A. Porque claro A lo mejor, me dicen ahora que sí y en veinte días que no me entiendes? Por esso nos obligan a hacer la reserva directamente
3.3 sabe? e entende? em suas funções específicas
Apesar de limitações, pois muitas vezes estamos lidando com itens que costumam exercer duas ou mais funções simultaneamente, os RADs podem ser apresentados em funções específicas, sugeridas por Martelotta e Leitão (1996:296-301) e Martelotta (1998:81-8), os únicos a proporem o tratamento dos RADs, mais especificamente de sabe? e entende?, como elementos que, dependendo do contexto em que se inserem, ativam determinados traços funcionais, à exclusão de outros.
Martelotta e Leitão (p. 296-301)36 sugerem algumas funções para sabe?, tais como: avaliativa, marcadora de cláusula, preenchedora de pausa, de chamar a atenção do ouvinte para um determinado dado. Observe os exemplos:
(30) Eu vou falar sobre a minha família... sobre os meus pais... o que eu acho deles... e como eles me tratam... bem... eu tenho uma família... pequena... ela é composta pelo meu pai... pela minha mãe e pelo meu irmão... eu tenho um irmão pequeno de... dez anos... eh... o meu irmão não influencia em nada... a minha mãe é uma pessoa super legal... sabe? ela é uma pessoa que conversa comigo... é minha amiga... ela me amostra sempre a realidade da vida...37
36
Para as análises feitas nesta pesquisa foram utilizadas entrevistas de 20 informantes, do corpus do grupo Discurso & Gramática, coletadas na cidade do Rio de Janeiro.
37
(31) ... se ela colocasse o problema em questão... falasse que estava grávida... eu acho que ia mudar muito a situação... aí foi quando ela decidiu tirar... ela chegou pra mim/ e pior não é nada... pra ela chegava pra mim... ela passava uma imagem para mim... assim... de uma menina... uma menina pura... sabe? que não pensava nessas coisas... então quando ela chegou pra mim e falou assim... “Claire... eu to grávida”... foi um impacto... sabe? foi um susto pra mim... eu não esperava isso dela...
No exemplo (30), os autores atribuem a sabe? as funções de marcador de cláusulas e de elemento que ressalta um comentário avaliativo, já em (31) este item atuaria somente sobre um comentário avaliativo.
Em trabalho posterior, Martelotta (1998)38 realiza uma análise comparativa entre sabe? e entende? e avança suas considerações, identificando uma série de funções (marcar reformulações na fala, marcar topicalização, indicar discurso de fundo, modalizar a fala e preencher vazios), que seriam derivadas da macro-função destes itens de viabilizar o processamento da fala e a recepção do ouvinte. Observe nos exemplos dados pelo autor e transcritos abaixo algumas destas funções em uso:
(32) ... o que aconteceu... foi com uma amiga minha... ela... namorava um rapaz... há/ namorou um rapaz há três anos... eh... um menino... (eu não sei) não posso revelar... aí... ela/ é aquilo... maior paixão... entendeu? mas... tinha uma coisa que... sempre... implicava com eles dois... não sei o que era... eu acredito muito em destino... sabe? eu acho que... as pessoas... eh... quando têm o destino traçado... é aquilo... aí ela namorou ele/ ela namorou esse rapaz há três anos... ela desmanchou com ele...39
(33) ...essa empresa aqui que é onde é que eu... faço estágio... era... Portobrás... vou te dar um exemplo... era Portobrás...tá? o Collor extinguiu... entendeu? extinguiu... aí passou a se chamar Portos... quer dizer... foram vários funcionários embora... pessoas boas... entendeu? foram mandadas embora... e agora o que que acontece? aqui é... uma empresa até::... muito política...
No exemplo (32), o autor atribui a entendeu? e a sabe? um caráter bi- funcional, atuando ao mesmo tempo como marcadores de comentário de fundo e como reformuladores e em (33) o autor identifica para entendeu? as funções de marcar comentário de fundo, marcar tópico e marcar reformulação sobre a expressão pessoas boas (op. cit.). Estes exemplos parecem envolver um movimento textual que remete tanto para o que é dito antes, como para aquilo que é dito depois do item, pois, se através de um movimento anafórico os itens marcam um comentário de fundo, parece claro que através de um movimento catafórico marquem a retomada do tópico principal40, apesar do autor não tratar deste movimento explicitamente e sempre
38
O autor utiliza 47 entrevistas com informantes do Rio de Janeiro, coletadas pelo grupo Discurso & Gramática.
39
Os exemplos (32) e (33) são citados por Martelotta (1998:82-3). 40
Consideramos anafórico e catafórico apenas o movimento desencadeado pelo item discursivo remetendo para aquilo que é dito antes ou depois dele. Usamos estes dois termos na perspectiva da dêixis
estabelecer a função dos itens analisados por ele em relação àquilo que vem dito antes do item em questão.
Até então, nota-se que os pesquisadores têm tratado os RADs como elementos que apontam para aquilo que foi dito antes de sua ocorrência, seja uma palavra ou até mesmo uma fase inteira e, por isso, as funções que têm sido atribuídas a estes elementos são muito mais voltadas para a ação dos RADs sobre aquilo que os antecede. Observe o exemplo (34), retirado de nossa amostra:
(34)Inf: Mas eu ando assim, no máximo assim, eu acho que com umas cinco pessoas. São poucas amigas dentro do colégio, de fora eu tenho muitas, né? Eu tenho de fora também, que não mora aqui, mas ano passado pra cá daí separou bastante gente, daí [tinha]- apelidaram até de galerinha do Barrados no Baile, sabe?
Ent: Por quê? (FLP20FJG:503)
Nesta ocorrência verifica-se, mesmo porque não temos mais nada após o RAD, que sua atuação incide sobre sua esquerda, frisando o sintagma que o antecede a galerinha do Barrados no Baile.
Contudo, em grande parte das vezes estes elementos parecem fazer o papel de ponte entre duas partes do discurso, atuando, assim, como elementos bi-direcionais41 (veja em 35):
(35) É assim, são músicas assim, grupo jovem, não tem? São músicas sobre... Deus, né? de igreja, mas com rock, músicas lentas. (FLP05FLP:86)
Neste exemplo, observa-se o duplo movimento do RAD: ao mesmo tempo que frisa aquilo que tinha sido dito à sua esquerda (são músicas assim, grupo jovem) ocupa o lugar em que se estabelece uma relação de especificação, sendo usado para assinalar, à sua direita, detalhes sobre o elemento ou construção especificada (são músicas sobre... Deus, né? de igreja, mas com rock, músicas lentas).
Além das funções de caráter mais textual que, mesmo que indiretamente, nos impulsionam a uma revisão do caráter bi-direcional dos RADs, Martelotta (1998:84) atribui outras funções a sabe? e entende?, mais ligadas a mecanismos de processamento mental. O autor verifica que, através de um movimento funcional de menor para maior abstratização, os itens em análise podem assumir as características de um preenchedor discursiva (cf. Marcuschi, 1997:158), que serve não exatamente para referir entidades lingüísticas, mas para organizar, orientar e monitorar o olhar do leitor/ouvinte para uma determinada porção do discurso: é uma dêixis de orientação.
41
Risso (1999:287) reconhece que elementos como bom,bem, olha e ah (muito próximos a sabe?, entende? e não tem? , já que estes frisam o que os antecede e aqueles o que é posposto a eles) possuem um forte caráter bi-direcional, no sentido que atuam como pontuadores discursivos fechando a seqüência que os antecede e viabilizando a seqüência seguinte. Ampliamos esta questão no capítulo V.
de pausa, encaminhando o fluxo conversacional para não perdê-lo ao executar uma pausa, como em (36) 42:
(36) ... mas que adianta um casamento tão lindo... gastam tanto... pra no final eh... viv/ fica dois... três dias... depois se separam... entendeu? eu acho isso aí um absurdo... porque... poxa... eu sei lá... sabe? num né? a vida ::/ tudo bem... está tudo difícil... mas a pessoa... eu acho que a pessoa tem que saber... diretamente aquilo que quer...
Mesmo tentando fazer recortes discretos e demarcando os limites para a atribuição de cada função, Martelotta (1998) admite e ressalta que estas funções tendem a se confundir, ou mesmo a se sobrepor, já que se manifestam em um continuum lingüístico. Pode-se observar esta intersecção de funções no exemplo (37) em que, segundo o autor, sabe? é usado com características de preenchedor de pausa e também funciona como topicalizador e modalizador.
(37) E: a outra eh::... eh o que você acha da escola... dos professores... da política atual? I: escola... está péssima... escola está péssima... paredes muito... pixadas... os banheiros tudo arrebentado... que não sei o quê... e... os próprios alunos mesmo... sabe? tanto do dia tanto da manhã... que fazem isso... sabe? como... tu pode ver aqui... porque os quadros horríveis eh::... mesas horríveis toda ra... rabiscada... rasgada... né? tudo... agora... quanto aos... professores... al... alguns são... muito... exigentes... outros um pouco melhores... sabe? e... eu achava que cada um... um deles tinha que dar um... um trabalho ou eh::... um teste pra... ajudar na prova... tá? pra ajudar na prova... ajudar no teste... né? e quanto à... à política... não tenho/ não tem como explicar eh... a vida está... tudo caro... né? pra mim... pro Brasil sair... dessa crise... acho que... sabe? só:: só milagre... agora... esse presidente Itamar Franco... sabe? está fazendo alguma coisa... né? agora... política... acho que... sabe? todos eles... sinceramente... são uma cambada de ladrões... que adoram... sabe? pegar dinheiro... dos outros sabe eh:: fazer... sacanagem... fazer troço assim... E: ahn... ahn...
I: entende?
E: valeu... obrigado...
Embora os resultados das pesquisas dos autores referidos contribuam para a problematização do estudo de itens como sabe? e entende? e para o estabelecimento de várias funções para os mesmos, muitos de nossos dados não são recobertos pelas funções citadas por eles. Vejamos algumas de nossas ocorrências em que os itens em análise ocorrem envolvidos, respectivamente, em relações de especificação, finalidade e conclusão:
(38) No caso de/ de baterias assim, de/ de campeonato, a nível de campeonato, eu não/ não/ não estou acompanhando isso, não é o meu lado o campeonato. (est) Eu posso dizer como as pranchas evoluíram, entendeu? como elas afinaram, espessura, elas afinaram muito, as pranchas antes eram bem grossas, assim, bem largas, hoje não, hoje elas estão mais estreitas, bem finas de espessura e mais alongadas assim, né? (FLP12MJC:799)
42
(39) Outra festa. Quinze anos da minha irmã. (est) Foi um sarro, ela dançando a valsa, o sapato dela quebra. (risos E) O salto quebrou, ela quase levou um tombo. Estava lá [dan- ] estava dançando com meu pai, o primeiro par dela, depois ela dançou com dois namorados, dois namorados ela estava dançando, começou a dançar. Primeiro foi um, foi uma briga assim no meio do salão, não tem? pra ver quem dançava com ela primeiro, os dois namorados dela, foi um sarro quase se pegaram no pau, lá no meio da festa dela. (FLP05FJP: 1127)
(40) O ruim é o vizinho da esquerda e o vizinho da frente, a do lado assim, é uma senhora viúva, ela é legal. Eles são muito assim, berrão, eles fazem muito... escândalo, muito matraca, eles vão lavar roupa [su-] suja na rua assim, sabe? a coisa mais ridícula. Parece que eles nem têm casa, eles vivem na frente da casa dos outros. (FLP19FJG:1380)
No exemplo (38) entende? situa-se entre um tópico e sua especificação, pois antes dele o falante anuncia que pode falar sobre a evolução das pranchas e depois especifica de que tipo de evolução está falando. Já em (39) o falante narra a situação de uma briga e usa não tem? entre o fato e sua finalidade, a conquista da primeira dança com a namorada. E em (40), após dar uma série de atributos negativos a seus vizinhos, o informante faz uso de sabe? para, em seguida, dar sua conclusão avaliativa sobre o comportamento da vizinhança.
Embora a delimitação de funções seja muito mais um recorte metodológico que o retrato fiel do comportamento destes itens, a partir do novo olhar sobre o escopo de atuação destes elementos e considerando a existência de possíveis sobreprosições funcionais, temos a necessidade de elaborar um quadro de funções que leve em conta os diferentes níveis de atuação, mesmo sabendo que esta não é uma tarefa simples, dado o caráter multifuncional destes itens.