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3 A SAÚDE COMO DIMENSÃO COLETIVA E CAMPO DE INSERÇÃO E

3.1 Saúde, seus conceitos e práticas coletivas

Como posso pensar a saúde? Como conceituá-la? O não estar doente permite-lhe uma adequada definição? Sempre foram muitas as discussões sobre esse fator essencial ao desenvolvimento do homem. O ano de 1948, porém, foi marco para o início das mudanças na sua compreensão e sistematização quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu saúde como o estado de completo bem-estar físico, mental e social, não simplesmente a ausência de doenças ou enfermidades (OMS, 1988).

Com a disseminação do conceito, surgiram questionamentos como, por exemplo, em relação à palavra “estado”, que transmitia a noção de algo estático e parado, bem como quanto à possibilidade real de um pleno bem-estar em todas as esferas da existência humana – se não seria algo utópico. Ayres (2005), por exemplo, reconhece a importância política da concepção de saúde segundo a OMS, mas critica sua naturalização, dada a compreensão que o autor tem de saúde como um devir e não como algo pronto.

A definição de saúde sofreu constantes alterações e hoje não é mais vista de forma isolada ou estanque, mas sim em estreita associação com o contexto social, seus determinantes e com os recursos que cada um de nós dispõe para viver. Não posso pensar em saúde sem abordar as questões de alimentação e nutrição adequadas, as condições de moradia e de saneamento básico disponíveis à população, as oportunidades de trabalho, o acesso à educação e ao lazer, as relações sociais e o próprio entorno ambiental. Muito menos deixar de perguntar, como ressalta Ayres (2001), sobre o que sonham as pessoas para a própria vida, para o bem viver e para a saúde.

A concepção moderna de saúde implica considerá-la de forma positiva, para além, portanto, de suas conseqüências imediatas cujo caráter é de negatividade – como doenças, seqüelas e morte. É o que expõe Mendes (1999, p. 237), ao definir saúde como:

resultado de um processo de produção social que expressa a qualidade de vida de uma população, entendendo-se qualidade de vida como uma condição de existência dos homens no seu viver cotidiano, um ‘viver desimpedido’, um modo de ‘andar a vida’ prazeroso, seja individual, seja coletivamente. O que pressupõe [ainda] determinado nível de acesso a bens e serviços econômicos e sociais. (grifos meus)

Saúde é, portanto, uma experiência subjetiva, é uma resposta às adversidades, é uma busca de equilíbrio e, desta forma, é essencial não só à sobrevivência da espécie, mas principalmente ao desenvolvimento do homem e à sua constituição como sujeito. Compartilho da compreensão de saúde em seu caráter dinâmico, complexo, multicausal e indissociável da trama social, cuja ênfase recai no processo, no continuum saúde-doença, ultrapassando o foco na patologia; bem como, indo de encontro à fragmentação do olhar em seus aspectos biológicos, físicos, psicológicos ou histórico-sociais.

A ampliação do conceito de saúde foi na verdade reflexo de mobilização e de discussões das categorias profissionais da área, realizadas em conferências e encontros internacionais, nos quais também foram repensados as políticas de saúde e os modelos assistenciais vigentes – em especial, como ressaltam Mendes (1999) e Paim e Almeida Filho (1998), a revisão do paradigma flexneriano, fruto de uma publicação norte-americana de 1910, o Relatório Flexner, coerente com aquela concepção de saúde como ausência de doenças, e consolidador da analogia do corpo humano à máquina e da doença como o desajuste de suas partes. A ênfase era nos aspectos biológicos das patologias; no individualismo; na especialização e, conseqüentemente, na parcialização do conhecimento; nos aspectos curativos e de reabilitação; e na prática médica pautada por princípios tecnológicos rigorosos – o que fez desse paradigma um arcabouço do modelo hegemônico de atenção médica, também conhecido como biomedicina, de significativa presença nas práticas atuais de saúde.

Como reflexo daquele redirecionamento na compreensão e nas práticas de saúde, não foi possível mais negar a relação entre saúde e condições de vida para a conquista de uma vida saudável. Daí porque se fala, hoje, em promoção da saúde, que ganhou maior impulso nas duas últimas décadas como uma crítica tanto ao modelo médico curativo de alta tecnologia, quanto à medicalização da sociedade e à ineficiência dos sistemas de saúde.

O Canadá foi pioneiro no uso em documento oficial do termo promoção da saúde, quando o Ministério da Saúde divulgou em 1974 “A new perspective on the health of canadians”, conhecido mais como “Informe Lalonde”, como comenta Buss (2003), cuja intenção foi reduzir os custos crescentes da assistência médica daquele país e questionar a abordagem exclusivamente médica no tratamento de doenças crônicas, por constatarem sua pouca eficácia. No Informe, pontua ainda o mesmo autor, a saúde passou a ser vista a partir da conceituação de campo de saúde, o qual está sujeito às influências dos chamados determinantes de saúde: a biologia humana, o ambiente, o estilo de vida e a organização da assistência à saúde.

Foram muitas as repercussões no Brasil, país que privilegiava a assistência médica privatista e, assim, limitava o acesso igualitário da população ao sistema de saúde. O ápice foi a proposta de um movimento de mudança social, tipicamente nacional – a Reforma Sanitária –, caracterizado por demandar tanto uma revisão crítica da organização dos sistemas e serviços da área, quanto uma maior participação do Estado.

Mesmo inspirada em experiências internacionais, a Reforma Sanitária deve ser considerada eminentemente brasileira, alerta Mendes (1999), o que implica uma valorização das especificidades sanitárias, econômicas e sócio-culturais do país. Caracteriza-se ainda por assumir aqui a forma processual, o que significa, primeiramente, a estreita relação com o próprio aperfeiçoamento do sistema democrático e, em segundo lugar, a ambição de conciliar três pólos, aparentemente irreconciliáveis:

o pólo tecnocrático, expressão da racionalidade de um sistema; o pólo corporativo, em que se manifestam os interesses de profissionais e de produtores de bens e serviços; e o pólo dos consumidores, em que se estruturam as necessidades e as demandas dos usuários do sistema (MENDES, 1999, p. 49).

Está criada então uma tensão, a qual imagino deva ser pensada de modo crítico, pois tanto a democracia brasileira insiste em caracterizar-se como em construção, como a Reforma Sanitária ainda segue o seu processo de reconstrução permanente.

O foco da Reforma, afirma Paim (1999), estava na integração das ações de promoção da saúde com as de prevenção e recuperação – onde se pretendia ultrapassar a esfera meramente assistencialista, individualista e curativa, para criar um novo modelo de atenção, que reorganizasse as práticas de saúde e contribuísse de forma mais efetiva para a democratização do meio social. Procurava-se, então, enfatizar o vínculo entre saúde e

sociedade, facilitando o desenvolvimento do que Dimenstein (1998) denominou de consciência sanitária do povo brasileiro.

As idéias e princípios da Reforma foram sistematizados em 1986 quando foi realizada a 8ª Conferência Nacional de Saúde, marco da mobilização da sociedade civil e dos profissionais interessados na questão saúde. Mendes (1999) caracteriza-a como o evento político-sanitário mais importante da década de 80 – acho melhor dizer das duas últimas décadas, haja vista a repercussão ainda bastante atual da 8ª Conferência. O que a singulariza, na visão do mesmo autor, além desse seu caráter democrático, é sua dinâmica processual, pois originada nas esferas municipais, passou para as estaduais, para então alcançar o âmbito federal. Considero oportuno expor agora o trecho do relatório final que ressaltou as inovações concretizadas pela 8ª Conferência, quando saúde assumiu o significado de :

resultante das condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso a serviços de saúde. É, assim, antes de tudo, o resultado das formas de organização social da produção, as quais podem gerar grandes desigualdades nos níveis de vida. A saúde não é um conceito abstrato. Define-se no contexto histórico de determinada sociedade e num dado momento de seu desenvolvimento (BOCK, 1999, p. 99-100, grifos meus em negrito).

A 8ª Conferência Nacional de Saúde legitimou, portanto, os anseios sociais por mudanças e possibilitou a criação e implantação de um sistema unificado de saúde, posteriormente denominado Sistema Único de Saúde (SUS) – processo social já concretizado em termos legais e legítimos, porém, ainda em construção no cotidiano das práticas sociais. A saúde, então, passou a ser reconhecida como direito de todos e dever do Estado, cujas ações e serviços devem ser assegurados pelo Sistema Único de Saúde, através das seguintes diretrizes básicas: a universalização do acesso aos serviços de saúde, a integralização da assistência, a regionalização, a hierarquização, a descentralização da gestão, a ampliação da participação popular e o controle social dos serviços públicos em saúde.

Com a Constituição Federal de 1988, a implementação jurídica do SUS foi garantida através de políticas sociais e econômicas que visaram à redução do risco de doenças e de outros agravos e possibilitaram, de forma integral e igualitária, o direito de todos os brasileiros às ações e serviços de promoção e prevenção da saúde – considerados na Carta Magna como de relevância pública – sem prejuízo, no entanto, do nível da assistência. Coube, portanto, ao texto constitucional incorporar o conjunto de conhecimentos e princípios próprios do modelo hegemônico de atenção e reorganizá-los na nova lógica sanitarista (MENDES,

1999). Entretanto, ainda há uma distância entre a prática vivenciada nos serviços públicos de saúde e as diretrizes inovadoras promulgadas na “Carta-Cidadã”.

A ampliação do conceito de saúde, as discussões sobre integralidade na atenção à saúde e as mudanças na organização dos serviços e sistemas do setor proporcionaram a criação de novas áreas de atuação e a incorporação de outras especializações profissionais. O Conselho Nacional de Saúde – órgão do Ministério da Saúde, hoje com atribuição de fórum da participação popular no Sistema de Saúde –, através da Resolução nº 218/97 (CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE, 1997), reconhece como profissionais de saúde de nível superior as seguintes categorias: assistentes sociais, biólogos, profissionais de educação física, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, médicos, médicos veterinários, nutricionistas, psicólogos e terapeutas ocupacionais. Considerada oficialmente como profissão de saúde, a psicologia é convocada a dar sua contribuição a todo esse processo de mudança; no entanto, sua inserção não se dá de modo fácil na área, devido alguns fatores fundamentais, os quais merecerão a partir de agora uma maior discussão.