2. Laboratório de Desobediência Urbana
4.2 sala negra
A definição básica de uma Okupa é que ela é uma barricada. Um espaço de resistência urbana antiterritorial, antiautoritário e anticapitalista. Um lugar crítico que busca no apoio mútuo a autogestão. Depois, há especificidades conforme as lutas que os habitantes do espaço movem. A OCA como seu nome diz é uma Ocupação Coletiva de Arteiros. Nomeou-se assim porque ela foi formada por estudantes de diversas áreas e linguagens artísticas que viviam práticas coletivistas e procuravam desmanchar as fronteiras entre seus campos de formação. O que já acontecia nas comunas estudantis onde pessoas que fazem teatro vivem com outras que fazem música, arquitetura, artes visuais ou
outros cursos. Boa parte desses estudantes viaja de bicicleta ou carona, m a n g u e a n d o n a s r u a s c o m malabaristas e outros artistas circenses que por sua vez também são em grande parte universitários que estão em viagem. Com isso a distinção entre artista universitário e de rua não faz sentido. Somos todos nômades.
O contexto especifico de l u t a s o c i a l n a O C A é r e s i s t i r à reconfiguração urbana da zona do Porto de Pelotas. Ameaçado pelo impacto social e urbano ocasionado pela logística do transporte de eucaliptos para indústria de celulose e pela especulação imobiliária decorrente da revalorização econômica de zonas
próximas a universidade e centro da cidade. A OCA, como espaço de arte e práticas libertárias, promove encontros entre universitários, viajantes, movimentos sociais ou insurgentes e comunidade. Todos atuando em diversas frentes de luta contra esses processos de gentrificação. Pelotas, por ser uma cidade que conecta todas as outras no seu entorno, é o ultimo grande centro urbano entre Brasil e Uruguai. Por ela passam viajantes que estão entrando ou saindo do Brasil. Partes destes viajantes vivem em outras Okupas, lutando contra contextos semelhantes.
Assim, em Pelotas, uma grande rede silenciosa de viajantes, urbanômades, atualiza e compartilha o circuito de lutas urbanas no
continente americano e também no europeu. Okupas no Rio de Janeiro, Buenos Aires, Cidade do México ou Barcelona formam barricadas contra problemas em comum. Também adotam táticas em comum para os mesmos p r o b l e m a s . A m a i o r p a r t e d a s O k u p a s s ã o c e n t r o s c u l t u r a i s autogestionados. Com isso cada urbanômade de Okupa traz consigo, para compartilhar, um universo cultural maior do que as fronteiras entre os estados-nações. O efeito desses intercâmbios tem a potencia de uma universidade autônoma livre e nômade. O que por vezes gera conflito com o sistema de ensino das universidades que insistem na segmentação do conhecimento e segregação dos estudantes em campus universitários que
não se integram ou interagem entre si. A f a l t a d e u m e s p a ç o adequado para o pensamento que se move é o que faz da OCA um lugar de integração. A necessidade de um espaço em Pelotas para pensar arte que está ligada a essas práticas vividas na Okupa e à emergência de se ter um lugar que pensasse criticamente a cena artística e política da cidade nos levou à configuração de um ambiente na OCA que cumprisse essa função. Pintamos simbolicamente de negro uma sala com vista para panorâmica para o Porto e cena cultural da cidade. Negro para lembrar o que faz sombra na cultura oficial. Mobiliamos essa sala com três mesas, uma para cada um de nós, e aos poucos fomos ocupando o espaço conforme discutíamos e desenvolvíamos projetos. Com o estabelecimento da Sala Negra divulgamos que estávamos abrindo uma exposição e esse era nossa primeira proposta. Não só abrir para o público o processo de uma exposição antes mesmo de se elaborar os projetos do que seria exposto, mas convidar a todos a pensar conosco.
Na sala discutíamos com a participação de diversas pessoas situações da cidade, ou ficávamos lá desenhando, projetando como se faz em um atelier, ou lendo, assistindo filmes, conversando. Era um lugar aberto para quem quisesse utilizá-lo, desde que não desconfigurassem o que estávamos fazendo, o que acontecia vez ou outra. Assim tornávamos
Maloca.lab / publicidade Maloca.lab / Imagem: arquivo maloca.lab. 2015.
públicos nossos processos e os abríamos para colaborações eventuais e espontâneas. Também com isso todos da OCA participavam e sabiam o que estava acontecendo. A proposta era montar uma exposição em que a Sala Negra continuasse sendo utilizada da mesma maneira, enquanto na sala ao lado mostrássemos o que projetamos a partir da Sala Negra, dispositivos que depois seriam ativadas no espaço público.
Uma das questões que discutia com Cris e Mauricio era o problema do registro de ações espontâneas em contextos. Ou de experiências em arte de longa duração. Cris havia vivido durante um ano na Crotoca, Mauricio dias na margem selvagem do Canal São Gonçalo e meses na OCA, enquanto eu tinha feito uma viagem de bicicleta entre Rio Grande e Chuy pela praia e vivido alguns dias na Praça da Alfândega. Como falar e mostrar experiências em arte como estas é um problema do qual depende a resolução das nossas pesquisas. A Sala Negra foi pensada também nesse sentido. De evidenciar um processo na sucessão do tempo, por expansão no espaço pelo acúmulo de resquícios das ações praticadas enquanto as idéias estavam
Maloca.lab / sala negra / construção – (Mauricio Ploenals). Fotografia: arquivo maloca.lab. 2015.
sendo geradas. Mauricio estava pesquisando trançados, com o passar do tempo sua coleção aumentava. Cris desenhava os projetos da Flotoca e os colocava em uma parede, deixando que se percebesse a concepção de um projeto se expandindo em um espaço físico.
Com a Sala Negra instauramos um espaço crítico que não existia em Pelotas para arte de ação direta na cidade e também no circuito artístico. Que pensa e age em diversas camadas de um mesmo problema. Uma arte mais contextual do que relacional. Que também é processual, propositiva, colaborativa e, porém, sobretudo carente de definições porque está ainda acontecendo e em expansão, é nômade ou, como melhor definimos, urbanômade. Uma sala que funcionou como um dispositivo para ativar situações, discursividades e encontros. Que surgiu de uma mesa de trabalho e charla propondo mais mesas, mais charlas e mais trabalho. A partir da instauração da Sala Negra articulamos uma diversidade de artistas e ativistas que estavam interessados em agir no mundo. Antes de qualquer outra coisa a Sala Negra, ou crítica, foi um lugar de organização para a insurgência e vetor para outra cena de arte em Pelotas.
Maloca.lab / sala negra / sala negra (detalhe). Fotografia: arquivo maloca.lab. 2015. 111
Maloca.lab / sala negra / sala negra (detalhe) - mesa de Rogério N. Marques. Fotografia: arquivo maloca.lab. 2015. 112