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AGORA VOU MUDAR MINHA CONDUTA:

3. Samba do hino

No campo das comparações entre canção e poesia escrita, é oportuno observar que, no caso da travessura de Noel Rosa com o Hino Nacional Brasileiro, tornar um verso espelho invertido do outro iria além dos artifícios possíveis a Oswald de Andrade, uma vez que, somente escrito, o texto da canção não travaria qualquer relação com o hinário. A construção paródica se estrutura formalmente na melodia, própria da linguagem musical, estendendo-se ao conteúdo da letra − o Brasil de tanga em oposição à pátria amada − e ao canto do intérprete Noel Rosa, com sua voz pequena capaz de materializar o humor e a ironia pelo jeito de cantar, em contraposição à solenidade operística.

Neste jeito de cantar, a interferência de Noel Rosa sobre o trecho do hino não se limita à mudança da letra e nas sutis inversões melódicas: há uma alteração do acento rítmico que possibilita a transformação do hino em samba, soando este com a naturalidade e a ginga que lhe são características. José Miguel Wisnik demonstra como este deslocamento do acento rítmico das notas da melodia estabelece o desvio que permite à diferença gracejar da semelhança. Propõe, inclusive, o lúdico e esclarecedor exercício de se cantar o verso do samba com o acento rítmico do hino, e o texto do hino como se fosse samba. O efeito de humor provocado por este desajuste é tecnicamente explicado pela distribuição das notas no tempo rítmico. No hino, "os acentos métricos convergem sobre os tempos fortes do compasso de maneira inequívoca, como golpes de martelo que disciplinam seu movimento regular". No

acento sincopado do samba, que constrói seu movimento ao fugir da marcação quadrada do tempo forte, "o corpo oscila e preenche o vazio das síncopas contrapondo às palavras a presença de uma ação intermitente e não-dita" (WISNIK 2004, p. 202-203).

Ao subverter a forma do hino, tirando-o da dureza do tempo forte para a malemolência do tempo sincopado, Noel Rosa concretiza a inversão do gesto e a resposta do corpo: o Hino Nacional Brasileiro, feito para ser ouvido em postura ereta, fixa, travada, desumanizada; o samba, para ser recebido em rebolado, desconcerto e prazer, convocando "as hostes aguerridas do Riso e da Loucura", como escrevera Oswald de Andrade em seu Carnaval (ANDRADE, 2000, p. 107). Uma inversão de identidade por meio da performance, envolvendo texto, música e gesto, tanto na emissão do canto quanto na recepção pelo corpo.

Uma vez que a musicalidade da fala cotidiana é solta, divergente de um tempo rítmico duro e marcado como o do hino, os versos da canção de Noel se encaixam com fluidez diante da liberdade possibilitada pelos jogos de deslocamento rítmico, aproximando-se da naturalidade do jeito de falar. A melodia livre, evocando a prosódia da fala, se torna campo fértil para incorporar um texto poético direto que contraria a lógica do rebuscamento formal vigente, aplicando um padrão poético convergente com a língua falada pelo povo brasileiro nas ruas.

Se, pela própria construção sintática, dizer "agora vou mudar minha conduta" é muito mais fácil que "ouviram do Ipiranga as margens plácidas", o encaixe dos versos em seus respectivos movimentos rítmicos e melódicos são esclarecedores no que se refere aos posicionamentos característicos do samba e do hino, respectivamente:

incontinência versus continência; informalidade versus formalidade; deboche versus respeito. Mudança de conduta, mudança de identidade. Estamos diante de uma visão de mundo, a de Noel Rosa, sambista malandro que não se enquadra nos padrões sociais institucionalizados, os quais lhe servem como objeto de escárnio. Postura em muito convergente com a do dândi aristocrata Oswald de Andrade, homem sem profissão, cuja poética se delineia como revide rebelde contra a vida doutora dos parnasianos e da alta sociedade, da qual era filho.

O recursos musicais e interpretativos utilizados por Noel Rosa na construção dos efeitos paródicos oferecem alguns indicativos para a diferença de trato do uso da

linguagem poética quando amalgamada ao espectro musical e à materialização viva do canto pela voz: variáveis melódicas, rítmicas, entoativas, harmônicas, de instrumentação, intensidade, duração, tonalidade; implicações distintas na performance receptiva de quem ouve e sente.

Mas este campo de diferenças não constitui barreira para a abertura de um campo de semelhanças. E este território, iluminado pelo verso de abertura do primeiro sucesso do sambista, pode nos oferecer uma pista para a observação da obra de Noel Rosa à luz do projeto poético instaurado pelo Modernismo na poesia brasileira, especialmente em Oswald de Andrade. O despojamento paródico com o qual Noel Rosa entra em campo na história da canção brasileira, chacoalhando a rigidez do hinário respeitoso, transparece a confluência entre as perspectivas estética e ética das obras destes dois autores da primeira metade do século XX no Brasil, que, por caminhos diversos, colaboraram para a mudança de conduta da poesia − cantada ou escrita − em nosso país.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. São Paulo: Globo, 2000.

ANDRADE, Oswald de. Estética e política. Pesquisa, organização, introdução, notas, e estabelecimento do texto de Maria Eugênia Boaventura. São Paulo: Globo, 1992.

ANDRADE, Oswald de. Do pau-brasil à antropofagia e às utopias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

FINNEGAN, Ruth. O que vem primeiro: o texto, a música ou a performance? Tradução de MEDEIROS, Fernanda Teixeira de. In: MATOS, Cláudia Neiva de, TRAVASSOS, Elizabeth, MEDEIROS, Fernanda Teixeira de (Org). Palavra cantada: ensaios sobre poesia, música e voz.

Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.

LEITÃO, Luiz Ricardo. Noel Rosa: poeta da vila, cronista do Brasil. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

MÁXIMO, João; DIDIER, Carlos. Noel Rosa: uma biografia. Brasília: Editora Universidade Federal de Brasília: Linha Gráfica Editora, 1990.

NUNES, Benedito. Antropofagia ao alcance de todos. In: ANDRADE, Oswald de. Do pau-brasil à antropofagia e às utopias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

PINTO, Mayra. Noel Rosa: o humor na canção. São Paulo: Ateliê Editorial, 2012.

PRADO, Paulo. Poesia Pau-Brasil. In: ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. São Paulo: Globo, 2000.

ROSA, Noel. Noel pela primeira vez: discografia completa. JUBRAN, Omar (Org). Funarte/Velas, 2000. Caixa com 14 CDs e um livreto.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Paródia, Paráfrase & Cia. São Paulo: Ática, 1991.

WISNIK, José Miguel. Algumas questões de música e política no Brasil. In: WISNIK, José Miguel.

Sem receita: ensaios e canções. São Paulo: Publifolha, 2004.

TATIT, Luiz. O século da canção. Cotia: Ateliê Editorial, 2004.

TATIT, Luiz. O cancionista: composição de canções no Brasil. São Paulo: Edusp, 1996.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Tradução de Jerusa Pires Ferreira, Maria Lúcia Diniz Pochat e Maria Inês de Almeida. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.