N % N % N % N %
Discordância 12.460 35,5 11.540 32,9 7.660 21,8 15.161 43,2
Concordância 22.612 64,5 23.532 67,1 27.412 78,2 19.911 56,8
Total 35.072 100,0 35.072 100,0 35.072 100,0 35.072 100,0
Fonte: Inep (Elaboração própria)
Nota-se, analisando esses dois grupos, que o nível de concordância entre as informações coletadas por um instrumento heteropreenchido e que pode ser auto/heterodeclarado (formulário do Censo), e por outro autopreenchido e autodeclarado (questionário do Saeb e formulário do Enem), é bastante próximo, pois gira em torno de 66,0%. Já a concordância entre os dois instrumentos autopreenchidos e autodeclarados é maior, alcançando o percentual de 78,2%. Tais resultados nos permitem afirmar que o nível de concordância entre as informações raciais dadas pelos levantamentos, quando cotejados dois a dois, ultrapassa 64,0%, porém, quando triangulados, o nível de concordância entre as informações dos três levantamentos reduz, chegando a 56,8%.
A fim de verificar quanto cada um dos levantamentos, quando triangulados, contribui para a discordância total de aproximadamente 43,0%, realizamos a seguinte análise: uma decomposição dessa triangulação em discordâncias parciais, ou seja, aquela em que a informação é divergente em apenas um dos levantamentos, e em discordância total, ou seja, aquela em que a cor ou raça é diferente em cada um dos três levantamentos, conforme mostra a Tabela 8.
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Tabela 8: Decomposição da discordância da informação racial na triangulação do Censo Escolar, Enem
e Saeb – Brasil - 2013
Saeb Enem Censo Aneb X Enem X Censo Total
N 3.621 2.701 7.501 1.338 15.161
% 10,3 7,7 21,4 3,8 43,2
Fonte: Inep (Elaboração própria)
Podemos observar que a maior fonte de discordância parcial é o Censo (21%), seguido pelo Saeb (10%) e depois pelo Enem (8%), e que discordância nos três levantamentos é baixa (inferior a 4%). Assim, os resultados da triangulação dos levantamentos indicam que a menor concordância advém do Censo. Pelo fato do questionário do Saeb e do formulário do Enem serem autopreenchidos e autodeclarados, e o formulário do Censo ser heteropreenchido e ser tanto auto quanto heterodeclarado (caso a informação não tenha sido atualizada quando o aluno completou 16 anos), essa diferença técnica na coleta dos dados pode ser um dos principais fatores responsáveis por essa discrepância.
A fim de apreender o sentido das divergências entre a informação racial nas três pesquisas, elaboramos três tabelas cruzadas. A primeira delas apresenta o pareamento do Enem e do Censo (Tabela 9).
Tabela 9: Declaração racial (%) dos alunos concluintes do EM no Enem e Censo Escolar – Brasil – 2013
Concluintes EM Cor/raça
Censo Escolar
Branca Preta Parda Amarela Indígena Total
E n e m Branca 31,4 0,2 8,7 0,2 0,0 40,5 Preta 0,8 2,0 6,9 0,1 0,0 9,8 Parda 10,3 1,1 33,3 0,4 0,1 45,1 Amarela 1,0 0,0 1,2 0,2 0,0 2,4 Indígena 0,1 0,0 ,5 0,0 0,3 0,8 Não declarada 0,5 0,1 ,8 0,0 0,0 1,4 Total 44,0 3,4 51,3 0,9 0,4 100,0
Fonte: Inep (Elaboração própria)
Percebe-se, por essa tabela, que há mudanças na classificação racial em várias direções. Analisando as três primeiras categorias raciais, em particular, nota-se que há uma distância de 4,5 p.p. entre o percentual de brancos no Enem (40,5%) e no Censo Escolar (44,0%). Uma diferença de 6,2 p.p. pode ser encontrada nos valores referentes a pardos e, entre pretos, percebe-se uma discrepância ainda maior, quando o Enem contabilizou 9,8% de pretos e o Censo, por outro lado, apenas 3,4%. Vem aos olhos, também, que apenas 2,0% dos estudantes estão classificados como pretos nas duas bases de dados, ao passo que 6,9% deles
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se declararam pretos no Enem e ao mesmo tempo estão classificados como pardos no recenseamento educacional.
Tratando do cruzamento entre Saeb (Aneb) e Censo, notamos, na Tabela 10, que as mudanças ocorrem de maneira semelhante à da tabela anterior.
Tabela 10: Declaração racial (%) dos alunos concluintes do EM no Saeb (Aneb) e Censo Escolar – Brasil – 2013
Concluintes EM Cor/raça
Censo Escolar
Branca Preta Parda Amarela Indígena Total
S ae b ( A n e b ) Branca 28,9 0,2 7,4 0,2 0,0 36,7 Preta 1,0 2,0 6,8 0,1 0,0 9,9 Parda 11,4 1,0 33,2 0,4 0,1 46,1 Amarela 1,9 0,1 2,1 0,2 0,0 4,2 Indígena 0,2 0,1 0,8 0,0 0,2 1,3 Não sei 0,7 0,1 1,0 0,0 0,0 1,8 Total 44,0 3,4 51,3 0,9 0,4 100,0
Fonte: Inep (Elaboração própria)
Novamente, do total dos alunos declarados brancos no Censo (44,0%), há uma diminuição considerável de 7,3 p.p. quando se consideram os que assim se declararam no Saeb (36,7%). No caso dos pretos, houve um aumento de 6,5 p.p., visto que apenas 3,4% dos estudantes estão classificados como pretos no Censo, enquanto esse mesmo contingente representa 9,9% no Saeb. Essa distância chega a ser ainda maior que na tabela anterior. Com relação aos pardos, há uma vantagem de 5,2 p.p. a favor do Censo.
Analisando as mudanças na declaração racial no Enem e no Saeb, nota-se que, apesar de também existir em várias direções, é menos intensa que nas comparações anteriores, o que expressa, em parte, a maior convergência na declaração racial, conforme se vê na Tabela 11.
Tabela 11: Declaração racial (%) dos alunos concluintes do EM no Saeb (Aneb) e Enem – Brasil – 2013
Concluintes EM Cor/raça
Saeb (Aneb)
Branca Preta Parda Amarela Indígena Não sei Total
E n e m Branca 32,7 0,3 5,5 1,4 0,1 0,5 40,5 Preta 0,2 6,9 2,3 0,1 0,2 0,2 9,8 Parda 3,2 2,5 36,7 1,4 0,5 0,8 45,1 Amarela 0,4 0,0 0,7 1,2 0,0 0,0 2,4 Indígena 0,0 0,1 0,2 0,0 0,5 0,0 0,8 Não declarada 0,3 0,2 0,6 0,1 0,0 0,2 1,4 Total 36,7 9,9 46,1 4,2 1,3 1,8 100,0
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Assim, do total de alunos que se declaram brancos no Enem, 7,8 p.p.. Assim não o fizeram no Saeb, e, dos pretos, 2,9 p.p.. Apesar de haver oscilações na declaração racial de pretos e pardos entre Saeb e Enem, com aproximadamente 2,4% estudantes classificados como pardos em um levantamento e pretos noutro, e vice-versa, os percentuais totais de pretos e pardos são bastante similares entre os dois levantamentos: no Saeb, há 9,9% de pretos e 46,1% de pardos; no Enem, 9,8% e 45,1%. Também vale destacar que, pela primeira vez em todas os cruzamentos apresentados, a convergência na declaração racial dentro da população preta superou a tendência deles serem classificados como pardos, fenômeno que acontece com recorrência no Censo Escolar. Para terminar, é válido mencionar que, embora ainda exista alguma aleatoriedade na distribuição percentual de amarelos e indígenas, as concordâncias alcançaram seus maiores valores nesse último pareamento de bases.
Depreende-se dessas análises, feitas em caráter exploratório e preliminar, que a informação racial, quando pareamos dois levantamentos ou quando triangulamos os três, apresentaram um grau de concordância razoável, variando de 57% a 78%. Por outro lado, foi possível notar que os dados do Censo são os que mais contribuem para as divergências referentes ao quesito cor/raça, bem como para o branqueamento dos estudantes, quando contrastado com os do Enem e do Saeb. Contudo, tais discordâncias não invalidam os dados produzidos, uma vez que estão relacionadas, em boa medida, às diferenças das técnicas de coleta empregadas.
Como aponta a literatura referente à produção da informação racial, a heterodeclaração tende a branquear os indivíduos, em contraste com a autodeclaração. Embora ainda não quantificada, essa situação certamente está presente no caso do Censo Escolar, tal como explicitamos acima, uma vez que, se as escolas não atualizarem a informação desse campo no sistema, permanecer-se-á a heterodeclaração, feita pelos pais ou responsáveis. Além disso, há outras peculiaridades nos levantamentos do Enem e do Saeb, relativas ao autopreenchimento, técnica que não é utilizada nas pesquisas demográficas mais conhecidas, como o Censo Demográfico e a Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios (PNAD), pois os levantamentos do Inep não contam com entrevistadores devidamente instruídos para coletar o dado. No caso do Enem, especificamente, o dado é coletado de maneira obrigatória e online. Dessa maneira, parte das divergências também estão ligadas a esses procedimentos, cujas peculiaridades tornam essa problemática mais complexa e, parece-nos, ainda pouca explorada, já que a maioria dos levantamentos em larga escala contam com entrevistadores treinados para o desempenho dessa tarefa.
. Considerações Finais .
Embora a pesquisa esteja em andamento, é possível vislumbrar, a partir das bases analisadas, alguns resultados preliminares: a concordância na declaração racial tende a
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aumentar à medida que avançam os anos de escolarização e quando os instrumentos usados são autodeclarados e autopreenchidos (Saeb e Enem), e tende a diminuir, ou mesmo se tornar ambígua, quando se cruzam os dados coletados por instrumento autopreenchido (Saeb e Enem) e heteropreenchido (Censo), principalmente para os pretos, amarelos e indígenas.
De modo geral, as discordâncias nas declarações raciais têm apontado uma tendência de embranquecimento dos estudantes no Censo Escolar, o qual pode estar relacionado tanto ao fato de serem, na maioria das vezes, os adultos que classificam racialmente as crianças e jovens, quanto por ser adotado, nesse recenseamento, um método de heterodeclaração racial. Como uma expressão desse fenômeno, vê-se que a maior parte dos autodeclarados pretos no Saeb e no Enem é classificada como pardos no Censo Escolar, assim como a ocorrência de percentuais consideráveis de autodeclarados pardos que são entendidos como brancos por outrem – ao mesmo tempo, vieses no sentido oposto são menos expressivos.
A respeito da produção dos dados raciais, um dos principais desafios que temos a frente é trabalhar pela redução da não declaração racial no Censo Escolar. Frente a essa problemática, o Inep lançou, no ano de 2015, uma campanha visando sensibilizar as unidades escolares e, em especial, os responsáveis pelo preenchimento do Censo, a respeito de se coletar dados raciais de estudantes e profissionais da educação, de modo que se dê mais importância e prioridade à declaração racial desses respondentes nos formulários utilizados pelo recenseamento educacional. Talvez seja importante enfatizar, ainda, que essa coleta solicite, para os alunos que estão no ensino médio e que tenham pelo menos 16 anos de idade, que esse campo possa ser preenchido a partir da sua própria declaração, o que implicará para muito deles uma atualização e até mesmo retificação da cor ou raça atribuída até então.
Em relação ao papel do Enem na coleta do quesito cor ou raça, como salientamos em outro texto (SENKEVICS; MACHADO; OLIVEIRA, 2016), dada a obrigatoriedade de seu preenchimento para a inscrição no exame, o nível de não declaração reduziu muito, ficando tal percentual restrito a opção subjetiva de não se posicionar sobre sua cor ou raça. Contudo, talvez seja possível aprimorar ainda mais a coleta do Enem, aperfeiçoando o sistema de inscrição, uma vez que problemas técnicos relativos, por exemplo, a alta demanda dos candidatos no período de inscrição pode prejudicar o desempenho do sistema virtual e, assim, tornar mais lento o processo de inscrição ou até mesmo resultar em perda de conexão com o servidor, obrigando os usuários a preencherem novamente o formulário e o questionário do exame, o que pode interferir na sua motivação e na sua atenção durante o preenchimento de tais instrumentos.
Em relação às avaliações componentes do Saeb, é preciso conhecer em maior profundidade o processo de coleta dos dados, em função da alta taxa de não preenchimento do questionário pelos alunos do EF e, em especial, do EM. É crucial levantarmos mais informações sobre a o processo de aplicação das provas e questionários, bem como
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conscientizar os alunos sobre a importância da obtenção dessas informações, uma vez que, entre outros usos, possibilita realizar diagnósticos mais finos sobre as desigualdades escolares, aqui inclusas aquelas de cunho racial, como também subsidiar a formulação de políticas públicas para a melhoria da educação básica e o combate ao racismo e às disparidades raciais.
Essas medidas, em conjunto, poderiam aprimorar a qualidade da coleta desses dados e, talvez, elevar o nível de concordância entre as informações do mesmo indivíduo nos três levantamentos. Não obstante, é preciso frisar, também, que a concordância não é, em si, sinal de qualidade, pois, como aponta a literatura da área, nos últimos anos vem ocorrendo um processo gradativo de assunção do pertencimento negro por parte da população brasileira que, cada vez mais, tem se assumido como preta e parda em diversos âmbitos da sociedade (Cf. SOARES, 2008; MARTELETO, 2012).
Quanto ao desenvolvimento da pesquisa, a próxima fase pretende discutir os contextos, as condições e os procedimentos de produção desses dados, tendo em vista aprimorar sua coleta e, consequentemente, sua qualidade. Também esperamos aprofundar as análises dos pareamentos e triangulações que realizamos, procurando caracterizá-las por meio da inclusão de outras variáveis na análise, tais como Grande Região, unidade da Federação, escolaridades dos pais e renda familiar, além de aplicar essa mesma análise para outras edições dos levantamentos.
. Bibliografia .
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OSÓRIO, R. G. O sistema classificatório de “cor e raça” do IBGE. Rio de Janeiro: Ipea, 2003. 50 p. (Texto para Discussão nº 996).
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