2 REVISÃO DE LITERATURA
2.4 FAMILIA ENTEROBACTERIACEAE
2.4.2 Salmonella spp
A bactéria do gênero Salmonella teve sua primeira descrição realizada em 1884 por Gaffky e, seguidamente, em 1886 por Salmon e Smith. Mediante a uma complexidade histórica para a resolução da nomenclatura dessa bactéria, atualmente, o gênero Salmonella é dividido em duas espécies S. enterica, no qual são incluídas seis subespécies (enterica,
salamae, arizonae, diarizonae, houtenae e indica) e S. bongori (SÁNCHEZ-VARGAS et al., 2011).
Ademais, para facilitar a identificação clínica bacteriana, é rotineiro seguir o esquema de nomenclatura de Kauffman-White, que tem por base a composição antigênica das salmonelas em relação aos seus antígenos somáticos (O), flagelar (H) e capsular (Vi) no qual dividem as salmonelas em mais de 2.501 sorotipos, de modo que cerca de 1500 pertencem à
S. enterica subespécie enterica (CAMPOS & FERREIRA, 2008).
As salmoneloses aviárias se caracterizam por três enfermidades distintas: Pulorose, originada pela Salmonella Pullorum, o tifo aviário, causado pela Salmonella Gallinarum e o paratifo aviário, promovida pelos demais sorotipos da Salmonella (BERCHIERI, 2000; ALLGAYER et al., 2008). As aves são os hospedeiros espécificos dos sorotipos Pullorum e Gallinarum, no qual o primeiro está relacionado a afecções em aves jovens, enquanto o segundo pode desencadear a doença tanto na fase juvenil, como na adulta (BARROW et al., 1987). Essencialmente, os sorotipos de Salmonella apresentam distribuição mundial, infectando diversos mamíferos, aves, répteis e o ser humano, além de serem passíveis de contaminarem o solo, vegetação, água e componentes de ração animal (HIRSH, 2009).
A Salmonella de origem alimentar é considerada uma das principais fontes de salmonelose em humanos, sendo uma das formas mais prevalentes de gastroenterites. Por conseguinte, tem se averiguado que a S. Enteritidis e a S. Typhimurium correspondem como os principais agentes dessas infecções, tendo como destaque para a veiculação desses patógenos produtos ou subprodutos de origem avícola (DUNKLEY et al., 2009).
Morfologicamente, são bacilos com hastes retas com cerca de 0,7-1,5 μm a 2-5 μm de comprimento. Similarmente as demais bactérias da famíla, são Gram-negativas e anaeróbias facultativas, passiveis de mobilidade através de flagelos peritríquios, a exceção dos sorotipos
S. Pullorum e S. Gallinarum que são imóveis (BERGEY & HOLT, 1994). Bioquimicamente, são capazes de fermentarem arabinose, glicose, galactose, manitol, manose, ramnose e xilose. Em contrapartida, não são aptas a fermentarem adonitol, dulcitol, inositol, lactose, rafinose, sacarose, salicina, sorbitol e amido (BERCHIERI, 2000).
Adicionalmente, apresentam resultados negativos para os testes de produção de indol, urease, VP e fenilalanina desaminase. Ao contrário dos resultados provenientes dos testes de VM, sulfeto de hidrogênio e lisina descarboxilase. Divergências quanto ao resultado das
provas bioquimicas tem sido empregadas para diferenciar sorotipos do gênero, como o caso da S. Pullorum e S. Gallinarum, no qual a primeira é capaz de descarboxilar a ornitina enquanto a segunda não apresenta tal característica (KONEMAN et al., 2010).
Nos psitacídeos, as infecções mais frequentes por salmoneloses são causadas pelos sorotipos S. Typhimurium e S. enteritidis, no qual as infecções agudas são caracterizadas por quadros de letargia, anorexia, polidpsia, diarreia, poliuria, alterações respiratórias, oculares, nervosas, depressão, perda de peso, convulsão, desidratação e morte súbita. Nos casos crônicos, podem estar presentes quadros de pericardite, granulomas no fígado, baço e rim, como também, processos inflamatórios nos testículos e ovários (GODOY, 2007).
Diversos autores ao avaliarem a presença microbiológica desse patógeno em psitacídeos de diversas espécies, provenientes de ambiente de cativeiro e vida livre, têm verificado uma detecção bacteriana reduzida ou mesmo ausente (ALLGAYER et al., 2009; MARIETTO-GONÇALVES et al., 2010; BEZERRA et al., 2013; LOPES et al., 2014).
Vale ressaltar, ainda, que a detetcção isolada da bactéria não é suficiente para determinação de sua relação com o hospedeiro (EVANS et al., 2014), uma vez que uma ave pode albergar em seu trato intestinal cepas de Salmonella avirulentas, sem apresentar sintomatologia (GERLACH, 1994).
A transmissão desse patógeno, geralmente, é por via fecal oral, sendo um dos principais fatores de risco para as aves de vida livre o aumento do contato com um ambiente altamente antropizado, sendo passíveis de se infectarem por essa via (FUKUI et al., 2014). Embora a patogenia dos inúmeros sorotipos desse microrganismo não esteja plenamente definida, é de conhecimento que após a penetração desse patógeno no interior do hospedeiro sua via de ação compreende a colonização e invasão da mucosa intestinal, a disseminação bacteriana e, posterior, replicação e desenvolvimento de fatores de sobrevivência da
Salmonella no interior de fagócitos (UZZAU et al., 2000).
O diagnóstico de salmonelose é realizado mediante uma associação entre anamnese, sinais clínicos, alterações anatomopatológicas e desenvolvimento da enfermidade, sendo necessário o diagnóstico laboratorial para um resultado conclusivo. No âmbito laboratorial, pode-se empregar a técnica de isolamento bacteriano, no qual amostras, sejam de suabes ou órgãos, são cultivadas em caldos de enriquecimento, sendo comumente empregados os caldos selenito, rappaport ou tetrationato (HYEON et al., 2012).
Nessa metodologia tradicional podem, ainda, ser realizada a técnica de plaqueamento em ágar Xilose lisina desoxicolato (XLD) ou ágar Verde brilhante (VB), posteriormente sucedida pela triagem em provas bioquímicas como o ágar Tríplice açúcar e ferro (TSI), ágar Lisina ferro (LIA), testes de ureia e motilidade-indol (KANASHIRO et al., 2002). Para um resultado inconclusivo para os testes biquímicos, é de recomendação a prática da realização do perfil bioquímico, permitindo assim uma identificação definitiva.
Adicionalmente, costuma-se empregar testes sorológicos como ELISA e soroaglutinação rápida em placas, sendo este último baseado no uso de soros polivalente anti-antígenos somático (O) e anti-anti-antígenos flagelares (H) (BERCHIERI, 2000). Atualmente, tem se verificado o desenvolvimento de sondas de DNA e técnicas de PCR para a detecção bacteriana em amostras de alimentos, fezes e água (HIRSH, 2009), por conseguinte em estudos de levantamento com psitacídeos de aviários tem se evidenciado que o PCR é uma metodologia de diagnóstico muito mais sensível que a metodologia tradicional de cultivo bacteriano (ALLGAYER et al., 2008).
Nos aviários as medidas de controle priorizam a prevenção, sendo essenciais as práticas de higienização dos criatórios, associados aos cuidados com os postos de ração e o manejo pelos tratadores (MARIN et al., 2011). Para os psitacídeos, a terapia de suporte é o principal tratamento da forma entérica da salmonelose, enquanto na forma septicêmica, recomenda-se a associação entre terapia de suporte com antimicrobianos apropriados, mediante o perfil de sensibilidade dos mesmos (HIRSH, 2009).