SÉCULO XIX Período
FINANCEIRO Simião NC
XIX. Salvador: Centro de Estudos Baianos 2001, p.95.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
206LIMA, Luciano. Op. cit, p.141. 207
ROCHA, Solange, Op. cit, p.175.
membros da família representavam laços de solidariedade. Dessa forma, a formação de famílias contribuía para a autonomia desses escravizados, já que funcionava como uma estratégia de sobrevivência dentro do cativeiro. Essas famílias poderiam ser oficializadas por meio do sacramento, ou a partir das relações consensuais.
Ainda acreditamos que o casamento poderia trazer para os cativos vantagens materiais, ou de ordem emocional, pois, a partir da constituição de uma família, eles podiam contar com um ombro amigo para enfrentar um sistema completamente excludente. Como destaca Slenes209, era a experiência familiar um lugar de esperanças e recordações para os escravizados, contrapondo-se a concepções daqueles que viam os negros como sem valores para além do mundo do trabalho. De tal maneira, a família era a flor na senzala dos escravos.
No entanto, não é possível estudar a família escravizada somente sob a ótica de família nuclear, mas sim de uma família estendida, em que os laços parentais e espirituais construídos, a partir do batismo, estabeleciam laços sociais e de solidariedades entre os compadres.
No próximo subcapítulo, analisamos a importância do batismo na concepção cristã, para, logo em seguida, compreendermos as relações de compadrio estabelecidas pelos escravizados da Freguesa de Nossa Senhora dos Milagres, entre 1850 e 1872.
2.2- BATISMOS DE ESCRAVIZADOS NA SOCIEDADE OITOCENTISTA
Aos vinte dias do mês de abril de mil oitocentos e cinqüenta e oito anos, na Capela das Pombas, filial desta Matriz de São João do Cariri, o Reverendo Francisco Ananias de Farias Castro, de minha licença batizou solenemente a Galdina, preta nascida a vinte e cinco de fevereiro deste mesmo ano, filha natural de Antonia, escrava de Rita Maria Barbosa viúva, sendo padrinhos Manoel e Antonia, escravos, todos desta Freguesia, do que para consta mandei fazer o presente assento em que assino210 (Grifos nossos).
Entre todos os sacramentos, o do batismo era o primeiro e o mais importante, ele abriria as portas para que as pessoas pudessem receber os demais sacramentos da religião católica. Segundo as doutrinas do cristianismo, o batismo é a oportunidade da salvação da alma, conseguia-se com o batismo o perdão de todos os pecados, inclusive
209
SLENES, op. cit, p.256.
do pecado original, uma vez batizado as pessoas deixariam de serem pagãs e passariam a ser cristãos e filhos de Deus211
.
Dessa forma, a Igreja Católica passou a ter um controle maior sobre a vida das pessoas, principalmente no século XVI, no continente americano, devido ao avanço do protestantismo (1517) 212. Temendo a perda de fiéis, a Igreja Católica revigorou a prática dos sete sacramentos (batismo, confirmação (ou crisma), eucaristia, reconciliação (ou penitência), unção dos enfermos, ordem e matrimônio) e estimulou o sacramento da confissão, como uma forma de vigiar e inspecionar a vida íntima das pessoas.
Os registros de batismo são fundamentais para analisar as relações de solidariedade e as sociabilidades construídas pelos escravizados, a partir da prática do compadrio. No entanto, o ato de registrar esse sacramento nem sempre existiu, vindo a se tornar obrigatório com o Concílio de Trento (1545-1563).
Esses registros fazem parte dos arquivos paroquiais, fontes essenciais para quem pretende estudar os arranjos familiares no Brasil Colonial e Imperial, visto que a separação entre Igreja e Estado só ocorreu no Brasil com o advento da República, em 1889. A partir dessa data, o Estado passa a ter um controle maior da população por meio do registro civil, pois, até então, a Igreja Católica era a única responsável por registrar os sacramentos.
No século XIX, a Religião Católica exerceu forte influência sobre a vida da população brasileira, se tornando, no Império, a religião oficial do Brasil, por meio do regime de padroado.
Juntamente com a Religião Católica, que se expandiu ao longo do Mundo Atlântico, alguns dos seus rituais permaneceram, como no caso, das relações de compadrio entre famílias, as quais se iniciam com o sacramento do batismo, o qual
possuía o significado de “renascimento espiritual”, em que os padrinhos passaram a exercer o papel de “pais espirituais”. Esse compromisso significava privilégio e deveres
de ambas às partes, devendo haver obediência, fidelidade e respeito por parte do afilhado, e cuidado sempre que os afilhados precisassem por parte dos padrinhos, estabelecendo-se, assim, relações entre os compadres. Nas palavras de Mattoso:
O padrinho, o compadre, a madrinha, a comadre, assumem responsabilidades idênticas as dos pais. Ao ser batizado, o escravo passa a ter um padrinho. Para os africanos adultos batizados em série,
211CPAB, 1853 [1707],Livro Primeiro, Título X, p.12-13. 212
MARCÍLIO, Maria Luiza. Os Registros Paroquiais e a História do Brasil. In: Varias Histórias, v.31. UFMG, 2004, p.13.
o padrinho é desconhecido, imposto como o próprio batismo. Mas para o crioulo, o padrinho terá sido escolhido, terá assumido o compromisso213.
O sacramento do batismo significava para a Igreja Católica a passagem do
mundo “pagão” para o mundo cristão. Esse sacramento ocorria quase sempre nas igrejas
na qual a criança estaria na presença do pároco, do pai e/ou mãe, padrinho e/ou mãe, padrinho e/ou madrinha, devendo ser elaborado pelo padre o assento batismal214, o qual compunha a data do batismo e do nascimento do bebê, assim como o nome da criança, sua legitimidade, condição social e cor; registravam-se também os nomes dos pais e dos padrinhos e suas respectivas condições sociais (livres, escravos e forros); por fim, o padre anotava o nome da freguesia de domicílio dos pais e padrinhos215
. Como se pode observar no assento abaixo:
Aos 15 dias do mês de novembro de mil oitocentos e setenta e dois, na fazenda Pereiro desta Freguesia de São João, batizei pelos santos óleos a Cosme, nascido a 22 de agosto deste mesmo ano de 1850, filho legitimo do preto Dionízio e Raquel escravos de Bellino da Costa Villar, viúvo, foram padrinhos Paulo Professor de Maria e Anna Maria da Conceição moradores no Pereiro Freguesia de São João216
Trazendo essa relação de apadrinhamento para a análise dos registros de batismos dos escravizados, podemos perceber que eles se utilizaram dessas relações para conseguir alguns privilégios e apoio (material e afetivo), dentre eles, a tão sonhada carta de alforria. Além dessa possibilidade, os padrinhos passariam a fazer parte efetivamente da família, pois, eles, de acordo com Ana Rios217
, concebiam a família de um modo estendido, em que englobava não só os membros consanguíneos, mas também membros de irmandades religiosas a que pertenciam e os compadres.
213MATTOSO, Kátia, op. cit, 132.
214No entanto, sabe-se que nem sempre estes registros eram elaborados imediatamente após o batismo, em
alguns casos eram registrados depois de muito tempo, anexando ao livro de batismo da paróquia os assentos que chegavam de capelas e oratórios que pertenciam a freguesia depois de meses ou até mesmo anos.
215BASSANEZI, op. cit, p.147-149. 216LBNSM, 1858-1862, 92fv, APIMNSM. 217
RIOS, Ana Lugão. Família e transição: Famílias negras em Paraíba do Sul, 1872 – 1920. (Dissertação de mestrado) Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 1990, p.7-8.
2.3- PARENTESCO ESPIRITUAL: ATOS DE SOLIDARIEDADE DE