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san junipero (San Junipero) – imortalidade da mente em um mundo simulado

na localidade chamada de san Junipero, Yorkie e Kelly se conhecem em um bar e acabam se apaixonando. este é um ambiente criado em um sistema de realidade simulada, tendo como objetivo servir de extensão da vida, onde pessoas mortas podem viver eternamente, ou pessoas com o corpo debilitado podem viver experiências impossíveis na “vida real”. existem vários tipos de ambientes disponíveis.

san Junipero é um mundo construído para o entretenimento. É uma “cidade baladeira”, como diz Kelly. Os frequentadores podem escolher tam- bém a época em que visitam o local. aparecem vestígios das décadas de 1970 a 2000 em diversas expressões da cultura pop: na música, na moda, nos objetos (fitas cassete, arcade games, aparelhos de tv dessas épocas), nos tipos de jogos eletrônicos, nos videoclipes. a permanência no sistema, para os vivos, é limitada a cinco horas por semana, “para não viciar”.11

uma empresa, a tCKr systems, administra esse “mundo virtual”, ainda em teste, permitindo que pessoas possam viver em lugares específicos, com características próprias, escolhidas por elas. todo o sistema é uma espécie de realidade virtual, de um mundo simulado em uma “cloud” para onde vão as consciências fora de um corpo que sofre ou que já morreu.

as personagens principais do episódio, Kelly e Yorkie, estão em seus últimos dias de vida: Yorkie, branca, ficou tetraplégica após um aciden- te de carro e é mantida viva por aparelhos. Já Kelly, negra, deve morrer em breve, vítima de câncer. seus corpos estão na mesma faixa etária (em torno de 70 anos). a primeira quer morrer logo, cometer eutanásia e fi- car para sempre em san Junipero. Já Kelly não quer, a priori, fazer essa opção. ela pretende apenas curtir um pouco mais a vida, quer frequentar um pouco o lugar para se divertir e depois morrer “para sempre”. ela

11 O perigo do vício ao sistema, que aparece no limite de cinco horas por semana, remete ao vício pelos atuais aparelhos digitais, como o telefone celular. Para um retrato da geração que não se afasta desse aparelho, ver tWenGe, 2017.

pretende seguir o marido e a filha que optaram por não continuar nesse mundo alternativo.

Yorkie, em sua condição vegetativa e sem poder se expressar, vive um dilema. ela precisa de alguém que possa autorizar a eutanásia. ela não é casada e não tem mais parentes responsáveis. na sua imersão no universo simulado, ela deixa claro que quer cometer a eutanásia e sair desse sofri- mento físico. um dos enfermeiros do hospital aceita se casar com ela para poder autorizar a eutanásia. Kelly acaba comovida com a situação e decide visitá-la, presencialmente, no hospital onde está internada. ao chegar lá ela a pede em casamento e o ato é consumado. Kelly autoriza o procedi- mento. a cena a seguir mostra Yorkie em san Junipero, já livre do corpo e feliz. Kelly diz que não ficará com ela nesse lugar. as duas discutem e Kelly vai embora. a tensão se estabelece em saber se Kelly irá ou não ficar com Yorkie após a sua morte.12 O final feliz quebra a sequência de desfechos

pessimistas da série. Como mostram nascimento e santos: (2017, p. 12)

no final da história em San Junipero, Kelly decide viver o resto de sua vida ao lado de Yorkie. É então que ela se prepara para partir defini- tivamente à cidade virtual e ir ao encontro da amada. em seguida, aparecem as cenas das personagens curtindo uma a outra, dançando, sorrindo, aparentando extrema felicidade.

Os temas centrais, como em “volto Já” e “natal”, são a morte e a se- paração corpo/mente. não há artefatos futuristas, apenas um dispositivo que permite plugar a pessoa ao mundo simulado, como outros presentes nos episódios passados. uma prótese similar ao “Grão”, colocado tempo- rariamente na cabeça dos que vão se submeter à experiência, permite acesso à “cloud”. Os ambientes são construídos com o objetivo de separar corpo e espírito, podendo assim ampliar ou preservar a vida quando o corpo não mais se sustenta. a mente, desconectada do corpo, pode viver para sempre. aqui, a discussão sobre a imortalidade vem acompanhada de questões homoafetivas e interétnicas.

O sistema criado permite adentrar uma experiência fortemente imer- siva. embora Kelly viva a experiência apenas para se divertir, não que- rendo sentir nada e, assim, evitar mais sofrimento, Yorkie diz que “tudo é tão real” e que agora ela pode viver e exercer a sua sexualidade, já que tão jovem sofreu o acidente, estando há décadas nessa situação. O episó- dio traz, assim, questões sem solução desde que a humanidade existe: a imortalidade (viver sem sofrer para sempre, como no paraíso), a saída do ciclo do sofrimento, a luta pela eterna juventude (puer aeternus), a circula- ção por entre regimes diferenciados: noturno (o inferninho da cidade) e diurno (o bar comportado da cidade).

em san Junipero, é possível viver em festa e libertar-se de um corpo sofrido. O mundo simulado é construído para permitir uma vida plena do espírito. há outros lugares disponíveis. a dualidade corpo/mente, a busca por uma vida do espírito eterna é a discussão central. ela está diretamente ligada ao desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação e infor- mação inéditas, mas voltadas para questões ancestrais, e não para dilemas propriamente atuais.

C o n c l u s ã o

este talvez seja o único episódio que aponta para o futuro, mas trazendo um tema atemporal, como a morte, a imortalidade, a vida em um paraí- so fora das dores e mazelas do corpo, e do mundo preso à dimensão da fisicalidade. O episódio aponta para o futuro, mas um futuro em que o desacoplamento da mente e do corpo é tão radical que hesitaria em co- locar esse como um dos desafios centrais do século XXI. fazer o “upload” da consciência para a “cloud” não parece ser um problema concreto da sociedade digital em 2017. talvez a perspectiva seja tão futurista que nem se coloque como um problema que devamos dedicar energia e atenção. O episódio revela um sistema tecnológico de construção de mundos simu- lados para o espírito totalmente inexistente, mas reeditando uma velha utopia e a busca por um mundo do espírito, ou o que theillard de Chardin (1955) chamou de “noosfera”.

Interessante notar que há ainda um caráter conservador da experiên- cia. a consciência transposta é a mesma que habitava o corpo e tende a reproduzir o que fazia ou não conseguiu fazer enquanto o corpo ainda vi- via a sua plenitude fora do sistema. as pessoas parecem não poder, ou não querer, ser o que não são. esse trecho retirado das redes sociais (reddit) por nascimento e santos (2017, p. 14) corrobora o que foi dito:

a versão de ‘você’ que reside permanentemente em san Junipero é apenas um cookie – White Christmas usa a mesma tecnologia, mas por uma razão totalmente diferente. tenho certeza de que esses episódios estão relativamente próximos de uma linha de tempo. você está real- mente morto enquanto o cookie consegue aproveitar a simulação. você é informado de que você consegue viver para sempre, mas o outro lado é que não é realmente você. É apenas uma inteligência artificial copiada. talvez?

diferentemente das redes sociais atuais, nas quais não há o descola- mento corpo/espírito, em san Junipero não se trata de um local para a vida de avatares (personagens diferentes) habitando uma esfera aberta em possibilidades de experimentação (outras identidades, outra forma corporal, outro universo em que as leis da física não funcionem...), mas consciências descorporificadas com o objetivo de exercer aquilo que não se pode mais fazer no mundo “real” devido às limitações de seus corpos doentes e velhos.

no fundo, as pessoas não mudam muito e o mundo imaginado é o mesmo que temos no constrangimento do corpo. não é à toa que todas as pessoas são jovens em san Junipero, dando a entender que o “céu” é um céu de jovens, insistindo no mito e no ideal de juventude e beleza. Conservador, o episódio ainda reforça as instituições sociais, como o ca- samento, por exemplo, mesmo que seja homoafetivo. O final parece uma homenagem ao filme Thelma e Louise (ridley scott, 1991), como se a esco- lha pelo suicídio fosse a única possibilidade para a entrada em um novo mundo: o paraíso.

engenharia reversa (Men Against Fire) – eugenia e