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4. COMER E EXPELIR O EXCEDENTE – ENGODOS METODOLÓGICOS

4.1. PERCEPÇÕES EDUCACIONAIS

4.1.1. Saber Antropofágico Inventivo Intercultural

Muito tem se produzido sobre as tendências pedagógicas relacionadas à prática em sala de aula, portanto, neste estudo não é intenção de aprofundarmos esse assunto, mas sim, retomá-las como base para a compreensão e reflexão da situação em que se encontram o ensino e a aprendizagem da Música na atualidade, mais especificamente no sistema educacional do Brasil.

O saber Antropofágico Inventivo Intercultural busca entender que o caminho do conhecimento não permite descanso e que o seu caminhar não pode ser interpenetrado pelo orgulho de quem pensa que já está acabado e tudo sabe, sustenta minhas percepções educacionais. Sempre ter-se-á algo a aprender. Não existe a possibilidade de caminhar sentado. Parece redundância que para caminhar precisamos dar passos. Mas, muitas vezes se quer as coisas acontecendo, se quer andar cinco quilômetros, mas não se dá o primeiro passo. No conhecimento é a

mesma coisa. No mais profundo do intelecto está o desejo de buscar e, buscar sempre. Começar. Existe, portanto, percursos que se quiser percorrer começa por entender o seu ponto de partida que está justamente na capacidade da razão, que está impregnada de emoção, se estender sem limites.

Através de diversas manifestações como a filosofia, literatura, música, arte visual, teatro, dentre outras, a humanidade demonstrou que conseguia se estender no processo do saber. Essas manifestações demonstraram a força da sua capacidade inventiva. Esse desejo de saber, que pode tornar-se conhecimento, está contido na vida cotidiana, no interesse de cada indivíduo de descobrir, para além do que ouve, vê ou lê. Entre todas as espécies, a humana, é capaz não só de saber, mas de compreender que sabe e, por isso, se interessa pela busca. Não existe busca sincera sem liberdade. Se existe o respeito pelo caminho e pelo caminhar, persiste nas entrelinhas para cada professor/a a busca pelo conhecimento, e de aderir a ele, uma vez conhecido.

Por si só, qualquer saber, mesmo que parcial, se buscado com sinceridade, apresenta-se como uma possibilidade investigativa que pode se universalizar. Aquilo que é sincero, deve ser sincero sempre, e, para com todos. Contudo, para além desta universalização, o pesquisador/a busca algo que seja capaz de dar resposta e sentido a totalidade da sua pesquisa: algo definitivo, que possa servir como fundamento para outras pesquisas. As hipóteses podem até se apresentarem como promissoras, mas não dão conta da busca. Para todo pesquisador/a, chega o momento em que, admita- se ou não, permeia uma vontade de se chegar a um porto seguro reconhecido como definitivo, que forneça algo livre de dúvidas. Entretanto, o mundo da Invenção Antropofágica Intercultural traz justamente o contrário: a incerteza, a insegurança e o não estagnar.

Essa contrariedade, na qual se quer formular o saber Antropofágico Inventivo Intercultural, permite que convicções ou experiências pessoais, tradições familiares e culturais, dentre outras se façam presentes nessa busca. O ser, professor/a, por melhor que seja, não nasceu para viver sozinho. Tanto que, nasce e cresce dependendo de uma família, tenha ela a caracterização que tiver, para esses tempos. Mas o fato é, depende de outros para sobreviver. Por isso o professor/a aparece impregnado/a de várias tradições. Delas recebe desde a linguagem, passando pela formação cultural e também muitos dos saberes os quais acredita, porque lhe fizeram acreditar. Entretanto para o saber Antropofágico Inventivo Intercultural a maturação

individual ocorre quando tudo isso pode ser posto em dúvida e avaliado por meio da criticidade, da desconstrução do sabido.

Peres (2006), ao tratar do caminho daqueles que intentam ser professor/a, diz que sua formação está fundada numa complexidade de representações e imagens construídas ao longo de suas trajetórias. A autora, ao tentar explicar os caminhos tomados para ser professor/a, traz à tona que:

Nesse processo, somos atravessados pelos desassossegos que nos fazem, como na história, sentirmo-nos diante dos abismos da nossa “ignorância”, dos medos das invisibilidades, dos escuros das incertezas, enfim, do sentimento de estar diante de abismos e não saber o que fazer no próximo passo. Tudo isso porque somos humanos! Lembrando que o ofício de professor é direcionado, também, para humanos, e o humano está entretecido por inúmeras contingências simbólicas. O que desejo ressaltar é que os compêndios teóricos e metodológicos são fundamentais, mas não suficientes para que nos tornemos professoras(res), uma vez que a formação docente não se trata de um jogo de encaixe de teorias e práticas. (PERES, Lucia Maria Vaz, 2006, p. 51).

Compreender que os compêndios teóricos e metodológicos são fundamentais, mas não suficientes para se tornar professor/a e apreender que ter a previsão de poder chegar ao saber é o que leva o indivíduo a dar os primeiros passos, torna-se um propulsor para aqueles que almejam tal caminho. Todo professor/a possui suas próprias convicções, pelas quais orienta a sua vida. Por diversos caminhos consegue formar uma visão global e contestar o sentido de sua existência. Nessa trilha interpreta a sua vida e tenta regular seu comportamento. Percebe-se uma fundamentação teórico-conceitual sobre sistemas complexos que abrange ao mesmo tempo o individual e o coletivo.

Ao buscar suas percepções educacionais, toma-se consciência de que existe. De certa forma, estabelece confiança nos conhecimentos adquiridos por outras pessoas. Ao mesmo tempo, percebe que essa confiança pode ser uma forma imperfeita de conhecimento, que precisa se aperfeiçoar por meio de evidências alcançada pela busca pessoal. Vale ressaltar, que essa confiança traz uma riqueza porque inclui a relação interpessoal, evidenciando não apenas as capacidades cognitivas da pessoa, mas sua capacidade de confiar em outas pessoas iniciando um relacionamento íntimo do saber. Isso se torna vital para o saber Antropofágico Inventivo Intercultural na existência como professor/a. Chega-se ao conhecimento não só por via racional como se pensava tradicionalmente, mas também por meio da confiança no outro que, lado a lado, se empenham em garantir a veracidade do que

sabem. O ato de confiar no outro se constitui num dos atos mais antropofágicos e significativos: eu devoro, no entanto, permito-me ser devorado. Sustenta essa ideia o fato de que captar com inteligência, mesmo a dita busca racional, tem a necessidade de ser apoiada em um diálogo de confiança e amizade com autores aos quais me fio. Trazer o saber Antropofágico Inventivo Intercultural, encontrado às tendências pedagógicas, não é de aparência tão fácil. O exercício desta prática, bem como, sua frequência no espaço educacional de educação básica, retrata a ideia de transtorno, de bagunça e faculta ser percebido como inoportuno. O contributo dado a educação, quando se defende o acesso ao saber Antropofágico Inventivo Intercultural, é um direito universal. Derrubam-se as barreiras raciais, sociais e de gênero, propondo a igualdade a todos. Rompe-se o caráter elitista educacional e abre as portas a todos/as. Se o saber Antropofágico Inventivo Intercultural é um bem que melhora significativamente a vida das pessoas, então todos devem estar aptos a percorrer a estrada. Uma história pessoal intensa, quando se apela ao valor da experiência, pode antecipar futuros desenvolvimentos ao processo pedagógico.

O saber Antropofágico Inventivo Intercultural tornar-se relevante tanto no campo teórico, quanto no âmbito prático. Se persiste o direito de se respeitar cada traçado para se caminhar em busca do saber Antropofágico Inventivo Intercultural, há também, a partir daquilo que se aprende, o compartilhar, para que o professor/a seja melhor. Por isso, ao percorrer o caminho Antropofágico Inventivo Intercultural, que pode aperfeiçoar as pessoas, não é se fechando que o pesquisador encontra o que está perseguindo, mas sim, se abrindo a outrem. Essa acaba sendo uma condição necessária ao saber Antropofágico Inventivo Intercultural. Eu me torno eu, na interação com o outro57.

De início, o saber Antropofágico Inventivo Intercultural se apresenta como uma pergunta: existe a possibilidade de “aprender/ensinar” a inventar? À primeira vista ter- se-ia aparência radicalmente sem sentido. Não é necessário recorrer aos filósofos para duvidar desse tema. Contudo, a experiência cotidiana que tenho como professor de educação básica, que passa não só pelos meus sofrimentos, senão que, pelos sofrimentos alheios e a observação de muitos fatos, que a luz do pensamento se revela inexplicável, bastam para trazer à tona um problema tão dramático que é o saber Antropofágico Inventivo Intercultural, em especial em um espaço tão cristalizado

57 O outro, entendido não somente como uma pessoa física, mas como um objeto que traga a invenção: um livro,

como o sistema escolar de educação básica. Nesse processo os saberes Antropofágicos Inventivos Interculturais mais numerosos, são apresentados pelas evidencias imediatas, ou, recebem a confirmação do valor da experiência, e como já dito anteriormente retratada aqui, como aquilo que me passa.

A cristalização do espaço educacional permite que se olhe para escola formal com a inexistência de neutralidade. Ajuda nessa reflexão as bases da teoria crítica proposta por Santos (2000, p. 17), que parte do pressuposto de que “o que dizemos acerca do que dizemos é sempre mais do que sabemos acerca do que dizemos”. Por isso, quem sabe, a dificuldade de se tomar um viés crítico esteja no fato de, ao assumir uma não neutralidade, se está analisando não só os contextos pedagógicos, mas também, quem pertence a este contexto. Processo, no qual, acaba por fazer uma autocrítica. Trazer aspectos do saber Antropofágico Inventivo Intercultural para o espaço dos/as professores/as envolve uma escavação. Não se trata de um paradigma sociocultural global, ou universal, mas sim, como afirmado por Santos (2002, p. 18), de “um paradigma local que se globalizou com êxito, um localismo globalizado”. Ao escavar, existe a possibilidade de se descobrir relações dominantes. Ainda, possíveis relações que possam explicitar, ao menos em parte, o momento atual vivido no contexto educacional geral e na Música em especial, no espaço de educação básica no Brasil. Interessante, também, a identificação de fragmentos epistemológicos, culturais, sociais e políticos, fatos que ajudam a refletir sobre a inserção da música no espaço escolar, para que este auxilie num processo do pensar a sociedade.

Para compreender e assumir minhas responsabilidades como professor de Música considero importante promover o saber Antropofágico Inventivo Intercultural sobre a realidade de trabalho vivida: como a Música vem sendo ensinada no contexto educativo do nosso país e as relações com a educação escolar e com o processo histórico-social. “A partir dessas noções, poderemos nos reconhecer na construção histórica, esclarecendo como estamos atuando e como queremos construir essa nossa história” (FUSARI e FERRAZ, 1992, p. 20-21).