldeias coletados no período de 2008 e 2009 (ABRASCO, 2010).
Segundo esse inquérito, a população de mulheres indígenas em idade fértil (entre 10 e 49 anos de idade), em 2010, era de 177.748 mulheres, cujo campo nutricional é marcado pelo excesso de peso evidenciado em 46% das mulheres pesquisadas (ABRASCO, 2010).
O mesmo inquérito indica, com base na amostra de mães com filho vivo menor de 60 meses, que a média de consultas no pré-natal foi de 4,65 por mulher, sendo observadas diferenças regionais, variando de 2,9 consultas na região Norte a 5,29 na Nordeste. Em relação à primeira consulta do pré-natal, 46,2% fizeram no primeiro trimestre de gravidez, conforme recomendado pelo MS, seguido de 45,1% das consultas iniciadas no segundo trimestre e 8,7%, no terceiro trimestre (ABRASCO, 2010).
Dados mais atuais apontam que a proporção de nascimentos cujas mães fizeram sete ou mais consultas de pré-natal aumentou em todas as regiões brasileiras, para todos os grupos etários e níveis de escolaridade das mães e para todas as categorias de cor-raça do
recém-nascido, com exceção das indígenas que teve redução de 26% para 19,5% entre 2000 e 2010 (BRASIL, 2012c).
Dados do Ministério da Saúde acrescentam que, em 2010, 14,3% das indígenas brasileiras pariram por cesariana. Para a população indígena, houve um aumento na mortalidade proporcional de menores de um ano de idade - de 16,7% para 20,7% - entre 2000 e 2010. A proporção de óbitos nessa faixa etária era 2,6 vezes mais elevada que na população de raça-cor branca em 2000, elevando-se para 7,1 vezes no ano de 2010, sendo as infecções da criança (principalmente as pneumonias e diarréias) as principais causas de mortes infantis entre os indígenas, indicando que este subgrupo populacional tem um perfil de causas semelhante ao existente no Brasil em décadas passadas (BRASIL, 2012c).
Outros estudos têm apontando para elevadas taxas de morbi-mortalidade por doenças infecto-parasitárias e elevada desnutrição. Em vários grupos verifica-se, concomitantemente, o aumento da incidência de doenças metabólicas (diabetes mellitus), cardiovasculares, obesidade, alcoolismo e suicídio. Quadros estes que tem implicações em todas as fases da vida da mulher, e não apenas sobre seu ciclo reprodutivo, mas que podem potencializar riscos quando associados à gravidez (COIMBRA JR.; GARNELO, 2004).
A situação alarmante em relação à saúde da mulher indígena já era esperada, visto que o próprio Ministério da Saúde afirma que a atenção à saúde da mulher dos povos indígenas é precária, não se conseguindo garantir ações como a assistência pré-natal, de prevenção do câncer de colo de útero, de prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST)/ Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV)/ Síndrome da Imunodeficiência adquirida AIDS, dentre outras (BRASIL, 2011c).
De maneira geral, as ações de saúde voltadas para as mulheres indígenas são focadas no controle do pré-natal, parto e puerpério, prevenção do câncer de colo de útero e de mama, imunização, prevenção das DST/HIV/AIDS, atenção em planejamento reprodutivo e vigilância nutricional das gestantes em algumas regiões (BRASIL, 2004d).
Segundo Coimbra Jr. e Garnelo (2004), o desconhecimento acerca de questões básicas da saúde reprodutiva e da saúde da mulher indígena caminha par-e-passo com a precária infraestrutura física e organizacional dos serviços de saúde. Na maioria das vezes os serviços de saúde destinados ao atendimento destas populações não se encontram preparados para prover atendimento especializado. Por conseguinte, informações sobre morbidade e mortalidade, nem mesmo materna, são geradas, o que compromete não somente o debate sobre este tema, como também impõe sérios limites a um planejamento mais adequado das ações de saúde.
Vale ressaltar que as mulheres indígenas, além de invisíveis perante questões de saúde pública, enfrentam situações de descaso em outras dimensões, pois também estão sujeitas a tráfico, violência e trabalho infantil. As negras e as indígenas continuam a ser tratadas como subalternas, desvalorizadas no mercado de trabalho, tanto rural quanto urbano, sujeitas ao trabalho sexual e excluídas do acesso a serviços adequados de saúde e educação (TAVARES, 2011).