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A crescente preocupação com a questão da saúde no ambiente do trabalho remete às recentes transformações que vêm passando o setor de recursos humanos e as organizações, uma vez que, progressivamente, há um reconhecimento das repercussões negativas sobre a saúde física e psíquica dos indivíduos quando se negligencia fatores que interferem no bem-estar dos trabalhadores. Dessa forma, aumenta o interesse em compreender o contexto do trabalho,

visando transformá-lo em um local de desenvolvimento de potencialidades humanas. (FERREIRA, 2015)

Apesar de se observar um esforço na garantia de que o trabalho propicie bem-estar, as exigências de desempenho e resultados só crescem, assim também como a pressão pelo aumento da eficiência e de produtividade. Ao trabalhador são impostas novas exigências: polivalência, mobilização da subjetividade, capacidade de diagnosticar e decidir, iniciativa e engajamento. (FERREIRA, 2015)

Existem duas questões que precisam ser pensadas separadamente, apesar de sua inter- relação. A primeira é criar instrumentos que possibilitem o conhecimento das dimensões do trabalho que estão contribuindo para o adoecimento dos trabalhadores, dentro e fora do local de trabalho. A segunda é, com base nesse conhecimento, produzir normas nos espaços micro, meso e macro que possam regular e impedir que a organização e a gestão atual do trabalho continuem a intensificá-lo e a degradá-lo, a ponto de levar a adoecimentos, acidentes e até suicídios de trabalhadores. (CARDOSO, 2015)

Há necessidade de direcionar a atenção para o contexto de trabalho e qualidade de vida dos profissionais de saúde, pois o estado crítico do contexto de trabalho pode afetar a qualidade de vida desses profissionais e a eficácia no seu trabalho, com consequente implicação na qualidade da assistência prestada. (FERREIRA, 2015)

O bem-estar no trabalho é um conceito multidimensional que envolve aspectos biopsicossociais. Implica em aspectos subjetivos (características de personalidade, postura perante a vida, hábitos, cuidados com a saúde, lazer, sociabilidade) e funcionais do trabalhador (percepção em relação ao trabalho, salários, oportunidades e promoções, satisfação com os relacionamentos com chefias e colegas, além da satisfação com a tarefa desempenhada). Inclui, ainda, os aspectos objetivos do trabalho em si (política de benefícios, programas de saúde e segurança), os quais refletem o comprometimento organizacional (NARDI & PALMA, 2015). O bem estar pode ser entendido como um “construto psicológico multidimensional” por integrar vínculos afetivos positivos com o trabalho ( em que se inclui satisfação, não satisfação e insatisfação com os relacionamentos com chefias e colegas, com os salários, oportunidades e promoções, com a tarefa desempenhada), bem como os vínculos afetivos com a organização (comprometimento organizacional afetivo, que remete a uma ligação positiva entre empregado e empregador) que propiciam vivências prazerosas (SIQUEIRA & PADOVAM, 2008),

O bem-estar se baseia na tradição hedônica de felicidade. A visão predominante entre os hedônicos é que o bem-estar se relaciona com a experiência de prazer e desprazer, e com as

avaliações individuais sobre os bons ou maus elementos da vida (PASCHOAL & TAMAYO, 2008).

Paschoal (2013) defende que o bem-estar e as experiências positivas (afetivas e cognitivas) devem ser objetivos primordiais das ações e práticas organizacionais. Para a autora, tais ações são compatíveis com a visão preventiva de qualidade de vida, que deve ir além da tentativa de minimizar os efeitos negativos do contexto de trabalho e gerar condições para a realização e o desenvolvimento pessoal. O estresse ocupacional figura como um dos principais fatores que comprometem a saúde do trabalhador.

A partir da década de 80, o tema estresse tem sido estudado sob diversos enfoques. As investigações têm demonstrado que os eventos estressantes podem vir a ser fatores etiológicos de vários problemas físicos e emocionais. Nessas investigações, o estresse tem sido conceituado, sucessivamente, como estímulo, resposta e interação. (LAUTERT, CHAVES, DE MOURA, 1999).

As facilidades e a agitação da vida moderna trouxeram consigo o estresse: o trânsito, a instabilidade no emprego, as violências, entre outras coisas, fazem com que se recebam doses diárias dele. Mas o estresse em si não é algo ruim, na verdade ele é uma importante resposta do organismo para a manutenção da vida. Temos que aprender, portanto, a lidar com ele, não permitindo que o mesmo traga consequências danosas para a nossa saúde.

O estresse já é considerado pela legislação previdenciária brasileira, desde 1999, como doença ocupacional (lei n. 3048 de 06/05/1999), e devido a demanda de profissionais acometidos, esse fato pode vir a tornar-se um grave problema de saúde pública (SILVA e MELO, 2006).

Segundo Schmidt (2013), entende-se que o estresse ocupacional é aquele oriundo do ambiente de trabalho, ou seja, é um conjunto de fenômenos que se apresentam no organismo do trabalhador e que, por este motivo, pode afetar sua saúde. Os principais fatores geradores de estresse ocupacional envolvem os aspectos da organização, administração e sistemática de trabalho e da qualidade das relações humanas, porém a quantidade de estresse que cada pessoa experimenta pode ser modulada por fatores como sua experiência profissional, o nível de habilidade, o padrão de personalidade e a autoestima.

Ainda com relação às situações estressantes no trabalho, Grazziano (2008, p.18) comenta: “ stress relacionado ao trabalho pode levar ao desenvolvimento de doenças como a hipertensão arterial, doença coronariana, além de distúrbios emocionais e psicológicos, como a ansiedade, depressão, baixa autoestima entre outras, repercutindo diretamente no desempenho da organização ou empresa”.

Atenção especial tem sido dada aos chamados estressores ocupacionais, conceituados como as tensões e problemas advindos do exercício de uma atividade profissional, neste contexto, o trabalho do enfermeiro, por sua própria natureza e características, revela-se especialmente susceptível ao fenômeno do estresse ocupacional (STACCIARINI e TRÓCCOLI, 2001)

De acordo com Lautert (1999), o conceito de estímulo foi desenvolvido a partir do princípio de forças externas que produzem alterações transitórias ou permanentes sobre os indivíduos. Essas forças referem-se a eventos denominados estressores, que podem ser considerados, de modo objetivo e universal, como ameaçadores para o indivíduo. Posteriormente, o estresse passou a ser considerado uma resposta (fisiológica, cognitiva ou motora) do indivíduo ante um determinado estímulo (estressor).

Nas investigações realizadas a partir da década de 80, o estresse passou a ser conceituado sob a perspectiva da interação psicológica e idiossincrática (que é a maneira de ver, de sentir e de reagir, própria de cada pessoa), onde um evento é estressante na medida em que é percebida e valorizada pelo indivíduo. Isto supõe a consideração do estresse como um processo de interação entre o acontecimento objetivo, a percepção pelo sujeito e o consequente enfrentamento. (LAUTERT, CHAVES, DE MOURA, 1999)

Concordando com Lautert, Chaves e De Moura (1999), o estresse é definido como resposta frente a relação entre a pessoa e o ambiente avaliado por ela como difícil ou que excede seus recursos, colocando em risco o seu bem-estar. Podemos acrescentar, ainda, que o estresse só ocorre quando as demandas representam um desejo que o indivíduo é incapaz de alcançar.

Concordando com Wurdig (2014), atualmente torna-se essencial a avaliação e a implantação de procedimentos que busquem a proteção do trabalhador da área da saúde, sob o ponto de vista psicológico. A própria natureza do trabalho executado faz com que tais profissionais de saúde lidem diretamente, com a vida e a morte, num processo que não envolve só o doente, mas também a sua família. A participação de médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem neste processo e a forma como cada um vai lidar com essas situações que se apresentam no dia a dia, se reflete, de forma muito importante, na maneira de executar tarefas e ainda de lidar com as próprias emoções. Somando-se a isso, existem os problemas relacionados a condições de trabalho oferecidas, número reduzido de pessoal, mau gerenciamento administrativo e jornadas duplas de trabalho, muito comuns nesta área. A seguir, uma análise das relações entre saúde e trabalho considerando principalmente os efeitos nocivos sobre o trabalhador.

Nos últimos anos, é notório o aumento no número de afastamentos do trabalho por licenças médicas em decorrência de queixas relativas ao sofrimento psíquico na classe trabalhadora, sendo as condições de trabalho um parâmetro de significativa importância a se considerar quando se analisa mais atentamente a etiologia de tais queixas. Discutir as relações existentes entre condições de trabalho e saúde psíquica implica considerar fatores e aspectos de várias fontes, e tentar compreendê-las se torna uma tarefa complexa que, necessariamente, envolve uma análise multifatorial dos riscos ocupacionais. (CAMPELO, 2015)

Concordando com Rouquayrol, Gurgel (2013), o trabalho tem papel central para a sobrevivência e para a construção da subjetividade do sujeito, mas na modernidade, por vezes “tem resultado em sofrimento, adoecimento, enfim, em desgaste físico e psíquico do homem trabalhador”.

O trabalho influencia a saúde e o adoecimento dos trabalhadores e trabalhadoras, em primeiro lugar, pelas condições dos ambientes onde ele é realizado. Na realidade brasileira, é muito frequente encontrarmos agressões à saúde provocadas pelo ruído, pelo contato com substâncias químicas e com agentes biológicos, como bactérias e vírus. A saúde pode ser agredida, também, devido a problemas na relação entre trabalhadores e trabalhadoras com seus instrumentos de trabalho e pelas más condições ergonômicas e ambientais, de forma geral. (MERLO, BOTTEGA, PEREZ, BIER, 2014)

Necessário se torna entender por acidentes de trabalho aqueles acidentes típicos, que ocorrem durante a jornada de trabalho, fatais ou não, geralmente causadores de lesões e ferimentos no corpo, fraturas, mutilações, entre outros impactos físicos. Quanto ao adoecimento ou enfermidade com nexo laboral serão aqueles processos que resultem da exposição do trabalhador a condições de trabalho nocivas à sua saúde e que gerem como desdobramento o adoecimento físico e/ou mental. (ANTUNES, 2015)

São classificados atualmente, como adoecimento, problemas como dores nas costas, transtornos mentais (estresse, ansiedade e depressão) e LER/DORT, perdas auditivas em decorrência da exposição a ruídos, doenças pulmonares e câncer ocupacional. No caso dos adoecimentos existe uma grande subnotificação, pois a relação existente entre o trabalho e a doença não é tão rápida e evidente como ocorre com os acidentes de trabalho. Por causa dessa peculiaridade, frequentemente as CATs deixam de ser emitidas informando do problema e relacionando-a com o trabalho.

Parte dos efeitos dos adoecimentos com nexo laboral se materializa na manifestação, bastante significativa daqueles relacionados às lesões osteomusculares e transtornos mentais. As mudanças em curso nas últimas décadas vêm produzindo indicadores de acidentes e doenças

profissionais cada vez mais altos, mesmo que, por conveniência política e econômica, impere a não notificação, que se expressa de forma ainda mais aguda no caso das doenças profissionais. (ANTUNES, 2015)

A origem desses processos de adoecimento tem também como pano de fundo, entre outros, o crescente processo de individualização do trabalho e a ruptura do tecido de solidariedade antes presente entre os trabalhadores. É essa quebra dos laços de solidariedade e, por conseguinte, da capacidade do acionamento das estratégias coletivas de defesa entre os trabalhadores que se encontra na base do aumento dos processos de adoecimento psíquico e de sua expressão mais contundente: o suicídio no local de trabalho. (DEJOURS e BÈGUE, 2010 apud ANTUNES, 2015)

A presença dos laços de solidariedade, hoje rompidos, estaria na raiz da baixa incidência de suicídios nos locais de trabalho no período que antecede aos anos 1980, pontuam Dejours e Bègue (2010) apud Antunes (2015). Naquele período, a capacidade gestada na coletividade de converter situações de sofrimento em um jogo de chacotas e escárnio acabava por criar condições capazes de mascarar situações desfavoráveis e tecer entre os integrantes do grupo pactos de apoio subjetivo mútuo. Em situações mais extremadas, quando o trabalhador não conseguia dissimular seu sofrimento, os próprios laços de solidariedade constituídos acabavam, não raras vezes, sendo acionados de forma a protegê-lo ou confortá-lo. O desmonte dessas condições tem contribuído, conforme os autores, para o aumento da incidência de suicídios nos locais de trabalho. Esses, por sua vez, são o resultado extremado de um processo de sofrimento psíquico, mas já destituído do apoio e solidariedade dos demais. (ANTUNES, 2015)

Para os autores acima citados, que pesquisaram a incidência desses episódios na França durante os anos 2000, nos apresenta a seguinte reflexão:

Que um suicídio possa ocorrer no local de trabalho indica que todas essas condutas de ajuda mútua e solidariedade — que não era nem mais nem menos que uma simples prevenção das descompensações, assumida pelo coletivo de trabalho — foram banidas dos costumes e da rotina da vida de trabalho. Em seu lugar instalou-se a nova fórmula do cada um por si, e a solidão de todos tornou-se regra. Agora, um colega afoga-se e não se lhe estende mais a mão. Em outros termos, um único suicídio no local de trabalho — ou manifestamente em relação ao trabalho — revela a desestruturação profunda da ajuda mútua e da solidariedade. (Dejours e Bègue, 2010, p. 21)

Convém destacar também, que parte das instâncias que favoreciam a existência do sentimento de coletividade, de pertencimento, manifestava-se na capacidade de mobilização coletiva e na presença de entidades sindicais politicamente fortalecidas, o que sem dúvida

também contribui no sentido do amparo aos trabalhadores frente ao sofrimento vivenciado dentro e fora do local de trabalho.