• Nenhum resultado encontrado

1.2 Assédio moral e psicossocial no trabalho

1.4.1 Saúde versus Doença

Conforme Giddens (2005), a área conhecida como sociologia do corpo investiga de que maneira os corpos são afetados por influências sociais, seja pelas normas e ou pelos valores que a sociedade impõe. Essa área tem merecido maior atenção, estudo e pesquisa.

Neste momento fazemos uso de algumas das contribuições, em especial à sociologia do corpo na vertente sociológica conforme Le Breton (2006). O autor volta-se para aspectos sociais e culturais, pois defende a idéia de que é neste canal que as relações são elaboradas e vivenciadas, em que as dimensões simbólicas do corpo e suas representações são fundamentais para a autocompreensão do mesmo.

O estudo de Le Breton (2006), conta com a contribuição de Marx e Engels no que tange à Revolução Industrial, e aponta as repercussões que esta teve na vida e na saúde da classe trabalhadora, desta forma o corpo ficou atrelado às mudanças econômicas e sociais, sofrendo mudanças de ordem biológica.

Em tal dimensão biológica, os atores interagem e elaboram rituais através do corpo, assim sendo, Le Breton (2006, p 56), complementa: “A percepção de inúmeros estímulos que o corpo consegue assimilar a cada instante é função do pertencimento social do ator e de seu modo particular de inserção cultural”.

Diante desta perspectiva o autor menciona que até a “dor” é vista como uma construção social e cultural, tanto individual, quanto coletiva. Além disso, é através da expressão dos sentimentos que idealizamos e construímos nossas estruturas sociais. Isso acontece a partir do momento em que temos a percepção da nossa relação com o outro e com a sociedade, desta maneira passamos a estabelecer vínculos de maneira saudável ou não. Diante dos vínculos não saudáveis e o indivíduo sem estrutura emocional para administrá-los, poderemos então fazer adoecer nosso corpo ou nossa mente.

Giddens (2005) relata que a principal preocupação de alguns sociólogos é examinar a experiência da doença, ou seja, como “o estado de estar doente” é experenciado pela pessoa e pelos que o cercam. Para o autor, a doença possui dimensões públicas e pessoais, desta forma elenca dois modos para a compreensão da doença. O primeiro, diz respeito à escola funcionalista, na qual o doente apresenta normas de conduta que demonstram sua doença e o segundo modo é

adotado por interacionistas simbólicos, os quais interpretam ações e comportamentos dos indivíduos doentes.

Não poderíamos deixar de fazer referência ao desemprego como uma categoria para este estudo, no que tange à relação saúde-doença. De acordo com Giddens (2005), um levantamento britânico declara que existe uma forte correlação entre a insegurança no emprego e uma saúde precária. Portanto, a saúde física e mental apresentam uma “deteriorização contínua” diante dos episódios de insegurança prolongada no emprego.

Os trabalhadores que vivenciam uma intensa ansiedade e um stress constante no seu trabalho podem desencadear um clima tenso, de desarmonia e em consequência disso, uma possível demissão. Além disso, o profissional, muitas vezes, não se identifica com seu trabalho, não se realiza, não possui um perfil adequado para executá-lo, mas permanece, porque tem a responsabilidade de garantir seu sustento e de sua família, ou seja, cumprir com sua função social, mesmo sabendo que poderá adoecer.

O profissional chega ao seu limite, e diante de um desgaste tanto físico quanto mental, adoece, ainda mais se a profissão é considerada “penosa”. De acordo com Sato (1991), poucas profissões são consideradas penosas e a do motorista de ônibus é uma delas.

A penosidade está associada à exigência de esforços que provoquem sofrimento e incômodo de forma demasiada, fazendo com que este profissional sinta-se impotente, pois não possui o controle sobre seu trabalho. Sato (1991), constata em seus estudos que, na classe trabalhadora, as doenças persistentes são 50% mais frequentes entre trabalhadores manuais e que os homens demoram mais a buscar os cuidados médicos.

Ramazzini (1985) publicou, em 1700, o primeiro tratado sobre as doenças dos trabalhadores e sobre os riscos do trabalho, especificamente, com os mineiros e os metalúrgicos. Sua obra representou uma evolução na Higiene Ocupacional; o autor estudou as condições mórbidas das profissões e classificou 50 profissões e as respectivas doenças desenvolvidas, desta forma foi considerado o precursor da Medicina do Trabalho, calcados nos conceitos básicos da Medicina Social.

Seguindo outros estudos, Branco (2007) revela dados atuais da realidade da relação trabalho-saúde, dados, estes, alarmantes no que tange ao Instituto Nacional do Seguro Social - INSS. Entre 2000 e 2004, 48,8% dos que se afastaram

do trabalho apresentaram doenças mentais e, em 2006, cerca de 140 mil trabalhadores ficaram longe de seus empregos por mais de 15 dias. Esse afastamento corresponde às doenças ocupacionais e acidentes de trabalho.

Por sua vez, Santos (2008)11 estudou sobre: “de que adoecem e morrem os motoristas de ônibus ?” e para tanto revê a literatura médica dos últimos 15 anos. O autor constata que as condições de trabalho atuais são altamente prejudiciais à saúde, a rotina desses profissionais é degradante, os mesmos sofrem vários adoecimentos e frequentes mortes prematuras. Além disso, este estudo mostrou que estes profissionais são explorados em vários sentidos, como tantos outros numa sociedade capitalista, assim como constata que o nível de stress pelo qual passam é considerado muito acima da média.

Barreto (2007) alerta: “a saúde do trabalhador vai mal”. A OIT realizou um estudo no ano de 2007, revelando que, em todo o mundo, 160 milhões de pessoas sofrem de males associados ao trabalho e, pelo menos 2,2 milhões, morrem em decorrência das doenças provocadas pelas más condições de trabalho.

De acordo com os enfoques até aqui apresentados neste item, segundo os autores elencados, o adoecimento possui tanto causas sociais e afetivas, devido a normas e valores que a sociedade impõe, por dimensões públicas e políticas, pelo desemprego, por condições clínicas, psicológicas ou psiquiátricas.

No seguinte subitem, serão abordados estudos referentes à saúde mental.