CHINESA/ACUPUNTURA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Capítulo 4. EXPERIÊNCIAS PESSOAIS EM MEDICINA CHINESA: UMA ABORDAGEM AUTOETNOGRÁFICA DA
4.2 Práticas terapêuticas tradicionais chinesas e sua utilização no autocuidado
4.2.4 Saúde e longevidade: concepções sobre a vida
Em uma aula sobre o Tao In, os treinamentos para a serenidade Taoistas, uma aluna perguntou ao Mestre Liu: Por que no Taoismo se dá tanta importância à saúde e à longevidade? A resposta que se seguiu veio com um toque de ironia, que, de certa forma, estava em sintonia com a entonação com que foi feita a pergunta, que denotava certo desprezo pela ideia. Com um sorriso malicioso no rosto e de uma forma caricatural o Mestre Liu olhou para cima, para baixo e para os lados e falou: “às vezes eu penso, que boba, não vou responder. A vida é uma grande dádiva, é como alguém jogar do alto de uma montanha um grão de arroz e outra pessoa, na base desta montanha apanhá-lo no ar com um hashi (pauzinhos usados para comer). A partir do momento em que se nasce é para viver. A saúde é importante para que a pessoa possa desfrutar o máximo possível do que a vida tem a oferecer. A longevidade é para viver o bastante e aprender, mesmo com as muitas bobagens que faremos na vida”117 (s/p).
Algumas ideias referentes à vida, à saúde e ao cuidado eram reiteradas constantemente: a vida passa através de nós e podemos desfrutar ou não dessa passagem; é preciso existir durante a existência; não viva em vão; é preciso buscar prazer em todas as coisas que se faz. Esta última afirmação sempre causou grande polêmica entre os ouvintes. Parecia representar, para alguns, um grau exagerado de otimismo.
Uma crítica usual a este pensamento vinha da impossibilidade ou até masoquismo em sentir prazer nos problemas. Quando questionado sobre isto, o Mestre Liu Pai Lin explicava que não era para sentir prazer nos problemas, “o prazer está em conseguir passar por eles e sair o mais preservado possível”117 (s/p). A inter-relação entre o prazer e a saúde sempre causou um grau de confusão. Isto porque, para os Taoistas, o prazer não está só no resultado imediato do ato que se faz, mas no resultado e consequência posterior a este ato. O que está em sintonia com a frase escrita no livro Tao Te King: "a suficiência da suficiência é a suficiência que dura"187 (p.85). O que, em palavras simples, nós alunos entendíamos: a sensação de prazer deve continuar no dia seguinte à festa. Se para os alunos ocidentais havia certa ambiguidade entre o estímulo ao prazer e o estímulo à moderação, mais ainda este sentimento aparecia quando era mencionada a abstenção dos desejos.
O desejo em si é bastante questionado no Taoismo, especialmente na possibilidade de perder-se a si ao vivê-lo intensamente. Ouvi, em alguns momentos, alunos reclamando: se não há desejo não há vida, o desejo movimenta a vida. Talvez, o incômodo possa ser compreendido pela ideia de contenção dos desejos dar mais a impressão de repressão do que de precaução. A busca Taoísta pelo prazer, se observada pelo ponto de vista filosófico grego clássico, ficaria entre ao incentivo hedonista e a contenção epicurista. As orientações Taoístas não tinham como objetivo limitar as experiências pessoais, mas sim, ajudar a cada um a compreender seus próprios limites. Com isso a busca pelo prazer era tratada de forma mais branda, comparado à intensidade proposta pelo hedonismo. Mas diferente do epicurismo, as propostas de autocuidado Taoístas não propunham a renúncia a tudo que pudesse originar sofrimento e dor. Induzir à renúncia contradiz ao ideal de cada um desenvolver autoconhecimento e, por si só, não aumentaria a compreensão das necessidades e limites pessoais.
Nas minhas aulas iniciais na escola do Mestre Liu Pai Lin, eu me sentia confuso e sempre estava tenso anotando freneticamente cada palavra dita por ele. As suas falas me pereciam muito dúbias, especialmente quando se tratava da orientação das práticas de movimento e de meditação. Em várias ocasiões nos era ensinada uma prática, e era detalhada uma sequência de ações a serem feitas, contraditoriamente para mim, o Mestre Liu no final da explicação acrescentava: “o que eu disse não está certo, porque para realmente conseguir fazer é preciso deixar acontecer, fluir, é preciso não querer” 117 (s/p), uma espontaneidade totalmente desconhecida para mim.
Nas práticas Taoístas há sempre a busca pessoal pelo equilíbrio em cada ação, entre a expansão e o recolhimento, entre o fazer e o não fazer, algo que em grande parte do tempo
parece ambíguo. Era difícil entender o conceito clássico chinês da não-ação (Wu wei). As explicações me soavam simplistas e, por sua vez, tornavam-se muito complexas para o meu entendimento racional e a pergunta que eu fazia aos colegas com mais tempo de prática era simples: afinal é para fazer ou não fazer? A resposta sempre me irritava: “você pensa demais, deixa fluir que você irá entender”. Eu argumentava: como é possível entender sem pensar? A constância na prática proporcionou o entendimento.
O ponto de vista adotado pelo pensamento Taoísta é um paradoxo para a mente ocidental. Aquilo que no ocidente é compreendido como dualidade, agir ou não agir, é fruto de nossa visão dicotômica de mundo, em que algo é ou não é, ou há movimento ou há repouso, e mais fortemente aparece na ideia de bem e mal. François Jullien191 destaca que no pensamento filosófico chinês o Wu wei, a não-ação, difere da inação ocidental. O não agir chinês não é a antítese do agir heróico ocidental, não é renúncia ou passividade e a sua tradução mais adequada seria: uma ação que não constrange.
Apesar da dificuldade inicial em compreender algumas explicações, a minha adesão a todas estas ideias foi facilitada pelo bem estar que as práticas me proporcionavam. E isto se deu no momento mais intenso de meu desequilíbrio físico e emocional, iniciado após a morte de meu cunhado e intensificado com a morte de meu pai, meu avô e meu irmão em um curto espaço de tempo. Ouvir o Mestre Liu e seu filho, fazer com eles as práticas de movimento, aprender a medicina e, principalmente, aprender a “sentar na calma”, como era chamada a meditação, foi fundamental para minha sobrevivência física e psíquica na época.
Um dia, em um momento de muita insegurança, fiz uma pergunta ao Mestre Liu utilizando uma frase que fazia parte do linguajar da época e que representava muito bem o que eu estava sentindo: “por que quanto mais eu procuro o céu mais o diabo me puxa para a terra?” A sua resposta retrata a visão de mundo Taoísta: “são forças complementares, o Yin e o Yang estão sempre juntos, no Tai Chi Chuan, primeiro o corpo solta em direção a terra e depois ergue em direção ao céu, quanto mais intensa é a luz mais intensa é a sombra”117 (s/p). Em um dos poemas do escritor Chuang Tzu192 (p.136-37) pode-se ver a estrutura dual e complementar com que o pensamento Taoísta via a vida:
aquele que quiser possuir o certo sem o errado
A ordem sem a desordem, não percebe os princípios do céu e da terra. Não percebe como as coisas se unem.
Pode o homem apegar-se apenas ao céu e nada saber da terra?
São correlatos: conhecer um é conhecer outro, recusar um é recusar ambos. Pode um homem apegar-se ao positivo sem nenhuma negativa,
em contraste com o que é positivo?
O seu filho, Liu Chih Ming193 falou em uma aula: “há três destinos, o do céu, o da terra e o do homem”. O do céu representava, para ele, aqueles acontecimentos em que não temos escolhas, acontecimentos no decorrer da vida que não houve como antecipar ou evitar. O da terra relacionava-se a algo com que possamos interagir. Representa o ambiente em que se vive, o que está disponível no local onde cada pessoa mora, os fatores climáticos, a umidade, a secura, o calor ou o frio, a ventilação e o alimento. O “destino do homem”, o mais importante e fundamental dentre os três, representava o discernimento com o qual são feitas as escolhas para lidar com o “céu”, o não escolhido e com a “terra”, o que podemos interceder.
Para o Mestre Liu Pai Lin as práticas de cuidado Taoistas não eram práticas de equilíbrio entre corpo e mente. Quando alguém fazia qualquer alusão a esta ideia, ele ria e explicava que um não sobrevive sem o outro, para ele todas as pessoas eram a expressão conjunta entre físico, emoção, razão e espírito. A visão ocidental dual que separou corpo e mente e a construção de uma racionalidade que é independente, superior e controla outras instâncias do organismo não cabia na sua visão de mundo, também não cabia uma separação entre plano espiritual e humano.
O Mestre Liu Pai Lin definia as práticas Taoistas de cuidado à saúde como treinamentos de união entre corpo e espírito. Estas práticas dão atenção aos aspectos emocionais, ambientais, de hábitos de vida e de integração entre corpo e espírito que possam interferir com a circulação da energia vital na pessoa. Este olhar integrado é consonante às definições Taoistas sobre o que são o corpo e o espírito. O corpo, neste contexto, é o conjunto inseparável dos seus aspectos físico, emocional e racional. E o espírito é a energia vital original recebida durante a concepção e período uterino e que está diretamente relacionado à sua fonte, a natureza, por uma relação micro-macrocósmica. A acepção de espírito, para o Mestre Liu, não estava relacionada a uma entidade divina ou um plano divino que rege de alguma forma o ser humano. A concepção espiritual refere-se à integração de todos os aspectos da vida, da pessoa com a natureza, considerando-a parte do “todo criativo”, o Tao. Esta visão de espiritualidade não concebe separação entre a esfera cósmica e a humana.
A seguir será apresentada uma das formas utilizadas pelo Mestre Liu Pai Lin para ilustrar as necessidades humanas de cuidado e incentivar a prática diária nesta direção.