O estudo que nos propusemos fazer prende-se com a avaliação dos conhecimentos que os adolescentes possuem sobre a infecção do VIH /SIDA e de que forma estes interferem com as suas atitudes face à sexualidade. A análise destas variáveis exige uma abordagem, sucinta mas profícua, sobre a dimensão em que elas se inserem, a Saúde Sexual e Reprodutiva dos Adolescentes.
A Saúde Sexual e Reprodutiva dos adolescentes é uma temática aliciante mas complexa em que interferem uma quantidade de variáveis intrínsecas ao indivíduo, a vivenciar uma etapa de crescimento e desenvolvimento pessoal e extrínsecas, em que se inscrevem o contexto familiar, afectivo, social, religioso e cultural em que o sujeito se insere.
Esta temática tem sido foco de inúmeros e profundos debates e investigações, muitas vezes marcados pela controvérsia. A garantia dos direitos sexuais e dos direitos reprodutivos desta população é uma questão de direitos humanos e propício o pleno exercício do direito fundamental à saúde pelo que, é essencial a produção de conhecimento sobre saúde e sexualidade dos adolescentes de forma a oferecer subsídios teórico-políticos, normativos e programáticos que orientem a implementação de acções voltadas à sua saúde sexual e reprodutiva dos adolescentes (Brasil, Ministério da Saúde, 2006).
A saúde sexual e a saúde reprodutiva ocupam um lugar importante na construção da igualdade de género e na construção de autonomia dos adolescentes e jovens, princípio fundamental na formação de pessoas saudáveis e responsáveis (Brasil, Ministério da Saúde, 2006 p.9).
A Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD) realizada no Cairo em 1994, foi o palco onde a comunidade internacional assumiu o compromisso de investir na promoção da Saúde Sexual e Reprodutiva, reconhecendo-a como factor fulcral e gerador de desenvolvimento dos cidadãos, das famílias e dos países (DGS, 2012).
Esta conferência constitui-se, indubitavelmente, como um marco de incondicional importância no despertar da sociedade para a grandeza e urgência desta problemática e o ponto de partida para um percurso que se sabia longo e sinuoso mas necessário de trilhar. Do seu âmbito resultaram dois conceitos importantes para a materialização de perspectivas neste campo de acção. Pretendia-se que fossem dinâmicos, com uma
tónica na saúde e integradores, apelando ao uso das potencialidades de cada pessoa e da sociedade, reflectindo a sua capacidade de defender a vida.
O conceito de saúde reprodutiva adoptado pela Organização Mundial da Saúde, definido com base nos marcos da Conferência do Cairo, diz que:
Saúde Reprodutiva é o estado de bem-estar físico mental e social, em todos os aspectos relacionados com o sistema reprodutivo, as suas funções e processos e não a mera ausência de doenças ou enfermidades (FNUAP, 1995; Brasil, Ministério da Saúde, 2006; Ministério da Saúde, 2008; Brasil Ministério da Saúde, 2010 a).
O conceito de Saúde Reprodutiva implica que as pessoas possam ter uma vida sexual satisfatória e segura e possam decidir se, quando e com que frequência. têm filhos. Esta condição pressupõe o direito de cada indivíduo a ser informado e a ter acesso a métodos de planeamento familiar da sua escolha que sejam seguros, eficazes e aceitáveis e, ainda, a serviços de saúde adequados que permitam às mulheres ter uma gravidez e um parto em segurança e ofereçam aos casais as melhores oportunidades de terem crianças saudáveis. Abrange, também, o direito à saúde sexual, entendida como potenciadora da vida e das relações interpessoais (Brasil, Ministério da Saúde, 2006; 2008; 2010 a).
O conceito de Saúde Sexual e Reprodutiva pressupõe uma visão holística dos cuidados prestados ao longo do ciclo de vida reprodutiva dos cidadãos, um todo indissociável que integra os diferentes aspectos do âmbito da reprodução em que, os ganhos obtidos numa das suas componentes tendem a potenciar ganhos nos restantes aspectos. Para além dos aspectos enunciados, referentes à Saúde da Mãe e da Criança, é importante salientar que educação, igualdade de género e prevenção das infecções sexualmente transmissíveis são factores essenciais para uma Saúde Sexual e Reprodutiva de qualidade.
A Saúde Sexual, inclui-se nesta grande entidade e a sua definição, que decorre igualmente das grandes conclusões erigidas nas conferências de Cairo e Pequim, apresenta esta sintaxe:
A saúde sexual é a habilidade de mulheres e homens para desfrutar e expressar a sua sexualidade, sem risco de doenças sexualmente transmissíveis, gestações não desejadas, coerção, violência e discriminação. A saúde sexual possibilita experimentar uma vida sexual informada, agradável e segura, baseada na auto-estima, que implica uma abordagem positiva da sexualidade humana e o respeito mútuo nas relações sexuais (Brasil, Ministério da Saúde, 2006 p. 37).
Saúde sexual é a integração dos aspectos somáticos, emocionais, intelectuais e sociais do ser sexual, de maneira a enriquecer positivamente e a melhorar a sua personalidade, a sua capacidade de comunicação com os outros e o amor. Os cuidados referentes à saúde sexual têm por objectivo a melhoria da qualidade das relações interpessoais e não apenas os cuidados inerentes à reprodução e às doenças sexualmente transmissíveis (Brasil, Ministério da Saúde, 2010 a).
Nos trâmites da Plataforma de Acção do Cairo, a saúde sexual tem por finalidade, primeira e fundamental, a melhoria da qualidade de vida e das relações pessoais superando as meras acções de aconselhamento e assistência relativos à reprodução e às doenças sexualmente transmissíveis. Um dos aspectos mais relevantes assinalados por essa noção é a ratificação política da separação entre reprodução e sexualidade (FNUAP, 1995).
Os conceitos de Saúde Reprodutiva e Saúde Sexual complementam-se encerrando uma abordagem integral da Sexualidade Humana. A Sexualidade ultrapassa os aspectos biológicos, ela mergulha profundamente nos factores psicológicos, sociais, espirituais e axiais que determinam a construção da personalidade de cada ser humano.
Do âmbito desta conferência e suportados por estas novas conceptualizações, emergiram os direitos sexuais e reprodutivos. A sua implementação e defesa impõem que os conheçamos para que possamos acautelar a sua aplicação de acordo com os direitos que assistem á população adolescente.
A perspectiva de relações equitativas entre os gêneros e, na ótica de direitos humanos, remete, no âmbito do conceito de direitos sexuais e reprodutivos, para duas vertentes diversas e complementares:
A liberdade e autodeterminação individual, compreende o livre exercício da sexualidade e da reprodução humana, sem discriminação, coerção e violência. Trata-se de direito de auto-determinação, privacidade, intimidade,liberdade e autonomia individual.
Políticas públicas, que assegurem a saúde sexual e reprodutiva (Piovesan, 2012) Direitos Reprodutivos, procuram garantir a homens e mulheres o direito de (Brasil, Ministério da Saúde, 2010 a p.18):
Decidir livre e conscientemente se querem ou não ter filhos, em que momento das suas vidas e em que número querem tê-los;
Tomar decisões sobre a reprodução, livre de descriminações, coerção ou violência;
Ter acesso a serviços de saúde públicos e de qualidade durante todas as etapas da vida;
Ter acesso a tratamentos de infertilidade, ou adoptar;
Ter acesso aos meios de informação e tecnológicos reprodutivos cientificamente sustentados e aceites.
Direitos Sexuais, procuram garantir a todas as pessoas o direito de:
“Viver a sua sexualidade sem medo, vergonha, culpa, falsas crenças e outros impedimentos à livre expressão dos desejos;
Viver a sua sexualidade independentemente do estado civil ou condição física; Escolher o parceiro sexual sem descriminações e com liberdade e autonomia para
expressar a sua orientação sexual;
Viver a sexualidade livre de violência, descriminação e coerção e com respeito
pleno pela integridade corporal do outro;
Praticar a sexualidade independentemente da penetração;
Insistir na prática de sexo seguro para prevenir a gravidez não desejada e as doenças sexualmente transmissíveis incluindo o HIV/SIDA”. (Brasil, Ministério
da Saúde, 2010a p.19)
Estes direitos dizem respeito a muitos aspectos da vida; o poder sobre o seu próprio corpo, a saúde, a liberdade para a vivência da sexualidade, a maternidade e a paternidade mas, podemos dizê-lo, exprimem, antes de mais, o respeito pelos valores de cidadania que devem estar subjacentes a cada sociedade. É no entanto imperativo reconhecer que as condições de construção da autonomia estão directamente dependentes das relações e estruturas sociais em que adolescentes e os jovens se inserem, apenas as acções edificadas na realidade subjacente e nas reais necessidades dos sujeitos trarão os subsídios desejados por todos os actores deste contexto, marcado por tantas e diferentes formas de desigualdade.
A confirmação destes direitos está estreitamente dependente das estruturas políticas e organizacionais mas, sobretudo, dos próprios intervenientes que, no direito da sua autonomia, devem fazer as opções que consideram importantes num dado momento da sua vida, sem prejuízo da sua saúde ou da do outro com quem interagem. Uma política de direitos tem sempre implícita um contíguo de deveres, que devem ser igualmente exigidos e respeitados. As estruturas políticas e organizacionais têm a obrigação de garantir a implementação de todos os direitos atrás descritos, os sujeitos, nos quais se incluem os adolescentes e jovens, têm o dever de assumir práticas e constituir uma cultura de sexualidade saudável, livre e protegida.
A inclusão de adolescentes e jovens nas políticas de saúde, especialmente nas que se inserem no âmbito da saúde sexual e saúde reprodutiva, requer novos olhares e novas perguntas sobre as realidades que integram a vivência desta etapa do ciclo vital.
Mais, exige que estas questões lhes sejam directamente colocadas, respeitando e considerando os seus olhares, as suas opiniões e as suas propostas. A capacidade criativa e o potencial de participação social devem ser resguardados e promovidos nas práticas e políticas de saúde, bem como nas demais políticas sociais (Brasil, Ministério da Saúde, 2006).
A adolescência e a juventude são fases da vida com necessidades, potencialidades e vivências presentes em todos os aspectos da vida social, inclusive na sexualidade, na reprodução e na saúde, que devem ser vividas de forma plena com todos os direitos e responsabilidades a ela inerentes.
A abordagem desta temática exige que consideremos os conceitos que a constituem: a adolescência e a sexualidade.